Anvisa quer nova rotulagem de alimentos ainda em 2018

Anvisa quer nova rotulagem de alimentos ainda em 2018

Agência defende alertas com mensagens como “alto em açúcares”; indústria pleiteava modelo de “semáforo”

 

O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Jarbas Barbosa, disse nesta segunda-feira (21/5) que deve ser aprovada no segundo semestre de 2018 uma resolução sobre a rotulagem nutricional de alimentos. As empresas teriam prazos de 180 dias a um ano para se adequarem à norma, afirmou o dirigente.

Jarbas apresentou relatório preliminar de Análise de Impacto Regulatório (AIR) sobre o tema. No documento (íntegra), a agência defende adoção de um sistema de alerta frontal “semi-interpretativo”. As tabelas nutricionais também devem ser alteradas, aponta o relatório, com padronização de porções (em 100 mg ou 100 ml).

Pela proposta da Anvisa, os alertas devem ser em forma de octógono, círculo ou triângulo. Há também sugestão de avisos frontais em forma de tabela. O modelo escolhido terá preenchimento na cor vermelha ou preta e levará as frases “alto em açúcares”, “alto em gorduras saturadas” e “alto em sódio”, em caixa alta.

 
Anvisa defende alerta frontal “semi-interpretativo” em proposta de resolução sobre rotulagem nutricional | reprodução/Anvisa

 

O presidente da autarquia afirmou que está praticamente descartada adoção do modelo de semáforo, defendido pela indústria. Para Jarbas, este alerta é “inadequado” e pode ser facilmente disfarçado em embalagens.

 

 
Modelo de semáforo é defendido pela indústria para rotulagem nutricional de alimentos | reprodução/Abia

 

Jarbas disse ainda que alertas frontais diretos, como “alto em açúcares”, devem induzir a indústria a alterar formulações de produtos.

A Anvisa também aprovou abertura de tomada pública de subsídios (TPS) sobre o tema, que deve ser publicada ainda nesta semana no site da agência. As contribuições poderão ser feitas durante 45 dias, em quatro seções:

  • participação da sociedade: duas perguntas sobre “qual a visão do consumidor e do setor produtivo” a respeito do modelo proposto pela agência.
  • análise de impacto regulatório: nove perguntas sobre “qual a visão dos seguimentos técnicos”. Serão ouvidos órgãos do governo, setor produtivo, entidades e academia.
  • design gráfico e comunicação: 10 perguntas sobre “qual a visão do especialista”. Serão ouvidos especialistas em design gráfico e comunicação.
  • prazo de adequação: uma pergunta sobre “qual prazo é necessário para adequação do setor produtivo de alimentos.

Após o encerramento da TPS, será levada à consulta pública uma minuta de resolução sobre rotulagem. Trata-se de trâmite inédito, que deve ser replicado em outros processos que exigem relatórios robustos de análise de impacto, como a discussão sobre novos dispositivos para fumar, segundo Jarbas.

Tabela nutricional

Além de sugerir alerta frontal, a Anvisa propõe tabelas nutricionais com número limitado de nutrientes (abaixo). Segundo a agência, hoje os consumidores ficam expostos a informações pouco relevantes, além de o excesso de nutrientes dificultar a fiscalização dos produtos.

• Valor energético
• Carboidratos
• Açúcares totais
• Açúcares adicionados
• Fibras alimentares
• Proteínas
• Gorduras totais
• Gorduras saturadas
• Sódio
• Nutrientes objeto de alegações (condicionalmente obrigatório)
• Nutrientes objeto de fortificação (condicionalmente obrigatório)

A proposta coloca suplementos alimentares e alimentos para fins especiais como exceções. Nestes casos devem ser indicados todos os nutrientes fornecidos.

A agência também propõe nas páginas 170 e 171 do relatório parâmetros para classificar o produto como “alto em” em sódio, açúcar e gorduras. Os modelos foram elaborados com base em recomendações sobre perfil nutricional da Organização Mundial da Saúde (OMS) e em diretrizes do Codex Alimentarius. 

Indústria

A indústria defende que o modelo de semáforo nutricional seria o mais adequado para a norma em discussão na Anvisa. A proposta usa cores (verde, amarelo e vermelho) para traduzir as informações sobre o teor de açúcares, gordura e sódio dos produtos.

Pesquisa Ibope divulgada no final de dezembro de 2017 mostra que 67% dos brasileiros também preferem este modelo. O percentual foi usado por representantes da indústria na defesa do semáforo nutricional durante conversas com a área técnica da agência e nesta segunda-feira (21/5), durante reunião da Diretoria Colegiada. O presidente da Anvisa afirma que as sondagens apresentadas pelo setor regulado são pouco consistentes.

O gerente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Pablo Cesário disse que o setor produtivo discorda da proposta da Anvisa. “A população, quando confrontada com os dois modelos, prefere o semáforo. Inclusive para pessoas que têm menor nível educacional”, disse. “Mas há muito debate pela frente”.

Cesário afirmou que seria mais adequado apresentar informações em “proporções domésticas”, com dados nutricionais em números de biscoitos por pacotes, colheres, xícaras, etc.

O vice-presidente da ABIA (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação), José Flavio Arouche de Souza, disse que o semáforo ajuda o consumidor a se educar sobre informações alimentares e nutricionais do produto. Ele também elogiou o relatório técnico da agência. “A Anvisa inaugura esta forma de trabalhar [com Análise de Impacto Regulatório]. Agora vamos preparar estudos de conteúdo técnico, econômico e social”, disse.

