Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC): Biodiversidade alimentar e suas representações no Brasil.

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC): Biodiversidade alimentar e suas representações no Brasil.

Emergente no Brasil, as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) é um conceito associado às discussões acerca de alternativas alimentares para o mundo. Em 2017, este conceito completou 10 anos e, desde 2014, saiu das fronteiras da universidade e vem ganhando visibilidade entre segmentos da sociedade civil, especialmente em grandes capitais. Considerando a ampla repercussão desse termo na sociedade brasileira, bem como sua associação com as temáticas de agrobiodiversidade, gastronomia e alimentação saudável e sustentável – temas transversais para refletir e compreender os hábitos alimentares brasileiros -, trazemos essa pauta para a quinta temática da sessão Fome de Saber do observatório.

As contribuições de Kinupp na literatura acadêmica, especialmente na área da botânica, corroboram com estudos que dentro da temática de agrobiodiversidade apresentam a capacidade de recursos alimentares no planeta, bem como, alertam para a preocupante e contínua redução da utilização desses recursos pela humanidade. Além das PANC, existem outros conceitos, aparentemente semelhantes que convergem na problematização do fenômeno de erosão da agrobiodiversidade e o desconhecimento acerca dos recursos alimentares no mundo, ambos processos decorrentes dos processos de modernização da agricultura e urbanização dos aglomerados humanos.

Hortaliças tradicionais; Plantas ruderaisEdible weeds; Quelites; Wild food plants; Malezas comestibles ou Neglected and Underutilized Species. Todos esses conceitos dizem a mesma coisa? É possível apresentá-los como sinônimos ao conceito PANC discutido no Brasil? Tendo em vista esse panorama de estudos, pesquisas e implicações políticas ligadas à alimentação e nutrição que percebe-se a importância de oportunizar um espaço de diálogo onde esses diferentes conceitos sejam trazidos à luz da reflexão coletiva e, dessa forma, contribuam na articulação e difusão de conhecimentos que fortalecem as lutas sociais ligadas ao Direito Humano à Alimentação Adequada e Segurança Alimentar e Nutricional.

As PANC são nosso ponto de partida para desbravar as contribuições conceituais em torno da discussão de alternativas alimentares para o mundo. Quais as potencialidades trazidas com esse conceito no Brasil? Como vem se consolidando as narrativas populares e acadêmicas em torno deste tema? Quais as discussões e abordagens que se relacionam e/ou ancoram as ações e reflexões teóricas quando falamos em alimentos alternativos e sustentabilidade?

Buscaremos responder estas perguntas, bem como, criar outras a partir das contribuições de pessoas que compartilham aqui suas experiências, acadêmicas ou não, neste fértil campo de saberes que circunscreve as Plantas Alimentícias Não Convencionais.

Acompanhe as publicações e desbrave as possibilidades alimentares disponíveis na natureza!

Bruna de Oliveira é nutricionista, bolsista de pesquisa no Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin da Fiocruz Brasília, mestranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural na Faculdade de Planaltina – Universidade de Brasília. Integrante do GT de Agricultura Urbana em Brasília/DF. Dona do site Crioula, trabalha com Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANC.

Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Denise Oliveira e Silva

Danielle Cabrini

*Este texto é baseado no artigo Silva, D O, Cabrini, D. Trajetórias biográficas do aumento e excesso de peso de mulheres do Programa Bolsa Família, Brasil. Com.Ciências Saúde; 28(2). No prelo 2017.

 

O estado nutricional é a consequência das características do consumo alimentar e de sua utilização biológica no corpo humano e se expressa por meio de uma cadeia causal em que aspectos históricos, econômicos, sociais, culturais e biológicos fazem parte de uma rede de inter-relações importantes em sua determinação.

