Dia Internacional da Biodiversidade: valorização de nossas culturas alimentares e o Direito ao Gosto

Dia Internacional da Biodiversidade: valorização de nossas culturas alimentares e o Direito ao Gosto

Estamos perdendo a nossa rica biodiversidade e nossos alimentos estão sob fortes ameaças em razão de problemas gerados pelo modelo agroindustrial de produção. Contra isso, é fundamental garantir os direitos de quem realmente protege a natureza e produz os alimentos

Matéria publicada por Francileia Paula de Castro e Maria Emília Pacheco¹ no site da ONG Fase dia 22 de Maio de 2017. Eis a matéria:

Quem já ouviu falar e já experimentou frutas como a uvaia, o biribá, o buriti, o umbu, o baru, o pinhão, o açaí, a cagaita? E os tubérculos e raízes, como a nossa conhecida mandioca, aipim ou macaxeira, o mangarito, o inhame roxo? Ou hortaliças como a bertalha, o jambu, o maxixe? Essa variedade de alimentos, originais dos biomas Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado e Caatinga, é expressão de nossa rica biodiversidade, historicamente preservada, manejada e cultivada pelos povos indígenas, comunidades tradicionais e pelos agricultores e agricultoras familiares.

Conta a história que a humanidade já utilizou entre 3 a 10 mil espécies de plantas para atendimento de suas necessidades alimentares. Mas a produção de alimentos, hoje, depende de um número muito reduzido, talvez 150, e desse número, o fato é que, apenas 15 espécies são as mais recorrentes: duas que produzem o açúcar (beterraba e cana de açúcar); quatro que são produtoras de amido (batata, batata-doce, feijão e mandioca); cinco que são do grupo de cereais (arroz, centeio, milho, sorgo e trigo); duas que são frutíferas (banana e coco); e duas que são oleaginosas (amendoim e soja)².

É importante perguntar: o que (não) estamos comendo? Vivemos tempos de muitas mudanças de nossos hábitos alimentares com a redução da variedade em nossa alimentação, com maior consumo dos produtos alimentícios industrializados e ultraprocessados como, por exemplo, os refrigerantes, as massas de preparo instantâneo, os biscoitos recheados e outros. Houve uma redução do consumo de frutas e hortaliças com impactos na mudança do perfil nutricional da população. Cresce o índice de sobrepeso e de obesidade. Priorizar o consumo de alimentos in natura, alimentos de estação, que correspondam ao ciclo da natureza, comercializados sobretudo nas feiras de alimentos agroecológicos e orgânicos, é um passo importante. Faz bem ao meio ambiente, faz bem à saúde e valoriza os agricultores familiares e agroextrativistas, grupos que realmente produzem nossos alimentos.

Os alimentos tradicionais, as práticas e as receitas, os saberes, os fazeres e os sabores simbolizam formas de resistência cultural contra a padronização de nossa alimentação. “É urgente valorizar as diferentes tradições culinárias e ter em conta o valor cultural da comida, pois corremos o risco de perder a memória alimentar do país. Assegurar o direito humano à alimentação adequada e saudável também implica em garantir o direito ao gosto”³. É importante reconhecer que comer é um ato social, cultural e também político.

Castanha do Pará colhida por agroextrativistas. (Foto: Gilka Resende/FASE)

No Mato Grosso, em uma das área de trabalho do programa da FASE-, a Associação Regional das Produtoras Extrativistas do Pantanal (ARPEP), por exemplo, reúne mulheres agroextrativistas de três assentamentos rurais e uma comunidade tradicional nos municípios de Cáceres e Mirassol D’Oeste, localizados na região de transição do Cerrado Matogrossense com o Pantanal, no sudoeste do estado. Estas mulheres produzem uma diversidade de alimentos a partir do aproveitamento e do beneficiamento de vários frutos regionais.

