Diego Donizetti (*)

A palavra “feira”, tem sua origem derivada do latim feria significando dia santo, feriado ou dia de descanso. O aparecimento destes espaços de comercialização está ligado à preocupação dos produtores em vender o excedente da produção, quando passaram a se reunir nas proximidades das igrejas aos domingos para comercializar seus produtos, uma vez que eram os locais que apresentavam o maior fluxo de pessoas.

Em que pese não existir por parte dos historiadores certeza do período exato de surgimento das feiras em nossa sociedade, autores indicam que existem registros de que os povos sumérios já faziam uso desse processo de comercialização em 3.000 a.C., fazendo trocas e barganhas em um local específicos da cidade, em um dia determinado da semana.

As feiras livres, portanto, representam uma das formas mais antigas de comercialização de produtos, especialmente os agrícolas, porém, seu período de maior importância social e econômica se dá a partir da decadência do modo de produção feudal e do renascimento comercial e urbano no século XI, período que coincide com o surgimento dos Estados Nacionais. Nas palavras de Souza com outros autores:

A origem das feiras livres está relacionada ao renascimento das atividades comerciais na Europa durante a transição da Idade Média para a Idade Moderna. No regime feudal a sociedade europeia tinha uma economia de caráter essencialmente agrícola voltada para o autoconsumo. Devido a essa autossuficiência os níveis de relações comerciais estabelecidos no período eram baixos, por isso não havia uma preocupação no sentido da produção de excedentes em grande escala.

Com avanço de técnicas produtivas e a consequente ampliação da produção agrícola começaram a surgir excedentes da produção rural, o que permitiu a expansão comercial e o crescimento das cidades europeias.

No Brasil, a gênese das feiras está relacionada a vinda dos colonizadores portugueses, no entanto, seu desenvolvimento no país não foi imediato, dada a autossuficiência dos engenhos. Marie France Garcia-Parpet revela a importância das feiras na reestruturação do espaço rural e na inserção econômica dos camponeses no mercado, a partir da decadência dos engenhos e da quebra das relações de dominação e dependência tradicionais.

Portanto, as feiras tiveram papel fundamental no processo de urbanização e na estabilização da economia urbana. No entanto, segundo revelam Mascarenhas e Dolzani, a partir dos anos 1970, com decisivo apoio governamental, os estabelecimentos de autosserviço, adaptados ao contexto urbano e ao uso de automóveis na cidade, começaram a se expandir. O resultado foi a formação das grandes cadeias, que dominam hoje completamente o setor de distribuição de alimentos no Brasil.

As feiras, nesse novo contexto, foram consideradas obsoletas e símbolos de precariedade. Acabaram perdendo espaço para os supermercados, que por sua vez ficaram, nas palavras dos autores: “cada vez maiores, mais sortidos, mais seguros, higiênicos e confortáveis, modalidade que cai como uma luva no apressado tempo do indivíduo de nossa época”. No entanto, o supracitado avanço dos supermercados não significou o fim das feiras populares, uma vez que as encontramos em praticamente todas as cidades brasileiras. A resistência deste tipo de espaço de comercialização nos ambientes cada vez mais urbanos, segundo os autores, transformam a feira na “filha rebelde da modernidade, que insiste em desafiá-la”.

Atualmente, os mercados periódicos, com pequena ou grande dimensão, organizam-se nas ruas e praças, onde feirantes expõem diversos tipos de produtos, desde aqueles confeccionados com técnicas inovadoras até as mercadorias produzidas nos moldes mais rudimentares. Nestes espaços são desenvolvidas relações comerciais, permitindo a negociação de produtos da agricultura, da pecuária, do artesanato e da indústria.

Portanto, considerando o fato de que a dinâmica econômica levou ao avanço da oferta de outros produtos e a um processo de secundarizarão da comercialização de alimentos nestes espaços1, ainda é possível identificar em um grande número de cidades do Brasil consumidores que continuam comprando parte considerável de seus alimentos nas feiras.

Torna-se, portanto, importante buscar entender quais fatores influenciam nessa chamada resistência das feiras populares e, em especial, da manutenção do consumo de alimentos adquiridos nestes espaços.

Para além das facilidades oferecidas nos hipermercados, o que poupa o tempo cada vez mais escasso das pessoas, é comum encontrar questionamentos referentes a qualidade dos produtos comercializados nas feiras populares. No entanto, a percepção de qualidade que permeia a decisão de consumo muitas vezes difere das normas fitossanitárias definidas pelos agentes públicos.

Podemos usar o conceito de habitus, elaborado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu com o objetivo de explicar porque as pessoas fazem certas coisas e não outras, e porque fazem de uma determinada maneira e não de maneira diferente, para buscar explicar a escolha das pessoas pelo consumo de seus alimentos nas feiras.

Nos últimos anos foram realizados vários estudos com foco nas feiras populares, buscando explicar as razões de sua resistência, ou seja, buscando entender porque algumas pessoas preferem consumir nestes espaços a consumir em um hipermercado, por exemplo.

