Na onda da temática da sessão Fome de Saber, o Pitada de Opinião tem a honra de entrevistar a nutricionista e bióloga, Maria Rita Macedo Cuervo. Especialista em Ecologia Humana e em Tecnologia dos Alimentos, a entrevistada é também mestra em Saúde Coletiva e doutora em Psicologia. No doutorado iniciou a pesquisa sobre feiras agroecológicas como uma comunidade de práticas alimentares culturalmente significativas no eixo de produção, distribuição, preparo e consumo de alimentos. Participa do projeto de extensão no IPA, na feira agroecológica que acontece na instituição. A entrevista centra-se em sua tese intitulada A feira agroecológica como espaço de produção de práticas culturais: identidade, alimentação e relações psicossociais, disponível no repositório online da PUCRS. Eis a entrevista:

1. Sua tese é composta por três ótimos artigos, com relação ao segundo texto “A feira um caminho sem volta: reflexões etnográficas sobre a produção e o comercio agroecológico em Porto Alegre”, gostaríamos que comentasse sobre as feiras como espaços de resistência à nova ordem alimentar.

O processo de globalização leva a homogeneização e perda da diversidade nos planos econômico, ecológico e cultural, implicando também na cadeia de práticas alimentares constituintes do processo produção/distribuição/preparo/consumo de alimentos. A escolha do que comer na sociedade contemporânea, é culturalmente pautada por processos mais amplos da sociedade global, especialmente ao considerarmos a configuração do capitalismo contemporâneo e seu impacto na produção de subjetividades. A progressiva homogeneização e globalização alimentares estão levando à valorização e busca das raízes culturais, produtos regionais (produtos da terra) e o reconhecimento de que a “cozinha” constitui um patrimônio cultural e que deve ser preservado.

Movimentos de resistência à globalização e homogeneização alimentar vêm surgindo em todo mundo como é o caso do slow food, surgido na Itália em 1986 com o objetivo de apoiar e defender a boa comida, o prazer gastronômico e um ritmo de vida mais lento. O slow food está comprometido com a proteção dos alimentos tradicionais e sustentáveis, sustenta que a única agricultura que pode oferecer uma perspectiva de desenvolvimento é aquela baseada na soberania alimentar de comunidades locais em harmonia com o ecossistema. O movimento sustenta que “alimentar-se é um ato agrário” e os consumidores informados e exigentes tornam-se coprodutores.  Um aspecto interessante é a construção de redes que conectam produtores e coprodutores

Um dos problemas da sociedade urbana contemporânea é a ansiedade gerada em relação ao não saber o que comemos, isto é, com a industrialização da alimentação, o uso de aditivos, agrotóxicos e transgênicos. As feiras podem ser vistas como um espaço de resistência a essa “nova ordem alimentar”.

A própria proposta de feira, remete a um cenário de práticas sociais tradicionais que fomenta a relação interpessoal. A palavra feira, vem do latim feria, que significa “dia de festa”, é um local de vendas, trocas, encontros e conversas. A feira pode ser vista como uma comunidade de práticas sociais, onde o conjunto de relações que uma pessoa e um grupo possuem, são fontes de reconhecimento, compartilham significados, e sentimento de pertença.

2. Você usa a expressão “mosaicos de sociabilidade” para falar das feiras. Pode discorrer mais essa expressão citada por você no artigo?

As feiras são espaços que representam dinâmicas da sociedade no campo alimentar, pois são locais de comércio (e trocas) e consumo. Desde a Antiguidade, as feiras sempre tiveram crucial importância, seja em relação ao comércio nas cidades, seja como um espaço de trocas culturais, aprendizagem e estabelecimento de relações de sociabilidade. Pode-se dizer que as feiras são mosaicos de sociabilidade, são pontos de encontro e locais onde vários atos da vida social acontecem, mantendo um sentido de permanência e de identidade, para além da compra e venda de alimentos. São espaços de relações sociais, manifestos, comícios e apresentações artísticas.

3. Você mostra na pesquisa etnográfica diferenças interessantes entre as feiras que fizeram parte da sua observação. Poderia falar um pouco sobre essas diferenças encontradas e quais as conclusões que obteve a partir dessas observações?

