Comidas e Festejos | O calendário dos Patrimônios Alimentares!

Comidas e Festejos | O calendário dos Patrimônios Alimentares!

A criação de um calendário que registre as datas e as localidades onde aconteçam festejos e comemorações que tenham as práticas e preparos culinários como foco dessas celebrações em todo Brasil, é um dos projeto que o OBHA acaba de lançar para abrir o ano de 2017.

O projeto Calendário de Festejos e Comidas convidar vocês leitores/as e interessados/as a preencherem o formulário com informações dos festejos e celebrações que conheçam, ou que já tenham participado em qualquer localidade do Brasil.

O OBHA irá organizar as informações dos formulários recebidos para divulgação em suas mídias. A construção será colaborativa e crescente uma vez que cada nova data de festejo encaminhada iremos acrescentar ao calendário. Contamos com a sua colaboração para obtermos o máximo de informações sobre festejos culinários de todas as regiões brasileiras!

Participe do calendário clicando aqui!

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

As verdades inconvenientes que a campanha “Agro Pop” tenta esconder

As verdades inconvenientes que a campanha “Agro Pop” tenta esconder

Texto publicado no site Ideias na Mesa no dia 21/02/17 de autoria do nutricionista Rafael Rioja.

Desde meados de 2016 a Globo passou a exibir no horário nobre de sua programação e com múltiplas entradas a campanha “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é tudo”. Concebida pela gerência de Marketing e Comunicação da própria emissora, os vídeos de 1 minuto continuarão a ser “martelados” nos intervalos das novelas, jornais e programas até junho de 2018.

Segundo os criadores, a campanha têm entre outros objetivos: “tratar a importância dos produtos agrícolas e das coisas do campo; procuramos também sempre citar quantos empregos aquela atividade agrícola gera e quanto ela movimenta na economia”

O Brasil é sem dúvida um país de vocação agrícola fruto de nossa exuberante biodiversidade, e não por outra razão, tivemos em nossas terras desde que os europeus “descobriram” nossos povos indígenas e nossas riquezas naturais, seguidos ciclos de produção capitaneados por diferentes caravanas colonizadoras. Nos dias de hoje, essa riqueza agrícola continua, sem sombra de dúvidas, a movimentar a economia brasileira. Mas o que realmente está por trás da campanha “Agro é Pop” e quais as verdades inconvenientes que ela tenta esconder?

Agro é Tech   

A retórica de que o agronegócio gera riquezas e atua no combate a fome não é recente e nem exclusividade brasileira. A “Revolução Verde” iniciada nos Estados Unidos na década de 50, e que de verde mesmo teve só o nome da cor, trouxe a promessa de acabar com a fome no mundo através do uso da tecnologia aumentando a produção de alimentos. Em termos absolutos, a produção de gêneros alimentícios aumentou, mas mesmo décadas depois, problemas como a fome e a insegurança alimentar e nutricional continuam a assolar mais de 800 milhões de pessoas ao redor do mundo.

O grande legado da dita “Revolução Verde” foi na verdade a concentração de grandes porções de terras nas mãos de poucos latifundiários e o escoamento de pacotes tecnológicos e de insumos por multinacionais estrangeiras que incluíam agrotóxicos com princípios ativos excedentes da segunda guerra mundial, fertilizantes químicos e sementes transgênicas destinados a países em desenvolvimento como o Brasil.

Em território nacional, agrotóxicos banidos na União Européia e em outros países no mundo circulam com isenção de impostos e linhas de créditos bancárias para pequenos agricultores condicionadas ao uso dos venenos. Esse cenário levou o Brasil à condição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo com sérias implicações para a saúde humana incluindo consumidores e trabalhadores rurais, e para o meio ambiente. A Associação Brasileira de Saúde coletiva (ABRASCO), compilou em 2015 sua versão mais recente do Dossiê: “Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde“, livro com mais de 600 páginas reunindo artigos, estudos e pesquisas mostrando entre outros aspectos, as contaminações pelo uso de agrotóxicos que vão desde o comprometimento de aquíferos locais até a presença de compostos tóxicos no ar e no leite materno.