O pequi (Caryocar brasiliense) é usado para a fabricação de licor, farinhas, doces e polpa, que em geral é consumido com arroz e galinha. Dele também se extrai o óleo para cozimento de alimentos. Do babaçu (Orbignyaphalerata) se extrai o mesocarpo na forma de farinha para fazer mingau, que é um costume popular de consumo, além do óleo e outros usos. O cumbaru, baru ou cumaru (Dipteryx alata Vogel) oferece um fruto que traz uma amêndoa dura, comestível, rica em proteínas e muito saborosa. Além de produzir pães e biscoitos com os frutos do Cerrado, a ARPEP passou a elaborar farinhas, farofas, óleos, rapaduras, doces, castanhas, mesocarpos in natura e licores. Os produtos são comercializados para a alimentação escolar, e na rede socioassistencial dos municípios da região (creches, asilos e hospitais). Mas também são alimentos importantes para o autoconsumo das famílias.

Outro exemplo é o mangarito, mangará, tayaó (em guarani), malangay (Xhanthosoma riedelianum Schott), um tubérculo muito apreciado no passado e pouco conhecido atualmente. Fazia parte da dieta dos indígenas. Tem origem nas regiões tropicais da América do Sul e Central do Brasil e do México. As folhas são comestíveis, mas suas pequenas raízes (rizomas) são as mais valorizadas. A prática dos intercâmbios de sementes e mudas nas festas, nas reuniões, nas feiras agroecológicas faz circular alimentos que, muitas vezes, estavam desaparecendo. A história de uma agricultora do Mato Grosso reflete isso. Ela que recebeu raízes do mangarito da família e ainda preserva o seu cultivo, levou muda para um intercâmbio de sementes durante um encontro de agroecologia em outro estado. Tempos depois, em outra feira, viu uma agricultora trocando muda do mangarito e contando a história da qual a sua interlocutora era a própria autora.

Mulheres descascam mandioca para fazer farinha no interior da Bahia. (Foto: FASE)

A mangaba, fruto da mangabeira (Hancornia speciosa), também permanece no hábito alimentar de povos e comunidades rurais. Da fruta, rica em vitamina C, são produzidos licores, geleias, sorvetes, além de ser consumida in natura. Nos meses de dezembro a abril exala-se nas áreas do Cerrado e nas planícies pantaneiras o aroma da canjiquinha ou canjiqueira, semaneira (Byrsonima orbignyana A. Jussieu), de sabor agridoce e de polpa carnosa. Ela marca a saborosa e rica cultura alimentar da região, além de ter uma importância econômica para povos e comunidades que comercializam localmente a fruta e as polpas de suco. Sabores estes pouco conhecidos pela maioria da população brasileira.

O agroextrativismo é “uma das práticas promotoras do Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, na medida em que contribui com o resgate da cultura alimentar regional/local e vincula a produção de alimentos ao território e às relações sociais que nele se estabelecem” [4]. As experiências de resgate de culturas e hábitos alimentares têm permitido uma ampla participação das mulheres, o que vem estimulando a valorização e a intensificação do plantio, manejo e uso de alimentos tradicionalmente utilizados regionalmente, assim como de plantas medicinais. Os grupos de mulheres são guardiões dos sabores e nos convidam a compartilhar, valorizar, proteger, preservar essa riqueza e a reconhecer e respeitar sua identidade cultural.

Esta é uma reflexão que interessa não apenas a quem produz, quem vive no campo e na floresta, mas também para a quem mora nas cidades e consome os alimentos. E para assegurar essa diversidade é fundamental garantir os direitos de quem protege a natureza e produz os alimentos. Estamos perdendo a nossa rica biodiversidade, e esses alimentos ou estão desaparecendo ou estão sob fortes ameaças em razão de problemas gerados pelo modelo agroindustrial de produção dos alimentos. O aumento dos desmatamentos, a expansão do gado e dos monocultivos de soja, milho, cana de açúcar, assim como a contaminação do solo, das águas e dos alimentos pelo uso intensivo dos agrotóxicos, ameaçam a nossa soberania e segurança alimentar e nutricional.

