Romilda de Souza Lima (*)

Em tempos de “modernidade líquida” – na compreensão de Zygmunt Bauman, na busca pela praticidade e pela necessidade de resolver as tarefas com rapidez, inclusive as compras de alimentos, muitos podem questionar a manutenção das feiras populares. Alguns autores discutem como aspectos do modo de vida moderno, como tempo escasso para executar as várias atividades e ampla oferta de produtos industrializados, influenciam as práticas alimentares, fazendo surgir diversas maneiras de se alimentar na contemporaneidade e que podem interferir nos hábitos alimentares, nos horários e locais das refeições, no consumo de alimentos, etc.

As feiras são lugares para transitar sem pressa, passando de barraca em barraca e conversando com os/as feirantes, compreendendo sobre o impacto da estiagem na produção de hortaliças e a razão de algumas estarem em falta ou de ser este o motivo principal do aumento do preço nas últimas semanas. Quem frequenta a feira com assiduidade costuma eleger a sua barraca e seu fornecedor predileto, passando, assim, a ser “freguês”. As feiras representam, portanto, mais do que um mercado, são também lugares de interação, sobretudo, nas pequenas e médias cidades. Da conversa “jogada fora”, não só com o agricultor/a, mas também com as pessoas conhecidas. Nas feiras estão à disposição produtos de boa qualidade – talvez não os mais bonitos e maiores – porém os mais saudáveis. Saudáveis pela sustentabilidade econômica, social e ambiental proporcionada pela agricultura familiar. Saudáveis pela valorização do comércio mais justo, proporcionado pela característica de comercialização das redes curtas, quando os agricultores e os “fregueses” entram em acordo sobre o preço de algum produto.

Por todos esses fatores, a dinâmica das feiras está repleta de elementos simbólicos, que contribuem para tornar o ato alimentar mais do que apenas fisiológico, mas também cultural. Nesse sentido, o sistema alimentar para o consumidor se inicia na opção de consumo e na compreensão da importância da cadeia produtiva. Aquilo que Delormier (2009), considera como “a natureza social do comer”. Aspectos do comportamento alimentar também são discutidos por Mabel Gracia Arnaiz, Jesus Contreras, Jean Pierre Poulain, entre outros. Para o agricultor ou agricultora-feirante, tal sistema começa bem antes e ainda de madrugada: no processo produtivo, na colheita, organização e seleção dos produtos e na organização da sua barraca.

Em minhas pesquisas tenho observado situações diferentes no que se refere à dinâmica rural-urbana da comercialização de hortifrútis. Em uma delas, na Zona da Mata Mineira – mais especificamente nos territórios rurais de Piranga, Presidente Bernardes e Porto Firme, observei caminhões de hortifrútis comercializando produtos que tradicionalmente são de cultivo na pequena agricultura familiar. Segundo os meus interlocutores esse tipo de comercialização vem acontecendo nos últimos 3 a 4 anos. Por razões diversas, que envolvem mudanças que vem ocorrendo no meio rural, alguns agricultores da região estão optando por comprar determinados produtos in natura ao invés de cultivá-los.

O principal motivo citado foi a estiagem dos últimos anos aliado ao custo-benefício (praticidade – preço). Adquirem produtos tais como batata inglesa, inhame, batata doce, moranga, banana, alface, laranja, tomate, maçã, pera, abacaxi e outros. Segundo os interlocutores, os produtos são do CEASA e apesar de a maioria continuar cultivando a batata doce e a mandioca, houve depoimento de que mesmo esses produtos, que são tradicionais no hábito alimentar da região, já estão sendo adquiridos neste tipo de comércio.  Tal situação – que denominei como ‘a “feira” indo ao campo’ – me causou estranhamento, considerando ser esta região uma das mais ruralizadas da Zona da Mata Mineira. Por outro lado, é uma região cuja população idosa é elevada e possui grande número de casais aposentados morando sozinhos e sem condições de exercer a atividade braçal de cultivo ou pagar pela mão-de-obra. A estiagem extrema diminuiu a produção, mas para não abandonarem ou mudarem excessivamente os hábitos alimentares, optaram por comprar o que não conseguiam mais produzir. Todos os agricultores que entrevistei disseram preferir cultivar o próprio alimento, ter uma horta e um pomar fartos, mas o que a realidade lhes impunha era a opção de comprar do “vendedor do caminhão”.

