Magro não é imortal.

Magro não é imortal.

Matéria original publicada no blog Não sou exposição

O texto de hoje é sobre um tweet que foi amplamente compartilhado durante a semana e que me foi mostrado muitas vezes. É este da foto destacada.

É a imagem de várias mulheres gordas, junto com a pergunta “o que temos em comum?”

Eu não sei qual era a resposta original, mas uma usuária do Twitter respondeu listando várias doenças. Foi um sucesso. Ridicularizar pessoas gordas é sempre um sucesso.

Eu tenho algumas ressalvas e vou dizer o que penso a respeito.

1) O que diabos é “odiar a modernidade”?

Objetivamente falando, a Idade Moderna começou na Queda de Constantinopla e terminou com a Revolução Francesa. Nos encontramos atualmente na Idade Contemporânea.

Mas com certeza não estão falando de modo literal. Normalmente quando se fala em “modernidade” se está falando sobre os progressos econômicos, sociais e tecnológicos desencadeados pela Revolução Industrial. Mas não sei exatamente como mulheres gordas se encaixam neste assunto.

Até porque gente gorda no mundo não é exatamente uma coisa NOVA

Definir o que seriam tempos modernos é historica, filosofica, social e politicamente desafiador demais. Não me atrevo. Sou apenas profissional da saúde.

Talvez seja um movimento contra a máquina a vapor que pede a volta da Terra Plana e da Santa Inquisição. E da peste negra.

Não entendi direito, mas se eles odeiam tanto a modernidade, talvez devessem enviar os próximos tweets no lombo de um burro de carga… Quem odeia modernidade evidentemente também odeia a internet.

Enfim, achei confuso.

2) Não é assim que se faz “diagnóstico por imagem”

Como eu disse, existe diagnóstico por imagem… mas ele não pode ser feito via Twitter.

A única maneira de descobrir se as mulheres da foto têm qualquer uma das condições clínicas mencionadas é fazendo uma investigação clínica com anamnese completa e análise de exames. NINGUÉM pode fazer diagnóstico apenas batendo o olho nas pessoas.

Se você tem esse poder, sugiro que junte-se à Liga da Justiça com o codinome DIAGNÓSTICOMAN

   Sério.

É um poder incrível que pode fazer maravilhas para agilizar o sistema público de saúde. Estamos falando de centenas de diagnósticos por minuto!!

O INCRÍVEL DIAGNÓSTICOMAN

Ninguém pode concluir nada sobre a saúde das pessoas a não ser que sejam feitas maiores investigações.

Certo? Certo.

3) Pessoas magras podem ter TODAS as doenças mencionadas.

Existem dois grandes problemas que surgem por causa do foco exacerbado em peso e medidas como indicadores de saúde.

O primeiro deles é que isso promove uma verdadeira perseguição seguida de culpabilização de pessoas gordas, que NÃO estão todas doentes unicamente pelo fato de serem gordas.

        O segundo é a total despreocupação dos magros.

A insistência da mídia em classificar pessoas gordas como obrigatoriamente doentes não só é injusto com gordos, mas também encoraja uma imensa negligência dos magros.

Hipertensão, doença cardiovascular, diabetes tipo II, artrose, pedra na vesícula, artrite, cansaço (?) e refluxo NÃO SÃO exclusividade de gordos.

Você sabia que a ideia de que somente gordos têm diabetes tipo II é um mito?

Você sabia que existem pessoas magras metabolicamente doentes?

Você sabia que a taxa de mortalidade entre as pessoas gordas que desenvolvem diabetes é MENOR?

Pensar que ser magro é sinônimo automático de ser saudável é uma falsa noção de proteção. Magros também devem se alimentar bem, se exercitar e realizar check ups periodicamente.

Doenças crônicas têm íntima relação com o estilo de vida e com genética. Usar roupas tamanho P não quer dizer nada. O que é decisivo para uma boa condição de saúde física (e mental) são as rotinas de autocuidado.

Nessa vida eu já vi várias pessoas magras reagindo com espanto ao diagnóstico das mais diversas doenças argumentando: “mas eu sou magro(a)!”