Por isso, também a FASE participa da Campanha em Defesa do Cerrado, Berço das águas, um bioma ameaçado. Aí estão bacias hidrográficas importantes como, por exemplo, a do São Francisco e a do Paraguai e o grande Aquífero Guarani. O Cerrado abriga milhares de espécies de plantas nativas, dentre elas inúmeras comestíveis. Aí vivem também centenas de milhares de agricultores e agricultoras familiares, quebradeiras de coco babaçu, comunidades quilombolas, povos indígenas e pescadores que cuidam da rica biodiversidade ameaçada.

Mulheres trabalham com alimentos do Cerrado. (Foto: Andrés Pasquis/GIAS)

Nossa proposta é a defesa da comida como patrimônio, com os seus vários sentidos para as diferentes culturas alimentares. Reafirmamos que a nossa biodiversidade é protegida pela diversidade cultural, ou nossa sociobiodiversidade, com os vários segmentos do campesinato, povos e comunidades tradicionais que fazem a história, e que precisam ter seu direito às terra e ao território e seus modos de vida protegidos.

[1] Educadora do programa da FASE no Mato Grosso e integrante do Grupo Nacional de Assessoria (GNA) da FASE, respectivamente.

[2] CORADIN, L; SIMNSKY, A;REIS,A – Espécies Nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial,: plantas para o futuro – Região Sul, Brasília:MMA, 2011.

[3] Comida é patrimônio, e não mercadoria – Entrevista realizada por Gilka Resende com Maria Emília Pacheco (edição 7 do Brasil de Fato RJ).

[4] CASTRO, Francileia Paula – “Cultura alimentar e agroextrativismo: saúde na mesa e renda no campo”, artigo na Revista Agriculturas (ASPTA). 

Foto destacada: Mandala de pequis do Mato Grosso. (Foto: Andrés Pasquis/GIAS)

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.

A construção social do gosto alimentar em uma feira livre de Salvador-BA

A construção social do gosto alimentar em uma feira livre de Salvador-BA

 Ianua Coeli Santos Ribeiro de Brito

Juliede de Andrade Alves

 Lígia Amparo-Santos

Considerações iniciais

O gosto orienta as escolhas as quais conduzem a organização do mundo social, mas, simultaneamente, este gosto também é orientado pelas escolhas que são feitas por um indivíduo ou meio. Em outras palavras, pode-se dizer que, ao mesmo tempo em que o gosto é uma expressão individual do sujeito, ele é construído socialmente a partir de conciliações de preferências. Pode-se aproximar o gosto estético referido por Bourdieu (2007) ao gosto alimentar, quando este último se vê ilustrado em um sistema – alimentar – classificatório no qual somos condicionados a fazer escolhas. O gosto construído é produto de classificações que estabelece as distinções sociais.

É importante neste contexto perceber o gosto como um atributo mutável e, sendo mutável, pode ser (re) construído. Para Pita (2002), o tempo é um fator importante, bem como o exercício que se constitui a partir da repetição frequente de atos. Sobre essas experiências repetitivas estabelecidas, a educação do gosto se dá gradualmente, a partir da influência de contextos econômicos, educativos e outros determinantes sociais que tem grande influência nas escolhas do sujeito.

Nesse sentido, investigações voltadas para as práticas alimentares e a compreensão da constituição dos hábitos alimentares brasileiros tem sido de grande importância, sendo a construção do gosto alimentar, um tema embrionário e pouco discutido no âmbito acadêmico das Ciências da Alimentação e Nutrição, tendo a sua compreensão como um elemento de relevância para compreender o que leva às escolhas dos sujeitos.

