Planalto recebe exposição Comida é Patrimônio

Planalto recebe exposição Comida é Patrimônio

“É urgente valorizar as diferentes tradições culinárias e ter em conta o valor cultural da comida, pois corremos o risco de perder a memória alimentar do país. Assegurar o direito humano à alimentação também implica nisso, em garantir o direito ao gosto”. O pensamento da ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Maria Emília Pacheco, é uma das frases que compõem a exposição itinerante “Comida é Patrimônio”.

Lançada em 2015 pelo Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), a mostra reúne frases chamadas de “pensamentos-pimenta” sobre as múltiplas dimensões do comer: social, histórica, política, econômica, afetiva, cultural e ambiental. O objetivo da exposição é levar as população a repensar a relação com os alimentos e buscar uma sistema alimentar adequado e saudável. De acordo com o Fórum, as frases selecionadas fazem parte de quatro eixos: comida é bem material e imaterial; comida é identidade, memória e afeto; comida é diálogo de saberes; e modos de viver, produzir e comer.

Com o apoio do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), a exposição ficará instalada no corredor principal do Anexo I, do Palácio do Planalto, em Brasília (DF), até o dia 8 de dezembro de 2017.

 

Fonte: Ascom/Consea

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Na terra das pizzas e gelatos, como os italianos conseguem se manter o povo mais magro do Ocidente?

Na terra das pizzas e gelatos, como os italianos conseguem se manter o povo mais magro do Ocidente?

*Texto da repórter Luiza Belloni para o HuffPost Brasil.

É difícil falar da Itália sem pensar nas deliciosas e tradicionais massas frescas, pizzas, gelatos e lasanhas que ganharam fama mundo afora.

Apesar de o nosso imaginário sobre o país remeter às “mamas” rechonchudas na cozinha com o batido avental branco, o que dá a entender que o país das massas e vinhos incríveis é um país de obesos, os italianos são magros e muito saudáveis.

A Itália é o terceiro país que apresenta a menor taxa de obesidade de todo o mundo, e só perde para os orientais Coreia do Sul e Japão. De acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a taxa é de 9,8% — bem diferente da taxa dos Estados Unidos, onde 38,2% da população é obesa. No Brasil, mais da metade dos adultos (54,1%) estão com sobrepeso, sendo 20% deles obesos.

Ironicamente, algumas das comidas preferidas dos americanos (e dos brasileiros) são pizza e massas. Então, o que explica o inventor destas obras-primas ser um país de magros e os que “replicam” suas receitas não terem o mesmo destino?

Para início de conversa, as pizzas que tanto conhecemos e adoramos (principalmente os paulistanos) não têm nada a ver com a tradicional — está mais para a pizza americana. Com bordas recheadas, tamanhos gigantescos, muito recheio processado e massa bem grossa, as pizzas brasileiras são uma explosão calórica, enquanto na Europa, a pizza é mais “delicada”, com massa fina, recheios moderados e frescos.

Os alimentos frescos, por exemplo, são um dos motivos que ajudam a manter as silhuetas dos italianos. Regra máxima de uma “famiglia tradizionale” é comprar alimentos naturais, frescos, diretos de produtores em feiras a céu aberto ou em mercadões.

Não é difícil encontrar um mercado de produtores locais em qualquer cidade na Itália. “Apesar da cozinha italiana ser reconhecida no exterior por seus pratos bem calóricos, nossa dieta tradicional é a Mediterrânea (rica em frutas e vegetais)”, explica a jornalista especializada em alimentação e comida do HuffPost Itália, Silvia Renda. “Nosso país é dono de uma das mais ricas e prósperas agriculturas de toda a Europa, e em nossa mesa sempre há espaço para produtos locais. Não apenas comprados em supermercados, mas comprados diretamente de produtores.”

Nem comida congelada os restaurantes italianos podem servir sem informar previamente seus clientes. Neste mês, a Suprema Corte italiana decidiu que os restaurantes deverão especificar no menu quais de seus produtos são conservados no congelador, sob multa de 2 mil euros, e nos casos mais graves, prisão.

A experiência de comer bem

Os italianos não só prezam pela qualidade dos alimentos, como também pela qualidade de tempo para apreciá-los. Diferentemente de outras culturas ocidentais, que com a correria do dia a dia acabam pulando refeições ou recorrem aos fast-food ou snack (quem nunca almoçou uma coxinha ou um miojo?), os italianos reservam o horário de almoço para sentar em uma mesa e comer com calma.