Newsflash: magro não é imortal.

negligência dos magros é fruto de uma abordagem midiática estereotipada que não orienta que TODOS devem seguir bons hábitos de vida, e apenas ensina que emagrecer é solução (e prevenção) para todos os problemas.

Você é uma pessoa magra?

Saiba que você também precisa se responsabilizar pela sua saúde e que o tamanho do seu corpo por si só não te faz imune ao desenvolvimento de problemas crônicos de saúde.

Não existe “doença de gordo”. Existe doença. E todos estão sujeitos a desenvolvê-las.

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.

Festival de Cultura do Cerrado Mineiro

Festival de Cultura do Cerrado Mineiro

O Festival de Cultura do Cerrado Mineiro da cidade de Patrocínio, em Minas Gerias, chegou a sua terceira edição trazendo como principal atração a praça de alimentação tematizada, com participação de chefs renomados, oficinas culinárias e degustação de vinhos e cervejas.

O festejo, que acontece no mês de Julho, está se tornando referência cultural e gastronômica da região do Cerrado Mineiro pela qualidade artística, técnica e organizacional, que tem como objetivo promover e resgatar os patrimônios imateriais, artístico-cultural e histórico de Patrocínio e região.

O evento é uma realização das ACIP/CDL, do Núcleo de Bares e Restaurantes do programa Empreender, Federação dos Cafeicultores do Cerrado Mineiro, Sindcomércio e Prefeitura Municipal de Patrocínio com apoio do Circuito Turístico Caminhos do Cerrado, Sebrae, Sesc e Senac.

Encontre mais informações na página do Facebook.

Projeto que objetiva registrar e popularizar as datas e localidades onde ocorrem festejos e comemorações com o foco em práticas e preparos culinários brasileiros. Participe você também preenchendo este formulário!

Memória Culinária de Ouro Preto | Entrevista com Olivia Bezerra

Memória Culinária de Ouro Preto | Entrevista com Olivia Bezerra

Com a necessidade de registar os patrimônios alimentares da cidade de Ouro Preto/MG nasceu o Memória Culinária de Ouro Preto. O livro tem como uma das organizadoras a Professora Olivia Maria de Paula Alves Bezerra que concedeu uma entrevista para o OBHA.

Olivia é nutricionista, mestre em Administração (área: Recursos Humanos) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); doutora em Ciência Animal (área: Epidemiologia) pela UFMG; pós-doutora pelo Núcleo de Pesquisas em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Atualmente é professora associada IV da Escola de Medicina da UFOP.

Memória Culinária de Ouro Preto está disponível no repositório institucional da UFOP.

Eis a entrevista:

OBHA: Por que você e as outras colaboradoras perceberam a necessidade de desenvolver uma obra que resgatasse o patrimônio alimentar ouro-pretano?

Olivia: Sentimos que essa era uma necessidade urgente, pois vemos com grande preocupação o surgimento acelerado, em Ouro Preto, de novos estabelecimentos que comercializam alimentos estranhos à nossa cultura alimentar, com consequente aumento do consumo desses alimentos em detrimento daqueles que efetivamente fazem parte da nossa cultura e constituem opções mais saudáveis. Para nós, a substituição dos pratos tradicionais pelos alimentos ultraprocessados e fast foods, constitui, de certa forma, uma ameaça à nossa cultura alimentar, aos nossos hábitos e a segurança e soberania alimentar do nosso povo. Nesse sentido, resgatar algumas receitas tradicionais e organiza-las em um livro foi a nossa forma de tentar contribuir para minimizar esse quadro.

OBHA: Quais foram as expectativas com a elaboração do livro? 

Olivia: A nossa principal expectativa foi que a população, ao ter contato com o livro, identificasse, nas receitas nele contidas, aquelas que poderiam ser preparadas nos diferentes ambientes de consumo, como as residências, escolas, restaurantes, bares, entre outros. Para isso, fizemos um amplo trabalho de divulgação por meio de oficinas culinárias com diferentes atores da sociedade ouro-pretana, e pensamos na publicação do livro como forma de sistematizar e registrar para as futuras gerações essa parte da nossa memória.