No Brasil, dados do sistema VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), apontam que houve variação temporal significativa entre os anos de 2006 e 2016 na prevalência de excesso de peso e obesidade nas mulheres para ambas as condições, aumentando a prevalência do excesso de peso de 38,5% para 50,5% e  de 12,1% para 19,6% a prevalência da obesidade. O fenômeno do excesso de peso e da obesidade é multicausal e crescente na população feminina brasileira com tendência para se deslocar para a Região Nordeste e para as classes de menor renda.

O advento de estudos e pesquisas de abordagem quantitativa para compreender o  fenômeno da obesidade têm sido realizados no Brasil, ao passo que são escassos os estudos sobre a compreensão do fenômeno do excesso de peso como expressão histórico-econômica e social, circunscrita na biografia dos sujeitos que vivem esta experiência. A leitura do gênero na avaliação do estado nutricional como categoria de análise das práticas sociais e a teia de poderes a partir dos ciclos de vida da mulher se destacam nesta abordagem, em que o corpo é a entidade física do trabalho, prazer e saúde. O entendimento desta categoria visa explorar a sua potencialidade de ampliação e de avaliação crítica dos fatores que diferenciam o aumento da massa adiposa em indivíduos adultos. Nesta compreensão, os caminhos que a mulher percorre para seu amadurecimento em nível biológico e social. O ideário do peso como símbolo de habilitação social está colocado, principalmente para as mulheres que tem a interação de ciclos biológicos com o  processo de socialização e cultura.

A Fiocruz Brasília desenvolve pesquisa sobre a história biográfica de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF) no Brasil e o objetivo deste texto é apresentar e discutir  de forma breve os resultados desta pesquisa.

Trata-se da descrição de cinquenta narrativas biográficas de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família no Brasil, com idade entre 20 e 55 anos, das cinco macrorregiões brasileiras, utilizando o método história de vida. As entrevistas foram realizadas por telefone por estudantes de cursos de graduação  das áreas de saúde ou de ciências sociais, obrigatoriamente do sexo feminino, no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2017. O processo de análise dos dados seguiu as etapas de transcrição das entrevistas, leitura exaustiva deste material, organização em categorias de significados e análise por meio do caminho interpretativo proposto pela Hermenêutica-Dialética e da abordagem da Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty.

No decorrer das primeiras entrevistas foram encontrados dois tabus linguísticos. Tabu, é definido por inúmeros autores como algo proibido e interdito de caráter próprio e impróprio. O que caracteriza  a denominação de tabu linguístico é algo proibido de ser dito. Podem ser expressão de crenças e valores da sociedade de desaprovação, por meio de itens lexicais aos quais se atribui algum poder e que, se violados, poderão trazer perseguições e castigos para quem os emprega.

A palavra “obesa” foi o primeiro tabu lingüístico identificado. Dito pelas entrevistadoras no primeiro contato, quando apresentavam o título da pesquisa, constituiu-se de uma palavra de rejeição pois associava-se com significado de doença. Para as primeiras entrevistadas, o sentido desta palavra não expressava sua experiência corporal. Haveria um sentido reconhecido e significante de gordura que não se traduziria como “obesa”. Assim, os eufemismos usados em substituição foram  “gordinha”, “cheinha”, “fofinha” e “acima do peso”. A palavra “fome” foi o segundo tabu linguístico identificado. Seu relato em geral marcava algum evento da infância na região nordeste do semi-árido brasileiro e se constitui de um núcleo de sentido com forte componente traumático. A presença destes tabus lingüísticos foram importantes expressões simbólicas de linguagem de re-criação e re-constituição de mundo vivido entre sujeitos da pesquisa e entrevistadoras. Em busca de construir trajetórias biográficas como expressões de linguagem como atos instituintes e criativos de um meio simbólico social vivido. Portanto, as narrativas biográficas desvelaram diversos sentidos imbricados, os biológicos somados aos afetivos, sociais e culturais, pela experiência de contar a história de corpos de desejos, gostos, preferências, rejeições, aversões  individuais e coletivas.

