A linguagem da cozinha

A linguagem da cozinha

Texto da nutricionista Maína Pereira publicado no dia 13 de dezembro na sessão “Pensamento EAN” no site Ideias na Mesa. Confira! =)

Se a cozinha fosse uma língua, qual seria o seu nível de fluência ou o seu sotaque? O desenvolvimento de habilidades culinárias tem sido recomendado como estratégia de superação dos obstáculos para se obter uma alimentação mais adequada e saudável. Além disso, o ato de cozinhar pode ser um momento prazeroso e de muitas descobertas que marcam histórias e gerações.

Para refletir um pouco sobre a linguagem da cozinha, delicie-se com esta crônica de Nina Horta:

“Só conseguindo reunir as peças da comida em alguma coisa bem aceitável quando se aprende as técnicas básicas, quando se lê muito (melhor dizendo, quando se vive muito), quando se tem o olho vivo e a língua curiosa, quando o erro é o melhor condutor, quando se quebra a cabeça misturando os ingredientes com muita obediência e outras vezes com liberdade total.

Quem se lembra do primeiro semestre da faculdade, quando o sociologês, o filosofês, o antropologês eram um obstáculo desolador, quase impossível de ser resolvido? E, dois anos depois, Deus nos perdoe de jargões tão feios, falávamos felizes em epistemologia, doxa, duração, hubris, como se fosse a lista do supermercado? Ou uma língua como o alemão, que se apresenta como muralha e vai ver é a mais fácil de todas?

A linguagem oculta da cozinha também pode ser um obstáculo. É preciso estuda-la como estudamos qualquer outra matéria. Claro que alguns terão mais facilidade do que outros, alguns vão parecer que nasceram sabendo, alguns vão desistir e mudar de rumo, tudo igualzinho às outras disciplinas do vestibular. É preciso estudo, experiência, memória, imaginação, abertura, prazer, ritmo, astúcia e visão da comida como uma língua a se aprender e que devemos interpretar segundo nossas possibilidades e vivências.

E não é maravilhoso que não exista um cozinhês? Grande vantagem. Um bom feijão grosso todo mundo entende. Quase todo mundo.” (Linguagem da Cozinha, Nina Horta)

E que tal estudar essa matéria tão saborosa? Já parou para pensar em como a cozinha torna-se um ambiente de aprendizagem repleto de ferramentas e materiais para experimentar? Estar na cozinha e se aventurar é uma forma de se conectar com a comida e toda sua simbologia, envolve afeto, emoções, histórias, pessoas em uma variedade de ingredientes culinários. É uma prática que quanto mais exercida gera mais autonomia. E não existe um cozinhês, você vai descobrindo e se expressando da sua maneira, no seu ritmo, do seu jeito. Por isso, vale a pena se arriscar e descobrir sua própria linguagem da cozinha!

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.

Baixe o Geografia da Fome

Baixe o Geografia da Fome

“Enquanto metade da humanidade não come, a outra metade da humanidade não dorme, com medo daquele que não come”

(Josué de Castro)

O emérito brasileiro, Josué Apolônio de Castro,  pernambucano, médico, nutrólogo, indicado uma  vez  ao Prêmio Nobel de Medicina (1954) e duas vezes concorreu ao Prêmio Nobel da Paz (1963, 1970). Publica em 1946 o livro Geografia da Fome do qual registra o flagelo da fome no Brasil. A publicação deste livro estimulou  a reflexão entre o pão de cada dia e o aço pela industrialização do Brasil.

Foi um cientista cidadão que ao ter como tese que subdesenvolvimento é fome e a problemática é política, revela ao mundo a genialidade de novos conceitos e a reação perversa das elites brasileiras que colocaram-no como subversivo o que determinou seu exílio do país. Mas não conseguiram exilar suas idéias que vão ser cruciais para o mundo mudar sua visão sobre os determinantes sociais e políticos da fome e da miséria. Sua obra revela que o sistema de exploração da terra no Brasil com base na monocultura de cana de açúcar,  a herança da mão de obra escrava e  os latifúndios, eram os pilares da  miséria e da fome, da qual a resistência  a reforma agrária pela elites brasileiras perpetuava a desigualdade social. O livro Geografia da Fome traz como contribuição  novos paradigmas sobre a  fome pelo questionamento de sua compreensão somente pela ótica patológica-nutricional para inserir a dimensão política. Os mapas presentes no livro, revelaram ao mundo conceitos interpretativos com base na descrição geográfica de territórios alimentares e dos conceitos de fome endêmica e epidêmica.

