Feiras Permanentes: espaços de formação do gosto e comensalidade no Distrito Federal

Feiras Permanentes: espaços de formação do gosto e comensalidade no Distrito Federal

Denise Oliveira e Silva

As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam produtos e receitas da culinária tradicional brasileira, sendo fontes regionais e espaços turísticos que contribuem para o fortalecimento do patrimônio alimentar brasileiro. Da mudança da capital, do Rio de Janeiro para Brasília, até os dias atuais, o Distrito Federal/DF vem adquirindo características de metrópole, com prestígio político, artístico, cultural e econômico, variada gastronomia e intensa diversidade étnica. Por aqui, são identificadas feiras populares, espaços que se desenvolveram pela influência da migração de grupos populacionais que expressam a diáspora nordestina, que atraem até hoje migrantes em busca de trabalho e melhores condições de vida.

Popularmente conhecidos como candangos, ao trazerem sua força de trabalho para a capital brasileira, trouxeram também sua cultura, expressão da mistura de práticas indígenas, africanas e europeias e criaram as feiras como estratégia de sustentação comercial para as práticas gastronômicas mais plurais e de representação de foco de resistência cultural.

O fato de os primeiros migrantes que aqui chegaram, em 1957, para a construção da cidade serem provenientes de vários pontos da região nordeste, do sertão e do litoral, assim como dos estados limítrofes, Minas Gerais e Goiás, criou condições específicas para a transmissão e reinvenção de várias tradições populares, como festas juninas, embates de cordelistas, festejos, religiosos e populares, tradições das quais aqueles trabalhadores eram os portadores e tratavam de perpetuar. 

(Madeira, 2007, pag. 27).

Como feiras populares destacam-se no DF, segundo a Lei Nº 4.748 de 02 de fevereiro de 2012, as feiras livres, locais onde existe “a venda, exclusivamente a varejo, de produtos hortifrutigranjeiros, cereais, doces, laticínios, pescados, flores, plantas ornamentais, produtos de artesanato, lanches, caldo de cana, temperos, raízes, carnes e aves abatidas, resfriadas ou congeladas, confecções, tecidos, armarinhos, calçados e bolsas, bijuterias, artigos religiosos, ferramentas e utensílios domésticos, produtos da lavoura e indústria rural, e outros que possam vir a ser aprovados pelo órgão competente”. E as feiras permanentes, onde se “realizam atividades mercantis de caráter constante realizada em logradouro público destinado para esse fim, com instalações comerciais fixas e edificadas para comercialização dos produtos referidos para as feiras livres e produtos de bazar e agropecuários, refeições típicas regionais, jornais, revistas, além de prestação de pequenos serviços, na forma do regulamento”.

O DF é formado por 19 regiões administrativas. Brasília foi concebida como Plano Piloto, formada pelas Asa Sul e Asa Norte e o Eixo Central e localidades periféricas onde estão as demais regiões administrativas, historicamente denominadas de “Cidades Satélites” localizadas entre seis e 60 km do Plano Piloto, sendo elas: Brazlândia, Candangolândia, Ceilândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Lago Norte, Lago Sul, Núcleo Bandeirante, Paranoá, Planaltina, Recanto das Emas, Riacho Fundo I e II, Samambaia Santa Maria, São Sebastião Sobradinho, Taguatinga.

As “Feiras Permanentes” existem somente fora do Plano Piloto e dos Lagos Sul e Norte, sendo identificadas atualmente cerca de 75 feiras em funcionamento. As mais famosas são as feiras do Núcleo Bandeirantes (a mais antiga, criada em 1959) seguida da Feira do Cruzeiro (1962), a Feira Central de Ceilândia (1967) e a Feira do Guará (1969).

Estas feiras se constituem do mesmo modelo de feiras nordestinas. Não são itinerantes e se constituíram com a realização do comércio e manifestações culturais variadas. A infraestrutura dessas feiras é bem diversa. Em geral, são construções de alvenaria com espaços caracterizados para a venda de produtos alimentícios frescos, animais vivos, temperos, e espaços de comensalidade para a venda de preparações culinárias de origem do sertão nordestino, em sua maioria.

Desde 2012, a Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, por meio do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares, tem realizado pesquisas etnográficas para compreender a influência destas feiras na formação de hábitos alimentares e na preservação de patrimônios alimentares materiais(alimentos) e imateriais(culinária) brasileiros.

Variedade e tradição no circuito de compra

Os produtos alimentícios mais vendidos são os legumes, hortaliças e frutas frescos em geral oriundo do entreposto CEASA do DF. Observa-se a presença de alguns gêneros de produtores locais. O crescimento do comércio de produtos orgânicos ainda é pouco frequente, porque cresce na cidade as feiras que vendem estes produtos, principalmente localizadas no Plano Piloto.

Os produtos alimentícios vendidos nas feiras são em sua maioria aqueles que não são vendidos nas redes de supermercados. A busca pelos diversos tipos de feijões, farinhas e seus animais vivos como galinhas caipiras, bodes e peixes, e os temperos típicos do nordeste são os aspectos identitários dos produtos alimentícios vendidos nestas feiras. Os produtos são apresentados em sacos dos quais o comprador pode estabelecer a quantidade que precisa. A linguagem comum na mensuração da compra do produto, não usa o quilo, a grama. São usadas outras linguagens:

“uma mão de farinha(…) um copo de feijão(…), moço é o que eu preciso! 

(Cliente do sexo masculino 42 anos, Feira do Guará, 2016)

É importante destacar como fator identitário, o papel destas feiras do DF em ofertar a variedade de três produtos emblemáticos da culinária brasileira: as farinhas de mandiocas e seus os feijões e os temperos secos e frescos.

Para feirantes e clientes, estes produtos não são encontrados com tanta variedade nas redes de supermercados. Segundo relatos, são nestas feiras que é possível adquirir um feijão verde e de corda segundo as tradições do sertão nordestino.

