Resenha por Anelise Rizzolo (*)

Deborah Lupton[1] publicou, recentemente, um capítulo de livro que se chama “Vitalidades e visceralidades: corpos alternativos e políticas alimentares na nova mídia digital”.

A abordagem está voltada para as formas que o corpo humano e o consumo alimentar estão representados nas redes sociais como Facebook, Tumblr, Twitter, YouTube e Instagram, a partir de imagens como selfies, vídeos, memes e GIFs, sendo organizados por hashtags.  A busca revela questões simbólicas interessantes pois ela usou: memes gordos, pornografia alimentícia: fotos de comidas atraentes que despertam o apetite e o desejo; GIF de comida, “fitspo” -fotos ou imagens que mostram comportamentos obsessivos relacionados a prática de exercícios físicos; vegetariano e “proana e promia” (fotos ou imagens relacionados a anorexia e bulimia). Outras hashtags também foram relacionadas ao tema nas postagens de mídia como: Bonespo: “só osso” – fotos ou imagens relacionados a anorexia e/ou privação alimentar; Epic Food Feats: fotos ou imagens relacionadas a orgias, farras, banquetes ou excessos alimentares.

Assim começa a revelação de corpos e comidas expressos em retratos digitais e sentimentos essenciais que são frequentemente encobertos por uma ambivalente relação humano e não-humano da realidade corporal. Por exemplo: a percepção do “desgosto” e da repulsa por comida que não está “limpa” ou que possua altas calorias e por corpos gordos que são julgados como indisciplinados. Isso alcança o ápice em imagens e discussões sobre práticas de auto preservação, onde consumo de qualquer tipo de comida é visto como meio para alcançar um ideal de corpo extremamente magro. Um retrato contrastante, no entanto, foi verificado em prazeres transgressivos excessivos no consumo de comida, geralmente como resistência à vergonha do corpo e ao patrulhamento do consumo da comida. Outro aspecto interessante foi que ela verificou que, vegetarianos e veganos foram retratados por sua ética da comida saudável mas, geralmente, considerados chatos e moralistas.

O consumo de comida nessas mídias também foi frequentemente sexualizado. Muitas pessoas postaram ou compartilharam fotos idealizando corpos magros e torneados, tanto masculinos como femininos, exibindo seus físicos torneados, revelando academia ou roupas de praia. Apoiadores da anorexia com memes que retratam jovens mulheres extremamente magras como belas e sensuais, foram frequentes. E o mais chocante, “Epic Meal Time” do YouTube que posta vídeos com apelo sexual da mulher enquanto carne para “consumo” de homens. A misoginia foi ainda mais evidente em memes e GIFs sobre carne, onde homens são retratados como agressores e mulheres suas presas.

O capítulo termina argumentando que expressões de corpos e comida na nova mídia digital são construídas com ambivalências subjetivas, como sobre qual o tipo de comida é moral ou eticamente justificada e que tipos de corpos as pessoas deveriam ter. Em alguns casos, a mídia manipula as emoções conforme os interesses de “comida” a ser vendida. Em outros, eles expressam e facilitam respostas conservadoras e reacionárias, servindo para reproduzir e aumentar regras dominantes com explicações morais e práticas sobre corpos ideais, sexualidade e gênero.

É uma leitura interessante, interdisciplinar e atual sobre tensões éticas relacionadas a alimentação e nutrição e saúde. Boa reflexão!

Referência: Blog Deborah Lupton https://simplysociology.wordpress.com/

[1] É socióloga, professora e pesquisadora da Universidade de Canberra/Austrália. Escritora de diversos livros com enfoque relacionados às dimensões sociais, culturais e políticas da sociedade digital.

 

(*) Nutricionista pela Universidade Federal de Pelotas, especialização em saúde pública, Mestrado em Saúde Pública pela Universidade Federal de Santa Catarina, Doutorado em Política Social pela Universidade de Brasília e Pós Doutorado no ODELA – Observatório de La Alimentación da Universitat de Barcelona – España (em curso). É professora adjunta do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília. Integra o GT Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva da ABRASCO, é Conselheira do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA e Pesquisadora Associada do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional – OPSAN/UNB.