OBHA: Como foi construir um projeto desta natureza no meio acadêmico da nutrição tão influenciado pela visão biológica?

Olivia: Na época eu ainda estava trabalhando na Escola de Nutrição. Embora o projeto tenha causado um certo estranhamento no início, ele foi bem compreendido e aceito no âmbito da Escola. O projeto foi aprovado e suportado em termos financeiros pela FAPEMIG e também pela CAPES, o que viabilizou o seu desenvolvimento e conferiu mais credibilidade ao mesmo. O apoio da UFOP por meio de sua editora e da Pró-Reitoria de Extensão também foi fundamental para o alcance dos objetivos propostos. Foi uma experiência muito gratificante, especialmente por ter permitido abrir as portas da Escola de Nutrição à comunidade durante a realização das oficinas em seu laboratório de Técnica Dietética.

OBHA: Como foi o processo de produção do Memória Culinária de Ouro Preto?

Olivia: A primeira etapa consistiu na identificação de algumas famílias antigas da cidade, tanto na zona urbana quanto na rural, para que fossem entrevistadas e nos colocassem a par de suas receitas culinárias antigas. A seguir, solicitamos às informantes que preparassem essas receitas no seu próprio domicílio, para que pudéssemos acompanhar as etapas e degustar as preparações. Nessa oportunidade, também colhemos, por meio de entrevistas, a história das receitas naquela família, identificando quem as criou, como e em que ocasiões eram preparadas, como e de onde vinham os ingredientes, como era transmitida entre as gerações, entre outras informações que nos auxiliasse a compreender o contexto sociocultural em que eram preparadas e consumidas. Todas essas informações foram registradas no livro. Na terceira etapa, coube à equipe de pesquisadoras e alunas bolsistas preparar as receitas colhidas, já no ambiente do laboratório de Técnica Dietética da Escola de Nutrição, a fim de fazer ajustes nas quantidades per capita e no modo de preparo para elaboração das fichas de preparação e determinação do seu valor nutricional. Também pudemos analisar a viabilidade de substituição de alguns ingredientes e fazer provas de análise sensorial. Na quarta etapa realizamos uma série de oficinas, também no laboratório de Técnica Dietética, com escolares, merendeiras, grupos de terceira idade, nutricionistas e outros segmentos de Ouro Preto e mais 4 municípios vizinhos, a fim de apresentar as receitas e estimular o seu consumo nos diferentes ambientes de alimentação. O retorno dessas oficinas foi muito bom, algumas chegaram até a ser incluídas no cardápio da alimentação escolar em alguns desses municípios. E, por fim, fizemos o lançamento do livro, ocasião em que recebemos muitos convidados, inclusive as senhoras que contribuíram com suas receitas e histórias. Elas prepararam e levaram vários quitutes para a ocasião. Foi um grande sucesso!

OBHA: Temos no livro as histórias das famílias por trás das receitas. Sabemos que o ato de se alimentar não é somente fisiológico, é também recheado de um caráter simbólico que permeia as relações sociais das pessoas. Qual a sua percepção da alimentação como parte da cultura de um povo?

Olivia: O projeto nos permitiu sentir de forma muito interessante essa questão, evidenciando a importância do ato de preparar e ingerir os alimentos para além das necessidades biológicas de saciedade e nutrição do corpo. A dimensão simbólica desse ato ficou muito evidente para nós. Muitas participantes do estudo relembraram, comovidas, o tempo em que eram crianças e viam suas avós, mães e tias preparando aquelas receitas, e depois todos se juntavam à mesa para comer, contar histórias, rezar… Muitas se referiram a antigos parentes e amigos que faziam parte do ritual de preparo e degustação daquelas receitas, às festas religiosas, aos reinados, casamentos, batizados, aos velórios… e nos contaram como conseguiram manter a tradição, passando o saber fazer culinário aprendido com suas antepassadas para suas filhas e netas, ainda que com pequenas adaptações, já que alguns ingredientes tradicionais dificilmente são encontrados na região de Ouro Preto nos dias atuais, como a gila, o tomate chimango, a fava. E focamos também sobre a questão do trabalho feminino, pois o ato de preparar os alimentos sempre foi tido como uma atribuição exclusiva da mulher em nossa sociedade machista. Nesse aspecto, buscamos valoriza-lo ao máximo e dignifica-lo enquanto produtor de saúde, memórias, culturas, prazeres e resgatando o significado do trabalho para essas mulheres. Realmente, foi muito prazeroso o desenvolvimento desse projeto.