Além de se destacar no consumo de agrotóxicos, o agronegócio brasileiro também nos colocou no patamar de maiores produtores de milho e soja transgênica ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Do ponto de vista da segurança para saúde humana do consumo de organismos geneticamente modificados (OGM), a publicação “Lavouras Transgênicas” analidou 750 trabalhos publicados e mostrou que a única certeza é de que não existe consenso científico sobre o consumo seguro deste tipo de alimento. Não resta dúvidas, no entanto, dos sérios agravos para biodiversidade, soberania e segurança alimentar causados pelo monopólio de patentes das multinacionais que controlam a produção de OGM. Recentemente a equipe do IM traduziu matéria alertando que pequenos agricultores da Tanzânia, estão sendo criminalizados por utilizar e trocar sementes nativas ao invés de comprar as sementes transgênicas  da Syngenta. A situação de extrema gravidade não é exclusividade do país Africano e se repete em outras regiões.

O Brasil saiu em 2015 pela primeira vez na história do mapa da fome segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e essa conquista foi possibilitada não pelo modelo “Agro Tech” sinônimo de agrotóxicos e sementes transgênicas. De acordo com a entidade, os principais fatores que possibilitaram essa conquista foram as políticas de combate a fome e insegurança alimentar e nutricional que resultaram nos programas como o “Fome Zero” e o “Bolsa Família”. As iniciativas de transferência de renda e o fornecimento de uma alimentação adequada e saudável por meio de diferentes ações e programas foram de fundamental importância para esse novo cenário.

O que a campanha do agronegócio esconde atrás do “Tech” é o que ele realmente significa e quem verdadeiramente lucra com as riquezas geradas. Acompanhe a coluna de quinta feira para saber da onde vem a popularidade do “Agro Pop” e porquê esse modelo de negócio “Agro(não) é Tudo”.

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.

Feiras, feirinhas, feirões, um livro para conhecer melhor esses lugares.

Feiras, feirinhas, feirões, um livro para conhecer melhor esses lugares.

As pesquisadoras Daniele Palma Cielo¹ e Jamile dos Santos Pereira Costa² nos presentearam com a apresentação do livro “Feiras, feirinhas e feirões: a “economia dos centavos” em foco publicado pela editora Oikos tendo como organizadoras Maria Catarina Chitolina Zanini e Miriam de Oliveira Santos.

Feiras, Feirinhas e feirões: a “economia dos centavos” em foco, terceiro livro de uma série de e-books sobre feiras, é uma oportunidade ímpar de adentrar e compreender melhor o quão amplo e heterogêneo é este universo, seja no Brasil ou na  Colômbia. Os artigos referentes a feiras do Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil e também da Colômbia (Mercado Campesino de Bogotá), de um modo geral, mostram que, para além das relações econômicas estabelecidas, o espaço das feiras agrega sociabilidades, memórias e trocas diversas. Os artigos, a fim de contemplar e valorizar realidades bastante diversas no que diz respeito aos campesinatos possíveis e a ascensão de feiras e mercados locais, salientam que as feiras costumam ser espaços em que o rural e o urbano se encontram por meio das circularidades e múltiplas narrativas, possibilitando a intensa troca entre os envolvidos. Apesar de cada feira possuir suas singularidades, de forma geral, elas partilham de alguns princípios de mercado, valorizando o local e consequentemente contribuem no desenvolvimento das economias regionais. Nesse sentido, é a “economia dos centavos” que movimenta o mercado local e possibilita o desenvolvimento de diferentes campesinatos, seja no Brasil ou na Colômbia.

Gostou da sinopse? Então baixe o e-book aqui!

¹ – Bacharela em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (PPGCS-UFSM). Integrante do Núcleo de Estudos Contemporâneos-NECON.

² – Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É voluntária do Núcleo de estudos contemporâneos (NECON) da UFSM e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (PPGCS-UFSM).

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

Vamos conversar sobre hábitos alimentares?

Vamos conversar sobre hábitos alimentares?