Assim como na Espanha, algumas cidades italianas também fazem a “siesta” e fecham qualquer estabelecimento (até igrejas!) para ter uma ou duas horas de descanso depois da refeição.

Mas não pense que tanto tempo serve para comer muito. Pelo contrário: eles param de comer quando estão satisfeitos e as porções não são enormes como as do Brasil. Muitas pessoas na Itália também não estão preocupados com as calorias que consomem, muito menos são consumidores assíduos de produtos diet light. Para eles, o grande aliado de uma dieta saudável é a moderação.

“Sim, eu como macarrão todos os dias. E, às vezes, como massa na entrada e, depois, ainda como uma carne no prato principal”, disse Elizabeth Minchilli, americana que vive em Roma e autora do livro Eating Rome: Living the Good Life in The Eternal City(“Comendo em Roma: Levando uma Vida Saudável na Cidade Eterna”, em tradução livre).

Ao Los Angeles Times, ela conta o segredo:

“A massa que todos nós comemos vem em uma controlada porção. Quando o assunto é comer macarrão, italianos são bem conscientes. E aqui está uma simples fórmula a seguir: 100 gramas ou menos de massa por pessoa. Essa é uma porção que você nunca verá em um restaurante nos Estados Unidos.

Junto com as porções moderadas, eles também consomem muitos vegetais, mais carnes brancas do que vermelhas, como frango e peru, e boas gorduras, como azeite de oliva extravirgem.

Outra coisa interessante é o respeito à sazonalidade dos produtos, o que significa priorizar alimentos mais naturais (sem conservantes, nem agrotóxicos) em grande variedade em todas as estações do ano.

“Os italianos preferem alimentos orgânicos e a dieta varia com as estações do ano, focando nos produtos sazonais”, diz a italiana Silvia Renda, jornalista especializada em alimentação e comida do HuffPost Itália. Segundo Renda, nos últimos anos, cresceu a curiosidade por comidas mais exóticas e novos sabores. “Há interesse em experimentar novos alimentos artesanais, em vez de comidas pré-preparadas.”

Xô, preguiça

Além de manter uma alimentação balanceada e preferir produtos frescos e comidas feitas em casa, os italianos também levam uma vida ativa. Quando estive na Europa, pouco tempo atrás, me impressionei com o quanto as pessoas preferem caminhar e andar de bicicleta. E na Itália é exatamente assim.

Por centenas de motivos (como falta de segurança e falta de infraestrutura urbana), os brasileiros andam pouco pelas ruas e preferem usar meios de transporte para ir a lugares — completamente diferente dos europeus. Não é difícil encontrar pessoas indo para o trabalho a pé, indo ao supermercado, padaria, entre outros lugares rotineiros.

Um estudo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que os brasileiros são uma das nacionalidades mais “preguiçosas” do mundo. Obtendo dados dos celulares da população mundial, a pesquisa mediu a média do número de passos dos diferentes países, e o Brasil ficou muito abaixo da média.

Na lista com 46 países, liderada por Hong Kong (6.880 passos, em média, por habitante), a Itália aparece em 13º lugar entre os países mais ativos do mundo, com 5.296 passos por pessoa. Já o Brasil está na 40ª posição, com uma média de 4.289 passos.

Depois de tantos cuidados com alimentação e bem-estar, saborear uma massa al dente com molho pesto, acompanhada por uma taça de vinho italiano, vai parecer que, de fato, você está seguindo à risca sua nova dieta. Sem peso na consciência.

 

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.
O desmaio de fome e a despolitização da austeridade

O desmaio de fome e a despolitização da austeridade

*Por Lucas Prates, assessor de direitos humanos da FIAN Brasil.

“Quando a gente percebeu que era fome, eu saí de perto para chorar. O rapaz do Samu me olhou com uma cara de ‘que realidade é essa?’. E eu disse que é sempre assim. Eu tenho dois alunos que todos os dias reclamam de fome”. (Ana Carolina Costa, professora do 2º Ano Fundamental da Escola Classe 8, Cruzeiro/DF)

Uma criança desmaiou de fome dentro de uma escola do Distrito Federal (DF). Além de escandaloso, o caso ocorrido no dia 13 de novembro é também emblemático para caracterizar o Brasil em que vivemos atualmente.