As farinhas em suas diversas características de torrefação, sendo amarela, ou branca, torrada à moda pernambucana ou à baiana, a farinha de milho em várias opções são os patrimônios alimentares presentes nestas feiras. Destacam-se ainda os queijos de forte influência nordestina como o queijo de coalho e a manteiga de garrafa. Os temperos são categorizados como frescos, entre os quais a vinagreira e outros específicos para preparações culinárias são ofertados para a compra, e também os temperos secos, que em geral são vendidos em pó, como açafrão da terra, cúrcuma, cominho, pimenta e etc.

Embora a presença de algumas ervas sobretudo para utilização terapêutica possam ser consideradas em seus limites como alimentos, nestas feiras a presença de barracas de “erveiros” é outro circuito de compra. Os responsáveis pela venda destes produtos em geral são mulheres que revelam preocupação com a perda desta memória em função do pouco interesse dos jovens e o crescimento da indústria de fármacos.

Conversas de feira

Nestas feiras, o diálogo é sobre o comer e celebrar as memórias ditas e não ditas, com nossa verdadeira identidade, da qual o corpo físico, nossas emoções, nossa cultura e nossa espiritualidade são apresentados de forma conjunta para explicar o que é adequado e saudável em nossa alimentação.

“(…) eu aqui converso com meus clientes que gostam da comida que eu vendo(…) eu não sei dividir o que é adequado e saudável como a senhora me pergunta(…) na comida isto não é assim(…)” 

(Feirante do sexo feminino 53 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

(…) eu venho aqui uma vez por semana, todo sábado com meu marido(…) eu faço a dieta do saudável durante a semana(…) mas eu vejo que esta comida é tão saudável como a nutricionista manda eu fazer(…) não tem esta conversa que tem muita gordura não(…) eu acho que estes médicos precisam conhecer mais estas comidas caseiras, eles não conhecem, tem preconceito e não sabem nos ajudar(…) O problema é que médico não sabe cozinhar. Não conhecem comida e compram tudo congelado, come na rua e desconfio que entram na cozinha para beber água e café, gosta mesmo é de restaurantes(…)  minha mãe lá do nordeste comia estas comidas, não todo dia; tinha buchada, mas quando tinha a gordura era pouca e o sal também(…) o que será que houve com a nossa comida? Vocês poderiam me explicar? De uma hora para outra o médico diz que não pode, e manda a gente comer muito legume, mas não liga para os venenos dos agrotóxicos neles? Esta história do que pode e não pode comer está muito esquisita nos dias de hoje(…) Eu vou continuar vindo aqui, porque eu esqueço destes medos do que escuto e vejo hoje em dia sobre alimentação. ´Vocês estão comendo o mesmo que eu,e eu sei que vocês são da saúde. Então eu acho que estamos de acordo, não é?” 

(Cliente do sexo feminino, 41 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

Nas feiras, tanto o comprar como o comer nos revelam. Quando comemos não podemos nos esconder, mesmos que tenhamos que seguir processos civilizatórios de etiqueta, porque a chance de esquecer rebeldemente disso tudo e celebramos no agora o que somos e vivemos. É isto que a feira aguça quando chegamos nela. Não são corredores com iluminação e sinalizações apropriadas e etiquetados, com latas e vasilhames coloridos e com letras estimulantes. Quando vamos à feira, vemos os alimentos sem maquiagem comercial.  Talvez seja isto que buscamos quando vamos a uma feira.

(…) é tudo tão arrumadinho nos supermercados, que se você deixar uma lata cair, parece que o mundo acabou(…)  a gente compra sem saber o que tem, tá tudo em lata e pacote(…) somente o prazo de validade não é suficiente para sabermos se o alimento é bom(…) aqui eu pego e cheiro os produtos(…) nos supermercados  os trabalhadores arrumam lata e pacote(…)aqui na feira eu vejo tudinho, nada tá escondido(..) nos supermercados os funcionários  não conversam com você  e se conversar o gerente chama atenção(…) aqui o feirante te dá receitas(…) no supermercado  eu sou obrigada a comprar na quantidade que eles querem;(…) há eu não gosto não. Eu só vou lá porque os danados ficam nos caminhos de casa(…) nesta vida de correria eles estão abertos em horários que as feiras não estão(…) aqui não dá para vir correndo, é por isto que eles se dão bem em cima da gente (…) isto que eu acho, vir aqui é com calma, dá para conversar, pensar melhor no que vamos comer(…) os supermercados ganham das feiras porque eles tão ali para atender a correria da vida; para vender coisas rápidas e fazer a gente comer sem pensar, e pior pagar mais caro!(…)” 

(Cliente, sexo feminino, 55 anos, Feira do Guará, 2016)

Herança cultural de fartura e público das feiras

Os resultados têm apontado circuitos de circulação de pessoas segundo o gênero. As mulheres estão mais presentes nos locais onde se vendem legumes, verduras, frutas e roupas. Os homens estão nos locais onde se vendem carnes animais e nos bares. O horário de funcionamento é variado, sendo durante a semana a presença de feirantes que vendem legumes, frutas e verduras e as barracas de venda de roupas, com maioria de presença feminina tanto de feirantes como de clientes. O final de semana, sábado e domingo, tem maior frequência de feirantes e clientes com a presença de famílias, principalmente de idosos.