Nas narrativas biográficas o aumento do peso expressa-se pelos ciclos biológicos reprodutivos e pela internalização de uma “força” necessária para a assunção dos papéis de mãe e de dona de casa para enfrentar a luta pela sobrevivência.

“(…) o peso aumenta sem a gente perceber(…) o corpo aumenta na vida da mulher e a gente não liga(…) ficar prenha é danado para engordar e depois não se vai ter o  corpo de antes e ainda vem um menino atrás do outro(…) quando vira excesso a gente vê e outros fala”(…)”

(Entrevistada de uma cidade rural)

Muito cedo nas biografias das entrevistadas o corpo é um instrumento de sobrevivência. Na  infância é referido para brincadeiras e o trabalho doméstico familiar como parte dos ritos simbólicos de diferenciação social e cultural e de gênero. O aparecimento da menstruação foi o sinal biológico da passagem para a adolescência. Neste período, são relatadas  mudanças de comportamento e de imagem corporal, como a definição das características femininas de aumento das mamas, dos quadris e de outras partes do corpo. Nas narrativas biográficas observa-se a menção de um passado recente onde o corpo é adjetivado como “belo”e “bonito”. A internalização do aumento do peso como força inicia-se na gravidez, que pode ocorrer ainda na adolescência. É considerado como algo natural e preconizado pelas recomendações de saúde.  O aumento do peso é um momento da simultaneidade dos papéis biológicos, sociais e simbólicos-culturais de atendimento à gestação e amamentação e da assunção dos papéis de mãe e de dona de casa pelo reconhecimento de um corpo que precisa ser “forte” para enfrentar este período.

As entrevistadas são beneficiárias do PBF, que apresenta modelo familiar preponderantemente nuclear, onde em quase 50% dos lares está ausente o cônjuge (marido ou companheiro) “configurando uma estrutura familiar monoparental, como também convivem nas residências outras pessoas ademais de pai, mãe e filhos” que junto com a provisoriedade e a incerteza sobre a renda familiar, principalmente afetada pelo desemprego. As ações familiares são praticadas por estas mulheres que sozinhas ou acompanhadas assumem como condição cultural e social de gênero a responsabilidade pela maternagem, os afazeres domésticos e o cuidado da família. Nesta pesquisa, as entrevistadas reconhecem estes encargos e referem que precisam ter um corpo com força e vitalidade para  atender as demandas de sobrevivência e seus papéis no ciclo de vida familiar.

Assim, a força do corpo pelo aumento do peso cresce internalizada como necessária à sobrevivência para atender as responsabilidades pela vida e revela outro ponto chave biográfico: o reconhecimento de um corpo-acima do peso.

(…)até eu ter problema de pressão alta eu não ligava para meu peso(…) sabia que estava gordinha mas ia levando a vida assim(…) não vou ser artista e madame para ficar fazendo dieta(…) e não tenho dinheiro para comprar as coisas de dieta e ir para a academia(..) mas quando a pressão subiu e eu fui para o hospital e o médico disse que se eu não diminuísse a gordura eu teria um AVC eu lembrei de meu filhos pequenos e estou tentando fazer dieta(…) não consegui ninguém para me ensinar(…) os médicos falam mas não ajudam quem é pobre(…) ele ficam com raiva da gente, como se nóis tem culpa de pedir consulta(…) eu sei que eu fiquei assim gordinha pela vida que eu tive(…)”

(Entrevistada de uma periferia de uma metrópole)

O discurso de combate a pandemia do excesso de peso e da obesidade dos programas e políticas públicas no Brasil e no mundo, sustentado pela mídia, representam-se como elementos do biopoder  cunhado por Foucault  de racionalidade biomédica e de estética corporal principalmente para o gênero feminino. Com a cultura de consumo como reguladores sociais e de produção de hábitos alimentares e de padrões de imagens corporais e os imperativos sanitários nas sociedades modernas atuais.