A criança, um estudante de 8 anos de idade, desmaiou de fome na Escola Classe 8, localizada a meros 11 km da Esplanada dos Ministérios, centro do poder político nacional. O governo do DF, responsável pela instituição de ensino, chegou a afirmar em forçosa nota que a criança não teria desmaiado, mas que estava meramente “molinha”. Despolitizando completamente a situação, o governador Rollemberg declarou em seguida que não se tratava de uma questão de competência da escola, mas sim da família da criança.

Analisando o caso, três fatores sobressaem:

  1. a situação de pobreza em que se encontra a família da criança;
  2. a falta de escolas na região em que essa família vive, somado ao grande deslocamento até outra instituição de ensino;
  3. a falta de alimentação adequada na escola em questão.

Não é preciso muito para confirmar que os fatores acima são puramente políticos. Ex-catadora de materiais recicláveis, a mãe da criança está desempregada e cria sozinha seis crianças; recebe o valor mensal de R$ 946 de programas de assistência social, mas reclama que os custos de vida são muito altos – para efeitos de comparação, uma cesta básica de alimentos no DF custa atualmente cerca de R$ 400. A família foi beneficiada com um apartamento do Minha Casa, Minha Vida no ano passado, contudo na localidade onde o empreendimento foi construído (Paranoá Parque) não há escolas, hospitais ou outros equipamentos públicos, muito menos empregos.

Os fatos são confirmados pelas declarações do governo distrital, que promete construir uma escola na região nos próximos anos. Enquanto isso, 250 estudantes da região são transportados 30 km todos os dias para a Escola Classe 8 do Cruzeiro, localizada do outro lado do DF. Tal escola, por sua vez, oferece como lanche somente biscoito e suco no meio da tarde, situação escandalosa na unidade da federação com maior renda per capita do país. Ainda, não há almoço para aquelas crianças que precisam sair de casa por volta de 11h da manhã para chegar a tempo da aula, no início da tarde.

A análise do caso comprova o que a FIAN vem defendendo há tempo: deve-se pensar a alimentação e a nutrição de uma maneira que seja holística e centrada na realização deste e de outros direitos humanos; políticas públicas, portanto, devem ser construídas com base nessa visão. É responsabilidade do Estado brasileiro, em última análise, garantir a existência e funcionamento adequado de creches, escolas e outros equipamentos públicos. Assim como é responsabilidade estatal garantir o direito à educação, onde se inclui o fornecimento de merendas adequadas e saudáveis, especialmente quando se trata de crianças em situação de vulnerabilidade social.

Para tudo isso, e muito mais, o Estado precisa de recursos financeiros. Contudo, o contexto de políticas de austeridade em que fomos (forçosa e golpeadamente) colocados nos empurra no sentido contrário: a Emenda Constitucional 95 congelou os gastos com políticas sociais, como aquelas que fariam a diferença neste caso, pelos próximos 20 anos. Análise da FIAN Brasil com outras organizações, baseada em estudo do IPEA, indica que em poucos anos o orçamento de alguns ministérios não conseguirá cobrir sequer as políticas públicas mais básicas consagradas na Constituição Federal, como o Benefício de Prestação Continuada.

Nesse cenário, é sintomático que governantes tentem despolitizar assuntos como a alimentação, a exemplo do que fez o governador do DF: para eles e para boa parte do grande capital que os financia, é interessante que a opinião pública não ligue os pontos entre austeridade, diminuição dos recursos para políticas sociais e aumento da pobreza, miséria e fome, entre outros. Tal prática corre junto com os discursos sobre um menor papel do Estado e uma maior responsabilização do indivíduo – questões que vão pautar o cenário eleitoral em 2018.

O resultado de tudo isso são desmaio(s) de fome, aumento do desemprego, da pobreza e da violência, como já indicado por vários estudos. Resta à população, em conjunto com a sociedade civil progressista, repolitizar estas e tantas outras questões.

 

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.
Chamada pública para número temático – Redes Sociais e Governança em Saúde

Chamada pública para número temático – Redes Sociais e Governança em Saúde

Abertura: 10 de julho de 2017
Encerramento: 31 de janeiro de 2018 (Prazo Prorrogado)

Título: Redes sociais e governança em saúde 

Termo de referência: No contexto contemporâneo as redes sociais adquirem relevância como espaço de mobilização, integração e ação, evidenciando a emergência de novos e complexos padrões de sociabilidade e governança em saúde. Observa-se que, para além dos elementos de coesão associados às redes sociais, existem também assimetrias, disputas de poder, conflitos, ambivalências e contradições, dada sua heterogeneidade e fluidez.