No século XX no Brasil, seus conceitos orientaram estudos de mapeamento geográfico da miséria, da pobreza e da fome, pelo critério de renda desenvolvidos por diversas instituições governamentais por meio da elaboração de linhas de pobreza e indigência.

Você já leu esse livro tão importante? Faça o donwload aqui.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

Chico Science, Josué de Castro e a ameaça dos urubus

Chico Science, Josué de Castro e a ameaça dos urubus

Combatida pelo geógrafo e cantada pelo líder da Nação Zumbi, a exclusão social decresceu com a redemocratização, que tem de ser preservada para o bem do País” Esta é uma matéria escrita por Marcelo Pinheiro, foi publicada no site Brasileiros no dia 15 de março de 2016.

No último domingo (13.3), dia em que milhões de brasileiros foram às ruas protestar contra o governo de Dilma Rousseff, contra a corrupção e contra o PT, o cantor e compositor pernambucano Chico Science teria completado 50 anos. Morto em um acidente automobilístico aos 30 anos de idade, se ainda estivesse entre nós, Chico provavelmente teria sido tomado por profunda melancolia dominical. Não digo isso por acreditar que o patrono do movimento Mangue Beat estaria, irredutível, ao lado de Dilma e do PT, o objetivo deste texto não é o proselitismo partidário, como veremos a seguir, mas por estar certo de que, sujeito astuto, ele teria percebido o paradoxo amargo de, em meio a marchas que só foram possíveis por vivermos a plenitude de um Estado Democrático de Direito, vejam o contrassenso, colocarmos agora em risco nossa jovem democracia, reconquistada à duras penas após 21 anos de um regime militar assassino, extremamente corrupto, beneficiado pela mordaça da censura e propagador da miséria de seu povo, condição eclipsada com a difusão de um falso milagre econômico, que legou ao País décadas de endividamento com o FMI.

No breve período em que conquistou notoriedade à frente da Nação Zumbi, entre 1994, ano de lançamento de Da Lama ao Caos, primeiro álbum do grupo, até 2 fevereiro de 1997, dia de sua morte, num domingo de Carnaval, Chico fez de sua arte veículo de denúncias de um Brasil injusto e triste, uma nação seccionada à condição de Terceiro Mundo simbolizada pela permanência secular de uma pirâmide social das mais perversas, composta da equação “o de cima sobe e o de baixo desce”, como cantou ele em A Cidade, primeiro grande sucesso de Da Lama ao Caos, que também traz a constatação certeira “No meio da esperteza internacional / A cidade até que não vai tão mal / A situação sempre mais ou menos / Sempre uns com mais e outros com menos”.

Capitaneado por Chico e Fred Zero Quatro, líder do Mundo Livre S/A, o movimento Mangue Beat começou a ser estrategiado no final dos anos 1980, com duas frentes de ação. Uma delas, estética, pretendia devolver a riqueza da música popular de Pernambuco e suas tradições ancestrais – o coco, a embolada, o maracatu, o frevo, a ciranda – amalgamada à elementos da cultura pop mundial – o rock, o dub, o psicodelismo, o funk, o rap. Do outro lado, textual, Chico e Zero Quatro defendiam a urgência de falar da contradição aguda de viver em meio a uma das maiores capitais do País, Recife, que, no entanto, segundo a ONU, era a quarta pior cidade do mundo em termos de qualidade de vida. Não por acaso, Chico e Zero Quatro tiveram como grande inspiração um ilustre conterrâneo, Josué de Castro, geógrafo, médico, cientista político, escritor e um ícone mundial do combate à miséria, autor de clássicos como Geografia da Fome e Homens e Caranguejos. Em Da Lama ao Caos, perplexo, Chico propõe um diálogo imaginário com o intelectual morto em setembro de 1973: “Ô, Josué nunca vi tamanha desgraça / Quanto mais miséria tem mais urubu ameaça”, constata.