As narrativas sobre o corpo acima do peso revelam algumas questões referentes a corporeidade feminina, que passou de entidade funcionalista, sede de dogmas religiosos de impureza, sacrifício, culpa e purificação para ser valorizado nas sociedades industriais como“o corpo desejável”. O  excesso de peso é um desconforto contido na definição de qual é o peso corporal de referência, envolto a dúvidas sobre que parâmetros devem ser atendidos.

Num contexto de vida marcado pela pobreza e pela miséria, a mulher assume árduos papéis sociais e simbólicos-culturais de gênero e o corpo revela-se como entidade de  força e vigor como estratégia de sobrevivência. Quando fica acima do peso, revela-se também como simulacro de estigmas sociais, reconhecidos por elas quando referem o excesso de peso.

Os resultados apresentados podem contribuir para reflexões iniciais sobre os percursos biográficos de mulheres pobres classificadas como obesas pelos parâmetros biomédicos que relatam a pobreza, a fome e a miséria em seu percurso de vida. Nos limites deste estudo, pode-se vislumbrar de forma inicial, que as chaves biográficas apontadas nesta pesquisa, demonstram a necessidade de compreensão dos elementos perversos da pobreza na determinação social do excesso de peso em populações pobres.

A necessidade de compreensão sobre as estratégias de sobrevivência que estabelecem a corporeidade simbólica do corpo-força, está colocada como desafio que ressignifica o conceito de aumento de peso como resposta de um cotidiano de desigualdade social nas mulheres que participam deste estudo. Pode-se inicialmente refletir com base nos resultados desta pesquisa que a força reconhecida como necessária para a sobrevivência, desenvolve a corpulência, para lidar com a desigualdade social determinadas por fatores relacionados à prática de hábitos alimentares inadequados, os biológicos (ganho de peso na gravidez, desequilíbrios hormonais, síndromes e patologias metabólicas, etc..) e psicossociais relacionados ao excesso de peso.

Alguns questionamentos precisam ser refletidos  a medida que os resultados demonstram o reconhecimento do excesso de peso e obesidade atestado por parâmetros antropométricos como também subjetivos. E  revelam os dogmas morais biomédicos e estéticos vigentes pela exclusão e a imposição de valores de corpo “não desejável” resignificando, junto com a “fome”, tabus linguísticos de dor, revolta e lembranças ameaçadoras de um grupo populacional excluído pela pobreza, pela miséria, pela fome, pela área geográfica de nascimento e pela cor da pele. Finalmente, o dilema de reconhecer o peso excessivo corporal nestas mulheres deve ser refletido à luz da emancipação da mulher sobre sua corporeidade, sem os julgamentos sociais e os estigmas moralizantes estéticos e biomédicos, em programas e políticas públicas de informação, comunicação e educação no campo da saúde, da alimentação e da nutrição no Brasil.

 

Referências:

Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2016: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26estados brasileiros e no Distrito Federal em 2016. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.

Ferreira VA, Magalhães R. Obesidade entre os pobres no Brasil: a vulnerabilidade feminina. Ciência & Saúde Coletiva. 2011;16(4):2279-2287.

Mallimaci F, Giménez-Béliveau V. Historias de vida y método biográfico. Estrategias de Investigación cualitativa. Barcelona: Gedisa; 2006.

Minayo MCS. Hermenêutica-Dialética como Caminho do Pensamento Social. In: Minayo MCS, Deslandes SF, organizadores. Caminho do pensamento: epistemologia e método. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. p.83-108.

Merleau-Ponty M. Fenomenologia da Percepção. 2 ed. São Paulo: Editora Martins Fontes; 1999.

Orsi V. Tabu e preconceito linguístico. ReVEL. 2011;9(12): 334-348.

Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria Nacional de Renda de Cidadania. Perfil das pessoas e famílias no Cadastro Único do Governo Federal – 2013. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; 2014.