Dentre os pratos nordestinos comercializados destaca-se o baião de dois, a buchada de bode, a tapioca, o mocotó, a carne de sol, o sarapatel etc. Os resultados da pesquisa tem revelado que as preparações culinárias em sua essência representam fartura e comensalidade:

(…) eu venho aqui porque moro sozinho e não dá para fazer uma buchada ou um sarapatel para eu comer sozinho(…) estas comidas foram feitas para dar de comer a muita gente(…) eu acho que isto é o problema de hoje em dia: a comida é para mais de um comer(…) na vida de agora comer sozinho é que dá doença(…) chegar em casa não dá vontade de mexer com panelas, o bom é fazer um arroz  para comer com outra pessoa(…) comida não foi pensada para alimentar um ser vivente, eu não sei quem inventou isto; por isto é que estamos lascados; esta história de uma colher de sopa; uma conchinha de não sei o que dos médicos , não é coisa de gente não(…)” 

(Cliente, do sexo masculino, 53 anos)

A nossa herança cultural de fartura vem da relação que tivemos com a natureza: ela oferta amorosamente e consumimos aquilo que necessitamos sem desperdício por que compartilhamos nossa comensalidade. E, de fato, nossa origem humana e ancestral é de comer juntos! Para isto, os saberes gastronômicos podem ser considerados fundamentais na formação dos hábitos alimentares pelo seu papel de agente ativo da memória histórica individual e coletiva. As memórias constituem permanências, transformações, em caráter local ou em escala global. Podem ser transmitidas subjetivamente, tanto por indivíduos ou por instituições. As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam receitas da culinária tradicional brasileira. São fontes regionais, ademais, são espaços de convivência. Neste sentido, estas feiras são matrizes migratórias da culinária ali encontrada como espaços de memórias gustativas e afetivas, como podemos ver pela história desta senhora feirante que está na feira da Ceilândia a mais de 20 anos:

“ (…) aqui eu comecei com o Caldinho de Mocotó que nunca pode faltar(…) depois foi crescendo ali e acolá outras comidas, o baião de dois, o sarapatel, a galinha caipira a buchada de bode(…) as pessoas vem aqui para provar do meu tempero destas comidas porque lembra muito da mãe, da avó, da família(…) às vezes eu vejo marmanjo homem comendo e chorando quando coloca um garfo de comida na boca(…) ah,  eu digo a ele, “bichinho tu quer mais”(…) ele nem fala, mas o choro diz que sim, ah,  eu ponho mais e não cobro mais nada(…)”

A experiência de realizar pesquisas sobre hábitos alimentares nas feiras aponta a importância destes locais para o exercício de compreensão da alimentação humana. São locais onde a visibilidade da gastronomia típica comercializada permite compreender os processos de migração gastronômica de uma região para outra, e revelam a importância de ações de preservação de bens imateriais. A preservação da gastronomia de uma região sustenta a vida comunitária. Ela constitui patrimônio cultural por possuir “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – juntamente com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares que lhes são associados” – típicas de uma sociedade que se diferencia de obras arquitetônicas, monumentos, sítios e paisagens, por serem considerados um bem intangível. Uma vez garantida a preservação de receitas e rituais alimentares, todos os atores sociais envolvidos poderão manter seus ganhos diretos e indiretos. Cabe ressaltar a importância da promoção de políticas públicas visando o desenvolvimento do Patrimônio Cultural Imaterial, em relação à gastronomia, alimentação e comensalidade e o incentivo às culturas tradicionais e regionais. No Brasil, micro espaços geográficos que vivenciam impasses da preservação dos patrimônios culturais imateriais de caráter gastronômico popular são temas de reflexão. As feiras podem ser entendidas enquanto um foco de resistência gastronômica, cabendo ações de valorização como patrimônio imaterial de hábitos alimentares e comensalidade. É um espaço que oportuniza a disponibilidade de receitas populares, bem como oferece os ingredientes necessários para a feitura de especialidades que necessitam de produtos específicos.

Temos aprendido com os feirantes e os clientes destas feiras novos significados sobre o comer. Principalmente linguagens que agregam dimensões biológicas e simbólicas-culturais tão importantes para o sucesso da promoção da alimentação adequada e saudável.

Vamos às feiras!

 

Referência citada: Madeira, Angélica Mariza Veloso. A cidade e suas feiras. Um estudo sobre as feiras permanentes de Brasília. Brasilia: DF: IPHAN/15ª Superintendência Regional, 2007.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).

NOTA ABRASCO ‘Para enfrentar a obesidade é necessário fazer muito mais que descascar alimentos in natura’

NOTA ABRASCO ‘Para enfrentar a obesidade é necessário fazer muito mais que descascar alimentos in natura’

Nota emitida pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO -, no dia 17 de março de 2017. Link original aqui.

No dia 14 de março, o Ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirmou que, para enfrentar a obesidade infantil, é preciso “ensinar a população de novo a descascar mais e desembalar menos”. Ainda que a afirmação seja pertinente, trata-se de apenas uma entre as inúmeras ações necessárias para enfrentar, de maneira efetiva, o problema, que exige uma abordagem coletiva e estrutural, e não apenas focada nos indivíduos. Nós pesquisadores, militantes, professores e ativistas defensores do direito humano à alimentação adequada e saudável vimos a público repudiar afirmações como esta que reduzem a relevância deste tema na agenda da alimentação e nutrição em saúde coletiva. Afirmações descontextualizadas podem soar negativamente no contexto das ações de emancipação feminina, as quais precisam ser fortalecidas frente ao cenário político atual de ataques aos direitos sociais. O papel das mulheres frente à preparação de refeições, historicamente relacionado à cozinha e à organização das tarefas domésticas, precisa ser discutido e problematizado a fim de se romper com a divisão sexual do trabalho e criar uma divisão social e/ou familiar colaborativa e compartilhada. É preciso ressignificar as práticas alimentares e a alimentação como um fenômeno social, estimulando que a preparação e o compartilhamento de refeições sejam reincorporados ao cotidiano das pessoas, mas não delegando esta função exclusivamente às mulheres. Se, por um lado, novas práticas alimentares podem ser assumidas pela população, por outro há processos que cabem fundamentalmente ao governo, que é responsável por implementar ações que fogem ao escopo de atuação dos indivíduos, especialmente aquelas que visam regular as práticas do setor privado comercial que são contrárias à saúde da  população, e induzir processos que facilitem as escolhas alimentares saudáveis. Portanto, é preciso (e urgente) avançar em medidas intersetoriais, de cunho estrutural, que incidam sobre o sistema alimentar em favor da saúde e do direito humano à alimentação adequada.

