*Maria do Carmo de Freitas

Para este tema, em primeiro lugar gostaria de relembrar algumas noções conceituais sobre cultura, especialmente quando relacionadas à alimentação e a nutrição na sociedade brasileira.

A cultura pode ser entendida como a compreensão das ações humanas, ou ainda, o sentido das ações sociais. Sentido pensado e subjetivo da conduta alimentar. Portanto, não se trata da ação objetiva do comer, mas dos significados atribuídos pelos sujeitos sobre sua comida e seu corpo. Cultura é o conjunto de sentidos ou significados da conduta humana em qualquer que seja a sociedade. Em resumo, a cultura é baseada em símbolos, integrada aos grupos sociais, dinâmica, se adapta; se modifica (Geertz, 1989).

Cultura alimentar é apreensão de sentidos ou de significados do alimento no mundo cotidiano; considera ritos e crenças, valores diversos sobre o comer, os alimentos e a nutrição (Contreras, 2011).

Estamos falando de valores sociais, morais, códigos, hábitos, crenças, símbolos, costumes e qualquer disposição do comer em uma sociedade.

Assim, a relação humana com o alimento é antes de tudo afinidade com significados que o sujeito se refere sobre o comer. Nesse aspecto, o alimento não é somente matéria bioquímica, mas é, principalmente, símbolo. E desconsiderar essa dimensão simbólica, cultural, do alimento significa reduzir a alimentação humana ao modo equivalente à alimentação animal. Ração alimentar. Ou seja, uma relação veterinária e não nutrição-humana.

Em síntese, buscamos compreender a condição alimentar em cada contexto específico, nas tradições rurais e urbanas, na sociedade globalizada, representações sociais, sentimentos, tabus e tantos outros valores culturais que afetam a condição alimentar.

Importante destacar que a nutrição clínica pode ser contemplada pela dimensão sociocultural e vice-versa, pois não devem ser entidades separadas. Na realidade, são dimensões que se complementam, ainda que tenham diferentes enfoques conceituais.

Vale lembrar que o mais importante aspecto da cultura é a linguagem. Referimos ao uso das palavras ou sinais para significar o alimento, e os efeitos sobre o corpo e a vida.

Desse modo, perguntamos: Como o sujeito significa sua condição faminta? Como significa sua obesidade? Sua dieta, sua sobrevivência? A expressão ou narrativa sobre o comer possibilita a compreensão da experiência alimentar no mundo da vida cotidiana. Então, experiência é um aspecto da cultura.

Para compreender a complexidade da cultura alimentar indicamos a pesquisa qualitativa, com estudos etnográficos e análises de narrativas dos significados expressos por sujeitos sobre sua condição alimentar, suas crenças que envolvem os alimentos e implicações para o corpo.

Sugerimos as teorias compreensivas para subsidiar os estudos em alimentação e cultura (Freitas; Minayo, 2011).

Seminários Hábitos Alimentares na Atualidade: gosto, corporeidade e obesidade (16/10/2017)

A compreensão e a interpretação de uma narrativa sobre o que se come, como se come, o que gostaria de comer etc. podem ser analisadas conjugando aspectos subjetivos implícitos na linguagem. Esta, manifesta a relação entre os significados do mundo real e a subjetividade dos atores. Como estes se sentem ao comer, ou não, tais alimentos, é parte da cena histórica de seu grupo social.

Para os profissionais de nutrição que convivem o dia-dia com tantos exemplos socioculturais, sugerimos realizar um exercício do campo compreensivo sem abandonar a dietética recomendada pela biomedicina. Isto requer a possibilidade de uma análise intertextual sobre alimento e comida, com o olhar intersubjetivo capaz de ver aspectos da cultura associado à problemática nutricional e garantir um tratamento dietético construtivista; dialogado com os sujeitos sem imposição e temores. Exemplo importante é a proibição de açúcar para o diabético, e do sal adicional para o hipertenso, ademais de outras recomendações da clínica; ao lado destas, podem estar crenças populares sobre a impossibilidade de retirar nutrientes que são parte de suas vidas, conforme lembramos: O “sal da vida”; o “açúcar que acalma” […] e “a cocção com associação de sal e alho a representar harmonia do alimento com o corpo e o espírito” (Idem). O que fazer?

