Beatriz Carvalho*

Quando um autor elege a fome para tema de sua obra, há estar interessado pelo tema. Contudo, ao ler A Geografia da Fome, de Josué de Castro, fica evidente que além do interesse há um incômodo do pesquisador, um desejo de interferir na realidade miserável de grande parte da população, falando dela ao grande público.

É com simplicidade e didática que o intelectual mapeia, em 1946, a fome no Brasil. Para tanto, ele tem como base os padrões nutricionais de cada região estabelecida em seu estudo, sendo elas: Norte, Nordeste (este dividido em duas partes), Centro e Sul, considerando que todas elas apresentam características peculiares, determinantes para a alimentação de seu povo.

Segundo o estudioso, não é por acaso que no país observa-se uma diferenciação regional dos tipos de dieta. Elas são provenientes das várias categorias de recursos naturais e da predominância cultural de grupos étnicos estrangeiros inseridos de maneira descontínua, salvo a extensão do território brasileiro.

Entre apontar atributos físicos de cada região e refletir sobre a saúde de seus habitantes o livro orbita pela trajetória de cada lugar, trazendo consigo aspectos históricos, econômicos, sociais, culturais que transcendem a alimentação. Há uma persistente dificuldade da população em relacionar a causa da fome com questões ambientais, como se não houvesse ligação entre a qualidade do meio natural e a produção de alimentos. Esta é facilmente superada pelo autor em sua obra.

Por isso o trabalho de Josué de Castro abriu as portas para uma discussão ainda imatura, provida de tamanho esclarecimento, sua obra ainda hoje é referência em assuntos relacionados à saúde alimentar e suas condicionantes. Em suas mãos, detalhes sobre costumes ancestrais de povos que habitavam nossa nação tornaram-se importantes indicadores dos nutrientes que abundavam ou que faltavam nos organismos dos brasileiros de cada região.

Dentre esses detalhes, o autor revive a agressividade da natureza e ao mesmo tempo a falta de habilidade do colonizador, que somada a sua ganância em transformar o trato da terra em vantagem mercantil, dificultaram uma relação naturalmente fértil entre o solo brasileiro e os europeus. Estes, por sua vez, sujeitaram o espaço a devastadores ciclos econômicos, dos quais podemos citar a extração do pau-brasil, o cultivo da cana-de-açúcar, a exploração indígena, a mineração, o café, a borracha, e finalmente a da industrialização

Na época, 1946, a realidade social, cultural e econômica do país era bem diferente dos dias de hoje. Já na época, Castro colocou em cheque a crença de que era possível erradicar a fome com o aprimoramento das tecnologias da Revolução Industrial, que reúnem a refrigeração dos alimentos e a invenção dos fertilizantes artificiais, assim como a biotecnologia e a transgenia. Ainda reconhece que essa evolução salvou vidas, mas sugere que o século XX tenha trazido novos desafios.

Por suas constatações visionárias o livro se mantém atual, desvendando a verdadeira fome, que muitas vezes é confundida, distorcida e mascarada, especialmente em lugares tidos como ricos e abundantes, que se envergonhariam de ser associados com a miséria e por isso acabariam se rendendo a alimentos industrializados e ultra processados.

Hoje, tendências alimentares trazem aspirações condizentes com o estudo de A Geografia da Fome. A busca por qualidade de vida tem dado espaço para o resgate de receitas tradicionais, feitas com alimentos in natura provenientes de sistemas orgânicos ou agroecológicos. Isso tem sido documentado por autores, como Valdely Kinupp que em sua obra reúne centenas de variedades vegetais comestíveis que vêm sendo esquecidas pelas pessoas na hora de montar seu cardápio habitual.  Os profissionais da saúde e do meio ambiente, bem como médicos, nutricionistas, geógrafos, ecólogos, sociólogos e boa parte da população têm se preocupado com a qualidade de vida, e com o risco de deficiência alimentar que já havia sido verificado por Josué de Castro. Segundo ele, quando notamos a insuficiência de alimentos constatamos o risco da fome. Entretanto, uma alimentação mal constituída representa uma possível desnutrição, o que é preocupante nas mesmas proporções.

Entre esse e outros motivos, é ainda hoje importante a veiculação de um trabalho com esse nível de informação, para que com ele se inspirem outros pesquisadores a promover uma melhor utilização dos recursos alimentícios de nosso país, vide riqueza biodiversa presente nele. O Guia Alimentar compila as necessidades da população e apresenta estratégias para melhorar o aproveitamento dos recursos na alimentação do brasileiro. Assim, é imprescindível que as falas dos cientistas se tornem iniciativas, práticas e políticas públicas que promovam a boa alimentação respeitando e valorizando não apenas a sua natureza em cada um de seus biomas, mas a importância de cada habitante filho desta terra.

Beatriz Carvalho é geógrafa, especialista em Educação Ambiental e  Planejamento Urbano e Regional. Fundadora do Projeto Mato no Prato (@matonoprato), trabalha atualmente com a difusão das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), promovendo a segurança alimentar, a etnobotânica e a preservação ambiental.