De 14 a 16 de março, o Brasil sedia o Encontro Regional para o Enfrentamento da Obesidade Infantil, na sede da Organização Panamericana da Saúde, em Brasília. Na solenidade de abertura do evento, foi abordada a importância do resgate da culinária tradicional e da socialização, por meio de refeições preparadas com alimentos in natura ou minimamente processados. A população urbana e, sobretudo, as crianças que têm pouco ou nenhum contato com o Brasil rural, desconhecem a origem dos alimentos que consomem, já que os encontram embalados, empacotados, congelados, preparados e ultraprocessados nos supermercados ou nas redes de lanches rápidos.

São alarmantes as informações disponíveis sobre a qualidade da alimentação infantil no Brasil. Desde tenra idade, as crianças recebem, rotineiramente, alimentos não saudáveis como refrigerantes, biscoitos recheados, macarrão instantâneo. Além de gerar excesso de peso, o consumo cotidiano deste tipo de produto eleva a ingestão de sal, açúcar e gorduras para além dos limites seguros.  Em decorrência desses hábitos, convivemos com o aumento acelerado e preocupante de excesso de peso entre crianças. Por esse motivo, é urgente e inadiável que o enfrentamento da obesidade na infância receba prioridade na agenda das políticas públicas. O excesso de peso que se instala na infância torna-se mais difícil de tratar na idade adulta.

O desafio de enfrentamento da obesidade tem sido reconhecido em nosso País. Para tanto, registram-se importantes iniciativas setoriais ou intersetoriais como: o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis no Brasil (2011-2022), a Estratégia Intersetorial de Prevenção e Controle da Obesidade (publicada em 2014), o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PLANSAN) 2016-2019; além de estratégias de promoção do aleitamento materno e da alimentação complementar saudável, que podem e devem ser intensificadas e ampliadas. Some-se a isso o fato de que o Brasil firmou acordos internacionais voltados à redução da obesidade, como é o caso do Plano de Ação para Prevenção da Obesidade na Infância e Adolescência (OPS/OMS, 2014), no qual são apresentadas estratégias muito claras de enfrentamento desse problema. Urge, agora, colocar essas estratégias em andamento.

Os determinantes estruturais da obesidade

Na análise deste problema, cada vez mais comum e com o qual praticamente todos convivem, direta ou indiretamente, é fundamental superar o senso comum, que se volta a responsabilizar o indivíduo pelo mal do qual padece. São recorrentes reportagens e pronunciamentos culpabilizando famílias, indivíduos e, em especial, as mães, pelo atual padrão alimentar das crianças e, portanto, pelo aumento dos casos de obesidade na infância. Acumulam-se evidências, de estudos internacionais e nacionais, demonstrando que a autonomia dos indivíduos em relação às suas escolhas alimentares é relativa e determinada por suas condições de vida e pelas características dos ambientes em que vivem (território onde moram, locais onde trabalham, fazem suas compras e estudam). A abordagem que transfere a responsabilidade do atual cenário para as famílias, e que indica como solução prioritária, se não exclusiva, a informação e a educação, só interessa a quem não quer enfrentar os determinantes estruturais da obesidade, que são complexos, envolvem interesses de grandes e poderosos grupos econômicos e requerem políticas públicas robustas e amplas. Entre estes determinantes destacamos:

  • O sistema alimentar hegemônico em nosso País baseia-se em processos produtivos insustentáveis (dos pontos de vista ambiental, social e econômico) e no uso intensivo de agrotóxicos, além de concentrar fluxos produtivos e comerciais em grandes corporações transnacionais, como as de insumos e sementes, as indústrias de alimentos e as mega redes varejistas. Um sistema com tais características favorece o consumo de alimentos ultraprocessados e dificulta o acesso (em termos de oferta e de preço) a alimentos in natura ou minimamente processados;
  • Os ambientes alimentares também favorecem a obesidade.  No caso das crianças, destacam-se as cantinas escolares que praticamente só comercializam lanches não saudáveis. Outro exemplo são as gôndolas de supermercados e lojas de conveniência, organizadas de forma que produtos ultraprocessados fiquem à altura dos olhos desses consumidores. Também contribuem para a obesidade os rótulos dos alimentos ultraprocessados, que não informam claramente as características do produto, confundindo o consumidor, e induzem sua compra via artifícios como cores e formatos das embalagens e, também, uso de imagens de celebridades ou personagens infantis;
  • Ainda em relação ao ambiente, merecem destaque a publicidade dirigida ao público infantil e a publicidade de alimentos com altos teores de gordura, açúcar e sal e, também, outras estratégias mercadológicas (além daquelas utilizadas no rótulo dos produtos), muitas vezes abusivas e/ou enganosas, que valorizam o consumismo e induzem o consumo de produtos alimentícios ultraprocessados. É o caso, por exemplo, da venda casada: brindes (geralmente brinquedos) associados a alimentos que são comercializados em supermercados e nas redes de lanches rápidos;
  • Outro aspecto importante do ambiente são as condições de insegurança frente à violência, a mobilidade urbana deficiente e a carência de espaços públicos adequados e seguros para a prática cotidiana de atividade física. Até há relativamente pouco tempo, a maioria das crianças brasileiras brincava nas ruas e nas praças e fazia sozinha, a pé, o trajeto casa–escola desde tenra idade, em segurança.
  • A abordagem limitada e insuficiente de temas relacionados à alimentação na formação: em geral escolas e livros escolares ainda abordam a alimentação sob o do ponto de vista estritamente biológico, que reduz a compreensão do alimento à sua composição nutricional, um conteúdo desprovido da sua importância na vida cotidiana das pessoas e que não enfoca a alimentação como prática social. Portanto, a educação tem um papel valioso no processo de prevenção e controle da obesidade, mas enquanto instrumento de geração de consciência critica sobre as práticas alimentares e sobre os processos sociais, econômicos e políticos que as influenciam, e não para informar o que cada indivíduo pode ou não pode fazer em relação à sua alimentação.
  • A limitada visão biológica da alimentação que a ignora enquanto um fenômeno social que desempenha funções fundamentais e inerentes à organização da vida em sociedade por meio da comensalidade, subjetividade do corpo, atitudes, significados, aspectos simbólicos e práticas relacionadas à comida, percepção e influência dos afetos nas escolhas alimentares, transtornos de saciedade e privação alimentar, patrimônio alimentar etc. Há um universo de dimensões que compõem o ato alimentar profundamente negligenciado na abordagem nutricional em saúde.
  • A questão de gênero na partilha dos afazeres domésticos: por exemplo, a entrada da mulher no mercado de trabalho não foi acompanhada de uma redefinição das responsabilidades em relação a esses afazeres, levando a uma grande sobrecarga de trabalho para ela. Assim, ao contrário do que recorrentemente se divulga, não é a presença legítima da mulher no mercado de trabalho, ou em qualquer outro espaço social, que levou à piora da alimentação das famílias. É, sim, a concentração da responsabilidade do cuidado das famílias e das crianças sobre a mulher que continua gerando duplas e até triplas jornadas de trabalho. A resistência de um padrão cultural desigual repercute na vida de todas e todos.

