Denise Oliveira e Silva

As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam produtos e receitas da culinária tradicional brasileira, sendo fontes regionais e espaços turísticos que contribuem para o fortalecimento do patrimônio alimentar brasileiro. Da mudança da capital, do Rio de Janeiro para Brasília, até os dias atuais, o Distrito Federal/DF vem adquirindo características de metrópole, com prestígio político, artístico, cultural e econômico, variada gastronomia e intensa diversidade étnica. Por aqui, são identificadas feiras populares, espaços que se desenvolveram pela influência da migração de grupos populacionais que expressam a diáspora nordestina, que atraem até hoje migrantes em busca de trabalho e melhores condições de vida.

Popularmente conhecidos como candangos, ao trazerem sua força de trabalho para a capital brasileira, trouxeram também sua cultura, expressão da mistura de práticas indígenas, africanas e europeias e criaram as feiras como estratégia de sustentação comercial para as práticas gastronômicas mais plurais e de representação de foco de resistência cultural.

O fato de os primeiros migrantes que aqui chegaram, em 1957, para a construção da cidade serem provenientes de vários pontos da região nordeste, do sertão e do litoral, assim como dos estados limítrofes, Minas Gerais e Goiás, criou condições específicas para a transmissão e reinvenção de várias tradições populares, como festas juninas, embates de cordelistas, festejos, religiosos e populares, tradições das quais aqueles trabalhadores eram os portadores e tratavam de perpetuar. 

(Madeira, 2007, pag. 27).

Como feiras populares destacam-se no DF, segundo a Lei Nº 4.748 de 02 de fevereiro de 2012, as feiras livres, locais onde existe “a venda, exclusivamente a varejo, de produtos hortifrutigranjeiros, cereais, doces, laticínios, pescados, flores, plantas ornamentais, produtos de artesanato, lanches, caldo de cana, temperos, raízes, carnes e aves abatidas, resfriadas ou congeladas, confecções, tecidos, armarinhos, calçados e bolsas, bijuterias, artigos religiosos, ferramentas e utensílios domésticos, produtos da lavoura e indústria rural, e outros que possam vir a ser aprovados pelo órgão competente”. E as feiras permanentes, onde se “realizam atividades mercantis de caráter constante realizada em logradouro público destinado para esse fim, com instalações comerciais fixas e edificadas para comercialização dos produtos referidos para as feiras livres e produtos de bazar e agropecuários, refeições típicas regionais, jornais, revistas, além de prestação de pequenos serviços, na forma do regulamento”.

O DF é formado por 19 regiões administrativas. Brasília foi concebida como Plano Piloto, formada pelas Asa Sul e Asa Norte e o Eixo Central e localidades periféricas onde estão as demais regiões administrativas, historicamente denominadas de “Cidades Satélites” localizadas entre seis e 60 km do Plano Piloto, sendo elas: Brazlândia, Candangolândia, Ceilândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Lago Norte, Lago Sul, Núcleo Bandeirante, Paranoá, Planaltina, Recanto das Emas, Riacho Fundo I e II, Samambaia Santa Maria, São Sebastião Sobradinho, Taguatinga.

As “Feiras Permanentes” existem somente fora do Plano Piloto e dos Lagos Sul e Norte, sendo identificadas atualmente cerca de 75 feiras em funcionamento. As mais famosas são as feiras do Núcleo Bandeirantes (a mais antiga, criada em 1959) seguida da Feira do Cruzeiro (1962), a Feira Central de Ceilândia (1967) e a Feira do Guará (1969).

Estas feiras se constituem do mesmo modelo de feiras nordestinas. Não são itinerantes e se constituíram com a realização do comércio e manifestações culturais variadas. A infraestrutura dessas feiras é bem diversa. Em geral, são construções de alvenaria com espaços caracterizados para a venda de produtos alimentícios frescos, animais vivos, temperos, e espaços de comensalidade para a venda de preparações culinárias de origem do sertão nordestino, em sua maioria.

