As propostas usuais de autocuidado na promoção da saúde alimentar costumam trazer como foco principal a fórmula do autocontrole. Em termos práticos, enfatiza-se principalmente o enunciado que preconiza a “moderação” na ingesta de alimentos (muitas vezes saborosos) que não sigam o conhecido ideário da ‘alimentação saudável’. A meta é, esquematicamente, evitar o ganho de peso e taxas sanguíneas indevidas, consideradas fatores de risco de agravos à saúde e à sobrevida.

Tais recomendações são, em síntese, recomendadas pelos técnicos especialistas em nutrição no âmbito da saúde pública e da prevenção. Apresentam-se como estratégias prescritivas para todas as pessoas de um modo geral. Até porque, mediante um enunciado metafórico proveniente das doenças infectocontagiosas, a obesidade é dita epidêmica e não faz distinção de faixa etária. Aliás, isto também pode ser correlacionado a determinados transtornos alimentares.

Ainda assim, não se deve desconsiderar que isto se dá no âmbito do capitalismo globalizado neoliberal com seus preceitos referentes à uma suposta ideia de autonomia mediante liberdade de escolha e direito de decidir quanto a modos de se conduzir na vida. Tal configuração, em termos breves, está dirigida a quem pode atuar como consumidor cujo poder aquisitivo permite a adesão a um determinado ‘estilo de vida’ compatível com o que o mercado tem a oferecer.

Em outras palavras, este modelo parte de um sujeito que seria autônomo e responsável, capaz de estabelecer relações de custo/benefício (mas que também poderiam ser de prazer/malefício) em suas ações e trocas no mundo em que vive. Assim, os indivíduos estariam aptos a eleger o que seria mais adequado para suas necessidades e demandas (e, claro, também deleites) em função de sua capacidade de saber atuar efetivamente neste mundo.

É imprescindível estar-se conscientes – supostamente bem informados – de suas ações como agentes de consumo diante de um mercado que oferece múltiplas opções de escolha não só nutricionais a seus potenciais clientes. Isto também vale para a moderação dos gastos conforme à respectiva disponibilidade financeira.de cada um. Numa comparação quiçá simplória, da mesma forma que não se deve estar obeso, não se deve endividar-se sem o devido lastro monetário.

Há evidentes efeitos adversos deste modo de encarar as formas de alimentação de grandes contingentes humanos excluídos das benesses deste modo desigual de crescimento econômico. Suas implicações se manifestam na ampla dimensão da precarização e do sofrimento humano em escala planetária. Uma das maneiras dominantes de lidar com estes aspectos se dá através da patologização do mal-estar. Há muitas situações danosas socialmente construídas que costumam afetar pessoas que não se comportariam como os experts recomendam, sem a devida ênfase nos contextos em que vivem.

Há uma tendência a atribuir-se que há escolhas e correspondente adoção de comportamentos danosos que teriam sido assumidos por seres plenamente conscientes de si, mas que podem ter decidido transitar por caminhos indevidos. Costuma-se responsabilizar os indivíduos (economicamente ativos) que não sabem se pautar de maneira apropriada às dinâmicas de vida estabelecidas socialmente pela doutrina do capital, mas que não assumem de modo explícito sua feição moralista, sobretudo no âmbito da saúde. Ou, em casos de profunda iniquidade, preconiza-se reiteradamente que medidas econômicas sob o formato de ajustes fiscais neoliberais viabilizarão a almejada acumulação capitalista sustentável que poderá, cedo ou tarde, trazer a redenção.

Ora, só é possível haver este modo de racionalização onde se manifestam crises de legitimidade em função dos paradoxos produzidos por um modelo de crescimento econômico e desenvolvimento próprios do novo espírito do capitalismo globalizado contemporâneo e de seu modelo de acumulação ilimitada do capital por meios formalmente pacíficos.

Este “novo espírito do capitalismo” está à mercê de uma forma generalizada de cinismo entendido através da presença de estruturas normativas duais que produzem uma pletora de situações da vida cotidiana nas quais acontecem situações marcadas acentuadamente pela dimensão da ambiguidade. Ou seja, há a incorporação simultânea de duas racionalidades normativas, que, embora contraditórias, se conjugam de maneira integrada. (Safatle, 2008)

Por um lado, estabelecendo regras das formas de interação social e das metas de autorregulação. Isto se dá no âmbito das normas visando a uma perspectiva de gestão populacional. Por outro, mediante imperativos comportamentais que ultrapassam as tentativas de estabelecer limites, diante das possibilidades de satisfação ilimitada com vistas à fruição individual sem restrições diante das ofertas postas nas múltiplas vitrines reais e virtuais.

Para a gestão da ‘população’, esta deve ser concebida como um ‘corpo social’ a partir da descrição do que seriam seus processos de interesse representados especialmente por taxas de nascimento e de óbito, duração da vida, produção de riqueza e sua circulação. A totalidade dos processos vitais concretos numa população é o propósito das ‘tecnologias de segurança’ que se dirigem aos fenômenos de massa das populações para, em tese, prevenir ou compensar pelos perigos e riscos que resultam da existência da população como uma entidade biológica.