Além desses fatores, há ainda aqueles cujos mecanismos precisam ser mais bem elucidados, como é o caso da atuação de agrotóxicos (muitos deles são disruptores endócrinos) e de antibióticos presentes nos alimentos (estes últimos alteram o equilíbrio da flora intestinal, levando a processos inflamatórios que podem contribuir com a ocorrência da obesidade).

Metas e estratégias para o enfrentamento da obesidade

As metas brasileiras em relação ao enfrentamento da obesidade, que foram apresentadas pelo Ministério da Saúde na abertura do evento, referem-se a toda a população brasileira e foram pactuadas por diferentes setores do governo federal, no âmbito da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional, quando da elaboração do PLANSAN 2016-2019. São elas:

  • Deter o crescimento da obesidade na população adulta;
  • Reduzir em pelo menos 30% o consumo regular de refrigerante e suco artificial (de 20,8% para 14% ou menos da população; e
  • Ampliar em no mínimo 17,8% (de 36,5 para 43%) o percentual de adultos que consomem frutas e hortaliças regularmente.

O PLANSAN 2016-2019 prevê a expansão das ações de atenção à saúde, principalmente atenção básica, além das ações de caráter educativo. O Plano prevê, também, inúmeras medidas que demandam que o Ministério da Saúde dialogue com os demais Ministérios e setores que desenvolvem ações que podem afetar o sistema alimentar como um todo (produção – comercialização – abastecimento – consumo). Urge a decisão de as implementar, favorecendo a ampliação da produção de alimentos saudáveis e seguros e da rede de mercados locais.

A experiência acumulada mundialmente e as evidências científicas produzidas em diversos países apontam como ações estratégicas e efetivas:

  • o fortalecimento de sistemas alimentares que garantam a produção e o acesso a alimentos saudáveis, produzidos de maneira sustentável ambiental, social e economicamente e acessíveis física e financeiramente;
  • a regulação de toda publicidade dirigida ao público infantil e da publicidade de alimentos ricos em açúcar, gordura e sal;
  • a melhoria da rotulagem dos alimentos de forma a facilitar a compreensão do produto pelo consumidor e influenciar sua decisão de compra, como incluir símbolos que resumam a informação nutricional sobre o produto (a exemplo do que vem fazendo o Chile);
  • medidas fiscais que desencorajem a aquisição de produtos alimentícios não saudáveis, como refrigerantes (a exemplo do que vem sendo feito no México) e que facilitem a aquisição dos alimentos saudáveis;
  • a promoção de ambientes alimentares saudáveis, com destaque, no caso de crianças, para o ambiente escolar (regulação da venda e propaganda de alimentos nas escolas, fornecimento de refeições saudáveis, desenvolvimento de estratégias efetivas de Educação Alimentar e Nutricional);
  • a promoção do aleitamento materno e da alimentação complementar saudável;
  • o desenvolvimento de abordagens de Educação Alimentar e Nutricional que contribuam para a autonomia das pessoas, para que a alimentação ganhe novo sentido no seu dia a dia e possa ser fonte de prazer, saúde, sociabilidade, para o resgate da culinária e da comensalidade (comer e beber juntos, socializar por meio da comida), para a valorização do tempo dedicado à alimentação (incluindo compra dos alimentos e preparo das refeições de forma partilhada entre crianças e adultos – homens e mulheres), e possibilidade de efetivamente desfrutar desse tempo como uma atitude de cuidado consigo e com o outro.

Lições aprendidas

Há experiências valorosas no enfrentamento da obesidade e, no decorrer do dia 15/3, os diversos países presentes no Encontro Regional foram enfáticos em relação às seguintes mensagens:

  • o elemento propulsor central das experiências bem sucedidas foi a vontade política dos tomadores de decisão;
  • a intersetorialidade é imprescindível: os grandes avanços ocorreram quando os compromissos foram além do setor saúde;
  • a grande barreira a ser superada é a resistência dos setores econômicos envolvidos (por exemplo, indústrias de alimentos não saudáveis e a mídia) e de membros do poder público ligados a estes setores econômicos; e
  • as intervenções devem ser baseadas nas melhores evidências disponíveis e devem, por sua vez, ser monitoradas e ter seu impacto mensurado.

Por fim, cabe dizer que não há cumprimento de metas sem processo. A Abrasco entende que, para um avanço efetivo no enfrentamento da obesidade (incluindo a obesidade na infância) no Brasil, é necessário, por um lado, definir claramente objetivos e ações que concretizem as metas estabelecidas, com alocação de orçamento específico; e, por outro, definir mecanismos que garantam a transparência e a participação da sociedade, e que protejam as políticas públicas da interferência de interesses comer­ciais contrários à saúde da população. Além disso, é necessário implementar o que já está decidido, considerando o acúmulo das proposições existentes.

Associação Brasileira de Saúde Coletiva

Brasil, 17 de março de 2017

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.