“(…) se o destino dos povos depende de como eles se alimentam (Brillat-Savarin, Physiologie du Gout), é tempo de se agitar no Brasil uma campanha pela arte de bem comer, seria ao mesmo tempo uma campanha pela nacionalização do paladar. Nosso paladar vai-se tristemente desnacionalizando. Das nossas mesas vão desaparecendo os pratos mais característicos: as bacalhoadas de coco, as feijoadas, os pirões, os mocotós as buchadas. Haveria talvez maior virtude em comer patrioticamente mal, mais comidas da terra, que em regalar-se das alheias. É mais ou menos o que fez o inglês. Entre nós sucede as comidas da terra que não exigem sacrifício. O nosso caso reduz antes e a este absurdo: estamos a comer impatrioticamente e mal o que os franceses comem patrioticamente. Há perigo num paladar desnacionalizado. O paladar é talvez o último reduto do espírito nacional: quando ele se desnacionaliza está desnacionalizando tudo o mais”

(Tempo de Aprendiz, Gilberto Freyre, Tempo de Aprendiz, 1979)

O ser humano é o único ser vivo do Planeta Terra que processa seus alimentos. Este procedimento contribuiu para a evolução dos usos, práticas hábitos do comer. O arcabouço de desenvolvimento de hábitos alimentares é a cultura. Este processo se produz a luz do tempo e do espaço em geral por tentativas de erros e acertos por meio da culinária.

O dialogo sobre hábitos alimentares que nos coloca diante da complexidade alimentar humana foi o estimulo de criar neste site uma seção permanente denominada de “Hábitos Alimentares em Foco”.  Sabemos que temos diante de nós o desafio de conjugar diversas dimensões de costumes, modos, comportamentos e escolhas alimentares. Nosso objetivo é estimular o diálogo sobre os vários significados de hábitos alimentares construídos por meio de contribuições acadêmicas de vários campos de conhecimento sobre epistemológicas-conceituais, de métodos e metodológicas. Como também oferecer resultados de pesquisas de várias naturezas e concepções.  Esperamos também construir análises de dados de pesquisas de orçamentos/despesas familiares bem como outras fontes de dados pertinentes ao tema.

Tentaremos dialogar de forma instigante com a historia, o folclore e as diversas ideologias alimentares pela valorização dos patrimônios alimentares sob várias inspirações em busca de afirmar e honrar a culinária brasileira oriunda de tantas contribuições de povos e etnias.

Esperamos contar com toda a contribuição possível para de fato colocarmos os hábitos alimentares em foco no Brasil!

 

Feiras Populares: locus de estudos e pesquisas sobre construção do gosto social na compreensão de hábitos alimentares no Brasil

Feiras Populares: locus de estudos e pesquisas sobre construção do gosto social na compreensão de hábitos alimentares no Brasil

Diego Donizetti (*)

A palavra “feira”, tem sua origem derivada do latim feria significando dia santo, feriado ou dia de descanso. O aparecimento destes espaços de comercialização está ligado à preocupação dos produtores em vender o excedente da produção, quando passaram a se reunir nas proximidades das igrejas aos domingos para comercializar seus produtos, uma vez que eram os locais que apresentavam o maior fluxo de pessoas.

Em que pese não existir por parte dos historiadores certeza do período exato de surgimento das feiras em nossa sociedade, autores indicam que existem registros de que os povos sumérios já faziam uso desse processo de comercialização em 3.000 a.C., fazendo trocas e barganhas em um local específicos da cidade, em um dia determinado da semana.

As feiras livres, portanto, representam uma das formas mais antigas de comercialização de produtos, especialmente os agrícolas, porém, seu período de maior importância social e econômica se dá a partir da decadência do modo de produção feudal e do renascimento comercial e urbano no século XI, período que coincide com o surgimento dos Estados Nacionais. Nas palavras de Souza com outros autores:

A origem das feiras livres está relacionada ao renascimento das atividades comerciais na Europa durante a transição da Idade Média para a Idade Moderna. No regime feudal a sociedade europeia tinha uma economia de caráter essencialmente agrícola voltada para o autoconsumo. Devido a essa autossuficiência os níveis de relações comerciais estabelecidos no período eram baixos, por isso não havia uma preocupação no sentido da produção de excedentes em grande escala.

Com avanço de técnicas produtivas e a consequente ampliação da produção agrícola começaram a surgir excedentes da produção rural, o que permitiu a expansão comercial e o crescimento das cidades europeias.