Desde 2012, a Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, por meio do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares, tem realizado pesquisas etnográficas para compreender a influência destas feiras na formação de hábitos alimentares e na preservação de patrimônios alimentares materiais(alimentos) e imateriais(culinária) brasileiros.

Variedade e tradição no circuito de compra

Os produtos alimentícios mais vendidos são os legumes, hortaliças e frutas frescos em geral oriundo do entreposto CEASA do DF. Observa-se a presença de alguns gêneros de produtores locais. O crescimento do comércio de produtos orgânicos ainda é pouco frequente, porque cresce na cidade as feiras que vendem estes produtos, principalmente localizadas no Plano Piloto.

Os produtos alimentícios vendidos nas feiras são em sua maioria aqueles que não são vendidos nas redes de supermercados. A busca pelos diversos tipos de feijões, farinhas e seus animais vivos como galinhas caipiras, bodes e peixes, e os temperos típicos do nordeste são os aspectos identitários dos produtos alimentícios vendidos nestas feiras. Os produtos são apresentados em sacos dos quais o comprador pode estabelecer a quantidade que precisa. A linguagem comum na mensuração da compra do produto, não usa o quilo, a grama. São usadas outras linguagens:

“uma mão de farinha(…) um copo de feijão(…), moço é o que eu preciso! 

(Cliente do sexo masculino 42 anos, Feira do Guará, 2016)

É importante destacar como fator identitário, o papel destas feiras do DF em ofertar a variedade de três produtos emblemáticos da culinária brasileira: as farinhas de mandiocas e seus os feijões e os temperos secos e frescos.

Para feirantes e clientes, estes produtos não são encontrados com tanta variedade nas redes de supermercados. Segundo relatos, são nestas feiras que é possível adquirir um feijão verde e de corda segundo as tradições do sertão nordestino.

As farinhas em suas diversas características de torrefação, sendo amarela, ou branca, torrada à moda pernambucana ou à baiana, a farinha de milho em várias opções são os patrimônios alimentares presentes nestas feiras. Destacam-se ainda os queijos de forte influência nordestina como o queijo de coalho e a manteiga de garrafa. Os temperos são categorizados como frescos, entre os quais a vinagreira e outros específicos para preparações culinárias são ofertados para a compra, e também os temperos secos, que em geral são vendidos em pó, como açafrão da terra, cúrcuma, cominho, pimenta e etc.

Embora a presença de algumas ervas sobretudo para utilização terapêutica possam ser consideradas em seus limites como alimentos, nestas feiras a presença de barracas de “erveiros” é outro circuito de compra. Os responsáveis pela venda destes produtos em geral são mulheres que revelam preocupação com a perda desta memória em função do pouco interesse dos jovens e o crescimento da indústria de fármacos.

Conversas de feira

Nestas feiras, o diálogo é sobre o comer e celebrar as memórias ditas e não ditas, com nossa verdadeira identidade, da qual o corpo físico, nossas emoções, nossa cultura e nossa espiritualidade são apresentados de forma conjunta para explicar o que é adequado e saudável em nossa alimentação.

“(…) eu aqui converso com meus clientes que gostam da comida que eu vendo(…) eu não sei dividir o que é adequado e saudável como a senhora me pergunta(…) na comida isto não é assim(…)” 

(Feirante do sexo feminino 53 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

