Publicado na 44ª edição da Revista Sociologia o artigo da professora Elaine de Azevedo intitulado “Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos”. A revista é uma publicação quadrimestral do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS, destinada a promover intercâmbio entre cientistas sociais nacionais e internacionais. A autora concebeu uma entrevista para o OBHA sobre essa publicação.

Elaine é nutricionista, doutora em Sociologia Política na área de Sociologia Ambiental e Sociologia do Conhecimento Científico. Fez estágio pós doutoral no Departamento de Prática de Saúde Pública, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pesquisando os campos de estudo da Agroecologia e da Promoção da Saúde. Atualmente é Professora Adjunta na Universidade Federal do Espírito Santo, na Graduação e no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais (PGCS) no Departamento de Ciências Sociais do Centro de Ciências Humanas e Naturais. É coordenadora do Grupos de Pesquisa CNPq/ UFES: Diálogos entre Sociologia e Artes e Ambiente e Sociedade. É membro da International Association of Socioloy.

Eis a entrevista:

OBHA: Por que você se interessou pelo olhar da sociologia para analisar o tema da alimentação e nutrição na sua trajetória acadêmica?

Elaine: Porque a formação em Nutrição ainda é muito estreita para pensar todas as dimensões socioculturais que me mobilizam e que podem ter a alimentação como tema transversal. Ou seja, eu me interesso em discutir poder, mercado, gênero, desigualdades, consumo, migração, relações sociais, globalização, saúde e doença, meio ambiente, ativismo, política, controvérsias sócio técnicas via alimentação. O que me encanta é olhar para a sociedade com as lentes da comida.

OBHA: Quais foram as tuas motivações motrizes para desenvolver seu último artigo “Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos”?

Elaine: Além de ir ao encontro do meu interesse citado anteriormente, eu tinha o desejo de delinear um ‘estado da arte’ dessa área de estudo para conhece-la mais e fomentar futuras pesquisas empíricas, além de revelar a abrangência desse campo que eu considero tão instigante.

OBHA: Em seu artigo, você cita possibilidades de relação com a comida deferentes e/ou inusitadas, a exemplo da geração Yum. Qual ou quais dela/s te chama/m mais a atenção e/ou desperta/m curiosidade para novas pesquisas?

Elaine: Muitas temáticas despertam minha curiosidade e podem ser pesquisadas, eu as pontuei no final do artigo; para citar algumas eu remeto as chamadas migratory meals e seu papel no processo de integração dos imigrantes e refugiados; as novas formas de ativismo e fundamentalismo alimentares; as infinitas controvérsias ligadas a alimentação e os diferentes tipos de comensalidades contemporâneos.

OBHA: Você coloca ao longo do texto que o tema de alimentação e cultura já foi marginalizado na sociedade. Foi ou é marginalizado ainda? Quais elementos você pode compartilhar conosco que expressam essa notoriedade?

Elaine: Eu pontuei que a alimentação foi por algum tempo uma temática social negligenciada na Sociologia devido a clássica separação natureza-sociedade, por seu vínculo a uma atividade doméstica e sem glamour, de domínio tradicional das mulheres, cuja produção remete ao meio rural. Por isso, a alimentação ficou distanciada do apelo intelectual de teóricos masculinos que dominaram o início das Ciências Sociais, preocupados com uma nova disciplina assepticamente ‘cultural’ e que atuavam no meio urbano. Entretanto, atualmente a alimentação ganhou outro status.  É um tema efervescente que chama atenção da mídia, dos leigos e dos especialistas. Falar de comida, comer e cozinhar mobilizam todas as sociedades. A ‘história por traz da comida’ e a relação entre alimento, saúde, ética e sustentabilidade nunca estiveram tão evidentes. Difícil é abarcar todas as nuanças dessas temáticas.

OBHA: Você destaca o lançamento do OBHA em seu artigo, qual relevância você percebe na existência de um observatório que trabalha os temas que perpassam os hábitos alimentares da população brasileira?

Elaine: Um observatório é um espaço legítimo de investigação e construção interdisciplinar e coletiva de conhecimentos sobre alimentação e nutrição. Nesse sentido o OBHA tem um papel essencial na identificação de questões alimentares locais e na resolução de problemas identificados pelos diferentes atores que são afetados por eles. Eu penso que um dos grandes desafios de um observatório alimentar é garantir, democraticamente, o espaço e a voz das minorias que produzem alimentos e que comem de formas diferenciadas. As minorias excluídas da discussão acadêmica e distanciados de uma ciência elitizada. Um observatório permite garantir a legitimidade do conhecimento agroalimentar tácito que é tão precioso e tão vulnerável.

OBHA: Você como uma especialista na área de alimentação e cultura, quais suas expectativas em relação a um observatório com a nossa natureza?

Elaine: Nós construímos coletivamente uma poderosa e revitalizada política de segurança alimentar e nutricional (SAN) que considera o ato de comer em suas múltiplas dimensões – agrícola, social, cultural, ambiental, de promoção da saúde –  como poucos países conseguiram desenvolver. Incluímos diversos atores sociais e setores nessa discussão e somos respeitados no mundo todo. E essa política se encontra atualmente ameaçada, como tantas outras políticas ambientais e de bem-estar social. O observatório é mais uma estratégia que temos na defesa dessa importante conquista. O que eu espero é que o Observatório seja mais uma voz potente para defender nossa soberania e nosso patrimônio alimentar e também o direito de todo brasileiro a uma alimentação de qualidade. Mais um clamor para garantir a sobrevivência da nossa preciosa política de SAN.

Gostou da entrevista? Quer saber mais? Acesse o artigo na íntegra aqui.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.