Partindo do pressuposto de que hábitos e práticas alimentares são influenciados pela dinâmica social, permite-se observar que as feiras e mercados populares – hoje como espaços de resistência urbana – no que tange a realização de refeições, ainda se constituem como espaços de comensalidade e, consequente, de sociabilidade, principalmente entre grupos sociais das camadas populares. Pode-se dizer que “nestes lugares de realização da vida, os diferentes grupos sociais trabalham, consomem, realizam formas culturais e vivenciam os limites de seus exercícios”. (MASCARENHAS, 2008, p.73).

Mais que hábitos e práticas alimentares, a observação das feiras nos leva a perceber um determinado modo ou estilo de vida, que se mostra particular para um determinado grupo, o que conduz a crer que aquilo que se é colocado no prato, mais que alimentar o corpo, serve também como alimento para as formas de viver dos sujeitos constituintes desse espaço.

É de grande valia a compreensão do itinerário do gosto no âmbito das feiras livres, onde é possível identificar esses espaços de resistência urbana como redutos da gastronomia popular, local de comércio de preparações cozidas, de alimentos in natura, e local onde o gosto pelos alimentos, presentes nas feiras, se estabelece e molda as escolhas alimentares observadas nos sujeitos.

Partindo da ideia de que este texto deve contemplar a importância de se discutir estudos e pesquisas em feiras populares sobre o gosto, vê-se também a importância de relatar o que se tem estudado.

 

Acerca do gosto alimentar em uma feira-livre

Entre 2014 e 2015, o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Alimentação e Cultura (NEPAC) coordenou e orientou um projeto de pesquisa intitulado Corporalidades, Comensalidades e Alimentação Saudável: Um estudo sobre práticas corporais e alimentares em camadas populares sob a ótica da promoção da alimentação saudável em um bairro popular da cidade de Salvador-Bahia, financiado pela Fundação de Amparo ao Pesquisador do Estado da Bahia (FAPESB), no qual a feira livre foi locus do estudo, contemplando diversos planos de trabalho com suas vertentes exploratórias, dentre elas o gosto alimentar.

Durante o processo de construção dos projetos, somou a essa escolha do locus, a identificação de um não menos largo universo de produção, comercialização chamadas comidas típicas populares, particularmente nos locais de comércio popular tais como feiras e mercados, locais de grande fluxo de pessoas. Nestes espaços, observa-se a presença de frequentadores habituais que fazem do consumo das comidas típicas populares uma prática cotidiana.

O estudo teve como objetivo compreender os sentidos atribuídos à construção do gosto e do prazer de feirantes e frequentadores de uma feira livre de Salvador-BA no contexto da alimentação saudável. Embasou-se em uma abordagem qualitativa de cunho etnográfico, tendo a sua concepção situada no campo da socioantropologia da alimentação, bem como o foco e diálogo entre as Ciências Sociais e da Nutrição. Considerou como locus uma das feiras da cidade de Salvador-Bahia situada no subúrbio ferroviário da capital baiana.

A ação comunicativa foi feita a partir de entrevistas semiestruturadas com comensais (C) e feirantes (F) e a mediação subjetiva desses sujeitos, estão intimamente ligadas às experiências pessoais do mundo e do contexto vivido. Neste artigo, serão descritas brevemente duas categorias, apresentando resultados obtidos durante a pesquisa.

A primeira categoria foi denominada “O saber fazer”. Quando esta emergiu, veio à luz observar como se dá a preparação da comida sob a perspectiva do gosto de cada sujeito. Traçaram-se diversos discursos a partir dos modos de produção de suas refeições. Nessa categoria, foi possível observar a noção de saber fazer a comida básica (F1) como maneiras de ser prático e preparar comidas simples (F1).

O modo de fazer comida tida como “simples”, pode ter uma grande complexidade, mas que, na perspectiva do sujeito, representa algo fácil de fazer, sendo chamada de comida básica. No entanto, para outros sujeitos ou grupos sociais distintos, essa maneira e costume de saber fazer comida pode não ser compreendida por básica ou fácil. Para Oliveira e Freitas (2008), perpassa por essa prática uma multiplicação de arranjos que configuram os novos modelos alimentares que contrastam com o comer estruturado das tradicionais refeições domésticas.