O objetivo desta publicação é estimular a reflexão sobre redes sociais e governança em saúde, a partir de uma perspectiva abrangente, que privilegie dinâmicas de interação e vinculação social com repercussões nas políticas e práticas. A intenção deste número da revista é reunir estudos que abordem as redes sociais em suas diferentes conformações (virtuais e não virtuais), incluindo contextos micro e macrossociais, como por exemplo a família, os serviços de saúde e o território. Serão priorizadas as seguintes temáticas:

  • Redes sociais e práticas de promoção da saúde
  • Arranjos de governança em saúde
  • E-gov: limites e alcances
  • Tensão público-privado nas redes sociais e na governança em saúde
  • Ética: limites entre a esfera pública e a esfera privada da vida na governança em saúde
  • Cibercultura e práticas em saúde
  • Redes sociais, violência e ações em saúde
  • Redes sociais, sexualidade e afetividade em saúde
  • Redes sociais e práticas educativas em saúde
  • Redes sociais e práticas de alimentação/nutrição

É fortemente sugerida a articulação entre tais temáticas e o debate sobre governança em saúde enquanto arranjos políticos, dispositivos institucionais e práticas que ultrapassam a esfera dos governos e integram espaços sociais como as chamadas redes.

Normas para a publicação na Revista: 
As orientações e normas para envio de artigos constam na página Web da Revista Ciência & Saúde Coletiva – www.cienciaesaudecoletiva.com.br

Esta chamada pública estará aberta do 10 de julho a 10 de 31 de Janeiro de 2018. 

O número temático tem como uma de suas principais finalidades a divulgação do conhecimento gerado no âmbito de programas de pós-graduação stricto sensu. Serão valorizados os artigos em colaboração docente-discente.

Os artigos deverão ser encaminhados para o e-mail: redesgover@gmail.com, junto com uma Carta de Apresentação em que os autores situem o contexto de sua elaboração e explicitem a sua inserção em Programas de Pós-Graduação stricto sensu.  

Editoras Convidadas:
Delaine Costa Departamento de Ciências Sociais – ENSP/Fiocruz

Ilara Hämmerli Sozzi de Moraes Departamento de Ciências Sociais – ENSP/Fiocruz

Joviana Quintes Avanci Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli – ENSP/Fiocruz

Liana Wernersbach Pinto  Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli – ENSP/Fiocruz

Rosana Magalhães  Departamento de Ciências Sociais – ENSP/Fiocruz

Vera Lucia Marques da Silva Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli – ENSP/Fiocruz

 

*Fonte: Ciência & Saúde Coletiva

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.

Alimentação na mídia: os discursos ecoados em programas televisivos

Alimentação na mídia: os discursos ecoados em programas televisivos

Luis Eduardo de Oliveira (*)

A Nutrição está em pauta. Definitivamente! A quantidade de artigos científicos publicados em periódicos cresceu muito em relação a décadas passadas. Fazendo uma rápida busca apenas pelo termo na plataforma PubMed[1], é possível encontrar 7.821 resultados somados até o fim do ano 2000; 13.269 até o fim de 2010 e, impressionantes 31.083 resultados para o tema até o fim de 2017, fora os artigos que tratam da temática, as não a trazem de forma explícita na forma de palavra-chave.

Este fenômeno também é possível de se observar em outros espaços e plataformas mais comuns à população como revistas e jornais, sites especializados, programas televisivos e redes sociais. Seja em mídia impressa ou digital, o assunto é bem popular. Mas por que será? Será que as pessoas estão buscando cada vez mais uma alimentação prazerosa, equilibrada e saudável? Estão buscando formas de desenvolver sistemas alimentares mais sustentáveis do ponto de vista ambiental e socioeconômico? Estão buscando alternativas não medicamentosas para prevenir e tratar doenças? Ou estão buscando longevidade?  Corpos sarados e definidos para gozar de um status social?