Muitos destes estudos identificaram que a motivação da compra na feira não é simplesmente o fator econômico, ou seja, não é apenas uma questão relacionada ao preço dos produtos. Isso significa dizer que, em que pese as feiras populares integrarem o circuito inferior de consumo urbano, conforme definido por Nilton Santos, parte dos consumidores entrevistados nestes estudos apresentam alto poder aquisitivo.

Alguns outros fatores apontados por estes estudos que indicam este habitus de consumir os produtos alimentícios ofertados na feira são:

  • Tradição: a maioria dos consumidores entrevistados consome alimentos na feira há mais de 10 anos, sendo que boa parte desde que a feira foi criada.
  • Hereditariedade: vários consumidores afirmaram que iam quando criança com a mãe ou o pai na feira e que agora compram também lá;
  • Qualidade dos produtos: a maioria dos consumidores demonstram a percepção de que as frutas, verduras e legumes comercializados na feira são de excelente qualidade e são frescos.
  • Ponto de encontro: Muitos consumidores afirmam fazer parte de suas rotinas ir no dia de funcionamento “fazer a feira”, encontrar amigos, conversar, etc.
  • Resgate cultural: Muitos consumidores são atraídos as feiras, porque parte destas ainda apresentam a comercialização de comidas típicas e apresentações de artistas regionais, especialmente na região Nordeste.

Foi possível a partir das informações coletadas nestes estudos, portanto, perceber que a qualidade, assim como consumo, é construída socialmente, por meio das perspectivas históricas e culturais das pessoas envolvidas na reprodução social da feira.

A construção social do consumo está relacionada com a construção social dos atributos ou dos sinais da qualidade percebidos por aqueles que compram na feira. Apesar de, em algumas feiras, não apresentarem técnicas de armazenagem adequadas para assegurar a qualidade dos alimentos, segundo as normas sanitárias vigentes, os produtos vendidos na feira têm sua qualidade legitimada pelos consumidores, que percebem serem eles confiáveis. Isto evidencia que nem sempre as normas sanitárias são eficientes e devem ser aplicadas a todos da mesma maneira, ou seja, são as pessoas que histórica e socialmente veem e constroem seus próprios atributos de qualidade.

Por meio da análise dos estudos realizados é possível perceber que de fato existe um habitus que possibilita a permanência das feiras nas cidades e que esta escolha dos consumidores em comprar os alimentos nestes espaços é baseada também em fatores culturais e simbólicos, além de econômicos.

Podemos, portanto, afirmar que as feiras populares possuem forte relevância também nos hábitos alimentares das famílias brasileiras, para além de seu papel fundamental na história diante do crescente processo de urbanização e de sua importância econômica e social, uma vez que cria condições para que parte da população pobre tenha acesso aos alimentos e permite o acesso de agricultores familiares ao mercado.

1 Para entender o avanço de produtos industrializados nas feiras, como CD’s e DVD’s piratas, brinquedos, roupas, eletrônicos importados, alimentos enlatados etc, sugiro a leitura do artigo “Feiras Livres: Dinâmicas Espaciais e Relações de Consumo” de Maria Regiane da Costa e Dionys Morais dos Santos publicado na Geosaberes, Fortaleza, v. 6, número especial (3), p. 653, Fevereiro. 2016.

Referências utilizadas pelo autor:

COSTA. M. R.; SANTOS, D. M. Feiras Livres: dinâmicas espaciais e relações de consumo. Revista Eletrônica Geosaberes, v. 6, número especial (3), Fevereiro/2016, UFC p.653-665.

GARCIA-PARPET, M, F. O Segundo sexo do comércio: Camponesas e negócio no Nordeste do Brasil. ANPOCS. 2008a. Disponível em: http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_19/rbcs19_08.htm Acesso em 10 de setembro de 2009.

MASCARENHAS, G; DOLZANI, M.C.S. Feira livre: territorialidade popular e cultura na metrópole contemporânea. Revista Eletrônica Ateliê Geográfico, v. 2, n. 4, agosto/2008, UFG/IESA p.72-87.

SALES, A. P.; REZENDE, L. T.; SETTE, R. S. Negócio Feira Livre: um estudo em um município de Minas Gerais. In: ENCONTRO DE GESTÃO DE PESSOAS E RELAÇÕES DE TRABALHO. III, 2011, João Pessoa, PB.

SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos de economia urbana. 2º ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

SOUZA, D. H. B.; DANTAS, J. C.; MATIAS, T. B. O.; MOREIRA, E. Feira livre e cultura: espaço de resistência ou de subalternidade? In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEÓGRAFOS, VII, 2014, Vitória/ES.

(**) Crédito da Foto | Quadro produzido por Edmar Fernandes

Diego é mestre em Agronegócio pela Universidade de Brasília (PROPAGA/UnB). Possui graduação em Ciências Econômicas. Atuou como consultor na Representação do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura no Brasil (IICA Brasil) e na Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR); e como assessor da Relatoria Nacional para o Direito Humano à Terra, Território e Alimentação da Plataforma Dhesca Brasil. Desde de 2010 é servidor do Ministério do Desenvolvimento Agrário.