Sendo assim, entram em cena as maneiras particulares de se preparar essas comidas básicas. A expressão rechear, por exemplo, é observada na maioria dos discursos dos sujeitos. Rechear a comida com o tempero é a ação estruturante para conferir sabor às preparações, sendo o primeiro passo da receita, com o propósito de pegar gosto (F2).

Para os feirantes e comensais, ao preparar o feijão com carne, dar mais um tempo pra rechear a carne com o tempero (F2), com a finalidade de pegar gosto para depois jogar o feijão, é um procedimento comum durante a preparação da comida e grande definidor de sabor. Os temperos desvelam sensações que transcendem o vocabulário, sendo indizíveis durante os discursos. Na comida, “o tempero parece funcionar como uma porção mágica onde guarda os verdadeiros segredos da cozinha” (SANTOS, 2008, p. 267).

Ainda fazendo jus à construção de gostos a partir do fazer culinário, elementos ácidos são comumente utilizados durante as preparações cárneas. O limão entra nesse contexto com um valor simbólico no que diz respeito às suas diversas funcionalidades: potencializar o sabor e aumentar o prazer do comer. Isso pode ser constatado nos relatos sobre a finalização de uma moqueca de peixe – na qual deve pegar uma banda de limão, ‘cheio de água’ e botar por cima (F3) da preparação [detalhando o procedimento com gestos circulares]. Essas minúcias fazem qualquer um lamber os dedos, o que rememora a sensação de prazer obtida com o azedinho que o ingrediente provoca.

Ainda, é de caráter providencial deixar a carne alguns minutos no limão (F2), por ser uma maneira de higienizar o alimento no ato de tratar, antes da preparação em fogo, para matar as bactérias, remetendo questões que transcendem os discursos do nutricionista relacionados à carga microbiológica das carnes. A partir de um estudo feito em uma feira livre, Minnaert e Freitas (2010), afirmam que práticas higiênicas refletem hábitos que se instituem como códigos socioculturais e as mudanças podem significar mais que a alteração de práticas comportamentais. De acordo com as autoras, o conceito e a escolha do que é limpo ou sujo são símbolos culturais que nem sempre são associados aos conceitos técnico-científicos.

A segunda categoria escolhida foi a construção do gosto na feira a partir dos laços estabelecidos entre a casa e a rua. DaMatta (1997) aponta que rua e casa são espaços relativos e dinâmicos, e se reproduzem mutuamente. Existem espaços que podem ser fechados na rua podendo ser considerados como casa ou como se estivessem em casa. Na feira, esses dois mundos se fundem e borram os limites que os separam. Com a dinâmica do trabalho, comer na feira não é comer fora (F5). Come-se nesse espaço quando o trabalho acontece no turno integral, em decorrência da necessidade de manutenção da vida através do emprego informal, defendendo a ideia da feira como outra casa e que comer fora conota ir a um restaurante (F5).

Pode-se dizer que há a construção do gosto em relação à comida que se come na feira, feita por uma “família” – seja por laços sanguíneos ou por laços afetivos – forjada pelo acolhimento que a feira contempla a exemplo da comercialização de comida caseira. Nessa perspectiva, ao sujeito compete a sua sensibilidade pela comida da feira, visto que se depara com a comida bem feita, em um ambiente que o acolhe, e permite o desenvolvimento da confiança pela comida da feira, como se fosse a comida feita em casa.

