O Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na Região Centro-Oeste do Brasil aconteceu nos dias 24 e 25 de abril, em Brasília, reunindo mais de 70 pessoas para discutir estratégias de mercado para a agricultura familiar e suas articulações com o Movimento Slow Food

Você conhece a sociobiodiversidade alimentar da sua região? Existem várias formas de saber quais são os alimentos produzidos e quem são as pessoas que os produzem localmente. Há um imenso caminho entre a semente e o nosso prato, o qual precisamos aprender e valorizar!

Além de conhecer, podemos incluir nas nossas refeições esses alimentos que expressam as realidades culturais do nosso país tão diverso. É preciso fortalecer as redes entre quem produz e quem consome, abraçando os princípios da sustentabilidade e da economia popular solidária. A sociobiodiversidade alimentar brasileira é formada por mulheres e homens do campo e da cidade, preocupados com o cuidado com o meio ambiente, com todos os seres que compõem a natureza e em como essas relações se estabelecem.

Baseado nisso, aconteceu em Brasília o Seminário de Construção de Mercados para Alimentos Bons, Limpos e Justos na Região Centro-Oeste Brasil, no Centro de Capacitação e Comercialização da Agricultura Familiar na sede da CEASA-DF, nos dias 24 e 25 de abril.

Participaram da atividade representantes de 3 Fortalezas e 2 Comunidades do Alimento do Movimento Slow Food da região Centro-Oeste e parceiros comerciais e em potencial, como restaurantes, instituições públicas de ensino e grupos organizados de consumo. A atividade visou proporcionar um espaço de articulação entre esses diferentes atores para a construção e fortalecimento de uma rede de cidadania agroalimentar, pautada na valorização da sociobiodiversidade, nos cuidados com o meio ambiente e com a saúde de quem produz e consome, no reconhecimento do saber fazer e no acesso à produtos de qualidade.

A programação foi articulada como um mosaico de atividades interativas, trocas de experiências e conhecimentos, tudo regado com muito afeto e representatividade. Os participantes receberam exemplares da cartilha Biodiversidade, Arca do Gosto e Fortalezas Slow Food publicado pelo Slow Food Brasil no âmbito do Projeto “Alimentos, Bons, Limpos e Justos”. Obra que apresenta os projetos e atividades desenvolvidas pelo movimento na valorização dos alimentos regionais e as comunidades que mantém os modos tradicionais de produção e consumo desses alimentos no país.

Dentre as atividades do dia 24/04, destaca-se a “Estação de Sabores” que proporcionou aos participantes um momento delicioso de degustação dos produtos de cada Comunidade do Alimento e Fortaleza. Eles tiveram a oportunidade de contar a história da sua produção e venda, e as dificuldades deste processo: “…eu estou ajudando a floresta a manter o pé dela”, compartilha Fiota, representante da Fortaleza do Gergelim Kalunga, localizada no território Kalunga, no estado de Goiás; “… o pequi depende da natureza mesmo, se esse ano dá mais pequi o ano que vem a gente já sabe que pode não dar muito” afirma Yaiku Suiá, representante da Fortaleza do Pequi do Xingu, localizada na Terra Indígena Wawi, Território Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso.

“A agricultura familiar é contadora de histórias da cultura do país por meio do alimento”, afirma Simone Santarém, representante da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (SEAD). As histórias de vida das mulheres rurais do Grupo Sabor do Cerrado, dos irmãos da Comunidade do Alimento Promessa de Futuro e do representante da Fortaleza do Baru do Urucuia Grande Sertão emocionaram a todos e mostraram as potencialidades da geração de trabalho e renda de forma sustentável, com respeito ao território ao qual pertencem.

Na manhã do dia 25/04, Marcella Berte e Cananda Braga, estudantes no curso de agroecologia do Instituto Federal de Planaltina, convidaram o pessoal do seminário a jogar! O jogo apresentou a importância do planejamento para o extrativismo nos territórios. Ainda durante a manhã, o apreço foi o sentimento que abraçou a todos com os diálogos realizados pela Rede CSA Brasília. A tecnologia social CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura) é uma proposta inovadora de ressignificar as relações sociais a partir do alimento. Renata Navega e Idalécio Barbetta compartilharam as experiências da rede em Brasília, que possui aproximadamente um terço do total de CSAs do Brasil. “CSA é uma forma de criar vínculos entre quem está na cidade e quem vive no campo (…) começa com o mais difícil, que é estabelecer uma relação de confiança”, afirma Renata.

Fernanda Maschietto, também integrante da CSA Brasília, ampliou as discussões apresentando um desdobramento dessa tecnologia, as CSE (Comunidades que Sustentam o Extrativismo Sustentável). As CSE ainda estão no estágio de sementes, com a ideia de colocar os frutos do Cerrado como protagonistas das cestas de alimentos, elevando o consumo e preservando o bioma. Alinhado a essa experiência embrionária, Vinícius Pereira, integrante da ONG WWF Brasil e também desta rede, contou da experiência de inserção dos produtos da Cooperuaçu (Cooperativa dos Agricultores Familiares e Extrativistas do Vale do Peruaçu/Norte de MG) como produtos complementares na CSA Barbetta.

O restaurante Buriti Zen, chefiado pela cozinheira Ana Paula Boquadi, foi o palco do fechamento da programação com um almoço vegano e agroecológico, elaborado em parceria com a Aliança dos Cozinheiros Slow Food do Distrito Federal, coordenado pela chef de cozinha Eliane Regis, e o Convívio Slow Food Cerrado, com produtos trazidos pelos representantes das comunidades. No cardápio: salada com muitas PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais), nhoque de buriti com molho de tomate e jacalinhada com pequi. O evento teve o intuito de arrecadar recursos para a participação dos agricultores e agricultoras familiares no Terra Madre Itália 2018. Também foi organizada uma feira para degustação e venda dos produtos dos agricultores e extrativistas presente em parceria com a Cooperativa Central do Cerrado.  

O seminário foi um exemplo de parceria e colaboração, cada etapa do processo de realização ocorreu de forma articulada com diferentes iniciativas. A equipe de comunicação do evento contou com a participação do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares – OBHA da Fiocruz Brasília, a mídia interdependente PorQueNão? e a Rede CSA Brasília. A produção de conteúdo sobre as histórias e compartilhamentos deste dia serão publicadas nas redes sociais do Slow Food Cerrado e desses parceiros.

Rede cidadã agroalimentar da região Centro-Oeste

A realização do seminário se insere no âmbito do projeto ALIMENTOS BONS, LIMPOS E JUSTOS: AMPLIAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR BRASILEIRA NO MOVIMENTO SLOW FOOD e resulta de uma parceria entre a Associação Slow Food do Brasil, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (SEAD). O mês de abril ficará na história de todos e todas que participaram desse evento, outros encontros como este ocorreram nas regiões Sul e Sudeste, na semana que vem ocorrerá o da região Norte. Celebramos essas tramas do bem que mostram horizontes de transformação social por meio dos modos de produção e consumo de alimentos agroecológicos e solidários!

Confira mais imagens na fanpage do Slow Food Cerrado.  

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