Texto elaborado a partir do artigo Ponto de equilíbrio entre a Ciência da Nutrição e “Fat Studies”.

A preocupação com a aparência física é grande no ocidente1. Em uma sociedade lipofóbica, observa-se um modelo de corpo ideal magro para as mulheres e musculoso para os homens2. Poderíamos refletir pensando que a busca pela “melhor aparência” seria positiva pois facilitaria a adoção de hábitos promotores da saúde. Por outro lado, a perseguição de um ideal estético específico poderia desencadear problemas como a insatisfação com a imagem corporal, graves transtornos alimentares ou de imagem corporal3.

Na área médica e da nutrição, a busca por determinado padrão estético é também, na maior parte das vezes justificado, pela melhoria da saúde e redução do risco de doenças como as cardiovasculares, o diabetes e certos tipos de câncer. Contudo, as valorizações de determinadas estéticas não estão sempre relacionadas à saúde. No imaginário ocidental, a imagem corporal é vista também como caminho para a felicidade, beleza, o prestígio e sucesso. Profissionais de saúde também são afetados pela fixação pelo corpo perfeito. Suas falas nas mídias sociais, por vezes, evocam o autocontrole como o único instrumental necessário ao alcance do corpo perfeito4, desconsiderando a gama de determinantes sociais da saúde intervenientes, por exemplo, no acúmulo de gordura corporal.

Alguns cometem o equívoco de reduzir a ciência da nutrição a uma nova forma de doutrinar a alimentação, não levando em conta outros significados da comida, presentes nas diferentes culturas, religiões, relacionamentos e famílias. Persistem, em vários veículos de comunicação e nas opiniões veiculadas nas redes sociais, visões restritas e dicotômicas entre o “saudável” e o “não saudável”, entre alimentos “bons” e “ruins”, “permitidos” e “proibidos” e uma substituição do prazer de comer pela culpa, além de preconceitos contra os que estão fora do padrão ou acima do peso5.

O culto à magreza e ao baixo percentual de gordura não deixa de ser paradoxal, uma vez que a mídia promove e anuncia alimentos com alta densidade energética, ao mesmo tempo que incentiva o cultivo de um corpo magro6. A falta de correspondência entre o “corpo ideal” e as práticas alimentares contribuem para ações não salutares, como restrições alimentares severas, preocupação permanente com calorias e componentes específicos da dieta, uso desnecessário de medicamentos e suplementos, sentimentos de angústia e inadequação, além de preconceito em relação a outras pessoas com excesso de peso7.

O comportamento alimentar está associado ao que uma pessoa conhece e acredita sobre alimentação e nutrição, assim como ao que sente sobre a comida. As representações culturais que permeiam a alimentação são carregadas de simbolismos e expressam aspectos associados à história de vida, ao comportamento alimentar desde a infância, às lembranças, relações afetivas, preferências, crenças, valores e mitos relacionados aos alimentos, à influência dos meios de comunicação, da família e amigos, do cenário socioeconômico, da globalização, entre outros fatores8.

Enxergar o alimento unicamente como fornecedor de calorias ou como inimigo gera mal-estar com a alimentação e com o corpo. A guerra contra a gordura e contra o corpo diferente do padrão estabelecido é prejudicial a pessoas de todos os tamanhos. As ciências sociais e as ciências naturais compartilham o corpo como objeto de estudo9. Assim, surgiu o campo de estudo interdisciplinar denominado Fat Studies (estudos sobre os gordos). O mesmo é marcado pela crítica agressiva, consistente e rigorosa às suposições negativas, estereótipos e estigmas relacionados à gordura corporal e ao indivíduo com excesso de peso.

Um dos movimentos advindos de tais estudos é o Saúde em Todos os Tamanhos (Health at Every Size, ou HAES®), o qual muda o foco da perda de peso para a promoção da saúde e aceitação do tipo e tamanho corporal. O modelo conceitual do HAES® inclui a aceitação da diversidade de formas e tamanhos corporais, expõe os perigos das dietas de emagrecimento, destaca a importância de um ambiente alimentar relaxado e que respeite as sensações de fome e saciedade e busca contribuir para a pesquisa acerca dos fatores sociais, emocionais, espirituais e físicos que contribuem para uma vida feliz e saudável10.