Mariano SA, Carloto CM. Gênero e combate à pobreza: programa bolsa família. Revista Estudos Feministas. 2009; 17(3): 901-908.

Minayo MCS. Saúde Doença: Uma Concepção Popular da Etiologia. Rev. Saúde Pública. 1990;6(3):278-292.

Foucault, M. A hermenêutica do sujeito. 2 ed. São Paulo: Editora Martins Fontes; 2006.

Arnaiz-Gracia M. Comemos lo que somos: reflexiones sobre o cuerpo, gênero y salud. Barcelona: Icaria Editorial; 2015.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).

Danielle Cabrini é nutricionista e sanitarista, doutora em Saúde da Criança e da Mulher (IFF/Fiocruz). É professora da Universidade Federal de Espírito Santo (UFES), atualmente em exercício na Universidade de Brasília (UnB). Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.

V Encontro Internacional de Comunicação em Saúde começa segunda-feira, 26

V Encontro Internacional de Comunicação em Saúde começa segunda-feira, 26

*Matéria original.

Começa nesta segunda-feira, 26, o V Encontro Internacional de Comunicação em Saúde (V ComSaúde). Sob o tema “Saúde: Comunicação em Situação de Risco”, o evento tem o objetivo de apresentar o histórico e os cenários nacional e internacional da comunicação em situação de risco e problematizar o tema por meio de exemplos práticos e casos reais e, ainda, a discussão sobre o papel da mídia no contexto da saúde. O V ComSaúde é uma realização do Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde (Ecos), em parceria com a Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (FS/UnB).

De acordo com a coordenadora geral do evento, professora do Departamento de Saúde Coletiva da FS/UnB e coordenadora do Laboratório Ecos, Valéria Mendonça, os principais desafios da comunicação em situação de risco na saúde são criar uma cultura de comunicação voltada para o gerenciamento de emergências e trabalhar esta abordagem na perspectiva do planejamento e gestão para orientar a tomada de decisão rápida e precisa. “O tema é novo e pouco discutido. Neste sentido, é preciso conhecer outras abordagens para melhorar as formas de comunicar os riscos em saúde, a relevância e aplicação que ocorrem no contexto das doenças emergentes”, destaca.

A programação do evento traz a conferência “Afinal, o que é Comunicação de Risco em Saúde Pública?”, com o professor e pesquisador do Departamento de Epidemiologia no curso de Pós-graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), Luis David Castiel. A mesa de debate “Gestão da Informação e do Conhecimento e Novas Tecnologias da Informação e Comunicação do Risco em Saúde” contará com a participação de representantes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos e dos professores Santosh Vijaykumar, da Universidade Northumbria, Reino Unido; e Jonas Brant, da UnB. Pesquisadores e gestores do campo da saúde e da comunicação do Peru, Cuba e do Brasil compartilharão experiências de comunicação em situação de risco de seus países.

Confira a programação completa do V Encontro Internacional de Comunicação em Saúde.

OBSERVAÇÃO: O resultado das submissões de trabalhos e os horários e locais das comunicações orais serão divulgados nesta sexta-feira, 23.

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.
Especialização na Fiocruz-Brasília vai abrir 70 novas vagas

Especialização na Fiocruz-Brasília vai abrir 70 novas vagas

Matéria original. 

A Fiocruz Brasília, por meio da Escola Fiocruz de Governo, publica novo edital para as próximas turmas da Especialização em Saúde Coletiva.  O curso tem como componentes curriculares a gestão em saúde, atenção à saúde, educação em saúde e produção técnica e científica.

O curso tem duração de 12 meses e carga horária total de 360 horas, com aulas ministradas todas as quintas-feiras pela manhã e à tarde. Metade dos aprovados na seleção vão começar o curso em agosto de 2018 e a outra metade, em 2019.

Na programação desta pós-graduação, são previstas  atividades de vivência no território com base para a elaboração e o desenvolvimento do Trabalho de Conclusão de Curso. Clique aqui para ler o edital.