OBHA: Além do livro, o projeto Resgatando a Memória Culinária de Ouro Preto desenvolveu oficinas culinárias junto à comunidade com o objetivo de divulgar essas receitas. Conte-nos um pouco dessa experiência.

Olivia: Sim. As oficinas foram realizadas aos sábados pela manhã e foram planejadas no contexto do projeto “UFOP com a Escola”, da Pró-Reitoria de Extensão, e do projeto Novos Talentos, da CAPES, e foram relatadas em um capítulo do livro “Em busca de novos talentos”, publicado pela Editora UFOP em 2014. A junção dos três projetos foi fundamental porque permitiu a participação de 130 pessoas, entre escolares, cantineiras, grupos de terceira idade, nutricionistas e outros no preparo, no laboratório de técnica dietética, de algumas das receitas contidas no livro. Em uma breve aula, os participantes receberam informações sobre normas de higiene, segurança laboratorial e técnicas de preparo de alimentos. Antes de se dirigirem ao laboratório, lhes era oferecido um lanche, já que muitos vinham da zona rural ou de outros municípios mais distantes. Todos recebiam uma apostila com as receitas que seriam preparadas naquele dia. A seguir, o grupo era dividido em subgrupos para preparo de pelo menos 5 das receitas escolhidas previamente, e depois do preparo, eram convidados a almoçar no laboratório. Após o almoço, era feita uma visita à Escola de Nutrição para que todos conhecessem seus laboratórios, salas de aula e outras dependências. Para muitos dos participantes, aquela foi a primeira vez que entraram no espaço da UFOP.  A partir das oficinas, os participantes se tornaram multiplicadores das receitas e de suas histórias.

OBHA: Vivemos uma época em que a cultura alimentar tem se perdido em meio a globalização. Os registros dos patrimônios culinários têm sido cada vez mais necessários para que não se percam com o tempo. Você enxerga o Memória Culinária de Ouro Preto como um incentivo para que outras localidades se mobilizem em torno da realização de algo parecido?

Olivia: Sim, certamente. Esperamos que o projeto e o livro possam inspirar pesquisadores e outros profissionais a replicarem a ideia em seus municípios, pois isso poderá contribuir para ampliar o leque de opções de alimentação saudável, condizentes com os hábitos e a cultura alimentar de cada território. Essa pode ser uma forma de contribuir para melhorar as condições de saúde e a qualidade de vida da população brasileira.

OBHA: Como você vislumbra um projeto como o Memória Culinária de Ouro Preto como um elemento de apoio para as políticas públicas ligadas a alimentação e nutrição no Brasil?

Olivia: Entendo que projetos como esse, que valorizam a cultura, o saber fazer e os alimentos locais e regionais, podem contribuir de forma significativa para a promoção do direito humano à alimentação adequada, saudável e sustentável da população, para o fortalecimento das políticas de segurança alimentar e nutricional e da nossa soberania alimentar. As ações locais, embora possam parecer de pouca importância para alguns, na verdade têm grande potencial de transformação da realidade de um povo.

 

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.
Prêmio Josué de Castro de combate à fome abre inscrições

Prêmio Josué de Castro de combate à fome abre inscrições

Matéria original publicada pela Agência FAPESP no dia 14 de julho de 2017.

Estão abertas desde segunda-feira, 17 de julho, as inscrições para o Prêmio Josué de Castro, promovido pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Consea/SP) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento paulista.

A iniciativa premiará a formulação de soluções concretas para o combate à fome e a promoção de segurança alimentar e nutricional. As inscrições ficam abertas até as 17h do dia 15 de agosto e podem ser feitas no endereço: http://www.consea.agricultura.sp.gov.br/josue-de-castro-2017.