 

Notas Finais

Destarte, observa-se que estudos explorando o universo do fazer culinário e suas particularidades, bem como as relações afetivas em torno da comida estabelecidas entre a casa e a rua de feirantes e comensais, ajudam a remontar uma melhor compreensão dos sentidos atribuídos à construção de gostos e de práticas alimentares nesses espaços sociais que, por vezes, passam despercebidos na vida moderna atual, marcada por crescentes demandas e tempo cada vez mais escasso. Por ser um tema pouco discutido na Ciência da Alimentação e Nutrição, maiores investigações científicas ainda são necessárias, com o intuito de auxiliar reflexões em torno da construção do gosto alimentar e das particularidades impressas no ato de comer.

 

Referências

BOURDIEU, P. A Distinção: crítica social do julgamento. 1. ed., São Paulo: Edusp, 2007.

DAMATTA, R. A casa e a rua: Espaço, cidadania, mulher e morte no brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

OLIVEIRA, N.; FREITAS, C. S. F. Fast-food: um aspecto da modernidade alimentar. In: FREITAS, C. S. F.; FONTES, G. A. V.; OLIVEIRA, N. Escritas e narrativas sobre alimentação e cultura. Salvador: EDUFBA, 2008.

MASCARENHAS, G. Feira livre: territorialidade popular e cultura na metrópole contemporânea. Ateliê Geográfico, Goiânia, v. 2, n. 4, p.72-87, 2008.

SANTOS, L. A. S. O corpo, o comer e a comida. Salvador: EDUFBA, 2008.

PITA, A. P. O gosto ou “Os movimentos secretos da alma”: tópicos para um debate sobre a educação do gosto. Portugal, p. 87-91, 2002.

MINNAERT, A. C. S. T.; FREITAS, M. C. S. Práticas de higiene em uma feira livre da cidade de Salvador (BA). Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 15, Supl. 1, p. 1607-1614, 2010.

Foto da Feira de São Joaquim/BA : Fonte

 

Ianua é nutricionista graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestranda em Alimentos, Nutrição e Saúde pela UFBA e integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (NEPAC).

Juliede é Nutricionista graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Alimentos, Nutrição e Saúde pela UFBA. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (NEPAC) e professora de Educação Nutricional da Faculdade Maurício de Nassau.

Nutricionista graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Medical Education University of Dundee (Escócia), doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), professora associada da UFBA e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (NEPAC).

Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos

Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos

Publicado na 44ª edição da Revista Sociologia o artigo da professora Elaine de Azevedo intitulado “Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos”. A revista é uma publicação quadrimestral do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS, destinada a promover intercâmbio entre cientistas sociais nacionais e internacionais. A autora concebeu uma entrevista para o OBHA sobre essa publicação.

Elaine é nutricionista, doutora em Sociologia Política na área de Sociologia Ambiental e Sociologia do Conhecimento Científico. Fez estágio pós doutoral no Departamento de Prática de Saúde Pública, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pesquisando os campos de estudo da Agroecologia e da Promoção da Saúde. Atualmente é Professora Adjunta na Universidade Federal do Espírito Santo, na Graduação e no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais (PGCS) no Departamento de Ciências Sociais do Centro de Ciências Humanas e Naturais. É coordenadora do Grupos de Pesquisa CNPq/ UFES: Diálogos entre Sociologia e Artes e Ambiente e Sociedade. É membro da International Association of Socioloy.

Eis a entrevista:

OBHA: Por que você se interessou pelo olhar da sociologia para analisar o tema da alimentação e nutrição na sua trajetória acadêmica?

Elaine: Porque a formação em Nutrição ainda é muito estreita para pensar todas as dimensões socioculturais que me mobilizam e que podem ter a alimentação como tema transversal. Ou seja, eu me interesso em discutir poder, mercado, gênero, desigualdades, consumo, migração, relações sociais, globalização, saúde e doença, meio ambiente, ativismo, política, controvérsias sócio técnicas via alimentação. O que me encanta é olhar para a sociedade com as lentes da comida.

OBHA: Quais foram as tuas motivações motrizes para desenvolver seu último artigo “Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos”?