Na sessão + água no feijão compartilhamos notícias, conteúdos, eventos e outras matérias produzidas por entidades, organizações e/ou pessoas pertinentes às temáticas trabalhadas no OBHA.
Excesso de peso e obesidade como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil

Excesso de peso e obesidade como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil

*Ana Maria Segall Corrêa

Relatório da organização Mundial da Saúde (OMS-Fact sheet- Updated October 2017) traz a preocupante informação que 1,9 bilhões de adultos no mundo estão obesos e mais de 340 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 19 anos de idade, tem sobrepeso ou obesidade. Segundo dados da OMS, a prevalência de obesidade no mundo praticamente triplicou desde 1975.

Estudos internacionais têm verificado que, tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em vias de desenvolvimento, a tendência de aumento da obesidade está presente em todas as faixas etárias e de renda. Observa-se, entretanto, que a magnitude deste aumento é maior entre mulheres de grupos populacionais socialmente mais vulneráveis. Nos países desenvolvidos a obesidade tem avançado de forma significativa, também entre os homens.

No Brasil análises de dados do VIGITEL/Ministério da Saúde mostraram que a prevalência de obesidade, entre 2006 e 2016, subiu de 11,8% para 18,9% no grupo de pessoas 18 anos ou mais. No período de 2006 a 2009, outro estudo de série histórica do VIGITEL observou aumento nas prevalências de obesidade entre mulheres brancas e de menor escolaridade.

Análises de pesquisas de base populacional, realizadas a partir dos anos de 1970, mostram transição nutricional no Brasil, com redução acentuada da desnutrição e aumento progressivo do sobrepeso/obesidade.  Em 1975 havia uma mulher obesa para duas desnutridas, em 1997 esta relação estava invertida, eram mais de dois casos de mulheres obesas para um de desnutrição. Estas pesquisas mostraram também desigualdade de renda significativa nas tendências de aumento da obesidade, mas não na redução da desnutrição.

Entre 1975 e 1997, no grupo de mulheres 25% mais pobres o aumento da obesidade foi de 168%, já no grupo das 25% mais ricas esta elevação foi de apenas 11,2%, nos dois grupos a redução da desnutrição foi praticamente igual, cerca de 40%. Essas informações atestam, como na maioria dos países, que as prevalências de obesidade apresentam desigualdades em relação ao gênero e a renda. Entre 1975 e 1989 houve aumento da obesidade em todos os níveis de escolaridade e em todas as macrorregiões do Brasil. Porém, na década seguinte, de 1989 a 1997, houve aumento da prevalência de obesidade entre os indivíduos sem escolaridade e redução significativa da prevalência entre mulheres de média e alto nível de escolaridade.

Dados mais recentes da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF 2008/2009) mostram resultados de desvios nutricionais entre crianças, na faixa etária dos 5 aos 9 anos, compatíveis com as tendências relatadas. O déficit de peso (<2 Z escore) foi observado em apenas 4,3% dessas crianças e a obesidade (>2 Z escore) em 14,3%, entretanto a relação com o rendimento familiar é o oposto da observada entre mulheres. As crianças de estratos de renda familiar mais altos, acima de 5 salários mínimos per capita (SMPC), tem prevalência de obesidade cerca de 3 vezes superior à observada no estrato de rendimentos abaixo de ¼ de SMPC.

Há consenso de que a obesidade é multidimensional e cuja determinação tem fortes componentes sociais, econômicos, ambientais, culturais e também, biológicos. Recentemente o fenômeno da insegurança alimentar tem aparecido como figura associada ao ganho excessivo de peso. Argumenta-se, neste contexto, que desigualdade no acesso à alimentação saudável é um dos mecanismos pelos quais as condições socioeconômicas influenciam a dieta e, consequentemente a saúde das populações. Tradicionalmente, o ganho excessivo de peso tem sido relacionado ao balanço energético inadequado resultante de ingesta calórica aumentada e baixa atividade física. Entretanto, estudos mais recentes colocam outros fatores associados à obesidade, alguns deles por processos biológicos que levam ao aumento da ingesta ou a escolhas alimentares obesogênicas e outros mecanismos que atuam como mediadores da relação entre insegurança alimentar e obesidade.