É importante destacar que não é uma situação generalizada. Aqueles que têm água em abundância fazem questão de manter, pelo menos, a horta e um pequeno pomar em ampla produção, ainda que para autoconsumo. Encontrei hortas fartas e sortidas, assim como outras em estado de sofrimento. Porém, mesmo nas hortas mais sofridas, a hortaliça que resistia era sempre a couve. Diante disso, compreendi melhor a importância e a presença assídua dessa hortaliça no cardápio mineiro desde os tempos da mineração, tanto na área rural quanto na urbana, o que me fez lembrar muito do que li no delicioso livro de Eduardo Frieiro: “Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros”. Mas por outro lado, observei que este território está passando por algumas transformações importantes de consumo e nos modos de vida que aos poucos vão refletindo nos hábitos e práticas alimentares das famílias, cuja história tem um viés muito forte da tradição produtiva e alimentar.[1]

A segunda experiência de pesquisa, em andamento, se dá em um território muito diferente da Zona da Mata Mineira.  Refere-se ao projeto “Cultura e Patrimônio Alimentar: práticas alimentares e sociabilidades em famílias rurais do Paraná”, desenvolvida no Sudoeste do Paraná, onde a agricultura familiar é uma característica muito forte na dinâmica territorial. As feiras de produtores são muito valorizadas por agricultores e consumidores. Elas coexistem e resistem, mesmo com a presença das gôndolas repletas de ofertas nos supermercados e hortifrútis.

No município de Francisco Beltrão, com pouco mais de 84.000 habitantes, há oito feiras de agricultores. Sete delas em bairros da cidade e uma na praça central. Os produtores dizem não utilizar agrotóxicos na produção de legumes e verduras e há três propriedades em fase de conversão para certificação orgânica. Em uma das feiras, todos os agricultores possuem certificação de produção orgânica e há aqueles que são agroecológicos. Comercializam hortaliças gerais, frutas, pães, bolos, bolachas e doces (chimias), embutidos (principalmente o salame) e queijo colonial – muitos desses produtos são elaborados com o uso de receitas tradicionais de família. Comercializam ainda, peixe, mel e artesanatos. As feiras dos bairros acontecem em dias de semana e a da praça central no sábado pela manhã.

O grande número de feiras em um município de pequeno porte sinaliza a importância que elas possuem no cotidiano da cidade e sinaliza também para características dos hábitos e práticas alimentares da população, principalmente no que se refere ao público que frequenta as feiras dos bairros. Trata-se de uma região de forte presença da colonização italiana e alemã e em menor proporção, a polonesa. Nas feiras é possível conversar com a agricultora sobre o modo tradicional de se preparar o pão de milho ou a tradicional cuca de nata e o salame italiano, ao mesmo tempo em que – devido à influência gaúcha – a cuia de chimarrão segue passando de uma pessoa a outra na barraca e, às vezes, até de uma barraca para outra.

Cultura, interação, troca, sustentabilidade, comercialização e consumo. Nesse sistema ganham os feirantes e os fregueses. Benefícios para aqueles que veem nas feiras uma referência de práticas alimentares saudáveis. Benefícios para os agricultores e agricultoras familiares que investem numa produção rural sustentável e que a cada dia compreendem que produzir com equilíbrio ambiental é possível, mesmo estando em uma região onde a lógica da monocultura da soja e do milho transgênicos e o uso de agrotóxicos em larga escala se fortalece e impacta. As duas experiências de pesquisa apontam que sinais da modernidade líquida estão presentes nos territórios rurais, o rural não é um lugar de isolamento, ele convive com as realidades do mundo contemporâneo e reage a elas de forma crítica, acatando os itens da modernidade alimentar que lhes importam e rejeitando o que não lhes interessa, buscando respeitar prioritariamente a sua lógica cultural. Neste sentido, as feiras de alimentos representam uma importante ferramenta para essa compreensão.

Referências:

ARNAIZ, Mabel Gracia. Paradojas de la alimentación contemporánea. Barcelona: Icaria, 1996. 309 p.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 258 p.

CONTRERAS, Jesús; GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2011. 495 p.

DELORMIER, Treena; FROHLICH, Katherine L.; POTVIN, Louise. Food and eating as social practice – understanding eating patterns as social phenomena and implications for public health. Sociology of Health & Illness, v. 31, n. 2, p. 215-228, 2009.

FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Edusp, 1982. 227 p.

POULAIN, Jean-Pierre.  Sociologias da alimentação: os comedores e o espaço social alimentar. Florianópolis: UFSC, 2013. 285 p.

[1]Discussão detalhada pode ser encontrada na tese de doutorado: LIMA, Romilda de Souza Lima. Práticas alimentares e sociabilidades em famílias rurais da zona da mata mineira: mudanças e permanências.  Universidade Federal de Viçosa. Tese de doutorado. 2015. 226p.

 

Romilda é doutora em Extensão Rural (Cultura, processos e conhecimento). Pesquisadora do grupo de pesquisa em segurança alimentar e do grupo de pesquisa em desenvolvimento rural. Professora adjunta da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, atuando na graduação nas áreas de antropologia e sociologia da alimentação e, na pós-graduação, na área de desenvolvimento rural sustentável, patrimônio e soberania alimentar. Membro titular do Conselho Regional de Segurança Alimentar e Nutricional do Sudoeste do Paraná.