A abordagem teórica compreensiva permitirá a produção de um conhecimento profundo que se encontra na relação entre sujeito-objeto da investigação.

Dessa perspectiva, ao aproximar-se do cotidiano, com a observação e a descrição do problema junto ao sujeito e sua alimentação, nasce uma etnografia. Este é um instrumento de pesquisa para a compreensão dos aspectos culturais em grupos sociais, e capaz de mostrar como cada membro percebe seu corpo e sua comida, sobretudo, os valores nutricionais atribuídos por eles.

É possível se obter uma descrição densa, sobre o que um grupo de pessoas faz e como percebem suas ações em relação aos alimentos, aos riscos de adoecer. Como entendem e simbolizam seu mundo, a segurança alimentar, o aleitamento materno, a comida da rua, da casa, da festa, da escola etc.

Também, uma noção sobre alimentação e cultura pode se apresentar como um ritual (o caruru de Cosme e Damião em Salvador), uma ideia, representações (como a força e a fraqueza do alimento), são todas estas informações que devem ser analisadas com profundo cuidado e delicadeza.

Para a análise da narrativa é necessário proceder a leitura minuciosa, da entrevista, do sujeito da pesquisa, e destacar unidades analíticas, significantes ou palavras chaves de seu discurso. Constrói-se assim uma teia de significados, ou um mapa conceitual, um diagrama analítico mostrando conexões diversas. Conexões entre o campo empírico e o teórico. Exemplo: A alimentação saudável pode apresentar significantes relacionais ao mercado; à mídia; hábitos; estilo de vida; história alimentar; política pública, contaminação ambiental, acesso ou não a alimentos de qualidade; sistema simbólico (quizilas, tabus, crenças religiosas); sedentarismo; obesidade etc.

Na etnografia as construções sobre um problema são as percepções das pessoas, o que elas fazem e informam. E pode haver silêncio sobre algum aspecto alimentar. Algo que não está evidente. Sobre isso ver Eny Orlandi (1993). Para ela o emudecimento fala. E como diz Geertz, a cultura é um texto (1989).

Ao lembrar a Ilha de Maré, na Baia de todos os Santos, observamos que o trabalho no mangue transcende o rito da pesca e vai além, pois é parte da vida das pessoas. Mantém um vínculo com a unidade doméstica, com o ir e vir das marés, o lugar, a lua, o sol, a comida diária, a reunião entre as pessoas (Pena et al 2014; UFBA, 2010).

Os moradores, expressam a obesidade de modo distinto da literatura. Diz que “não é doença, é só peso”. “E vem do mar”. A obesidade vem de fora do corpo e da ilha. É algo que chega e atinge as pessoas.

Desse modo, o indivíduo se articula com os diversos aspectos do mundo, significativos para ele, com a linguagem e com a qual consegue externalizar o sentido para expressar as experiências do seu cotidiano.

Outra vez, notamos que a linguagem revela e dá significados às coisas.

Esse é o caminho da compreensão. Procuramos, então, escutar como o sujeito coexiste com o objeto: a exemplo do obeso e sua obesidade; o faminto e sua fome (Freitas, 2003). Num tempo e lugar: no contexto da fala.

Esse laço entre o sujeito – objeto será sempre histórico. O sujeito enuncia e age sobre seu corpo dentro de um contexto social, no processo discursivo das relações significante-significado. Somente quem vivencia o problema pode significar, transcender imagens e produzir percepções de um sistema de símbolos.

 

Referências

1.CONTRERAS, Jesus; GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011.

  1. FREITAS, MCS; MINAYO, MCS. Sobre o campo da Alimentação e Nutrição na perspectiva das teorias compreensivas. Ciênc. Saúde coletiva vol.16 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2011.
  2. FREITAS, MCS Agonia da fome. Salvador, EDUFBA; 2003.
  3. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de janeiro: Ed. Guanabara, 1989.
  4. ORLANDI, E. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 2ª. Edição. Campinas: Ed. UNICAMP, 1993.
  5. Pena, PGL. Sofrimento negligenciado. Salvador, EDUFBA, 2014).
  6. UFBA, Relatório de Pesquisa para o MS. Coord. Freitas, MCS. Salvador, 2010.
*Maria do Carmo possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal da Bahia (1972), mestrado em Saúde Pública – Escuela de Salud Pública de México (1977), doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia (2000), e pós-doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP, RJ.