Prato do Dia #1: A carne é fraca e os alimentos não são mercadorias

Prato do Dia #1: A carne é fraca e os alimentos não são mercadorias

Artigo escrito por Valéria Burity e Lucas Prates, – secretária geral e assessor de Direitos Humanos da FIAN Brasil.

A Operação “Carne Fraca” da Polícia Federal traz para o debate público as práticas das grandes empresas do agronegócio, como a JBS e a BRF, no ramo da alimentação. Independente das críticas que a operação vem sofrendo, especialmente por parte do governo, os fatos já demonstram como as grandes empresas podem gerar violações de direitos em todas as etapas do processo alimentar, isto é, desde  a produção de alimentos até o seu aproveitamento, depois do seu consumo por seres humanos.

Em primeiro lugar é importante apontar a pequena capacidade do Estado em fazer frente de maneira efetiva a todas as irregularidades que acabam sendo servidas como violações de direitos no prato de cada um de nós: soja no lugar de frango, soda cáustica no leite, carne apodrecida, agrotóxicos não permitidos ou usados além do permitido, e por aí vai – o cardápio é extenso. Sem ações reguladoras efetivas, não há garantia do direito à alimentação e nutrição para a população.

A mídia acaba tratando o assunto de maneira, no mínimo, curiosa. Em agosto de 2016, foi lançado o PlanoAgro+ pelo Governo Federal, o qual conta com 69 medidas imediatas (de quase 300 previstas) de redução da fiscalização sanitária – isto é, são medidas afetas à saúde pública, adotadas por Blairo Maggi, Ministro da Agricultura, sob o pretexto de que cabe ao mercado punir quem não produz como se deve. A mesma mídia que divulgou com cara de nojo a operação policial a “Carne é Fraca”, festejou o PlanoAgro+ como uma medida de desburocratização do agronegócio, sem falar da importância das medidas de regulação da produção e consumo de alimentos para a saúde pública. Muito barulho, pouca informação.

Com relação à comercialização de alimentos, é também importante registrar que, se de um lado existe uma liberalização de regras para o agronegócio, de outro existe imposição de exigências de produção e comercialização que afetam, principalmente, a agricultura familiar e camponesa, incluindo a perseguição e criminalização de mecanismos tradicionais de intercâmbio não mediados pelas leis do mercado – a exemplo das feiras de rua e da produção artesanal de alimentos. Neste contexto, torna-se ainda mais grave a injustiça percebida na diferença de apoio dado pelo Estado Brasileiro ao agronegócio e à agricultura familiar – embora seja essa a que mais produz e alimenta a população e a que mais emprega no meio rural.

Outra reflexão importante a fazer no contexto da operação Carne Fraca é que por um lado, ainda existem parcelas da sociedade brasileira que sofrem de fome e, de outro, grande parte da população possui altos índices de sobrepeso e obesidade: segundo os dados mais recentes da FAO, por exemplo, 54,1% dos adultos brasileiros estão com sobrepeso, e 20% com obesidade. A essência dos negócios de JBS, BRF e empresas similares constitui uma causa principal dessas duas situações antagônicas: a produção e o consumo exagerados e insustentáveis de proteína animal. Sofremos a imposição de um modo agroindustrial baseado na produção de alimentos altamente processados que respondem a necessidades alimentares criadas por outras culturas e interesses e, além disso, é frágil a regulação da publicidade de alimentos, mesmo quando o alvo dessa publicidade são crianças, público que deveria ser a prioridade absoluta do Estado, quando falamos de garantia de direitos.

Do ponto de vista do setor produtivo, a produção pecuária pautada em alimentação dos animais com cereais, bem como no grande desmatamento causado pelas pastagens e para a produção de tais cereais, representa impactos para todo o mundo. Em 2006, a FAO estimou que o pastoreio ocupava uma área equivalente a 26% da superfície terrestre livre de gelo do planeta, enquanto 33% do total de terras aráveis ​​eram dedicados à produção de alimentos para animais, especialmente o milho e a soja. O estudo da FAO estimou que o setor pecuário era responsável por 18% das emissões de gases de efeito estufa medidas em equivalente de CO².

Existem ainda os conflitos agrários por trás da produção de carne. O caso dos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, é um exemplo de como a criação de gado e grãos afeta seus territórios tradicionais e suas vidas, expondo-os a casos de despejos, torturas, ataques e assassinatos de suas lideranças.

De outro lado, o alto consumo de carne em países desenvolvidos tem contribuído para doenças crônicas, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e câncer. De modo a sintetizar a importância desta questão do consumo de proteínas animais, o ex-Relator da ONU para o direito à alimentação, Olivier de Schutter, destacou como prioridade na agenda da alimentação mundial a necessidade de se mitigar os impactos negativos da produção industrial de carne pela via do encorajamento da redução do consumo desta nas sociedades em que este consumo já atingiu níveis preocupantes.

Não será a Operação “Carne fraca” que vai colocar um fim em tudo isso. Não serão algumas operações policiais que vão redirecionar o que e como produzimos e consumimos alimentos. O que pode mudar essa realidade são leis e políticas públicas, articuladas e efetivamente participativas, que concebam alimentos como direitos e como algo fundamental para nossa vida e para nossa saúde. Para isso são necessários uma sociedade civil atenta e ativa por justiça social e ambiental, um Congresso que não seja dominado por interesses ruralistas e um governo comprometido com direitos humanos. Quando retornarmos a um verdadeiro e efetivo Estado democrático, pode ser que tenhamos comida de verdade em nosso prato.

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.