No Brasil, a gênese das feiras está relacionada a vinda dos colonizadores portugueses, no entanto, seu desenvolvimento no país não foi imediato, dada a autossuficiência dos engenhos. Marie France Garcia-Parpet revela a importância das feiras na reestruturação do espaço rural e na inserção econômica dos camponeses no mercado, a partir da decadência dos engenhos e da quebra das relações de dominação e dependência tradicionais.

Portanto, as feiras tiveram papel fundamental no processo de urbanização e na estabilização da economia urbana. No entanto, segundo revelam Mascarenhas e Dolzani, a partir dos anos 1970, com decisivo apoio governamental, os estabelecimentos de autosserviço, adaptados ao contexto urbano e ao uso de automóveis na cidade, começaram a se expandir. O resultado foi a formação das grandes cadeias, que dominam hoje completamente o setor de distribuição de alimentos no Brasil.

As feiras, nesse novo contexto, foram consideradas obsoletas e símbolos de precariedade. Acabaram perdendo espaço para os supermercados, que por sua vez ficaram, nas palavras dos autores: “cada vez maiores, mais sortidos, mais seguros, higiênicos e confortáveis, modalidade que cai como uma luva no apressado tempo do indivíduo de nossa época”. No entanto, o supracitado avanço dos supermercados não significou o fim das feiras populares, uma vez que as encontramos em praticamente todas as cidades brasileiras. A resistência deste tipo de espaço de comercialização nos ambientes cada vez mais urbanos, segundo os autores, transformam a feira na “filha rebelde da modernidade, que insiste em desafiá-la”.

Atualmente, os mercados periódicos, com pequena ou grande dimensão, organizam-se nas ruas e praças, onde feirantes expõem diversos tipos de produtos, desde aqueles confeccionados com técnicas inovadoras até as mercadorias produzidas nos moldes mais rudimentares. Nestes espaços são desenvolvidas relações comerciais, permitindo a negociação de produtos da agricultura, da pecuária, do artesanato e da indústria.

Portanto, considerando o fato de que a dinâmica econômica levou ao avanço da oferta de outros produtos e a um processo de secundarizarão da comercialização de alimentos nestes espaços1, ainda é possível identificar em um grande número de cidades do Brasil consumidores que continuam comprando parte considerável de seus alimentos nas feiras.

Torna-se, portanto, importante buscar entender quais fatores influenciam nessa chamada resistência das feiras populares e, em especial, da manutenção do consumo de alimentos adquiridos nestes espaços.

Para além das facilidades oferecidas nos hipermercados, o que poupa o tempo cada vez mais escasso das pessoas, é comum encontrar questionamentos referentes a qualidade dos produtos comercializados nas feiras populares. No entanto, a percepção de qualidade que permeia a decisão de consumo muitas vezes difere das normas fitossanitárias definidas pelos agentes públicos.

Podemos usar o conceito de habitus, elaborado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu com o objetivo de explicar porque as pessoas fazem certas coisas e não outras, e porque fazem de uma determinada maneira e não de maneira diferente, para buscar explicar a escolha das pessoas pelo consumo de seus alimentos nas feiras.

Nos últimos anos foram realizados vários estudos com foco nas feiras populares, buscando explicar as razões de sua resistência, ou seja, buscando entender porque algumas pessoas preferem consumir nestes espaços a consumir em um hipermercado, por exemplo.

Muitos destes estudos identificaram que a motivação da compra na feira não é simplesmente o fator econômico, ou seja, não é apenas uma questão relacionada ao preço dos produtos. Isso significa dizer que, em que pese as feiras populares integrarem o circuito inferior de consumo urbano, conforme definido por Nilton Santos, parte dos consumidores entrevistados nestes estudos apresentam alto poder aquisitivo.

Alguns outros fatores apontados por estes estudos que indicam este habitus de consumir os produtos alimentícios ofertados na feira são:

  • Tradição: a maioria dos consumidores entrevistados consome alimentos na feira há mais de 10 anos, sendo que boa parte desde que a feira foi criada.
  • Hereditariedade: vários consumidores afirmaram que iam quando criança com a mãe ou o pai na feira e que agora compram também lá;
  • Qualidade dos produtos: a maioria dos consumidores demonstram a percepção de que as frutas, verduras e legumes comercializados na feira são de excelente qualidade e são frescos.
  • Ponto de encontro: Muitos consumidores afirmam fazer parte de suas rotinas ir no dia de funcionamento “fazer a feira”, encontrar amigos, conversar, etc.
  • Resgate cultural: Muitos consumidores são atraídos as feiras, porque parte destas ainda apresentam a comercialização de comidas típicas e apresentações de artistas regionais, especialmente na região Nordeste.