Para descartar eventuais pressões da indústria, a Anvisa também propõe estudo sobre o formato da rotulagem a partir de parceria com o CNPq. De acordo com o relatório, haverá uma seleção por meio de pesquisas da Chamada CNPq/Anvisa n° 17/2017.

ACT e IDEC satisfeitos

O advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Igor Britto, disse que venceu na análise técnica da Anvisa o modelo simplificado e direto de alerta. Os próximos passos, segundo Brito, serão avaliar os critérios escolhido pela agência para incluir o alerta de altos teores de ingredientes.

A ACT Promoção da Saúde defende o uso do triângulo com preenchimento na cor preta em alerta frontal de embalagens. O modelo está entre as propostas apresentadas pela Anvisa para discussão. Segundo Ana Maria Thomaz Maya Martins, representante da entidade, ainda há pontos que precisam ser fechados, como a lista de ingredientes na tabela nutricional.

 

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Você tem o direito de saber! | Rotulagem Alimentar e agenda regulatória no Brasil

Você tem o direito de saber! | Rotulagem Alimentar e agenda regulatória no Brasil

Pesquisas realizadas em vários países do mundo confirmam que as pessoas ao comprarem produtos alimentícios industrializados, tem dificuldade de compreender as informações disponibilizadas nas embalagens. Letras miúdas, definição de quantidades de porção incompatíveis com o consumo cotidiano, ingredientes incompreensíveis para quem não é químico ou engenheiro de alimentos… são muitas as barreiras postas entre o consumidor e uma embalagem cheia de personalidades e cores. É por estas e outras questões de cunho nutricional que existe a necessidade de repensar a regulamentação de rotulagem alimentar.

A regulação da rotulagem nutricional em alimentos industrializados é um tema emergente no Brasil, e por reconhecer a relevância deste tema no país que o Programa de Alimentação Nutrição e Cultura – Palin/Fiocruz Brasília incluiu essa temática entre os assuntos discutidos nos encontros do projeto Portas Abertas executado pelo OBHA.

Mediado pela coordenadora do Palin, Denise Oliveira e Silva, a exposição do tema aconteceu no dia 09 de maio, na Escola Fiocruz de Governo, com contribuições das palestrantes Paula Jonhs, socióloga, diretora da ACT Promoção da Saúde e membra do Comitê Gestor Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável; e, Ana Paulo Bortoleto, nutricionista e representante do Instituto de Defesa do Consumidor – IDEC, com audiência cheia no auditório.

A mensagem das palestrantes foi uníssona ao alertarem que os cidadãos precisam estar atentos as movimentações da indústria de alimentos em relação as informações que apresentam em seus produtos, e que espaços como o ciclo de palestras do observatório, são muito importantes para esclarecimento de dúvidas com os representantes sobre a temática. “Conseguiremos propagar o conhecimento e incorporar a luta com mais propriedade do direito de saber sobre o que estamos comendo”, afirma Paula.

Existe a Lei do Código do Direito do Consumidor que prevê a garantia da informação clara e precisa a respeito da composição dos alimentos, que é um direito estabelecido por lei, entretanto, esta lei não é especifica, não entra em detalhes e está defasada, conforme expressa Bortoleto, evidenciando a necessidade de reformulação desta lei. As dificuldades de estabelecer consensos com a indústria são enormes. Ainda assim, a elaboração de um relatório com recomendações de alterações necessárias foi encabeçada por um grupo de trabalho criado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, a saber:

  • Melhorar a organização da tabela nutricional e lista de ingredientes: uma vez que encontramos o mesmo ingrediente com nomenclaturas diferentes e não especificados na lista e só na tabela nutricional.
  • Padronizar a informação quanto a quantidade de quilocaloria por porção de 100g: tendo assim um denominador comum para contagem calórica por embalagem.

Esse espaço dialogado alerta-nos quanto a urgência da aprovação das alterações e incrementos na legislação da rotulagem nutricional assim como apresenta a importância das pesquisas realizadas em vários países embasando e confirmando a necessidade das alterações na legislação brasileira de rotulagem. Não há como “tapar o sol com a peneira”, considerando as evidências cientificas que mostram a existe dificuldade das pessoas não só em entenderem os rótulos como de usarem as informações dispostas nas embalagens para decidirem por alimentos mais saudáveis. Importante ressaltar que segundo a OMS rótulos compreensíveis são instrumentos favoráveis para orientar as pessoas em suas escolhas alimentares.

Semanas após a palestra a ANVISA abriu a consulta pública para receber contribuições da sociedade para melhoria das informações encontradas nos rótulos dos alimentos. O objetivo da consulta é facilitar a compreensão das principais propriedades nutricionais e reduzir situações que geram dúvidas ou confusão quanto a composição dos alimentos que estão dentro das embalagens.

O relatório aprovado pode ser acessado no site da ANVISA e as contribuições podem ser enviadas via formulário de participação.

Para acompanhar a discussão em detalhes, confere a live que realizamos na fanpage do OBHA!