Neste contexto, um importante personagem surge entre conhecimento científico e o público leigo: o nutricionista. Ele legitima aquilo que é produzido como ciência e o traduz para ser aplicado à rotina alimentar das pessoas, seja em espaços coletivos ou individuais. Porém, apesar de possuir uma importante interface com as ciências sociais, culturais e comportamentais, a Nutrição é fortemente ancorada nas ciências biomédicas, o que faz dela muitas vezes um instrumento de controle, de regulação dos corpos e de consumo, ou em outras palavras, de biopoder.

Por meio deste questionamento procurei, em meu trabalho de conclusão de curso, identificar as narrativas produzidas por nutricionistas na mídia, e escolhi o programa Bem Estar (da Rede Globo de Televisão) como espaço para esta análise. Ao assistir os programas e catalogar os dados, um fato já me chamou atenção: a relevância das falas de médicos para legitimar a narrativa sobre o tema alimentação e nutrição produzida no programa. Das edições escolhidas para análise, esperava uma maior participação dos nutricionistas para falar das temáticas relacionadas à alimentação e nutrição, mas o tempo de fala dos médicos foi quase que o dobro do de nutricionistas. O problema ainda estava para além disso. Os próprios conteúdos das falas produzidas por nutricionistas refletiam o discurso biomédico tratando especificamente de questões que envolviam emagrecimento, controle de peso, prevenção e tratamento de doenças, calorias e propriedades funcionais dos alimentos, e praticamente desprezavam questões sensoriais, culturais e sociais que envolvem temática.

Tal fato se associa com a ideia de biopoder, descrita por Foucault, uma vez que se configura na produção de corpos saudáveis, esbeltos e consumidores de calorias e macronutrientes, regulados pelas regras e normativas prescritas no meio médico. Porém seres humanos não são apenas corpos formados por tecidos biológicos e reações bioquímicas, e o conceito de saúde já evoluiu o bastante para considerá-la apenas por ausência de doença. Nesta direção o discurso produzido pelo Guia Alimentar para a População Brasileira – 2ª Edição, fortalece a ideia de que a alimentação saudável e equilibrada deve ser pautada na construção de hábitos saudáveis, na cultura regional, na palatabilidade e no equilíbrio entre nutricional e sensorial, além de considerá-la como um subproduto de sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis. Vai além do controle calórico e nutricional e da prescrição punitiva e proibitiva.

Infelizmente é possível fazer um paralelo entre a forma de manifestação midiática de médicos e nutricionistas participantes do programa. Ambos oferecem um serviço que atende muito bem as demandas mercadológicas de setores da indústria de medicamentos, alimentos e suplementos. Muitas vezes existe um conflito ético sobre qual é o objeto de trabalho destes, pois é possível de observar profissionais atuando como reguladores de consumo de produtos produzidos por aqueles setores, legitimando o uso e o consumo por meio da narrativa técnico-científica. Agora, a partir do momento em que o objeto de trabalho passa a ser a saúde, em seu aspecto holístico, esta forma de atuação pode mudar. E para isso é importante que seja agregada a compreensão da ética neste contexto e do princípio de interesse primário na atenção em Nutrição: a saúde da população.

Neste contexto, os profissionais de saúde devem acompanhar além das novas análises e diretrizes produzidas pela comunidade científica, os documentos públicos, produzidos com a participação da sociedade civil, como no caso do Guia Alimentar para a População Brasileira, bem acompanhar as demandas sociais para estabelecer suas condutas questionando sempre para quê e para quem estão a serviço: da sociedade ou do mercado.

 

REFERÊNCIAS:

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2ª edição: Brasília. DF; 2014.

Foucault M. Microfísica do Poder. 15ª edição. Rio de Janeiro: Graal; 2000.

OLIVEIRA, Luís Eduardo Vieira Neves de. Bem estar? O que um programa televisivo tem a dizer sobre a alimentação. 2015. 23 f. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Nutrição) – Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

Rede Globo de Televisão. Programa Bem-Estar. Disponível em Acesso em: nov. 2015.

[1] PubMed é um serviço da U. S. National Library of Medicine (NLM). Inclui cerca de 21 milhões de citações de artigos de periódicos. O maior componente é a Base de dados MEDLINE que indexa cerca de 5.000 revistas publicadas nos Estados Unidos e mais de 80 outros países. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/

(*) Luís Eduardo é nutricionista graduado pela Universidade de Brasília – UnB e pós graduando em Vigilância Sanitária.