Chegamos então ao cerne deste texto, que é justamente lembrar ao caro leitor que saímos da condição de periferia mundial para o patamar de uma das maiores economias globais, e isso só foi possível por termos reconquistado a democracia. Quando Chico partiu, Fernando Henrique Cardoso começava a consolidar o Plano Real, idealizado por Itamar Franco, como saída para os sucessivos fracassos da tentativa de livrar o povo brasileiro da ameaça cotidiana da inflação. Se por meio de instrumentos de transferência de renda, como o Bolsa Família, Lula conseguiu erradicar a fome e tirar da linha da miséria mais de 36 milhões de brasileiros, segundo dados da ONU e do Banco Mundial, isso só foi possível porque consolidada a democracia tivemos condições de alçar tamanho voo.

O Brasil cantado por Chico, perceberia ele em seu aniversario de 50 anos, já não é mais o mesmo. No entanto, corremos o risco de engatar uma marcha à ré quando relevamos a gravidade de destituir um governo eleito de forma legítima por mais de 54 milhões de brasileiros com base em delações premiadas e ilações de corruptores e corrompidos que, estes sim, estão no banco dos réus da Operação Lava Jato. Corremos o risco de engatar uma marcha à ré quando até mesmo a oposição ferrenha do PSDB de Aécio e Alckmin não parece representar os anseios dos indignados com “o que aí está” ao ponto de alguns deles chegarem a crer que boa alternativa é apostar no discurso virulento de um parlamentar de extrema direita como Jair Bolsonaro, o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro no pleito estadual de 2014.

Desde outubro de 2014, vemos crescer o discurso de ódio político seletivo baseado em espetáculos midiáticos promovidos por alianças escusas entre a grande imprensa e interesses corporativos mundiais. Não duvidem, há muito risco em jogo quando, desde as marchas de junho de 2013, boa parte dos cidadãos que foram às ruas no último domingo parecem ignorar a necessidade preme de uma reforma política, uma vez que reside no atual sistema as engrenagens que dão origem a horda desprezível de corrompidos e corruptores das mais diversas legendas partidárias, sejam elas nanicas, de aluguel, como se diz, ou gigantes, como PMDB, PSDB e PT que, respectivamente governaram o País nas últimas décadas.

Não há dúvidas que chegamos ao esgotamento do modelo de sistema político que elegeu Collor, FHC, Lula e Dilma. E é exatamente por isso que não cometo a sandice de atribuir o ônus da atual crise institucional somente ao eleitorado brasileiro. Claro, a frágil gestão de Dilma Rousseff reflete sobretudo a maneira com que a chefe de estado e seu partido compactuaram com esses mesmos mecanismos. Reféns do PMDB – de quadros, no mínimo questionáveis, como Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Kátia Abreu – Dilma e o PT não tiveram a coragem de mandar a legenda às favas na campanha à reeleição, pela ciência de que, se o fizessem,  jamais se manteriam no poder. Expediente que vem desde o polêmico casamento PSDB/PFL, hoje travestido de DEM, mas com os velhos caciques de outrora. Perante esse retrospecto de conchavos e rabos presos, que também inclui a aliança entre PT e o PP do “rouba, mas faz” de Maluf, ninguém em sã consciência há de duvidar que reforma política é o próximo passo evolutivo de uma redemocratização que só fez bem ao Brasil, uma nação com vocação para gigante que, por mais de 500 anos, foi reduzida a condição de anã por interesses sórdidos dos que jamais quiseram abrir mão de seus privilégios.

No ecossistema, até mesmo os urubus  – aves necrófagas admiradas pelo maestro Tom Jobim, que a elas dedicou o nome de um de seus mais famosos álbuns – têm um papel de extrema importância para a cadeia alimentar. Na realidade sociopolítica brasileira, as aves de rapina que sobrevoam em rasante o atual espetáculo de desmonte do País tratam carniça como caviar. Da miséria alheia fazem alimento diário, como cantou Chico.

MAIS:
Veja a edição do programa Mosaicos, da TV Cultura, dedicado a Chico Science

 

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