No início do trabalho, e por um bom tempo, tive dificuldade de me “distanciar da feira”, pois tenho o sentimento de pertença, identidade com a “comunidade feira”. Neste caso, para o pesquisador que faz parte da sociedade que está sendo pesquisada, o grande desafio é procurar interpretar a sua própria cultura.

Numa feira livre tradicional (não agroecológica), percebi vínculos entre consumidores e feirantes, parecido com a feira agroecológica. Muita brincadeira, e de diferente me chamou a atenção a relação, o jogo do preço, isto é, uma certa competição entre as bancas, no sentido de ter o melhor preço. Me parece que o “espírito da feira” é o menor preço. Na feira agroecológica o “espírito da feira” não é o do preço, mas da qualidade, por ser agroecológica.

Outra experiência foi a Bioferia de Miraflores em Lima, Peru. Também é uma feira ecológica, organizada pelo Grupo Ecológica Peru. O que me chamou a atenção foi o número de estrangeiros (inclusive eu) que circulam pela feira, de vários lugares do mundo, e as bancas que vendem café e produtos prontos são muito frequentadas. Percebi que as pessoas comem na feira, se encontram, vão ao parque, assim como fazem em Porto Alegre. Muitas famílias com crianças, e depois de passar pela feira costumam ir para o parque, onde existem atividades culturais como roda de musica.

A partir dessas experiências, consegui observar diferenças entre feiras e, na verdade, me distanciar para depois me aproximar novamente. Na feira FAE, (de Porto Alegre) o trabalho é construído coletivamente a partir de uma luta por ideais. Vi outra feira, onde o poder público e a indústria de alimentos estão presentes, e outra onde os produtores,  comerciantes e poder público, mostram para o mundo a sua identidade alimentar/cultural. Claro que foi meu olhar de estrangeira naquela feira, fiz nesses outros espaços, que não da FAE, um exercício etnográfico, do estranhamento.  Me chamou a atenção a diferença nas relações de compra, na feira livre o feirante se aproxima do consumidor pelo jogo do diferencial de preço, chama fregueses pelo apelo do menor preço. Na feira agroecológica FAE, não existe este jogo, o que é oferecido é um ideal, uma qualidade diferenciada,  um resultado de uma longa construção. Na Bioferia de Miraflores, percebi a feira, em alguns momentos, como uma exposição das riquezas culturais e um ponto de encontro para comer e conversar. É uma feira para turistas.

Percebi que todas as feiras têm de marcante as relações entre produtores/comerciantes e consumidores, muito diferente de um supermercado, onde as pessoas nem se olham.

4. Na sua opinião, as feiras livres podem ser espaços para conscientização da população voltados para a importância de uma alimentação sustentável que permeie aspectos econômicos, sociais, ambientais, de saúde e até afetivos?

A feira pode ser vista como um espaço representativo de práticas alimentares, entendida como: todos os processos relacionados com o comer, como a escolha, preparo, a companhia, o local, quantidade, a forma, a apresentação, entre outros. Relacionados aos aspectos subjetivos (socioculturais) do comer e da comida.

É um lugar onde se dá a aproximação de produtores familiares e consumidores urbanos que compartilham valores sociais e representações. Se estabelece pelo contato face a face uma “ética relacional”, envolvendo espaço, produtos, pessoas, significados, conhecimentos, enfim, trocas. Assim a rede estabelecida gera relações de confiança e marca a legitimidade da qualidade dos alimentos.

A feira pode ser vista como um importante espaço público de Educação Alimentar e Nutricional no contexto da realização do Direito Humano à Alimentação Adequada e da garantia da Segurança Alimentar e Nutricional, onde a autonomia das escolhas alimentares saudáveis é central e a prática da educação se dá através do diálogo.

A feira é um meio de ampliação do acesso a alimentos de qualidade, pela produção agroecológica e sustentável e justiça social, e fortalecimento da agricultura familiar. Outro aspecto importante da SAN na feira é a conservação da biodiversidade, pela forma de produção que é ambientalmente e socialmente sustentável, mas também como um local onde existe a oferta de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) e de produtos nativos, como algumas frutas.

Produzir e comer comida da feira é uma forma de participação política. Entendendo como uma ação política um posicionamento diante da problemática social, ambiental e de identidade da sociedade contemporânea.

A comida que vem da feira tem identidade, é temperada com ideais e relações sociais, com toque de memória e afeto.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.