O Simpósio, “Insegurança alimentar e Saúde no Ciclo da Vida” (Food Insecurity and Health Across the Lifespan) organizado em 2012 por Advance in Nutrition- an International Journal (Oxford Press) e publicado em 2013 sintetizou os conhecimentos disponíveis até aquele momento sobre a relação entre insegurança alimentar, nos seus aspectos qualitativo e quantitativo, ganho de peso excessivo e maior risco de doenças crônicas.

É sabido, que a insegurança alimentar domiciliar leva indivíduos e famílias a basear sua alimentação em itens alimentares baratos, de paladar agradável e, em geral, com alta densidade energética. Se esta circunstância ocorre de forma periódica, por exemplo, ao final de cada mês quando os recursos no domicílio são mais escassos, poderá haver aumento de peso naqueles indivíduos afetados pela carência alimentar em um curto espaço de tempo.

Falando ainda sobre a publicação acima, para que este mecanismo obesogênico ocorra seria necessário: a) que nos domicílios as pessoas sejam dependentes de uma alimentação barata e densamente energética; b) que no domicílio ocorra um padrão cíclico de consumo alimentar, por exemplo, mais adequado no período de maior recurso financeiro, em geral no início do mês, seguindo de um período de consumo inadequado por escassez destes recursos; c) que este mecanismo cíclico ocorra ao longo de um período de tempo tal, que resulta em alteração do metabolismo dos indivíduos e em balanço energético positivo. Alguns outros fatores podem ocorrer interferindo neste processo ou surgindo como seu resultado, de qualquer forma, contribuindo para ganho excessivo de peso.

Do ponto de vista biológico tem sido bem descrito que, sob condições de estresse há aumento da produção de cortisol e outras substancias produzidas pelo estímulo do eixo hipotálamo/pituitária/adrenal, surgindo ainda neste processo as vias de recompensa (reward pathways), que podem resultar, tanto no desejo de consumo de alimentos densamente energéticos quanto na alteração do metabolismo. Reconhecendo que a insegurança alimentar e a fome são fatores estressantes suas consequências podem agravar se estes fenômenos ocorrerem em períodos críticos do desenvolvimento, induzindo futuramente nos indivíduos síndrome metabólica.

Ainda são escassas as pesquisas no Brasil que avaliam o papel da insegurança alimentar na gênese da obesidade e de suas co-morbidades. Os estudos que analisaram dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS 2006) revelam que a insegurança alimentar severa aumentou em 49% a chance de obesidade em mulheres em idade fértil. Em adolescentes a insegurança alimentar moderada, mas não a severa, aumentou em 96% a chance de sobrepeso. Certamente existem vários fatores mediadores nesta relação que precisam ser mais explorados, sobretudo em estudos longitudinais. Apesar desta constatação, já existem algumas informações que podem explicar a associação entre carência alimentar e sobrepeso e obesidade, na população brasileira, tomando como base os mecanismos já mencionados.

Dados da POF (IBGE 2002/2003) publicados em 2005, apontam que o consumo de alimentos essencialmente calóricos como, óleos e gorduras vegetais, gordura animal, açúcar, refrigerantes e bebidas alcoólicas representavam 28% do total de energia consumidos ao dia, carnes, leite e derivados e ovos 19% e, frutas, verduras e legumes contribuíram apenas com 2,8% dessas calorias.

Análises mais recentes (POF 2008/2009) confirmam a tendência de mudança nos hábitos alimentares da população brasileira, com consumo excessivo de açúcares livres e gorduras saturadas e, ainda, presença insuficiente de frutas, verduras e legumes na dieta.