Os objetos da biopolítica não são os seres humanos em suas singularidades, mas suas marcações biológicas mensuradas e agregadas ao nível das populações. Este dispositivo torna possível estabelecer normas, definir padrões e determinar valores médios. A ‘vida’ se transforma em um elemento independente, objetivo e mensurável, além de se constituir numa realidade prática e epistemologicamente à parte dos seres vivos concretos e das peculiaridades da experiência individual. A noção de biopolítica se relaciona com a emergência de disciplinas como a estatística, demografia, epidemiologia e biologia. Todas estas permitem analisar processos vitais na população e governar indivíduos e coletivos com vistas ao desenvolvimento de correção, exclusão, normalização, disciplina, terapia e otimização. (Lemke, 2011)

O medo de correr riscos e a transformação da segurança se constituem em principais virtudes da sociedade. Isto alimentou uma inclinação a se exagerar os problemas que esta sociedade enfrenta gerando um contexto hiperprevenido e hiperansioso. Este contexto tem reflexos na condução da vida que enfatiza: alta consciência ao risco, predisposição ao pânico, medo ao estranho, suscetibilidade ao abuso/abusadores, preocupação de controle de indivíduos que se descontrolam, que reincidem, que são negligentes em um contexto de fragilização nas relações de confiança. Como se houvesse uma forma de vida compatível com as demandas paradoxais do capitalismo, que exigem uma pedagogia para orientar as pessoas a como se movimentar com efetividade em um contexto onde se manifestam paradoxos, contradições e ambivalências.

A questão atual relativa ao medo de engordar chama a atenção para as dimensões morais do problema, assim como faz a perspectiva da ansiedade excessiva diante do risco e da demanda pelo respectivo autocontrole na ingesta. De todas as formas, a relação da promoção da saúde alimentar com o ganho de peso tende a se inscrever no âmbito dos tratamentos morais que acompanham o mal-estar na civilização capitalista globalizada e a correspondente racionalidade cínica na operação de suas estruturas normativas duais que simultaneamente estimulam e restringem. As pessoas, de um modo variado, não passam incólumes às precarizações e sofrimentos provocados por este modo de organização econômica e social.

Importa enfatizar que há sentido na busca de falar-se a verdade mesmo desafiando verdades erigidas através de dispositivos e retóricas evidenciológicas empiricistas que sustentam com suas verdades epidemio-biologicizadas a condutas moralistas compatíveis com o espírito de responsabilização pessoal dos indivíduos. Pois estas ocupam uma posição supostamente neutra. Ou seja, parecem indiferentes quanto à sua responsabilidade em função das implicações morais resultantes das dinâmicas de sua utilização social.

Ao mesmo tempo, além de se desconsiderar a dimensão humana dos seres existenciais, há uma colonização de subjetividades supostamente ajustadas a um modelo gerador de desajustes. Inclusive, vale enfatizar a perspectiva trazida de considerar o ato de se dizer a ‘verdade’ – sobretudo no sentido de manter a perspectiva crítica em nome dela. Esta seria uma das formas para poder se questionar os contextos contemporâneos de dominação que acompanham a produção tecnocientífica em sua relação com a produção de formas de vida nas sociedades configuradas pelos modos iníquos de acumulação capitalista.

Na verdade, temos uma tarefa no âmbito moral, qual seja, a de atuar na busca de outros compromissos ético-políticos que se afastem da perspectiva utilitária dos agentes supostamente autônomos e racionais, com direito de decidir e escolher seus próprios benefícios diante dos custos estipulados – só que dentro de possibilidades bastante reduzidas e afastadas de dimensões emancipatórias.

Neste sentido, o trabalho em foco se configura como uma contribuição para abordar a dinâmica das relações de poder na sociedade que determinam as relações que se manifestam no contexto das práticas pessoais e coletivas em saúde que interagem com as dimensões subjetivas dos indivíduos. (Carvalho e Gastaldo, 2008)

Há necessidade de análise crítica dos modos opressores produzidos pela racionalidade cínica que se naturalizam e sustentam a necessidade de enfrentamento dos modos de sujeição subjetiva vigentes. Em suma, o artigo em questão enfoca a necessidade de se estar atento aos jogos de interesse e de poder e resistir aos tratamentos moralistas dos riscos à saúde através da normatividade restritiva da promoção da saúde alimentar. Há uma adesão à ideia socioculturalmente exacerbada de autocontrole do peso, de acordo com os postulados neoliberais da responsabilização pessoal.

 

* Esta é uma resenha de Castiel, LD; Santos-Ferreira, M; Ribeiro-de-Moraes, D. Os riscos e a promoção do autocontrole na saúde alimentar: moralismo, biopolítica e crítica parresiasta. Ciência & Saúde Coletiva, 19(5):1523-1532, 2014.

Referências

Carvalho, S.R. Gastaldo, D. Promoção à saúde e empoderamento: uma reflexão a partir das perspectivas crítico-social pós-estruturalistas. Ciência & Saúde Coletiva, 13(Sup 2):2029-2040, 2008.

Lemke, T. Biopolitics. An advanced introduction. New York; New York University Press, 2011

Safatle, V. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.

 

Crédito da foto destacada.

Luis David Castiel é graduado em Medicina (UFRS,1995), tem mestrado em Community Medicine (University London, 1981), doutorado em Saúde Pública (FIOCRUZ, 1993) e pós-doutorado pelo departamento de Enfermeria Comunitaria, Salud Publica y Historia de la Ciência da Universidade de Alicante (Espanha, 2005). Atualmente é pesquisador titular o Depto de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz e professor permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e do Programa de Pós-graduação de Epidemiologia em Saúde Pública, dentro da subárea ‘A construção do conhecimento epidemiológico e sua aplicação às práticas de saúde’.