Feiras, um caminho sem volta. Entrevista com Maria Rita Macedo Cuervo

Feiras, um caminho sem volta. Entrevista com Maria Rita Macedo Cuervo

Na onda da temática da sessão Fome de Saber, o Pitada de Opinião tem a honra de entrevistar a nutricionista e bióloga, Maria Rita Macedo Cuervo. Especialista em Ecologia Humana e em Tecnologia dos Alimentos, a entrevistada é também mestra em Saúde Coletiva e doutora em Psicologia. No doutorado iniciou a pesquisa sobre feiras agroecológicas como uma comunidade de práticas alimentares culturalmente significativas no eixo de produção, distribuição, preparo e consumo de alimentos. Participa do projeto de extensão no IPA, na feira agroecológica que acontece na instituição. A entrevista centra-se em sua tese intitulada A feira agroecológica como espaço de produção de práticas culturais: identidade, alimentação e relações psicossociais, disponível no repositório online da PUCRS. Eis a entrevista:

1. Sua tese é composta por três ótimos artigos, com relação ao segundo texto “A feira um caminho sem volta: reflexões etnográficas sobre a produção e o comercio agroecológico em Porto Alegre”, gostaríamos que comentasse sobre as feiras como espaços de resistência à nova ordem alimentar.

O processo de globalização leva a homogeneização e perda da diversidade nos planos econômico, ecológico e cultural, implicando também na cadeia de práticas alimentares constituintes do processo produção/distribuição/preparo/consumo de alimentos. A escolha do que comer na sociedade contemporânea, é culturalmente pautada por processos mais amplos da sociedade global, especialmente ao considerarmos a configuração do capitalismo contemporâneo e seu impacto na produção de subjetividades. A progressiva homogeneização e globalização alimentares estão levando à valorização e busca das raízes culturais, produtos regionais (produtos da terra) e o reconhecimento de que a “cozinha” constitui um patrimônio cultural e que deve ser preservado.

Movimentos de resistência à globalização e homogeneização alimentar vêm surgindo em todo mundo como é o caso do slow food, surgido na Itália em 1986 com o objetivo de apoiar e defender a boa comida, o prazer gastronômico e um ritmo de vida mais lento. O slow food está comprometido com a proteção dos alimentos tradicionais e sustentáveis, sustenta que a única agricultura que pode oferecer uma perspectiva de desenvolvimento é aquela baseada na soberania alimentar de comunidades locais em harmonia com o ecossistema. O movimento sustenta que “alimentar-se é um ato agrário” e os consumidores informados e exigentes tornam-se coprodutores.  Um aspecto interessante é a construção de redes que conectam produtores e coprodutores

Um dos problemas da sociedade urbana contemporânea é a ansiedade gerada em relação ao não saber o que comemos, isto é, com a industrialização da alimentação, o uso de aditivos, agrotóxicos e transgênicos. As feiras podem ser vistas como um espaço de resistência a essa “nova ordem alimentar”.

A própria proposta de feira, remete a um cenário de práticas sociais tradicionais que fomenta a relação interpessoal. A palavra feira, vem do latim feria, que significa “dia de festa”, é um local de vendas, trocas, encontros e conversas. A feira pode ser vista como uma comunidade de práticas sociais, onde o conjunto de relações que uma pessoa e um grupo possuem, são fontes de reconhecimento, compartilham significados, e sentimento de pertença.

2. Você usa a expressão “mosaicos de sociabilidade” para falar das feiras. Pode discorrer mais essa expressão citada por você no artigo?

As feiras são espaços que representam dinâmicas da sociedade no campo alimentar, pois são locais de comércio (e trocas) e consumo. Desde a Antiguidade, as feiras sempre tiveram crucial importância, seja em relação ao comércio nas cidades, seja como um espaço de trocas culturais, aprendizagem e estabelecimento de relações de sociabilidade. Pode-se dizer que as feiras são mosaicos de sociabilidade, são pontos de encontro e locais onde vários atos da vida social acontecem, mantendo um sentido de permanência e de identidade, para além da compra e venda de alimentos. São espaços de relações sociais, manifestos, comícios e apresentações artísticas.

3. Você mostra na pesquisa etnográfica diferenças interessantes entre as feiras que fizeram parte da sua observação. Poderia falar um pouco sobre essas diferenças encontradas e quais as conclusões que obteve a partir dessas observações?

No início do trabalho, e por um bom tempo, tive dificuldade de me “distanciar da feira”, pois tenho o sentimento de pertença, identidade com a “comunidade feira”. Neste caso, para o pesquisador que faz parte da sociedade que está sendo pesquisada, o grande desafio é procurar interpretar a sua própria cultura.

Numa feira livre tradicional (não agroecológica), percebi vínculos entre consumidores e feirantes, parecido com a feira agroecológica. Muita brincadeira, e de diferente me chamou a atenção a relação, o jogo do preço, isto é, uma certa competição entre as bancas, no sentido de ter o melhor preço. Me parece que o “espírito da feira” é o menor preço. Na feira agroecológica o “espírito da feira” não é o do preço, mas da qualidade, por ser agroecológica.

Outra experiência foi a Bioferia de Miraflores em Lima, Peru. Também é uma feira ecológica, organizada pelo Grupo Ecológica Peru. O que me chamou a atenção foi o número de estrangeiros (inclusive eu) que circulam pela feira, de vários lugares do mundo, e as bancas que vendem café e produtos prontos são muito frequentadas. Percebi que as pessoas comem na feira, se encontram, vão ao parque, assim como fazem em Porto Alegre. Muitas famílias com crianças, e depois de passar pela feira costumam ir para o parque, onde existem atividades culturais como roda de musica.

A partir dessas experiências, consegui observar diferenças entre feiras e, na verdade, me distanciar para depois me aproximar novamente. Na feira FAE, (de Porto Alegre) o trabalho é construído coletivamente a partir de uma luta por ideais. Vi outra feira, onde o poder público e a indústria de alimentos estão presentes, e outra onde os produtores,  comerciantes e poder público, mostram para o mundo a sua identidade alimentar/cultural. Claro que foi meu olhar de estrangeira naquela feira, fiz nesses outros espaços, que não da FAE, um exercício etnográfico, do estranhamento.  Me chamou a atenção a diferença nas relações de compra, na feira livre o feirante se aproxima do consumidor pelo jogo do diferencial de preço, chama fregueses pelo apelo do menor preço. Na feira agroecológica FAE, não existe este jogo, o que é oferecido é um ideal, uma qualidade diferenciada,  um resultado de uma longa construção. Na Bioferia de Miraflores, percebi a feira, em alguns momentos, como uma exposição das riquezas culturais e um ponto de encontro para comer e conversar. É uma feira para turistas.

