Texto postado em 16/01/17 no site Caipirismo de autoria jornalista Guilherme Mattoso.

O futuro da comida depende da nossa habilidade e vontade de cozinhar. De fato, preparar o próprio alimento traz benefícios não só nutricionais, mas também, em longo prazo, nos faz mais bem informados e engajados sobre a qualidade da comida posta à mesa.

Se nós, enquanto sociedade, queremos um novo modelo de sistema alimentar, não podemos simplesmente conquistá-lo preparando lasanha congelada ou seguindo os passos da dieta da moda, que a cada estação diz o que faz bem para a saúde ou não.

Para mudar o sistema alimentar é preciso cozinhar!

E essa não é uma afirmação exatamente nova. Michael Pollan, Marion Nestlé, Carlo Petrini e muitos outros já vêm falando isso há um bom tempo – e com muito mais propriedade do que este que vos escreve.

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Hoje em dia, se pararmos para pensar, existem poucas coisas que produzimos para consumo próprio. Ouvimos música, mas quantos de nós somos compositores? Compramos roupas, mas não sabemos costurar. Baixamos aplicativos, mas nem sonhamos ser programadores. Com a comida, a coisa é diferente. A curva de aprendizado para fazer aquela comidinha caseira é relativamente fácil e o ganho que temos ao prepará-la é incrivelmente complexo.Quando eu era adolescente, uma das primeiras coisas que aprendi a “fazer” foi macarrão. Naquela época, nem passava pela minha cabeça refletir sobre a origem dos alimentos. Eu jogava o macarrão na panela, alguns minutos depois escorria a água e depois completava com o molho de tomate em lata.

 

De onde vem essa alface? O quanto de floresta foi desmatada para criar o gado que virou esse bife?

Alguns anos depois, eu comecei a ficar mais exigente com o sabor. O molho pronto já não me satisfazia mais. Comecei a pesquisar os tipos de massa e aprendi a fazer meu próprio molho. Me apaixonei pelo mundo fascinante dos azeites e descobri que existem queijos maravilhosos para acompanhar, no lugar daqueles ralados, em saquinho. Esse interesse foi crescendo com o tempo e eu passei a prestar a atenção em tudo o que eu comia – e também pensar em coisas do tipo “de onde vem essa alface?”, “o quanto de floresta foi desmatada para criar o gado que virou esse bife?”…


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Cozinhar faz as pessoas compreenderem a causa e efeito de utilizar este ingrediente no lugar daquele. Isso ajuda você a ter um ponto de vista próprio, além de escolher melhor o que põe na boca. Com o passar do tempo, o paladar vai se aprimorando e ficando mais exigente e aberto. Isso é educação do gosto! Como eu posso apreciar um queijo de sabor incrível, textura cremosa e aroma único se nunca vou além do indefectível queijo minas frescal?

É preciso comer comida de de verdade, experimentar coisas novas, não ficar refém do que a indústria despeja nos supermercados!

E aí, se chega a um ponto onde a consciência começa a nos falar sobre o impacto das escolhas, sobre a conservação da biodiversidade, sobre o caminho que o alimento faz para chegar até nós e sobre como isso se reflete na saúde e no ambiente que nos cerca.

Nos últimos anos, os consumidores no Brasil têm mostrado um perfil de mudança interessante no que diz respeito à alimentação. Nunca se falou tanto em orgânicos, agrotóxicos, transgênicos, comida local… e o que antes era considerado alternativo, hoje, passa a figurar como destaque nas prateleiras das grandes redes. O que pode ser um perigo, pois a indústria alimentar já sacou essa mudança e está trabalhando arduamente para transformá-la em mais um nicho de mercado. Jamie Oliver e Alex Atala que o digam! Mas a mudança está acontecendo…


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Pergunte a alguém que não manja de pintura qual é o melhor tipo de tela para tinta óleo ou acrílica… eu não saberia responder. Como se pode ficar preocupado com a quantidade de agrotóxicos, preferir orgânicos ou priorizar pequenos produtores se você não prepara a sua própria comida?

Nós poderíamos não cozinhar e buscar estas informações de outra forma, mas o que ganhamos deixando algo tão pessoal ser guiado por tabelas nutricionais, lista de ingredientes estranhos e toda uma indústria dizendo o que você deve comer? O simples ato de cozinhar nos leva a uma libertação disso tudo.


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O sistema alimentar é gigantesco e vai além dos nossos pratos, e envolve também desperdício, práticas agrícolas destrutivas, políticas econômicas, monoculturas tanto de alimentos quanto de ideias e por aí vai… Todos estes problemas têm um impacto diário na comida que chega ao nosso prato. Por isso, se não somos capazes de mudar tudo da noite para o dia, nós podemos criar já, no interior das das nossas cozinhas, o sistema alimentar que queremos ver no mundo. A comida precisa ser livre!

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