Serão premiadas iniciativas em duas categorias: Melhor pesquisa científica e Melhor programa ou projeto de política pública. Podem participar universidades e instituições de pesquisa públicas e privadas e órgãos públicos municipais ou estaduais de São Paulo.

Mais informações pelo e-mail consea@consea.sp.gov.br ou pelo telefone (11) 5067-0444.

Sobre Josué de Castro

Josué Apolônio de Castro foi um influente médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro do combate à fome, com atuação internacional. Partindo de sua experiência pessoal no Nordeste brasileiro, publicou uma extensa obra que inclui: Geografia da fome (1946), Geopolítica da fome (1951), O Livro Negro da Fome (1957), Sete palmos de terra e um caixão (1965) e Homens e caranguejos (1967), entre outros.

Foi Presidente do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) entre 1952 e 1956, eleito por representantes de setenta países, e embaixador brasileiro junto à Organização das Nações Unidas, para o qual foi nomeado em 1962 e destituído em 1964, com o golpe militar que cassou seus direitos políticos. Foi indicado por três vezes para o prêmio Nobel: em 1954, para o Nobel de Medicina, e nos anos de 1963 e 1970, ao Nobel da Paz. Morreu no exílio em Paris em 1973.

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Pode-se comer de tudo com moderação. Só precisa de auto-controle…

Pode-se comer de tudo com moderação. Só precisa de auto-controle…

As propostas usuais de autocuidado na promoção da saúde alimentar costumam trazer como foco principal a fórmula do autocontrole. Em termos práticos, enfatiza-se principalmente o enunciado que preconiza a “moderação” na ingesta de alimentos (muitas vezes saborosos) que não sigam o conhecido ideário da ‘alimentação saudável’. A meta é, esquematicamente, evitar o ganho de peso e taxas sanguíneas indevidas, consideradas fatores de risco de agravos à saúde e à sobrevida.

Tais recomendações são, em síntese, recomendadas pelos técnicos especialistas em nutrição no âmbito da saúde pública e da prevenção. Apresentam-se como estratégias prescritivas para todas as pessoas de um modo geral. Até porque, mediante um enunciado metafórico proveniente das doenças infectocontagiosas, a obesidade é dita epidêmica e não faz distinção de faixa etária. Aliás, isto também pode ser correlacionado a determinados transtornos alimentares.

Ainda assim, não se deve desconsiderar que isto se dá no âmbito do capitalismo globalizado neoliberal com seus preceitos referentes à uma suposta ideia de autonomia mediante liberdade de escolha e direito de decidir quanto a modos de se conduzir na vida. Tal configuração, em termos breves, está dirigida a quem pode atuar como consumidor cujo poder aquisitivo permite a adesão a um determinado ‘estilo de vida’ compatível com o que o mercado tem a oferecer.

Em outras palavras, este modelo parte de um sujeito que seria autônomo e responsável, capaz de estabelecer relações de custo/benefício (mas que também poderiam ser de prazer/malefício) em suas ações e trocas no mundo em que vive. Assim, os indivíduos estariam aptos a eleger o que seria mais adequado para suas necessidades e demandas (e, claro, também deleites) em função de sua capacidade de saber atuar efetivamente neste mundo.

É imprescindível estar-se conscientes – supostamente bem informados – de suas ações como agentes de consumo diante de um mercado que oferece múltiplas opções de escolha não só nutricionais a seus potenciais clientes. Isto também vale para a moderação dos gastos conforme à respectiva disponibilidade financeira.de cada um. Numa comparação quiçá simplória, da mesma forma que não se deve estar obeso, não se deve endividar-se sem o devido lastro monetário.

Há evidentes efeitos adversos deste modo de encarar as formas de alimentação de grandes contingentes humanos excluídos das benesses deste modo desigual de crescimento econômico. Suas implicações se manifestam na ampla dimensão da precarização e do sofrimento humano em escala planetária. Uma das maneiras dominantes de lidar com estes aspectos se dá através da patologização do mal-estar. Há muitas situações danosas socialmente construídas que costumam afetar pessoas que não se comportariam como os experts recomendam, sem a devida ênfase nos contextos em que vivem.