Percebi que todas as feiras têm de marcante as relações entre produtores/comerciantes e consumidores, muito diferente de um supermercado, onde as pessoas nem se olham.

4. Na sua opinião, as feiras livres podem ser espaços para conscientização da população voltados para a importância de uma alimentação sustentável que permeie aspectos econômicos, sociais, ambientais, de saúde e até afetivos?

A feira pode ser vista como um espaço representativo de práticas alimentares, entendida como: todos os processos relacionados com o comer, como a escolha, preparo, a companhia, o local, quantidade, a forma, a apresentação, entre outros. Relacionados aos aspectos subjetivos (socioculturais) do comer e da comida.

É um lugar onde se dá a aproximação de produtores familiares e consumidores urbanos que compartilham valores sociais e representações. Se estabelece pelo contato face a face uma “ética relacional”, envolvendo espaço, produtos, pessoas, significados, conhecimentos, enfim, trocas. Assim a rede estabelecida gera relações de confiança e marca a legitimidade da qualidade dos alimentos.

A feira pode ser vista como um importante espaço público de Educação Alimentar e Nutricional no contexto da realização do Direito Humano à Alimentação Adequada e da garantia da Segurança Alimentar e Nutricional, onde a autonomia das escolhas alimentares saudáveis é central e a prática da educação se dá através do diálogo.

A feira é um meio de ampliação do acesso a alimentos de qualidade, pela produção agroecológica e sustentável e justiça social, e fortalecimento da agricultura familiar. Outro aspecto importante da SAN na feira é a conservação da biodiversidade, pela forma de produção que é ambientalmente e socialmente sustentável, mas também como um local onde existe a oferta de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) e de produtos nativos, como algumas frutas.

Produzir e comer comida da feira é uma forma de participação política. Entendendo como uma ação política um posicionamento diante da problemática social, ambiental e de identidade da sociedade contemporânea.

A comida que vem da feira tem identidade, é temperada com ideais e relações sociais, com toque de memória e afeto.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

PRÊMIO JULIANA SANTILLI AGROBIODIVERSIDADE

PRÊMIO JULIANA SANTILLI AGROBIODIVERSIDADE

O Instituto Socioambiental, da Associação Bem-Te-Vi Diversidade e da Editora Mil Folhas do IEB propõe o Prêmio Juliana Santilli com o objetivo de premiar iniciativas, individuais ou coletivas, que fazem a diferença, promovendo a ampliação, a conservação, o acesso, a distribuição ou o uso de produtos da agrobiodiversidade. O prazo para inscrição de proposta é de 15 de março à 20 de junho de 2017. O edital de inscrição segue aqui.

Justificativa do prêmio:

A obra e atuação de Juliana Santilli estão concentradas em três grandes temas: direitos coletivos e biodiversidade, agrobiodiversidade e sistemas agrícolas e, mais recentemente, direito à alimentação.

A marca de seu trabalho sempre foi o novo, a fronteira. Quando o socioambientalismo era ainda um conjunto de ideias de vanguarda, com grande poder de mobilização, mas ainda pouco consolidado, foi o trabalho de Juliana que deu forma e estabeleceu um novo campo disciplinar. Seu esforço de pesquisa, compilação de informações, análise e reflexão sobre o tema, explícito no livro “Socioambientalismo e os novos direitos”, fez uma enorme diferença no cenário intelectual, mas principalmente porque em seu cerne havia um compromisso com reconhecimento dos conhecimentos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

No caso da agrobiodiversidade, tal compromisso fica ainda mais explícito. São as práticas tradicionais que asseguram a manutenção da diversidade agrícola. Juliana trabalhou sempre combinando uma robusta análise intelectual e jurídica com uma discussão com os detentores de conhecimentos tradicionais sobre suas necessidades, saberes e práticas. O resultado pode ser visto em seus livros:  “Agrobiodiversidade e direitos dos agricultores”  e “Agrobiodiversity and the Law”.

Tendo em perspectiva as múltiplas dimensões articuladas no ato alimentar (ambiental, econômica, política e sociocultural), Juliana Santilli dedicou-se a apontar caminhos jurídicos para a defesa do direito à alimentação adequada, à diversidade agroalimentar e a um ambiente saudável, além da necessária construção de relações mais justas e solidárias entre produtores e consumidores.

Considerando os entraves impostos pelo mercado globalizado, o prêmio aponta para a necessidade de defesa desses direitos, por meio da discussão de normas de produção e uso dos alimentos, mas também de ações que visem ao reconhecimento, valorização e sustentabilidade social, cultural e ambiental de diferentes sistemas agrícolas, bem como à renovação de práticas de produção, acesso e uso de produtos da agrobiodiversidade.

Com a ideia de dar alguma continuidade ao trabalho revolucionário de Juliana, o prêmio foi concebido para incentivar iniciativas inovadoras (individuais ou coletivas) no campo da agrobiodiversidade. Assim, podem ser contempladas pelo prêmio experiências sociais ou estudos que contribuam para a ampliação, conservação, distribuição ou uso de produtos da agrobiodiversidade mas também para o acesso ao alimento, uma vez que essas dimensões se retroalimentam.

O desafio da conservação da agrobiodiversidade não passa apenas pelas formas de produção, que em geral precisam resistir a um modelo homogeneizador, mas também pelas demandas do “mercado” que conspiram contra a diversidade.

Paralelamente, entendemos a importância de publicar debates e reflexões sobre o tema, como Juliana sempre fez. Dessa forma, o prêmio inclui uma categoria de publicação para pessoas que atuam nessa área do conhecimento.

Fonte: juliana-gentilli.org

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.