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Seminário Internacional Alimentação, Saúde e Ambiente: Sustentabilidade e Desafios

Seminário Internacional Alimentação, Saúde e Ambiente: Sustentabilidade e Desafios

*Fonte: Rede Naus

O Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CH-FLUL) tem o prazer de co-organizar e acolher o Seminário Internacional Alimentação, Saúde e Ambiente: Sustentabilidade e Desafios, que terá lugar em outubro de 2018. Este seminário marca o início da agenda científica do Grupo de Trabalho Transições Tecnológicas: Memórias, Saberes e Práticas, constituído no âmbito do Colégio F3.

A articulação entre alimentação, saúde e ambiente expressa, de forma inequívoca, a base em que assenta a relação milenar homem / natureza. Privilegiando uma abordagem multidisciplinar, este encontro pretende ser um fórum de discussão em torno das questões básicas do quotidiano das comunidades humanas, em especial as que respeitam à alimentação e à saúde e bem-estar na sua relação com o ambiente, considerando, por um lado, uma perspetiva de análise histórica que contemple diversidades geográficas, culturais e tecnológicas e, por outro, os desafios atuais face à globalização, à escassez de recursos, à sua sobre-exploração e às inovações tecnológicas para superar as dificuldades e / ou as consequências negativas dessa exploração.

Ao longo dos séculos, a sobrevivência e o desenvolvimento das comunidades humanas dependeu da sua relação com a natureza e das estratégias utilizadas para o aproveitamento dos recursos naturais. O processo de apropriação e domesticação da natureza foi progressivo, englobando procedimentos de recolha de lenhas para aquecimento e iluminação e de caça e recoleção de plantas e ervas para fins alimentares e medicinais, antes do desenvolvimento de práticas agro-pastoris e técnicas destinadas a assegurar a sua eficácia.

O aumento da população, a necessidade de organizar e gerir espaços rurais e urbanos e o processo de industrialização introduziram fatores de desequilíbrio nesta relação. Posteriormente, as políticas imperiais e coloniais transformaram-na em conflito potenciador de segregação e desigualdades sociais, com implicações diretas no acesso a bens e serviços essenciais e pondo em causa direitos hoje considerados fundamentais.

Ao longo do tempo esta relação constitui-se como espaço privilegiado onde conhecimento, técnica, ciência e poder se interpenetram, refletindo percursos marcados por inovações, adaptações e mudanças profundas, devido não só à curiosidade e às necessidades humanas e aos interesses políticos e económicos, como às mudanças ambientais que os condicionam ou deles resultam; todos eles contribuindo para moldar e configurar o mundo tal como o conhecemos hoje. Um mundo em que a maioria dos países sobre utiliza os recursos de que dispõe para atender às necessidades básicas das suas populações, tornando cada vez mais necessário encontrar alternativas para o uso racional e sustentado dos recursos do planeta.

Neste contexto, incorporando a componente das memórias, saberes e práticas tradicionais, pretende-se igualmente chamar a atenção para a importância dos arquivos e da recuperação interdisciplinar da informação histórica e o seu contributo para repensarmos ações e comportamentos no sentido de ajudar a solucionar ou minimizar alguns dos problemas actuais e contribuir para um Futuro Inteligente. Assim, daremos especial atenção às soluções encontradas pelas comunidades, ao longo do tempo e em função das suas especificidades, em particular no que respeita à água e ao saneamento, à irrigação e distribuição de espécies alimentares, à organização e gestão das zonas rurais e dos espaços urbanos ou à relação alimentação-saúde, esperando deste modo estimular também a discussão sobre tecnologias, sustentabilidade e direitos humanos.

A associação do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) a esta reunião permitirá a apresentação de uma exposição de documentos de arquivo relacionados com os tópicos da conferência, exposição que será objeto de visita durante o encontro.

Data: 11-12 de Outubro 2018
Chamada a contribuições: até 15/06/2018
Local:  Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CH-FLUL)

Mais informações.

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Como o conceito PANC nasceu? | Autobiografia de Valdely Kinupp

Como o conceito PANC nasceu? | Autobiografia de Valdely Kinupp

Valdely Kinnup (*)

Potencial alimentício da flora brasileira

O Brasil é o país da megafitodiversidade, contudo utiliza pouco da sua vasta riqueza botânica para o consumo corriqueiro nas nossas triviais três grandes refeições diárias. Os ingredientes diferenciados mesmo na dita Alta Gastronomia ou Alta Cozinha são utilizados de forma incipiente. Mesmo restaurantes mais refinados e com pegadas inovadoras de valorização dos ingredientes locais, regionais ou nacionais ainda deixam muito a desejar em termos de usos reais e de forma mais intensa e constante, nos cardápios fixos ou mesmo nos cardápios diários ou sazonais. E muitos dos que tem feito isso nos últimos anos, na maioria das vezes, fazem de uma forma um pouco equivocada, pois utilizam os ingredientes inusitados em quantidades muito pequenas e/ou apenas os utilizam na finalização de pratos e, muitas vezes, apenas como elemento decorativo.

Naturalmente, que um dos gargalos para o uso mais efetivo e real destes ingredientes não convencionais é a falta da matéria-prima, ou seja, não tem produtores e fornecedores com regularidade e/ou quantidade/qualidade. Mas, a demanda gera a oferta e a oferta atrelada a informação advinda dos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão podem também gerar as demandas. A célebre frase: “Não vende porque não tem e não tem (nas feiras, restaurantes,…) porque não vende” (i.e., não tem procura dos clientes e comensais).