Há uma tendência a atribuir-se que há escolhas e correspondente adoção de comportamentos danosos que teriam sido assumidos por seres plenamente conscientes de si, mas que podem ter decidido transitar por caminhos indevidos. Costuma-se responsabilizar os indivíduos (economicamente ativos) que não sabem se pautar de maneira apropriada às dinâmicas de vida estabelecidas socialmente pela doutrina do capital, mas que não assumem de modo explícito sua feição moralista, sobretudo no âmbito da saúde. Ou, em casos de profunda iniquidade, preconiza-se reiteradamente que medidas econômicas sob o formato de ajustes fiscais neoliberais viabilizarão a almejada acumulação capitalista sustentável que poderá, cedo ou tarde, trazer a redenção.

Ora, só é possível haver este modo de racionalização onde se manifestam crises de legitimidade em função dos paradoxos produzidos por um modelo de crescimento econômico e desenvolvimento próprios do novo espírito do capitalismo globalizado contemporâneo e de seu modelo de acumulação ilimitada do capital por meios formalmente pacíficos.

Este “novo espírito do capitalismo” está à mercê de uma forma generalizada de cinismo entendido através da presença de estruturas normativas duais que produzem uma pletora de situações da vida cotidiana nas quais acontecem situações marcadas acentuadamente pela dimensão da ambiguidade. Ou seja, há a incorporação simultânea de duas racionalidades normativas, que, embora contraditórias, se conjugam de maneira integrada. (Safatle, 2008)

Por um lado, estabelecendo regras das formas de interação social e das metas de autorregulação. Isto se dá no âmbito das normas visando a uma perspectiva de gestão populacional. Por outro, mediante imperativos comportamentais que ultrapassam as tentativas de estabelecer limites, diante das possibilidades de satisfação ilimitada com vistas à fruição individual sem restrições diante das ofertas postas nas múltiplas vitrines reais e virtuais.

Para a gestão da ‘população’, esta deve ser concebida como um ‘corpo social’ a partir da descrição do que seriam seus processos de interesse representados especialmente por taxas de nascimento e de óbito, duração da vida, produção de riqueza e sua circulação. A totalidade dos processos vitais concretos numa população é o propósito das ‘tecnologias de segurança’ que se dirigem aos fenômenos de massa das populações para, em tese, prevenir ou compensar pelos perigos e riscos que resultam da existência da população como uma entidade biológica.

Os objetos da biopolítica não são os seres humanos em suas singularidades, mas suas marcações biológicas mensuradas e agregadas ao nível das populações. Este dispositivo torna possível estabelecer normas, definir padrões e determinar valores médios. A ‘vida’ se transforma em um elemento independente, objetivo e mensurável, além de se constituir numa realidade prática e epistemologicamente à parte dos seres vivos concretos e das peculiaridades da experiência individual. A noção de biopolítica se relaciona com a emergência de disciplinas como a estatística, demografia, epidemiologia e biologia. Todas estas permitem analisar processos vitais na população e governar indivíduos e coletivos com vistas ao desenvolvimento de correção, exclusão, normalização, disciplina, terapia e otimização. (Lemke, 2011)

O medo de correr riscos e a transformação da segurança se constituem em principais virtudes da sociedade. Isto alimentou uma inclinação a se exagerar os problemas que esta sociedade enfrenta gerando um contexto hiperprevenido e hiperansioso. Este contexto tem reflexos na condução da vida que enfatiza: alta consciência ao risco, predisposição ao pânico, medo ao estranho, suscetibilidade ao abuso/abusadores, preocupação de controle de indivíduos que se descontrolam, que reincidem, que são negligentes em um contexto de fragilização nas relações de confiança. Como se houvesse uma forma de vida compatível com as demandas paradoxais do capitalismo, que exigem uma pedagogia para orientar as pessoas a como se movimentar com efetividade em um contexto onde se manifestam paradoxos, contradições e ambivalências.

