*Ana Maria Segall Corrêa

Relatório da organização Mundial da Saúde (OMS-Fact sheet- Updated October 2017) traz a preocupante informação que 1,9 bilhões de adultos no mundo estão obesos e mais de 340 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 19 anos de idade, tem sobrepeso ou obesidade. Segundo dados da OMS, a prevalência de obesidade no mundo praticamente triplicou desde 1975.

Estudos internacionais têm verificado que, tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em vias de desenvolvimento, a tendência de aumento da obesidade está presente em todas as faixas etárias e de renda. Observa-se, entretanto, que a magnitude deste aumento é maior entre mulheres de grupos populacionais socialmente mais vulneráveis. Nos países desenvolvidos a obesidade tem avançado de forma significativa, também entre os homens.

No Brasil análises de dados do VIGITEL/Ministério da Saúde mostraram que a prevalência de obesidade, entre 2006 e 2016, subiu de 11,8% para 18,9% no grupo de pessoas 18 anos ou mais. No período de 2006 a 2009, outro estudo de série histórica do VIGITEL observou aumento nas prevalências de obesidade entre mulheres brancas e de menor escolaridade.

Análises de pesquisas de base populacional, realizadas a partir dos anos de 1970, mostram transição nutricional no Brasil, com redução acentuada da desnutrição e aumento progressivo do sobrepeso/obesidade.  Em 1975 havia uma mulher obesa para duas desnutridas, em 1997 esta relação estava invertida, eram mais de dois casos de mulheres obesas para um de desnutrição. Estas pesquisas mostraram também desigualdade de renda significativa nas tendências de aumento da obesidade, mas não na redução da desnutrição.

Entre 1975 e 1997, no grupo de mulheres 25% mais pobres o aumento da obesidade foi de 168%, já no grupo das 25% mais ricas esta elevação foi de apenas 11,2%, nos dois grupos a redução da desnutrição foi praticamente igual, cerca de 40%. Essas informações atestam, como na maioria dos países, que as prevalências de obesidade apresentam desigualdades em relação ao gênero e a renda. Entre 1975 e 1989 houve aumento da obesidade em todos os níveis de escolaridade e em todas as macrorregiões do Brasil. Porém, na década seguinte, de 1989 a 1997, houve aumento da prevalência de obesidade entre os indivíduos sem escolaridade e redução significativa da prevalência entre mulheres de média e alto nível de escolaridade.

Dados mais recentes da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF 2008/2009) mostram resultados de desvios nutricionais entre crianças, na faixa etária dos 5 aos 9 anos, compatíveis com as tendências relatadas. O déficit de peso (<2 Z escore) foi observado em apenas 4,3% dessas crianças e a obesidade (>2 Z escore) em 14,3%, entretanto a relação com o rendimento familiar é o oposto da observada entre mulheres. As crianças de estratos de renda familiar mais altos, acima de 5 salários mínimos per capita (SMPC), tem prevalência de obesidade cerca de 3 vezes superior à observada no estrato de rendimentos abaixo de ¼ de SMPC.

Há consenso de que a obesidade é multidimensional e cuja determinação tem fortes componentes sociais, econômicos, ambientais, culturais e também, biológicos. Recentemente o fenômeno da insegurança alimentar tem aparecido como figura associada ao ganho excessivo de peso. Argumenta-se, neste contexto, que desigualdade no acesso à alimentação saudável é um dos mecanismos pelos quais as condições socioeconômicas influenciam a dieta e, consequentemente a saúde das populações. Tradicionalmente, o ganho excessivo de peso tem sido relacionado ao balanço energético inadequado resultante de ingesta calórica aumentada e baixa atividade física. Entretanto, estudos mais recentes colocam outros fatores associados à obesidade, alguns deles por processos biológicos que levam ao aumento da ingesta ou a escolhas alimentares obesogênicas e outros mecanismos que atuam como mediadores da relação entre insegurança alimentar e obesidade.

O Simpósio, “Insegurança alimentar e Saúde no Ciclo da Vida” (Food Insecurity and Health Across the Lifespan) organizado em 2012 por Advance in Nutrition- an International Journal (Oxford Press) e publicado em 2013 sintetizou os conhecimentos disponíveis até aquele momento sobre a relação entre insegurança alimentar, nos seus aspectos qualitativo e quantitativo, ganho de peso excessivo e maior risco de doenças crônicas.

É sabido, que a insegurança alimentar domiciliar leva indivíduos e famílias a basear sua alimentação em itens alimentares baratos, de paladar agradável e, em geral, com alta densidade energética. Se esta circunstância ocorre de forma periódica, por exemplo, ao final de cada mês quando os recursos no domicílio são mais escassos, poderá haver aumento de peso naqueles indivíduos afetados pela carência alimentar em um curto espaço de tempo.