Estudos de base populacional, sobre insegurança alimentar no domicílio e consumo alimentar, realizados em Campinas em 2004, mostram que a medida que se agrava a insegurança alimentar, de moderada para grave, piora a qualidade do consumo alimentar das famílias.  Nos domicílios com insegurança alimentar grave, a frequência de consumo diário de carnes era em torno de 10%, de leite inferior a 30%, verduras e legumes em torno de 40% e o consumo de frutas abaixo de 10%, já os açúcares e óleos tinham frequência de consumo em torno de 70%.   Agravando esta situação de baixa qualidade da alimentação, nos domicílios que conviviam com insegurança alimentar grave, um percentual significativo das pessoas entrevistadas, geralmente uma mulher adulta, referia hábito de não fazer todas as principais refeições do dia.  Entre elas 20% não tinham habitualmente o café da manhã, pouco mais de 16% não costumava almoçar e 20% não jantavam. Estes resultados sugerem que, em presença de insegurança alimentar domiciliar, o padrão alimentar da família está comprometido, não apenas quantitativamente, mas também qualitativamente e que a escassez de recursos, podem levar membros da família a situação de não fazer todas as refeições do dia, levando a aumento de intervalo entre as refeições, situação reconhecida como de risco para aumento de ganho de peso.

Mesmo com poucas as pesquisas no Brasil explorando a associação entre insegurança alimentar e obesidade, os resultados disponíveis corroboram as hipóteses hoje disponíveis e aqui relatadas, sobre os mecanismos subjacentes à relação entre carências alimentares e maior chance de sobrepeso e obesidade, tanto no campo dos determinantes socioeconômicos quanto nos processos biológicos consequentes.

Entretanto, é necessário prosseguir nas investigações para melhor elucidar essa relação, sobretudo, em temas como os de hábitos alimentares e insegurança alimentar, tendências, influências do ambiente e pressão comercial; Insegurança alimentar e ciclo de vida; determinantes da IA em populações tradicionais, mudanças no seu padrão alimentar e consequências para a saúde e nutrição; Insegurança alimentar e condições bio-psico-sociais e ainda, insegurança alimentar por períodos intermitentes, em situações de emergências ambientais  e ou de  sazonalidade, entre outras.

Este texto é uma pequena síntese dos conhecimentos atuais sobre o paradoxo aparente entre carência alimentar e sobrepeso ou obesidade.

 

Convido a todos os leitores interessados na temática explorarem as referências citadas abaixo:

Referências bibliográficas consultadas

WHO 2017- Fact sheet- Updated October 2017. http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/.

Carlos A. Monteiro; Wolney L. Conde and Barry M. Popkin; The Burden of Disease, From Undernutrition and Overnutrition in Countries Undergoing Rapid Nutrition Transition: A View From Brazil; American Journal of Public Health; March 2004, Vol 94, No. 3;

Gigante DP, França GVA, Sardinha LMVS, Iser BPM, Gustavo Velasquez Meléndez GV; Variação temporal na prevalência do excesso de peso e obesidade em adultos: Brasil, 2006 a 2009;  Rev Bras Epidemiol; 2011; 14(1) Supl.: 157-65.

Ministério da Saúde -VIGITEL- PORTAL BRASIL – 17-04-2017.

Monteiro CA, Conde WL, de Castro IR. The changing relationship between education and risk of obesity in Brazil; (1975-1997).Cad Saude Pública. 2003;19:S67-75.

Laraia BA (2013). Food Insecurity and Chronic Disease. Advance in Nutrition, 4, 10, doi:10.3945/an.112.003277

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*Prof. Dra. Ana Maria Segall Corrêa é médica sanitarista e epidemiologista. Pesquisadora na área de segurança alimentar e nutricional, com ênfase em validação de instrumentos para medida domiciliar de acesso aos alimentos, inquéritos populacionais em SAN e fatores associados. Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.