(…) eu venho aqui uma vez por semana, todo sábado com meu marido(…) eu faço a dieta do saudável durante a semana(…) mas eu vejo que esta comida é tão saudável como a nutricionista manda eu fazer(…) não tem esta conversa que tem muita gordura não(…) eu acho que estes médicos precisam conhecer mais estas comidas caseiras, eles não conhecem, tem preconceito e não sabem nos ajudar(…) O problema é que médico não sabe cozinhar. Não conhecem comida e compram tudo congelado, come na rua e desconfio que entram na cozinha para beber água e café, gosta mesmo é de restaurantes(…)  minha mãe lá do nordeste comia estas comidas, não todo dia; tinha buchada, mas quando tinha a gordura era pouca e o sal também(…) o que será que houve com a nossa comida? Vocês poderiam me explicar? De uma hora para outra o médico diz que não pode, e manda a gente comer muito legume, mas não liga para os venenos dos agrotóxicos neles? Esta história do que pode e não pode comer está muito esquisita nos dias de hoje(…) Eu vou continuar vindo aqui, porque eu esqueço destes medos do que escuto e vejo hoje em dia sobre alimentação. ´Vocês estão comendo o mesmo que eu,e eu sei que vocês são da saúde. Então eu acho que estamos de acordo, não é?” 

(Cliente do sexo feminino, 41 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

Nas feiras, tanto o comprar como o comer nos revelam. Quando comemos não podemos nos esconder, mesmos que tenhamos que seguir processos civilizatórios de etiqueta, porque a chance de esquecer rebeldemente disso tudo e celebramos no agora o que somos e vivemos. É isto que a feira aguça quando chegamos nela. Não são corredores com iluminação e sinalizações apropriadas e etiquetados, com latas e vasilhames coloridos e com letras estimulantes. Quando vamos à feira, vemos os alimentos sem maquiagem comercial.  Talvez seja isto que buscamos quando vamos a uma feira.

(…) é tudo tão arrumadinho nos supermercados, que se você deixar uma lata cair, parece que o mundo acabou(…)  a gente compra sem saber o que tem, tá tudo em lata e pacote(…) somente o prazo de validade não é suficiente para sabermos se o alimento é bom(…) aqui eu pego e cheiro os produtos(…) nos supermercados  os trabalhadores arrumam lata e pacote(…)aqui na feira eu vejo tudinho, nada tá escondido(..) nos supermercados os funcionários  não conversam com você  e se conversar o gerente chama atenção(…) aqui o feirante te dá receitas(…) no supermercado  eu sou obrigada a comprar na quantidade que eles querem;(…) há eu não gosto não. Eu só vou lá porque os danados ficam nos caminhos de casa(…) nesta vida de correria eles estão abertos em horários que as feiras não estão(…) aqui não dá para vir correndo, é por isto que eles se dão bem em cima da gente (…) isto que eu acho, vir aqui é com calma, dá para conversar, pensar melhor no que vamos comer(…) os supermercados ganham das feiras porque eles tão ali para atender a correria da vida; para vender coisas rápidas e fazer a gente comer sem pensar, e pior pagar mais caro!(…)” 

(Cliente, sexo feminino, 55 anos, Feira do Guará, 2016)

Herança cultural de fartura e público das feiras

Os resultados têm apontado circuitos de circulação de pessoas segundo o gênero. As mulheres estão mais presentes nos locais onde se vendem legumes, verduras, frutas e roupas. Os homens estão nos locais onde se vendem carnes animais e nos bares. O horário de funcionamento é variado, sendo durante a semana a presença de feirantes que vendem legumes, frutas e verduras e as barracas de venda de roupas, com maioria de presença feminina tanto de feirantes como de clientes. O final de semana, sábado e domingo, tem maior frequência de feirantes e clientes com a presença de famílias, principalmente de idosos.

Dentre os pratos nordestinos comercializados destaca-se o baião de dois, a buchada de bode, a tapioca, o mocotó, a carne de sol, o sarapatel etc. Os resultados da pesquisa tem revelado que as preparações culinárias em sua essência representam fartura e comensalidade:

