Combatida pelo geógrafo e cantada pelo líder da Nação Zumbi, a exclusão social decresceu com a redemocratização, que tem de ser preservada para o bem do País” Esta é uma matéria escrita por Marcelo Pinheiro, foi publicada no site Brasileiros no dia 15 de março de 2016.

No último domingo (13.3), dia em que milhões de brasileiros foram às ruas protestar contra o governo de Dilma Rousseff, contra a corrupção e contra o PT, o cantor e compositor pernambucano Chico Science teria completado 50 anos. Morto em um acidente automobilístico aos 30 anos de idade, se ainda estivesse entre nós, Chico provavelmente teria sido tomado por profunda melancolia dominical. Não digo isso por acreditar que o patrono do movimento Mangue Beat estaria, irredutível, ao lado de Dilma e do PT, o objetivo deste texto não é o proselitismo partidário, como veremos a seguir, mas por estar certo de que, sujeito astuto, ele teria percebido o paradoxo amargo de, em meio a marchas que só foram possíveis por vivermos a plenitude de um Estado Democrático de Direito, vejam o contrassenso, colocarmos agora em risco nossa jovem democracia, reconquistada à duras penas após 21 anos de um regime militar assassino, extremamente corrupto, beneficiado pela mordaça da censura e propagador da miséria de seu povo, condição eclipsada com a difusão de um falso milagre econômico, que legou ao País décadas de endividamento com o FMI.

No breve período em que conquistou notoriedade à frente da Nação Zumbi, entre 1994, ano de lançamento de Da Lama ao Caos, primeiro álbum do grupo, até 2 fevereiro de 1997, dia de sua morte, num domingo de Carnaval, Chico fez de sua arte veículo de denúncias de um Brasil injusto e triste, uma nação seccionada à condição de Terceiro Mundo simbolizada pela permanência secular de uma pirâmide social das mais perversas, composta da equação “o de cima sobe e o de baixo desce”, como cantou ele em A Cidade, primeiro grande sucesso de Da Lama ao Caos, que também traz a constatação certeira “No meio da esperteza internacional / A cidade até que não vai tão mal / A situação sempre mais ou menos / Sempre uns com mais e outros com menos”.

Capitaneado por Chico e Fred Zero Quatro, líder do Mundo Livre S/A, o movimento Mangue Beat começou a ser estrategiado no final dos anos 1980, com duas frentes de ação. Uma delas, estética, pretendia devolver a riqueza da música popular de Pernambuco e suas tradições ancestrais – o coco, a embolada, o maracatu, o frevo, a ciranda – amalgamada à elementos da cultura pop mundial – o rock, o dub, o psicodelismo, o funk, o rap. Do outro lado, textual, Chico e Zero Quatro defendiam a urgência de falar da contradição aguda de viver em meio a uma das maiores capitais do País, Recife, que, no entanto, segundo a ONU, era a quarta pior cidade do mundo em termos de qualidade de vida. Não por acaso, Chico e Zero Quatro tiveram como grande inspiração um ilustre conterrâneo, Josué de Castro, geógrafo, médico, cientista político, escritor e um ícone mundial do combate à miséria, autor de clássicos como Geografia da Fome e Homens e Caranguejos. Em Da Lama ao Caos, perplexo, Chico propõe um diálogo imaginário com o intelectual morto em setembro de 1973: “Ô, Josué nunca vi tamanha desgraça / Quanto mais miséria tem mais urubu ameaça”, constata.

Chegamos então ao cerne deste texto, que é justamente lembrar ao caro leitor que saímos da condição de periferia mundial para o patamar de uma das maiores economias globais, e isso só foi possível por termos reconquistado a democracia. Quando Chico partiu, Fernando Henrique Cardoso começava a consolidar o Plano Real, idealizado por Itamar Franco, como saída para os sucessivos fracassos da tentativa de livrar o povo brasileiro da ameaça cotidiana da inflação. Se por meio de instrumentos de transferência de renda, como o Bolsa Família, Lula conseguiu erradicar a fome e tirar da linha da miséria mais de 36 milhões de brasileiros, segundo dados da ONU e do Banco Mundial, isso só foi possível porque consolidada a democracia tivemos condições de alçar tamanho voo.

O Brasil cantado por Chico, perceberia ele em seu aniversario de 50 anos, já não é mais o mesmo. No entanto, corremos o risco de engatar uma marcha à ré quando relevamos a gravidade de destituir um governo eleito de forma legítima por mais de 54 milhões de brasileiros com base em delações premiadas e ilações de corruptores e corrompidos que, estes sim, estão no banco dos réus da Operação Lava Jato. Corremos o risco de engatar uma marcha à ré quando até mesmo a oposição ferrenha do PSDB de Aécio e Alckmin não parece representar os anseios dos indignados com “o que aí está” ao ponto de alguns deles chegarem a crer que boa alternativa é apostar no discurso virulento de um parlamentar de extrema direita como Jair Bolsonaro, o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro no pleito estadual de 2014.

Desde outubro de 2014, vemos crescer o discurso de ódio político seletivo baseado em espetáculos midiáticos promovidos por alianças escusas entre a grande imprensa e interesses corporativos mundiais. Não duvidem, há muito risco em jogo quando, desde as marchas de junho de 2013, boa parte dos cidadãos que foram às ruas no último domingo parecem ignorar a necessidade preme de uma reforma política, uma vez que reside no atual sistema as engrenagens que dão origem a horda desprezível de corrompidos e corruptores das mais diversas legendas partidárias, sejam elas nanicas, de aluguel, como se diz, ou gigantes, como PMDB, PSDB e PT que, respectivamente governaram o País nas últimas décadas.

Não há dúvidas que chegamos ao esgotamento do modelo de sistema político que elegeu Collor, FHC, Lula e Dilma. E é exatamente por isso que não cometo a sandice de atribuir o ônus da atual crise institucional somente ao eleitorado brasileiro. Claro, a frágil gestão de Dilma Rousseff reflete sobretudo a maneira com que a chefe de estado e seu partido compactuaram com esses mesmos mecanismos. Reféns do PMDB – de quadros, no mínimo questionáveis, como Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Kátia Abreu – Dilma e o PT não tiveram a coragem de mandar a legenda às favas na campanha à reeleição, pela ciência de que, se o fizessem,  jamais se manteriam no poder. Expediente que vem desde o polêmico casamento PSDB/PFL, hoje travestido de DEM, mas com os velhos caciques de outrora. Perante esse retrospecto de conchavos e rabos presos, que também inclui a aliança entre PT e o PP do “rouba, mas faz” de Maluf, ninguém em sã consciência há de duvidar que reforma política é o próximo passo evolutivo de uma redemocratização que só fez bem ao Brasil, uma nação com vocação para gigante que, por mais de 500 anos, foi reduzida a condição de anã por interesses sórdidos dos que jamais quiseram abrir mão de seus privilégios.

No ecossistema, até mesmo os urubus  – aves necrófagas admiradas pelo maestro Tom Jobim, que a elas dedicou o nome de um de seus mais famosos álbuns – têm um papel de extrema importância para a cadeia alimentar. Na realidade sociopolítica brasileira, as aves de rapina que sobrevoam em rasante o atual espetáculo de desmonte do País tratam carniça como caviar. Da miséria alheia fazem alimento diário, como cantou Chico.

MAIS:
Veja a edição do programa Mosaicos, da TV Cultura, dedicado a Chico Science

 

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