Diante deste grande potencial alimentício da flora brasileira, desde os tempos coloniais, diferentes naturalistas e autores de áreas diversas do conhecimento vem tentando sistematizar a catalogar a diversidade de plantas com potenciais para a alimentação humana. Contudo, era algo feito de forma bem acadêmica e com circulação mais restrita, seja pelo escopo da obra seja pelas limitações gráficas, de divulgação e circulação consequência dos longínquos mais de 300 anos de colonização fechada do Brasil.

Mesmo, no século XX as poucas publicações disponíveis no Brasil sobre plantas com potenciais alimentícios eram muito escassas e de pouca envergadura, abordando em geral poucas espécies, sem receitas ou receitas sem as devidas ilustrações e/ou fotografias que não instigava tanto a comunidade acadêmica e nem os comensais em geral. Além disso, não tinha uma expressão ou sigla/abreviatura/acrônimo eufônico e midiático que congregasse esta temática de pesquisa, ensino e extensão e atualmente uma área de engajamento profissional e de empreendedorismo com facetas múltiplas.

Muitos destes trabalhos (livros, cartilhas, Dissertações ou Teses) tinham no título palavras como “plantas ruderais”, “ervas espontâneas”, “frutas indígenas”, “pomalogia”, “plantas úteis”, “alimentos regionais”, “ervas daninhas comestíveis”, “ervas comestíveis”, “plantas alimentícias alternativas”, “plantas comestíveis silvestres”, entre outros termos e/ou expressões pouco chamativos ou convidativos. Além de muito limitantes geograficamente e/ou em relação às partes com usos alimentícias (e.g., segregando frutas, hortaliças, plantas aromáticas, condimentares e miscelâneas com usos alimentícios de difícil categorização, e.g., sucedâneas de produtos diversos, tais como sal, açúcar, corantes, água,…). Mesmo expressões um pouco mais técnica tinham restrições em relação a grande diversidade que deve ou deveria compor nossa alimentação cotidiana, e.g., “hortaliças não convencionais” (HNC); “hortaliças tradicionais” (HT) ou “hortaliças regionais” (HR) e estes acrônimos sem vogais e/ou muito curtos não tiveram e não têm muito chamariz e apelo.

Eu mesmo nos meus primeiros textos e títulos de resumos ou palestras e minicursos por um tempo usei o nome pouco informativo ou limitado e que podia ser interpretado de forma errada (“plantas alimentícias alternativas”). O acrônimo seria “PAA” que eu saiba nunca foi utilizado neste sentido e não cairia no gosto popular (atualmente, é o acrônimo do Programa de Aquisição de Alimentos). Aqui, cabe destacar que muitos autores e pesquisadores usam ainda o termo comestíveis ao invés de alimentícias, daí falam e/ou escrevem “plantas comestíveis alternativas” ou “plantas comestíveis silvestres”. Além dos acrônimos não ficarem eufônicos, o termo “comestíveis” é limitado, pois literalmente não incluiria os alimentos líquidos ou pastosos que são bebidos (“bebíveis”) e não comidos.  A própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) tem no seu nome “alimentação” e define como plantas alimentícias (“food plants”). E “alternativas” e “silvestres” também tem suas limitações e restrições bem explicitado na introdução do livro PANC.

O que são plantas alimentícias?

Conforme a FAO e outras fontes referenciadas no livro PANC, este é o conceito que adotamos na minha Tese e no livro: plantas alimentícias lato sensu são aquelas que possuem uma ou mais partes (e ou derivados destas partes) que podem ser utilizados na alimentação humana, tais como: raízes tuberosas, tubérculos, bulbos, rizomas, cormos, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes ou ainda látex, resina e goma, ou que são usadas para obtenção de óleos e gorduras alimentícios. Inclui-se neste conceito também as especiarias, substâncias condimentares e aromáticas, assim como plantas que são utilizadas como substitutas do sal, como edulcorantes (adoçantes), amaciantes de carnes, corantes alimentícios e aquelas utilizadas no fabrico de bebidas, tonificantes e infusões.

 

O que são as PANC?

PANC nada mais é do que um acrônimo para tentar contemplar as Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou seja, plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício citada(s) antes que não são comuns, não são corriqueiras, não são do dia a dia da grande maioria da população de uma região, de um país ou mesmo do planeta, já que temos atualmente uma alimentação básica muito homogênea, monótona e globalizada. Não estamos usando plural, pois apesar do uso corrente e comum do ’s e/ou do s (e.g., PANCs ou PANC’s; SAFs ou SAF’s; PFNMs ou PFNM’s, só para citar alguns acrônimos comuns no meio agronômico, florestal e agora gastronômico-nutricional), pois pelo que nos consta não é correto no português clássico. Neste caso, o plural faz-se com o artigo (e.g., a PANC ou as PANC). Facilita a fala e a grafia, enfim a comunicação.

O conceito PANC é o mais adequado e o mais amplo e por isso mesmo caiu no gosto popular e hoje até as crianças brincam e falam, além permitir trocadilhos diversos. O termo PANC contempla todas as plantas que têm uma parte ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas, ruderais ou cultivadas. Inclusive espécies alimentícias convencionais, mas que possuem partes, porções e/ou produtos alimentícios não convencionais também pelo meu conceito amplo são consideradas PANC. Logo, o acrônimo contempla a bananeira (e.g., uso do coração e do palmito); mamoeiro (com uso da medula, dos frutos verdes, sementes e/ou flores) e chuchu (e.g., uso das raízes tuberosas e folhas/talos) e outras espécies que têm formas usos e partes de usos alimentícios potenciais, mas pouco ortodoxos e mal conhecidos ou desconhecidos pela maioria esmagadora da população. Estas espécies não podem ficar de fora, pois um dos objetivos da popularização das PANC é apresentar opções de plantas ou partes destas que possam ser consumidas, trazendo à tona, à baila espécies negligenciadas e subutilizadas.