Elaine: Além de ir ao encontro do meu interesse citado anteriormente, eu tinha o desejo de delinear um ‘estado da arte’ dessa área de estudo para conhece-la mais e fomentar futuras pesquisas empíricas, além de revelar a abrangência desse campo que eu considero tão instigante.

OBHA: Em seu artigo, você cita possibilidades de relação com a comida deferentes e/ou inusitadas, a exemplo da geração Yum. Qual ou quais dela/s te chama/m mais a atenção e/ou desperta/m curiosidade para novas pesquisas?

Elaine: Muitas temáticas despertam minha curiosidade e podem ser pesquisadas, eu as pontuei no final do artigo; para citar algumas eu remeto as chamadas migratory meals e seu papel no processo de integração dos imigrantes e refugiados; as novas formas de ativismo e fundamentalismo alimentares; as infinitas controvérsias ligadas a alimentação e os diferentes tipos de comensalidades contemporâneos.

OBHA: Você coloca ao longo do texto que o tema de alimentação e cultura já foi marginalizado na sociedade. Foi ou é marginalizado ainda? Quais elementos você pode compartilhar conosco que expressam essa notoriedade?

Elaine: Eu pontuei que a alimentação foi por algum tempo uma temática social negligenciada na Sociologia devido a clássica separação natureza-sociedade, por seu vínculo a uma atividade doméstica e sem glamour, de domínio tradicional das mulheres, cuja produção remete ao meio rural. Por isso, a alimentação ficou distanciada do apelo intelectual de teóricos masculinos que dominaram o início das Ciências Sociais, preocupados com uma nova disciplina assepticamente ‘cultural’ e que atuavam no meio urbano. Entretanto, atualmente a alimentação ganhou outro status.  É um tema efervescente que chama atenção da mídia, dos leigos e dos especialistas. Falar de comida, comer e cozinhar mobilizam todas as sociedades. A ‘história por traz da comida’ e a relação entre alimento, saúde, ética e sustentabilidade nunca estiveram tão evidentes. Difícil é abarcar todas as nuanças dessas temáticas.

OBHA: Você destaca o lançamento do OBHA em seu artigo, qual relevância você percebe na existência de um observatório que trabalha os temas que perpassam os hábitos alimentares da população brasileira?

Elaine: Um observatório é um espaço legítimo de investigação e construção interdisciplinar e coletiva de conhecimentos sobre alimentação e nutrição. Nesse sentido o OBHA tem um papel essencial na identificação de questões alimentares locais e na resolução de problemas identificados pelos diferentes atores que são afetados por eles. Eu penso que um dos grandes desafios de um observatório alimentar é garantir, democraticamente, o espaço e a voz das minorias que produzem alimentos e que comem de formas diferenciadas. As minorias excluídas da discussão acadêmica e distanciados de uma ciência elitizada. Um observatório permite garantir a legitimidade do conhecimento agroalimentar tácito que é tão precioso e tão vulnerável.

OBHA: Você como uma especialista na área de alimentação e cultura, quais suas expectativas em relação a um observatório com a nossa natureza?

Elaine: Nós construímos coletivamente uma poderosa e revitalizada política de segurança alimentar e nutricional (SAN) que considera o ato de comer em suas múltiplas dimensões – agrícola, social, cultural, ambiental, de promoção da saúde –  como poucos países conseguiram desenvolver. Incluímos diversos atores sociais e setores nessa discussão e somos respeitados no mundo todo. E essa política se encontra atualmente ameaçada, como tantas outras políticas ambientais e de bem-estar social. O observatório é mais uma estratégia que temos na defesa dessa importante conquista. O que eu espero é que o Observatório seja mais uma voz potente para defender nossa soberania e nosso patrimônio alimentar e também o direito de todo brasileiro a uma alimentação de qualidade. Mais um clamor para garantir a sobrevivência da nossa preciosa política de SAN.

