Michael Pollan, jornalista americano e ativista da boa alimentação, protagoniza novo documentário da Netflix – e com isso, suas ideias ficam acessíveis a um público maior. De autoria de José Orenstein, esta matéria foi publicada no dia 17 de fevereiro de 2016 na sessão Paladar do site do jornal Estadão. Eis a matéria:

Nunca se falou tanto de comida. E a potente mensagem do jornalista Michael Pollan sobre o assunto deve alcançar cada vez mais gente, para além do círculo da gastronomia. Estreia nesta sexta-feira, 19, a série Cooked no Netflix, serviço de streaming de vídeo que tem mais de 75 milhões de assinantes em centenas de países pelo mundo.

A série inspirada no livro “Cozinhar, Uma História Natural da Transformação”, de Michael Pollan, é dividida em quatro capítulos: água, terra, fogo e ar. Foto: Divulgação

A mensagem de Pollan é simples: chamar as pessoas à consciência sobre o que comem. O melhor jeito de fazer isso, segundo Pollan, é se informar sobre de onde vem o que comemos e, mais ainda, ser protagonista dessa história: cozinhar, botar a mão na massa. São essas ideias que permeiam os quatro episódios de Cooked, um documentário baseado no mais recente livro do jornalista, que foi lançado em 2014 no Brasil com o nome Cozinhar, Uma História Natural da Transformação.

A série, como o livro, é dividida em quatro: se na versão escrita são capítulos, na tela cada episódio é dedicado a um elemento – água, fogo, terra, ar. Cada episódio tem perto de 45 minutos e um diretor diferente. Um deles é coprodutor da série com Pollan, Alex Gibney, que dirigiu filme recente sobre Steve Jobs.

Consciência. Para quem já é familiarizado com a obra de Pollan, que além de jornalista é professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley, a série traz pouca novidade. Na verdade, a voz dele funciona melhor nos livros, de leitura instigante e fácil, do que no vídeo, menos engenhoso e atraente que seus textos. Mas para quem tem preguiça de ler, Cooked, na TV, é um bom começo. Um bom jeito de começar a pensar sobre o que comemos, como comemos e por que comemos.

Num momento, especialmente no Brasil, em que reality shows de cozinha têm público crescente e que séries do próprio Netflix, como Chef’s Table, chamam a atenção para o cotidiano dos cozinheiros, é salutar a estreia para grande audiência de uma série que propõe uma reflexão crítica sobre a indústria alimentícia e mostre a importância de cozinhar com próprias mãos, com simplicidade e produtos frescos.

Assim como em seus livros, Pollan não se furta a dar nome aos bois. No episódio Água, por exemplo, em que parte de memórias de um cozido que sua mãe fazia para falar sobre os incríveis sabores que se pode criar em meios líquidos, a série vai a Mumbai, na Índia, mostrar como a comida processada está ocupando os lares daquele país. São visitadas famílias que mantêm o hábito de fazer as belas receitas indianas do zero em casa, mas também famílias que pedem frango frito do KFC quatro vezes por semana. A produção do documentário vai à sede da Nestlé na Índia e deixa claro que as processadoras de comida são o inimigo: é a grande indústria que nos faz ficar longe da cozinha, vendendo comida pronta que emula a tradicional, mas com ingredientes baratos, sintetizados. A certo ponto, Pollan afirma que, ao voltarmos para a cozinha, percebemos enfim que “não é a indústria que nos alimenta, mas a natureza”.

Os episódios são intercaladas por cenas de Pollan cozinhando, às vezes um tanto desajeitado entre facas e tábuas, ou falando em sua casa na Califórnia com cenas gravadas pelo mundo – em Fogo, ele vai à Austrália conhecer o churrasco aborígine; em Ar, visita um antigo moinho de farinha do Marrocos, para falar de panificação; em Terra, vai a um vilarejo no Peru, onde se faz uma bebida chamada masato, pretexto para tratar da fermentação. Vai costurando as histórias, comentários científicos, históricos e sociológicos que cercam o mundo da comida.

O documentário é uma superprodução, tem um tom grandioso, com lindas imagens captadas ao redor do globo, numa pegada multiculturalista. É notável que um certo olhar americano, às vezes ingênuo ou deslumbrado, guia a série. Isso se deve, talvez, ao fato de que, nos EUA, mais que em qualquer outro lugar, as pessoas estejam mais afastadas das cozinhas e da comida de verdade, tamanha é a força da indústria alimentícia por lá. Pollan até faz troça da ignorância americana numa passagem do episódio Terra, quando compila cenas de programas de TV com chefs famosos achando nojento comer comidas fermentadas. E, não a toa, ao longo da série, é ao Terceiro Mundo que ele vai para gravar as cenas da “comida de verdade”.

Assim, para nós no Brasil, acostumados a feiras livres na rua e a comer arroz com feijão fresco todo dia, parte da pregação de Pollan pode não soar impactante. Mas como ele alerta em um dos episódios, no momento atual, em que nos EUA começa a virar mainstream a preocupação com a origem dos alimentos e a rejeição à comida processada, é para os países em desenvolvimento que as indústrias correm. Cabe a nós, munidos da argumentação de Pollan – sorvida nesta série e, melhor ainda, nos seus livros – recebê-las com o senso crítico aguçado. E não arredar pé da cozinha.

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