Como “nasceu” as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)

Antes preciso contextualizar como eu nasci, onde e como vivi e depois como eu vivo. Eu nasci em 1976 na zona rural (São Sebastião do Paraíba, município de Cantagalo/RJ). Este distrito (Arraial) fica à margem do rio Paraíba do Sul na divisa do Rio de Janeiro (RJ) com Minas Gerais (MG). Nasci de parto natural em casa.  Sou o sétimo de nove irmãos (seis homens e três mulheres). Meus pais eram agricultores e toda a família trabalhava na roça como colono numa propriedade rural bem distante e com condições bem limitantes, inclusive sem luz elétrica e sem água encanada. Quando eu tinha aproximadamente 1,5 ano minha família mudou-se para outro sítio bem afastado no distrito de Amparo, Nova Friburgo/RJ para trabalhar como caseiro cuidando da propriedade. Neste sítio também sem energia elétrica vivi até os 19 anos. Desde muito pequeno participava das atividades na roça, seja levando comida ou ajudando nas lidas diárias de roçagens, capinas, manejos em geral, cuidando das criações, plantios, colheitas e na cozinha preparando comidas. Estudei à luz de lamparinas a querosene e/ou velas até o atual Ensino Médio morando e trabalhando no sítio.

Aos 19 anos fui aprovado no Vestibular da UEL (Universidade Estadual de Londrina) para Ciências Biológicas e então mudei (1996) radicalmente do Sudeste para o Sul do Brasil e do interior para uma das maiores cidades da região Sul do país. A UEL foi uma experiência formidável e inesquecível e lá iniciei meus estudos botânicos de modo formal e me apaixonei ainda mais pelas plantas que eu comia, cozinhava e usava como forrageiras para os coelhos e porcos desde a infância. Durante a Graduação tive muitas oportunidades de estágio e vivências e viagens pelo Brasil. Sempre coletando e herborizando plantas e comendo/inventando receitas com aquelas espécies que já conhecia ou tomava conhecimento serem alimentícias. Conheci superficialmente a Amazônia, o Pantanal, a Caatinga e o Cerrado, além da Mata Atlântica do Sul e a Mata com Araucária e campos nas disciplinas e viagens para cursos de campo e congressos durante a Graduação.

No início de 2000 já com a faculdade concluída faltando apenas a colação de grau fiz estágio com o icônico Agrônomo Botânico e autor dos didáticos e aprazíveis livros de Botânica, Harri Lorenzi. Em 2000 mudei para Manaus/AM para fazer Mestrado na Botânica do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) onde ampliei meus conhecimentos botânicos e tive oportunidade de conhecer parte da rica flora amazônica, notadamente aquelas de interesse alimentício, sempre experimentando novos sabores nos trabalhos de campo e nas incursões às feiras e mercados locais.

Em 2002 mudei para Porto Alegre/RS onde em poucos meses consegui uma vaga como Professor Substituto no Departamento de Botânica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Nesta oportunidade conheci grandes botânicos, colegas desta universidade e de outras instituições deste estado que tem uma grande tradição nos estudos botânicos e que contribui para a botânica nacional. Trabalhando com diversas disciplinas, entre elas Botânica Econômica e “Trabalho de Campo”, pude focar na minha grande paixão que é o comer e a comida, especialmente aquela feita com ingredientes inusitados ou não convencionais. E a melhor das comidas é aquela comida da “mão para a boca”, ou seja, frutos, folhas, flores e miscelâneas que podes ser coletados e consumidos in natura, uma questão de sobrevivência ou de bem-estar (saciar a fome e/ou a sede e entreter) no dia a dia nas andanças e trabalhos nas roças, nas florestas, nos campos e mesmo pelas cidades.

A partir destas disciplinas e de contatos com colegas que direta ou indiretamente pesquisavam plantas diferenciadas que podiam ser consumidas começou a gerado as ideias e os ideais que levariam mais tarde a criação e popularização da expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Um dos focos fortes na disciplina de Botânica Econômica era o potencial alimentício subutilizado ou negligenciado da flora nativa e das exóticas cultivadas ou naturalizadas com visitas a feiras, agricultores e apresentação de seminários sobre a temática, além provarmos receitas com estes ingredientes até então raros ou desconhecidos para a grande maioria, senão todos da turma. E nas expedições de campo aos finais de semana íamos identificando plantas nas constantes paradas ao longo das rodovias, falando dos seus potenciais e já consumindo aquelas que podia ser consumidas cruas e estavam no ponto de coleta.

Além disso, era comum levar o excedente e aquelas que precisavam de processamento e/ou eram mais saborosas quando processadas (notadamente cozidas, fritas ou assadas) para preparar à noite nos alojamentos. E as mais abundantes eram trazidas inclusive para minha casa para o preparo saladas, pratos salgados diversos e as frutas para sucos, frisantes, geleias e licores. Assim começaram a surgir receitas e formas de aproveitamento inusitadas que geralmente eram compartilhadas os colegas e estudantes nas semanas seguintes. Desta forma as pessoas começaram a conhecer e apreciar espécies até então desconhecidas como alimento.