A questão atual relativa ao medo de engordar chama a atenção para as dimensões morais do problema, assim como faz a perspectiva da ansiedade excessiva diante do risco e da demanda pelo respectivo autocontrole na ingesta. De todas as formas, a relação da promoção da saúde alimentar com o ganho de peso tende a se inscrever no âmbito dos tratamentos morais que acompanham o mal-estar na civilização capitalista globalizada e a correspondente racionalidade cínica na operação de suas estruturas normativas duais que simultaneamente estimulam e restringem. As pessoas, de um modo variado, não passam incólumes às precarizações e sofrimentos provocados por este modo de organização econômica e social.

Importa enfatizar que há sentido na busca de falar-se a verdade mesmo desafiando verdades erigidas através de dispositivos e retóricas evidenciológicas empiricistas que sustentam com suas verdades epidemio-biologicizadas a condutas moralistas compatíveis com o espírito de responsabilização pessoal dos indivíduos. Pois estas ocupam uma posição supostamente neutra. Ou seja, parecem indiferentes quanto à sua responsabilidade em função das implicações morais resultantes das dinâmicas de sua utilização social.

Ao mesmo tempo, além de se desconsiderar a dimensão humana dos seres existenciais, há uma colonização de subjetividades supostamente ajustadas a um modelo gerador de desajustes. Inclusive, vale enfatizar a perspectiva trazida de considerar o ato de se dizer a ‘verdade’ – sobretudo no sentido de manter a perspectiva crítica em nome dela. Esta seria uma das formas para poder se questionar os contextos contemporâneos de dominação que acompanham a produção tecnocientífica em sua relação com a produção de formas de vida nas sociedades configuradas pelos modos iníquos de acumulação capitalista.

Na verdade, temos uma tarefa no âmbito moral, qual seja, a de atuar na busca de outros compromissos ético-políticos que se afastem da perspectiva utilitária dos agentes supostamente autônomos e racionais, com direito de decidir e escolher seus próprios benefícios diante dos custos estipulados – só que dentro de possibilidades bastante reduzidas e afastadas de dimensões emancipatórias.

Neste sentido, o trabalho em foco se configura como uma contribuição para abordar a dinâmica das relações de poder na sociedade que determinam as relações que se manifestam no contexto das práticas pessoais e coletivas em saúde que interagem com as dimensões subjetivas dos indivíduos. (Carvalho e Gastaldo, 2008)

Há necessidade de análise crítica dos modos opressores produzidos pela racionalidade cínica que se naturalizam e sustentam a necessidade de enfrentamento dos modos de sujeição subjetiva vigentes. Em suma, o artigo em questão enfoca a necessidade de se estar atento aos jogos de interesse e de poder e resistir aos tratamentos moralistas dos riscos à saúde através da normatividade restritiva da promoção da saúde alimentar. Há uma adesão à ideia socioculturalmente exacerbada de autocontrole do peso, de acordo com os postulados neoliberais da responsabilização pessoal.

 

* Esta é uma resenha de Castiel, LD; Santos-Ferreira, M; Ribeiro-de-Moraes, D. Os riscos e a promoção do autocontrole na saúde alimentar: moralismo, biopolítica e crítica parresiasta. Ciência & Saúde Coletiva, 19(5):1523-1532, 2014.

Referências

Carvalho, S.R. Gastaldo, D. Promoção à saúde e empoderamento: uma reflexão a partir das perspectivas crítico-social pós-estruturalistas. Ciência & Saúde Coletiva, 13(Sup 2):2029-2040, 2008.

Lemke, T. Biopolitics. An advanced introduction. New York; New York University Press, 2011

Safatle, V. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.

 

Crédito da foto destacada.

Luis David Castiel é graduado em Medicina (UFRS,1995), tem mestrado em Community Medicine (University London, 1981), doutorado em Saúde Pública (FIOCRUZ, 1993) e pós-doutorado pelo departamento de Enfermeria Comunitaria, Salud Publica y Historia de la Ciência da Universidade de Alicante (Espanha, 2005). Atualmente é pesquisador titular o Depto de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz e professor permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e do Programa de Pós-graduação de Epidemiologia em Saúde Pública, dentro da subárea ‘A construção do conhecimento epidemiológico e sua aplicação às práticas de saúde’.