(…) eu venho aqui porque moro sozinho e não dá para fazer uma buchada ou um sarapatel para eu comer sozinho(…) estas comidas foram feitas para dar de comer a muita gente(…) eu acho que isto é o problema de hoje em dia: a comida é para mais de um comer(…) na vida de agora comer sozinho é que dá doença(…) chegar em casa não dá vontade de mexer com panelas, o bom é fazer um arroz  para comer com outra pessoa(…) comida não foi pensada para alimentar um ser vivente, eu não sei quem inventou isto; por isto é que estamos lascados; esta história de uma colher de sopa; uma conchinha de não sei o que dos médicos , não é coisa de gente não(…)” 

(Cliente, do sexo masculino, 53 anos)

A nossa herança cultural de fartura vem da relação que tivemos com a natureza: ela oferta amorosamente e consumimos aquilo que necessitamos sem desperdício por que compartilhamos nossa comensalidade. E, de fato, nossa origem humana e ancestral é de comer juntos! Para isto, os saberes gastronômicos podem ser considerados fundamentais na formação dos hábitos alimentares pelo seu papel de agente ativo da memória histórica individual e coletiva. As memórias constituem permanências, transformações, em caráter local ou em escala global. Podem ser transmitidas subjetivamente, tanto por indivíduos ou por instituições. As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam receitas da culinária tradicional brasileira. São fontes regionais, ademais, são espaços de convivência. Neste sentido, estas feiras são matrizes migratórias da culinária ali encontrada como espaços de memórias gustativas e afetivas, como podemos ver pela história desta senhora feirante que está na feira da Ceilândia a mais de 20 anos:

“ (…) aqui eu comecei com o Caldinho de Mocotó que nunca pode faltar(…) depois foi crescendo ali e acolá outras comidas, o baião de dois, o sarapatel, a galinha caipira a buchada de bode(…) as pessoas vem aqui para provar do meu tempero destas comidas porque lembra muito da mãe, da avó, da família(…) às vezes eu vejo marmanjo homem comendo e chorando quando coloca um garfo de comida na boca(…) ah,  eu digo a ele, “bichinho tu quer mais”(…) ele nem fala, mas o choro diz que sim, ah,  eu ponho mais e não cobro mais nada(…)”

A experiência de realizar pesquisas sobre hábitos alimentares nas feiras aponta a importância destes locais para o exercício de compreensão da alimentação humana. São locais onde a visibilidade da gastronomia típica comercializada permite compreender os processos de migração gastronômica de uma região para outra, e revelam a importância de ações de preservação de bens imateriais. A preservação da gastronomia de uma região sustenta a vida comunitária. Ela constitui patrimônio cultural por possuir “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – juntamente com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares que lhes são associados” – típicas de uma sociedade que se diferencia de obras arquitetônicas, monumentos, sítios e paisagens, por serem considerados um bem intangível. Uma vez garantida a preservação de receitas e rituais alimentares, todos os atores sociais envolvidos poderão manter seus ganhos diretos e indiretos. Cabe ressaltar a importância da promoção de políticas públicas visando o desenvolvimento do Patrimônio Cultural Imaterial, em relação à gastronomia, alimentação e comensalidade e o incentivo às culturas tradicionais e regionais. No Brasil, micro espaços geográficos que vivenciam impasses da preservação dos patrimônios culturais imateriais de caráter gastronômico popular são temas de reflexão. As feiras podem ser entendidas enquanto um foco de resistência gastronômica, cabendo ações de valorização como patrimônio imaterial de hábitos alimentares e comensalidade. É um espaço que oportuniza a disponibilidade de receitas populares, bem como oferece os ingredientes necessários para a feitura de especialidades que necessitam de produtos específicos.

Temos aprendido com os feirantes e os clientes destas feiras novos significados sobre o comer. Principalmente linguagens que agregam dimensões biológicas e simbólicas-culturais tão importantes para o sucesso da promoção da alimentação adequada e saudável.

Vamos às feiras!

 

Referência citada: Madeira, Angélica Mariza Veloso. A cidade e suas feiras. Um estudo sobre as feiras permanentes de Brasília. Brasilia: DF: IPHAN/15ª Superintendência Regional, 2007.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).