Neste período conheci diversos professores que contribuíram para minha formação e consolidação das pesquisas e do conhecimento botânico e etnobotânicos. Cabe destacar o querido e já falecido Prof. Dr. Bruno Edgar Irgang que sempre deu um apoio moral e aportes de informações preciosas, além de ter me apresentado a sua então orientanda de Doutorado Andréia Maranhão Carneiro que tinha como tema geral o estudo de plantas comestíveis espontâneas. Ela me indicou e/ou emprestou as referências bibliográficas mais básicas sobre plantas com usos alimentícios para que eu iniciasse uma leitura mais aprofundada e técnica sobre aquilo que já gostava de comer porque tinha aprendido com alguém ou em outras fontes e experimentações, mas sempre embasadas em conhecimentos botânicos e noções de Quimiotaxonomia prévios.

Mais adiante o B.E. Irgang me apresentaria a minha futura orientadora de doutorado. Deste período destaca-se também os colegas professores Dr. Paulo Brack e João André Jarenkow, com os quais aprendi muito da vegetação e flora gaúchas. Com este último aprendi a comer os brotinhos tenros das pontas dos ramos da araucária. Logo em seguida tive a oportunidade de conhecer o célebre pesquisador argentino, Prof. Dr. Eduardo Hugo Rapoport (falecido em 2016 e a quem o livro PANC é dedicado), coorientador da A.M. Carneiro na pesquisa anteriormente mencionada. Ele proferiu uma agradável e pitoresca palestra no XI Encontro de Botânicos do RS (Santa Cruz do Sul – UNISC, 2002) sobre as Malezas Comestibles. No dia seguinte a palestra, passeamos juntos pelos terrenos baldios e ruas de Santa Cruz do Sul/RS observando, comendo e coletando algumas plantas alimentícias. Daí nasceu boa amizade e colaborações. Ele me indicou posteriormente bibliografias importantes e compartilhou seus artigos e livros. Como fruto desta parceria eu fui ministrar palestras e oficinas de campo e cozinha com ele em duas oportunidades na Argentina, perfazendo quatro províncias e ele veio proferir palestra no Congresso de Botânica em Curitiba/PR (2005) e na Reunião da SBPC em Manaus/AM (2009), realizando o sonho de conhecer a Amazônia brasileira.

No ano de 2004 eu apresentei o primeiro resumo expandido sobre o tema (mas, usando “plantas alimentícias alternativas”) no então II Congresso Nacional de Agroecologia em Porto Alegre/RS e ministrei uma oficina de identificação destas plantas e preparo de receitas nas dependências do Jardim Botânico de Porto Alegre, em parceria com A.M. Carneiro. A oficina foi um estrondo de público com mais de 70 participantes entre inscritos e curiosos que abarrotaram a cozinha para ver as plantas coletadas amontoadas e degustar as inéditas receitas. A partir daí até então não parei mais de participar de eventos públicos ou privados com palestras e cursos de campo e cozinha, ajudando sobremaneira a formar ou ao menos instigar outras pessoas a pesquisarem mais e a olharem com outros olhos e outra boca as plantas e ir ao campo, bem como às feiras e aos mercados com olhos clínicos em busca do diferente, do não convencional.

Ainda por volta do ano 2002 apresentei a proposta ao Henri Lorenzi para fazermos um livro com fotos e receitas destas plantas alimentícias desconhecidas pela maior parte da população. Ele ponderou e questionou muito, mas topou o desafio, o qual entre a proposta inicial e sua publicação demandou cerca de 12 anos. Em 2004 inicio o doutorado na Faculdade de Agronomia/UFRGS, no Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, sob a orientação da Profa. Dra. Ingrid de Barros e juntos e com muitos amigos e parceiros tanto desta universidade quanto de outras instituições, bem como agricultores e feirantes e notadamente os parceiros do Sítio Capororoca, onde as pesquisas de campo e muitas experiências de culinária e de comercialização na feira foram feitas.

A tese envolveu um trabalho extenuante de campo (coletas, preparo de área/plantios, manejos, viagens, fotografias), de cozinha, de laboratório com as análises de composição centesimal e os preparos para as análises minerais de dezenas de espécies. Bem como o intenso trabalho de revisão bibliográfica e de sistematização dos dados das 312 espécies listadas como tendo potencial alimentício na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). A tese foi defendida no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária/UFRGS no dia 14/11/2007 com eclética banca e o processo foi intenso e longo. Creio que se iniciou às 14:00 horas e terminou completamente por volta das 19:00 horas. Pela minha experiência em defesas dos colegas como plateia e também a bastante tempo participando de bancas diversas Brasil afora como membro da Banca, a minha defesa teve um público recorde, com mais de 70 participantes e a grande maioria ficou até o final. Soube recentemente que um dos membros da Banca, o conhecido e querido Prof. Dr. Lin Chau Ming (também agricultor e entusiasta das PANC), tarimbado pesquisador costuma falar que nunca participou de banca com plateia tão volumosa. Isto não é (só) exibicionismo, mas é um fato histórico e muito gratificante para demonstrar que em 2007, o tema já atraía muitos interessados. Inclusive um membro da plateia pediu autorização para gravar todo ritual de defesa. Salienta-se claro que ao final tinha vários pratos com incorporação destas espécies feitos principalmente por alguns então estudantes de Gastronomia e equipe do Capororoca entusiasmados com estes ingredientes diferenciados.