Falando ainda sobre a publicação acima, para que este mecanismo obesogênico ocorra seria necessário: a) que nos domicílios as pessoas sejam dependentes de uma alimentação barata e densamente energética; b) que no domicílio ocorra um padrão cíclico de consumo alimentar, por exemplo, mais adequado no período de maior recurso financeiro, em geral no início do mês, seguindo de um período de consumo inadequado por escassez destes recursos; c) que este mecanismo cíclico ocorra ao longo de um período de tempo tal, que resulta em alteração do metabolismo dos indivíduos e em balanço energético positivo. Alguns outros fatores podem ocorrer interferindo neste processo ou surgindo como seu resultado, de qualquer forma, contribuindo para ganho excessivo de peso.

Do ponto de vista biológico tem sido bem descrito que, sob condições de estresse há aumento da produção de cortisol e outras substancias produzidas pelo estímulo do eixo hipotálamo/pituitária/adrenal, surgindo ainda neste processo as vias de recompensa (reward pathways), que podem resultar, tanto no desejo de consumo de alimentos densamente energéticos quanto na alteração do metabolismo. Reconhecendo que a insegurança alimentar e a fome são fatores estressantes suas consequências podem agravar se estes fenômenos ocorrerem em períodos críticos do desenvolvimento, induzindo futuramente nos indivíduos síndrome metabólica.

Ainda são escassas as pesquisas no Brasil que avaliam o papel da insegurança alimentar na gênese da obesidade e de suas co-morbidades. Os estudos que analisaram dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS 2006) revelam que a insegurança alimentar severa aumentou em 49% a chance de obesidade em mulheres em idade fértil. Em adolescentes a insegurança alimentar moderada, mas não a severa, aumentou em 96% a chance de sobrepeso. Certamente existem vários fatores mediadores nesta relação que precisam ser mais explorados, sobretudo em estudos longitudinais. Apesar desta constatação, já existem algumas informações que podem explicar a associação entre carência alimentar e sobrepeso e obesidade, na população brasileira, tomando como base os mecanismos já mencionados.

Dados da POF (IBGE 2002/2003) publicados em 2005, apontam que o consumo de alimentos essencialmente calóricos como, óleos e gorduras vegetais, gordura animal, açúcar, refrigerantes e bebidas alcoólicas representavam 28% do total de energia consumidos ao dia, carnes, leite e derivados e ovos 19% e, frutas, verduras e legumes contribuíram apenas com 2,8% dessas calorias.

Análises mais recentes (POF 2008/2009) confirmam a tendência de mudança nos hábitos alimentares da população brasileira, com consumo excessivo de açúcares livres e gorduras saturadas e, ainda, presença insuficiente de frutas, verduras e legumes na dieta.

Estudos de base populacional, sobre insegurança alimentar no domicílio e consumo alimentar, realizados em Campinas em 2004, mostram que a medida que se agrava a insegurança alimentar, de moderada para grave, piora a qualidade do consumo alimentar das famílias.  Nos domicílios com insegurança alimentar grave, a frequência de consumo diário de carnes era em torno de 10%, de leite inferior a 30%, verduras e legumes em torno de 40% e o consumo de frutas abaixo de 10%, já os açúcares e óleos tinham frequência de consumo em torno de 70%.   Agravando esta situação de baixa qualidade da alimentação, nos domicílios que conviviam com insegurança alimentar grave, um percentual significativo das pessoas entrevistadas, geralmente uma mulher adulta, referia hábito de não fazer todas as principais refeições do dia.  Entre elas 20% não tinham habitualmente o café da manhã, pouco mais de 16% não costumava almoçar e 20% não jantavam. Estes resultados sugerem que, em presença de insegurança alimentar domiciliar, o padrão alimentar da família está comprometido, não apenas quantitativamente, mas também qualitativamente e que a escassez de recursos, podem levar membros da família a situação de não fazer todas as refeições do dia, levando a aumento de intervalo entre as refeições, situação reconhecida como de risco para aumento de ganho de peso.

Mesmo com poucas as pesquisas no Brasil explorando a associação entre insegurança alimentar e obesidade, os resultados disponíveis corroboram as hipóteses hoje disponíveis e aqui relatadas, sobre os mecanismos subjacentes à relação entre carências alimentares e maior chance de sobrepeso e obesidade, tanto no campo dos determinantes socioeconômicos quanto nos processos biológicos consequentes.

Entretanto, é necessário prosseguir nas investigações para melhor elucidar essa relação, sobretudo, em temas como os de hábitos alimentares e insegurança alimentar, tendências, influências do ambiente e pressão comercial; Insegurança alimentar e ciclo de vida; determinantes da IA em populações tradicionais, mudanças no seu padrão alimentar e consequências para a saúde e nutrição; Insegurança alimentar e condições bio-psico-sociais e ainda, insegurança alimentar por períodos intermitentes, em situações de emergências ambientais  e ou de  sazonalidade, entre outras.

Este texto é uma pequena síntese dos conhecimentos atuais sobre o paradoxo aparente entre carência alimentar e sobrepeso ou obesidade.

 

Convido a todos os leitores interessados na temática explorarem as referências citadas abaixo:

Referências bibliográficas consultadas

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*Prof. Dra. Ana Maria Segall Corrêa é médica sanitarista e epidemiologista. Pesquisadora na área de segurança alimentar e nutricional, com ênfase em validação de instrumentos para medida domiciliar de acesso aos alimentos, inquéritos populacionais em SAN e fatores associados. Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.