Foi possível a partir das informações coletadas nestes estudos, portanto, perceber que a qualidade, assim como consumo, é construída socialmente, por meio das perspectivas históricas e culturais das pessoas envolvidas na reprodução social da feira.

A construção social do consumo está relacionada com a construção social dos atributos ou dos sinais da qualidade percebidos por aqueles que compram na feira. Apesar de, em algumas feiras, não apresentarem técnicas de armazenagem adequadas para assegurar a qualidade dos alimentos, segundo as normas sanitárias vigentes, os produtos vendidos na feira têm sua qualidade legitimada pelos consumidores, que percebem serem eles confiáveis. Isto evidencia que nem sempre as normas sanitárias são eficientes e devem ser aplicadas a todos da mesma maneira, ou seja, são as pessoas que histórica e socialmente veem e constroem seus próprios atributos de qualidade.

Por meio da análise dos estudos realizados é possível perceber que de fato existe um habitus que possibilita a permanência das feiras nas cidades e que esta escolha dos consumidores em comprar os alimentos nestes espaços é baseada também em fatores culturais e simbólicos, além de econômicos.

Podemos, portanto, afirmar que as feiras populares possuem forte relevância também nos hábitos alimentares das famílias brasileiras, para além de seu papel fundamental na história diante do crescente processo de urbanização e de sua importância econômica e social, uma vez que cria condições para que parte da população pobre tenha acesso aos alimentos e permite o acesso de agricultores familiares ao mercado.

1 Para entender o avanço de produtos industrializados nas feiras, como CD’s e DVD’s piratas, brinquedos, roupas, eletrônicos importados, alimentos enlatados etc, sugiro a leitura do artigo “Feiras Livres: Dinâmicas Espaciais e Relações de Consumo” de Maria Regiane da Costa e Dionys Morais dos Santos publicado na Geosaberes, Fortaleza, v. 6, número especial (3), p. 653, Fevereiro. 2016.

Referências utilizadas pelo autor:

COSTA. M. R.; SANTOS, D. M. Feiras Livres: dinâmicas espaciais e relações de consumo. Revista Eletrônica Geosaberes, v. 6, número especial (3), Fevereiro/2016, UFC p.653-665.

GARCIA-PARPET, M, F. O Segundo sexo do comércio: Camponesas e negócio no Nordeste do Brasil. ANPOCS. 2008a. Disponível em: http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_19/rbcs19_08.htm Acesso em 10 de setembro de 2009.

MASCARENHAS, G; DOLZANI, M.C.S. Feira livre: territorialidade popular e cultura na metrópole contemporânea. Revista Eletrônica Ateliê Geográfico, v. 2, n. 4, agosto/2008, UFG/IESA p.72-87.

SALES, A. P.; REZENDE, L. T.; SETTE, R. S. Negócio Feira Livre: um estudo em um município de Minas Gerais. In: ENCONTRO DE GESTÃO DE PESSOAS E RELAÇÕES DE TRABALHO. III, 2011, João Pessoa, PB.

SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos de economia urbana. 2º ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

SOUZA, D. H. B.; DANTAS, J. C.; MATIAS, T. B. O.; MOREIRA, E. Feira livre e cultura: espaço de resistência ou de subalternidade? In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS, VII, 2014, Vitória/ES.

(**) Crédito da Foto | Quadro produzido por Edmar Fernandes

Diego é mestre em Agronegócio pela Universidade de Brasília (PROPAGA/UnB). Possui graduação em Ciências Econômicas. Atuou como consultor na Representação do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura no Brasil (IICA Brasil) e na Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR); e como assessor da Relatoria Nacional para o Direito Humano à Terra, Território e Alimentação da Plataforma Dhesca Brasil. Desde de 2010 é servidor do Ministério do Desenvolvimento Agrário.