Mas, apesar de o campo do saber “Fat Studies” e suas abordagens oferecerem aos cientistas novas lentes para o estudo da obesidade, o mesmo não é livre de críticas. Sainsbury e Hay (2014)11 advertem que o excesso de gordura corporal aumenta o risco de doenças metabólicas e que a adoção da postura de que é possível ser saudável independentemente do peso corporal seria um erro. Para as pesquisadoras, o aparecimento de problemas de saúde em obesos é quase sempre inevitável. Defendem haver uma janela de oportunidades para o controle do peso e relembram que indivíduos com excesso de peso e obesidade que não adotam medidas para a redução do percentual de gordura corporal sofrem modificações no cérebro, como o aparecimento da resistência à leptina, a qual contribui para o aumento da compulsão alimentar e para a deposição de gordura nos adipócitos. Por isso, não defende o HAES®.

Outro autor, LeBesco, critica o fato de ativistas sofrem discriminação dos próprios pares quando resolvem intencionalmente emagrecer12. Aceitar o próprio corpo, independentemente do peso, uma das bandeiras levantadas pelo campo de estudos Fat Studies pode entrar em choque com a necessidade (ou vontade) de perder peso. Parece normal que alguns ativistas do Fat Studies e HAES® desejem um corpo mais magro. Afinal, a ambivalência quanto à imagem corporal é normal à condição humana13.

Assim, propostas de pesquisas que encontrem um equilíbrio entre as visões da nutrição, da sociologia e de outras ciências são importantes. Este encontro possui implicações para a saúde pública14. Durante a construção de políticas governamentais o debate também é importante. As soluções da saúde pública não podem ser estreitas, ligando a obesidade apenas à saúde ou à doença, ou a exclusão e marginalização dos obesos poderá continuar crescendo.

Por um lado, não deve-se adotar uma postura policialesca, pressionando indivíduos com excesso de peso a emagrecer ou contribuindo ainda mais para os comumente encontrados problemas de autoestima observados na literatura. Por outro lado, há a necessidade de pesquisas que testem diferentes abordagens no sentido de apoiar as pessoas em busca de uma vida mais saudável.

Intervenções são sugeridas em várias frentes, incluindo (1) inclusão de tópicos sobre autoestima nos currículos escolares, (2) treinamento de educadores e profissionais de saúde na prevenção e identificação de transtornos alimentares e desordens de imagem corporal, (3) implementação de políticas anti-bullying que protejam as integridade de cada pessoa, principalmente nas escolas15, (4) acompanhamento nutricional, (5) terapias ou intervenções construídas dentro de uma perspectiva holística, que considere os aspectos físicos, emocionais, sociais, ocupacionais, intelectuais, espirituais e ecológicos da saúde14; além do (6) desenvolvimento de estratégias de autoafirmação16, (7) avaliação de programas de alimentação consciente.

Abordagens que promovem a sintonia entre a comida, a mente e o corpo começaram a ser testadas em uma série de contextos. A alimentação consciente, por exemplo tem como objetivo a melhoria da experiência alimentar daqueles que sentem-se oprimidos pela comida e pelo linguajar utilizado pela sociedade atual, inclusive profissionais de saúde ao se referirem à dieta.

Treinamentos em alimentação consciente, com duração de 8 semanas, estimulam a reflexão sobre as sensações corporais e emocionais associadas ao ato de se alimentar, reconhecendo que não há forma certa ou errada de comer. Outras abordagens como a alimentação intuitiva e a entrevista motivacional também vem sendo testadas isoladamente ou em conjunto no sentido de proporcionar intervenções mais flexíveis, que consideram as histórias individuais, os elementos sociais e culturais envolvidos no ato alimentar. Tais abordagens proporcionam também maior diálogo entre a ciência da nutrição e outras áreas do conhecimento, rechaçando visões simplistas sobre o corpo.

Andreia Torres é nutricionista, possui mestrado em Nutrição Humana pela Universidade de Brasília e doutorado em Ensino na Saúde, com estágio sanduíche em Harvard (Escola de Saúde Pública – área: comunicação em saúde). Pós doutorado em Saúde Coletiva. Pesquisadora em Comunicação em Saúde.