Gostou da entrevista? Quer saber mais? Acesse o artigo na íntegra aqui.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

La madre en la alimentación

La madre en la alimentación

En el advenimiento del 10 de mayo, analizamos las implicaciones del rol de la figura materna en la alimentación del núcleo familiar.

Matéria em espanhol, publicada em 09/05/17 por Liliana Martínez Lomelí no site El Economista.

Evidentemente, el acto de alimentarse en todos nosotros comienza con una dependencia total al hecho de ser alimentados por alguien más, en la gran mayoría de los casos, el ser alimentado por nuestra madre. La comodidad y satisfacción que tiene un bebé después de alimentarse de su madre crea un vínculo que ha sido estudiado por psicólogos y sociólogos desde hace mucho tiempo.

¿Cómo no asociar la comida con emociones y/o sentimientos, si desde que nacemos y a temprana edad, es la forma en la que se nos transmite bienestar? Es una invariante cultural, en casi todo el mundo, que la madre sea asociada a la figura primaria de satisfacción de las necesidades de los recién nacidos, en parte por su capacidad de producir desde su propio cuerpo el alimento ideal para los lactantes. Incluso, a veces, se crean tantos mitos que se dan como hechos científicos alrededor de la alimentación materna, que se necesitan contra argumentos de orden antropológico, para combatirlos. Por ejemplo, uno de los argumentos en contra de la ingestión de leche de vaca es que el hombre es el único mamífero que toma leche de otra especie. Esto es falso, porque las mujeres bishnois, de la India, amamantan a sus hijos y también a las gacelas bebés, en una doctrina de vida que incluye el respeto y la preservación de las especies animales. Sin embargo, alrededor de este hecho que podemos calificar de biológico, los antropólogos han estudiado alrededor del mundo cuáles son los componentes culturales que determinan que la alimentación materna tenga un peso que se alarga durante casi toda la vida.

Pensemos por ejemplo, en el peso que se le da a la figura materna desde nuestra idiosincrasia mexicana, ya lo señalaba Octavio Paz en El Laberinto de la Soledad: el papel de la madre en México está lleno de mitificaciones que la elevan y la sobajan al mismo tiempo. En la mayoría de los hogares mexicanos, una mujer es la encargada de la alimentación familiar, o de la unidad doméstica: ya sea la esposa, mamá, hija o en el caso de hombres que viven solos, la señora que auxilia con el aseo. Esta repartición del trabajo, según algunos antropólogos, ya no obedece a una cuestión biológica, sino cultural: seguimos siendo en esencia sociedades patriarcales.

Imagine por ejemplo, la comida de la mamá. La comida que prepara la madre, para muchas personas, es algo así como El Dorado de la infancia: un lugar mítico, lleno de placer y felicidad, al que nunca más se podrá acceder porque, comida como la de la madre sólo hay una. En muchas instancias, resulta reconfortante tener estas referencias culinarias, pero en algunas muchas otras, puede causar daño y tensión en las relaciones que se establecen con las cocinas post cocina materna.

Es un hecho que la alimentación familiar determina en gran medida nuestros gustos, prácticas y anclajes emocionales alrededor de la comida. Sin embargo, en la época contemporánea en la que además de ser madres las mujeres nos desarrollamos en una multiplicidad de frentes, resulta anacrónico que la responsabilidad primordial de la alimentación familiar recaiga sobre ellas. Cuando se ve a un niño mal alimentado, inmediatamente se piensa en la culpa de la madre, pero no del padre. Es un lugar común también, que muchos programas alimentarios vayan dirigidos hacia las madres, lo que no hace más que perpetuar estos roles. Y ni hablar de todas las mediatizaciones sobre madres que “logran” trabajar y tener hijos al mismo tiempo. Esto tendría que ser una hazaña si partiéramos del principio de responsabilidad compartida con los padres. Cuando estas responsabilidades sean compartidas, es cuando podremos avanzar también como sociedad en el bienestar alimentario de las familias.

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