A autora do projeto Não Sou Exposição, Paola Altheia, concedeu uma entrevista ao OBHA. Conversamos sobre suas motivações, sua história como nutricionista clínica e algumas inquietações dentro da profissão.

 

Paola Altheia (também conhecida como “Paco“) é uma nutricionista curitibana formada pela Universidade Federal do Paraná. Fez parte do Núcleo de Estudos dos Transtornos da Oralidade da Associação Psicanalítica de Curitiba. É blogueira, ativista contra a gordofobia, a objetificação feminina, as dietas restritivas e todos os fatores relacionados ao corpo e à alimentação que são fonte de sofrimento intenso para muitas pessoas. Eis a entrevista:

OBHA: Somos bombardeadas por perfis de imagem corporal baseados em corpos magros e atléticos como estereótipos de beleza. O título do seu blog “Não sou exposição” nos remete a reflexão sobre os padrões de beleza corporais contemporâneos no Brasil. De onde surgiu a motivação para discutir esse tema?

Paola: O NSE está diretamente relacionado com experiências pessoais. A partir de transformações na minha rotina, minha vida e minha forma de ver o mundo comecei a me interessar mais pela questão do corpo e das exigências estéticas, principalmente em torno do corpo da mulher. Nem todos sabem, mas eu me dediquei ao ballet clássico durante boa parte da minha vida. No meio da dança, o enaltecimento do corpo magro é algo muito comum. Antes de entrar na faculdade, eu convivia muito com bailarinas, inclusive fazia muitas viagens para competir em festivais. Também tive experiências fora do Brasil. Ouvir conversas sobre dieta e emagrecimento era habitual.

Como até então eu não convivia com pessoas que não fossem do meio da dança, eu honestamente acreditava que pessoas “normais” (que não fossem ginastas, modelos, bailarinas ou atletas) podiam comer normalmente sem se preocupar com ganho de peso. Como eu estava errada!

A partir do momento em que comecei a conviver com pessoas que não tinham obrigação de manter o corpo magro, mas mesmo assim praticavam o “diet talk” (ou seja: falavam sobre dieta e insatisfação corporal o tempo todo), percebi que a prática crônica de dietas não é uma exclusividade de bailarinas. A questão da veneração do corpo magro e da obrigatoriedade de ser bonita que assombra qualquer pessoa do sexo feminino que não seja uma criança me despertou uma curiosidade imensa. Durante um bom tempo fiz parte do núcleo de estudos dos transtornos da oralidade na associação psicanalítica de Curitiba. Destrinchei por conta própria os materiais disponíveis sobre o corpo na história, sociologia, antropologia, psicologia (tarefa que não tem fim, pois é um tema muito rico). Senti que apenas o que me era apresentado na grade curricular da faculdade não me ajudaria a entender de onde vem e como opera o fascínio pelo corpo esbelto.

O nome “Não Sou Exposição” nasceu, literalmente, dentro da minha cabeça. À medida que fui me desligando da dança clássica e da carga mais intensa de treinos, comecei a consumir um volume maior de alimentos e em decorrência disso, meu corpo mudou. Eu fiquei mais curvilínea. As características secundárias femininas se tornaram mais nítidas e de igual maneira foi nítida a mudança de tratamento que recebi. Os homens começaram a falar comigo sem pedir permissão.

Todos os dias eu voltava da faculdade de ônibus e descia no mesmo ponto. Andava algumas quadras até chegar em casa. Após ganhar um pouquinho de peso, foi como se meu corpo tivesse se tornado domínio público. Me senti um item exposto numa galeria, como se todos estivessem convidados a apreciar e opinar sobre a minha aparência. “Não Sou Exposição” é uma frase que surgiu de forma clara na minha mente dias antes de criar o Blog. O NSE é um projeto para ensinar às pessoas que o nosso aspecto físico não nos define. Que somos muito mais do que nossa aparência. Que o corpo é uma parte de nós, mas não é tudo.

 

OBHA: Como nutricionista clínica qual a sua conduta profissional no consultório ao abordar conceitos de hábitos alimentares saudáveis com seus pacientes sem impor regras e padrões pré-definidos de estética corporal?

Paola: O foco do meu atendimento não são as dimensões corpóreas. O meu objetivo é que a pessoa se alimente normalmente e seja saudável (fisicamente, mentalmente, psicologicamente e emocionalmente). O emagrecimento pode ser consequência da mudança de hábitos, mas nunca é a finalidade. Eu não trabalho com abordagem prescritiva, ou seja, não entrego dieta, plano alimentar, listas de alimentos que devem (ou não) ser consumidos. O meu desejo é que o paciente tenha autonomia e confie nas próprias escolhas. Dou noções a respeito de alimentação saudável e explico os fatores chave para a administração da fome, das escolhas alimentares e das emoções. É um processo terapêutico de mudança de pensamento e atitudes em relação à comida. Cobranças, perfeccionismo, culpa, proibição, terrorismo… Nada disso ajuda a construir um hábito alimentar saudável. Muito pelo contrário. Por isso escolho uma abordagem mais compassiva e mais gentil.

 

OBHA: Em sua opinião o conceito de beleza é convergente com o de saúde? 

Paola: Não é segredo para ninguém que para a sociedade atual, ser bonito é ser magro. Um dos principais problemas em relação a isso é que considerando as definições atuais de magreza, não é nada difícil ser “gordo”. Para ser uma pessoa indiscutivelmente magra, é preciso ter 5% de gordura corporal. Peso e medidas não bastam. Tem que ser magro por dentro. Tem que mostrar a bioimpedância. As definições de “beleza” e “saúde” costumam mesclar, mas são coisas completamente diferentes. Para ser saudável, não é necessário ser “sarado”. Não é necessário ter músculos aparentes. Um corpo saudável é algo menos rígido e muito menos difícil de conquistar do que as pessoas imaginam. O corpo feminino celebrado pelo mercado fitness é um referencial de beleza, mas não é saudável. O baixíssimo percentual de gordura corporal afeta severamente a saúde reprodutiva. O corpo “da moda” tem um preço e exige a prática de dietas restritivas porque não é magreza natural – é magreza de manutenção. As dietas invariavelmente provocam o efeito sanfona e podem desencadear transtornos alimentares. Saúde e beleza atualmente divergem. Não há dúvida.

 

OBHA: O OBHA compartilhou um de seus textos intitulado “Magro não é imortal.”, você poderia fazer uma reflexão sobre esse título?

Paola: Existe um problema de saúde pública que nasce quando é feita a divisão entre “magros saudáveis” e “gordos doentes”. Porque nenhuma das situações é uma regra. Existem pessoas magras que fumam, abusam do álcool, bebem refrigerante, comem muita fritura e são 100% sedentárias, assim como existem pessoas gordas que se alimentam bem e são fisicamente ativas. Peso e medidas não significa nada. Absolutamente nada. Muitos profissionais de saúde me dão bronca porque eu estou supostamente “passando a mão” na cabeça das pessoas gordas (acho que eles preferem humilhar e castigar)… Mas o nosso sistema de demonização do corpo gordo está passando a mão na cabeça dos magros. Magros podem ter doenças crônicas relacionadas ao estilo de vida. Magros podem sem metabolicamente doentes. Mas o governo, a mídia e os profissionais de saúde fazem pensar que quem pode adoecer é unicamente o gordo. Não é verdade. Todas as pessoas devem cuidar da saúde, não importa se são gordas ou magras. A lipofobia (aversão à gordura) promove uma atitude negligente entre os magros.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.