A versão final da Tese foi entregue no início de janeiro de 2008 tanto a versão impressa quanto a versão em PDF que está desde então disponível para acesso e download no LUME (Banco Digital de Teses e Dissertações). Felizmente, tem servido de subsídios e estímulos para diversos outros trabalhos, monografias, dissertações, teses, artigos, cartilhas, livros, documentários/vídeos, além de estímulos para agricultores repensarem e diversificarem seus cultivos.

Defendida e entregue a tese, alguns meses depois (14/04/2008) comecei a trabalhar como concursado da área de Agroecologia da então Escola Agrotécnica Federal de Manaus, atual IFAM-CMZL (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste), onde sou docente. Agroecologia e PANC têm tudo a ver e uma das lacunas dos sistemas agroecológicos é a efetiva incorporação aos agroecossistemas das frutas e hortaliças sensu lato PANC, diversificando as matrizes agrícolas locais e incorporando paulatinamente aos cardápios familiares e dos restaurantes ingredientes inusitados.

Por incrível que pareça o acrônimo PANC citado já aqui desde o título e timidamente ao longo do texto, pois é muito difícil atualmente se referir a esta categoria de plantas sem utilizar o “PANC”, nunca foi utilizado nem no título nem nas 562 páginas da minha. Não sei como, mas passou despercebido e não me ocorreu o acrônimo nos títulos e falas das palestras e nem na tese e sempre foi usada a expressão longa. Minha orientadora e nem mesmo os membros da banca sugeriram.

Este nome foi cunhado e começou a ser utilizado durante a execução do projeto coordenado pela Nutricionista Irany Arteche, promovido pela Superintendência da CONAB/PNUD (Companhia Nacional de Abastecimento/ Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Este projeto foi realizado em assentamentos e acampamentos do MST no RS (Nova Santa Rita e entorno). E tornado público a partir da disponibilização online de um documentário gravado por uma dupla de jornalistas do Coletivo Catarse.

É um “termo” fácil de falar e bem eufônico. O conceito representado pelo acrônimo PANC é mais amplo e flexível para tentar categorizar este grupo de plantas subutilizadas ou negligenciadas pelo grande público. Maiores detalhes sobre PANC são discutidos na introdução do livro PANC. Este “movimento PANC” nasceu no RS e espalhou-se para o Brasil timidamente a partir 2003 com minhas palestras e cursos de campo e cozinha e intensificou-se a partir disponibilização da tese online a partir de janeiro de 2008; atingiu um público eclético a partir dos vídeos do projeto PANC anteriormente citado. E vem atingindo proporções históricas a partir da publicação do que chamamos “Livro PANC” – Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas publicado pela Editora Plantarum.

Desde então o tema e o livro têm sido contemplados em diversos programas de TV, matérias de jornais e revistas impressos e online no Brasil e no exterior, sites diversos, blogs e páginas no Facebook com muitos seguidores com a disponibilização de receitas ricas e rebuscadas. Muitos programas de culinária também têm abordados o tema PANC e usados ingredientes de PANC em suas receitas.

Em março de 2018 tivemos uma edição do programa Globo Repórter com foca nas PANC e participação de autores, atores e sujeitos que estudam, produzem, processam, cozinham, vendem, divulgam, compram e, enfim, que comem as PANC. Este é um dos programas mais bem produzidos da televisão aberta brasileira e com grande impacto na sociedade e que atinge um público heterogêneo e muito grande. Espera-se que seja um divisor de água e o acrônimo e a expressão sejam cada vez mais difundidos e popularizados e que as PANC mais comuns, abundantes, de fácil extrativismo, cultivo e/ou processamento sejam melhor incorporadas nas lavouras, hortas e jardins e que cheguem efetivamente à mesa dos brasileiros tanto nas residências, em nossas refeições diárias, como nos restaurantes comerciais e institucionais,  seja como aperitivos, pratos de entradas, pratos principais, bebidas diversas, nas sobremesas e digestivos.

Para a isso conscientização, a informação e formação de tomadores de decisão sejam políticas e/ou de empreendedorismo são essenciais. Especialmente os refeitórios das creches, escolas e universidades, os famosos Restaurantes Universitários (RU), deveriam ser restaurantes didáticos e pedagógicos, ou seja, os estudantes desde a mais tenra idade até a graduação e a pós-graduação deveriam ter acesso verduras, legumes, condimentos, frutas diversos, especialmente os locais, sazonais e mais adaptados e de fácil em cada bioma do Brasil.

Mas, com a simplificação, a quimificação e a crescente urbanização nossa alimentação passou ser cada mais monótona e repetitiva ao longo dos 365 do ano. Monotonia no prato é reflexo de mentes monótonas e da monotonia no campo (i.e., da monocultura baseada em moto-mecanização pesada; insumos industrializados diversos – agrotóxicos, adubos sintéticos; espécies transgênicas e poucas cultivares). Logo, se você leitor(a) ousar comprar ingredientes diferenciados (não convencionais) nas feiras e mercados e deixar de comprar ou minimizar a aquisição de espécies e ingredientes sabidamente pobres em nutrientes e/ou ricos em resíduos de agrotóxicos e/ou que gaste muita energia para ser produzido e/ou transportado até o destino final já estará contribuindo para estimular a Agricultura Agroecológica e para a mudança de paradigma em relação aos ditos “matos” porque não estão nos pratos.

A expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais e o acrônimo PANC estão comemorando 10 anos em 2018. Ainda estamos muito longe da utopia e, especialmente, da “eutopia”, que é encontrarmos cardápios e buffet com a incorporação de PANC e também encontrarmos produtos prontos ou processados como sorvetes, sucos, geleias, licores, cervejas e pães com adição de folhas, frutos/frutas e/ou batatas de PANC. Mas, já existe alguns restaurantes e outros estabelecimentos pioneiros no Brasil com PANC nos pratos, e.g., vitória-régia, taioba, chaya, picão-preto, ora-pro-nóbis, moringa, serralha, mini pepinos nativos, flores e frutas diversas, dentre algumas outras espécies.

Mas, as PANC é um mundo a parte para ser mais bem pesquisado nos laboratórios, no campo e na cozinha.  Como escrevemos na introdução do livro PANC a expectativa é de uma Revolução Gastronômica. Este livro já vem sendo adotado e muito utilizado nas faculdades públicas e privadas de Gastronomia, Engenharia e Ciências de Alimentos, Nutrição, Biologia, Agronomia, entre outras. Logo, estes novos profissionais já adentrarão ao mundo do trabalho com visões mais holísticas e quem sabe comecem a criar demandas por ingredientes não convencionais.

Atualmente, este interesse tem crescido muito na Gastronomia e Nutrição, mas ainda precisa ser muito repensado nas clássicas escolas de Agronomia, onde diversas disciplinas tradicionais precisam ser adequadas às novas demandas por ingredientes não convencionais, locais, sazonais, com a menor liberação de carbono para atmosfera. Assim, o escopo das disciplinas de Fruticultura e Olericultura, por exemplo, precisa ser revisto para enquadrar como frutas e hortaliças, respectivamente, espécies até então tratadas como mato, invasoras, infestantes, nocivas ou daninhas.

Neste período de 10 anos, o “bebê” recém-nascido precisava de cuidados especiais, começou a engatinhar, fazer caretas e gracinhas e a cair no gosto das pessoas. Agora é um pré-adolescente que quer alçar voos próprios. Portanto, a expectativa é que daqui a 10 anos (2028) tenhamos muitos mais ingredientes nativos (autóctones) e os exóticos adaptados aos diferentes biomas brasileiros incorporados às lavouras, pomares, hortas, quintais e jardins, nos sistemas agrícolas rurais e urbanos.

E assim, além das PANC continuarem saindo pelas bocas das pessoas durante as conversas, aulas, palestras e programas de TV cada vez com mais frequência e naturalidade, espera-se que continue e amplie a frequência, a constância e a diversidade de entrada das PANC pela boca, ou seja, sua ingestão como alimento seja cada vez comum na nossa culinária do dia a dia. Afinal, a biodiversidade alimentícia que não entra pela boca não tem valor real e fica apenas no campo da retórica abstrata, não gerando calorias, nutrientes, bem-estar, bem-viver, saúde e conservação da natureza, além de poder contribuir para geração de emprego, trabalho e renda. O uso real das PANC é um campo vasto e muito promissor para setores diversos, como turismo rural, gastronomia e até para indústria alimentícia com incorporação de ingredientes inusitados nas pousadas, hotéis, restaurantes e também nos produtos alimentícios processados.

Todos nós temos que fazer nossas partes, especialmente como comensais que somos, selecionando e valorizando os alimentos locais. Bem como valorizando e valorando melhor o profissional mais importante do mundo que é quem coloca comida em nossas mesas, o agricultor. Afinal “Somos Agro”, mas temos a muito esquecido nosso lado de agricultor e poucos querem trabalhar efetivamente no campo. Eu felizmente consegui retornar ao campo, uma volta às origens que relatei anteriormente e voltei a ser agricultor. Atualmente, vivo e cultivo diversas espécies de PANC para autoconsumo e já forneço para alguns restaurantes. O pequeno sítio onde moro chama-se “Sítio PANC”.

Alimento e água são as coisas mais importantes do mundo e um não se dissocia do outro. As PANC adaptadas aos diferentes ambientes do planeta têm grande potencial para incrementar as matrizes agrícolas mundiais, diversificar cardápios, minimizar a fome real e a fome oculta e contribuir para a conservação dos solos, das águas e dos recursos naturais em geral.

Valdely é biólogo e autor do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil em coautoria do Harri Lorenzi. Doutor em Fitotecnia-Horticultura (2007) pelo PPG Fitotecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste (IFAM-CMZL) e Fundador-Curador do Herbário EAFM deste instituto. Docente e orientador credenciado no Programa de Pós-Graduação em Botânica do INPA. Atua na pesquisa e divulgação das PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais.

Não queremos nem podemos comer mais veneno!

Não queremos nem podemos comer mais veneno!

Fonte: Le Monde Diplomatique por Elisabetta Recine*

PL 6.299/2002, em tramitação na Câmara dos Deputados, representa grandes retrocessos. A proposta reduz poderes do Ibama e da Anvisa e concede ao Ministério da Agricultura a competência para a liberação dos agrotóxicos, propõe a flexibilização do controle do Estado, retira a competência de estados e municípios para elaborar leis mais específicas e restritivas e libera qualquer agrotóxico aprovado em pelo menos três países da OCDE, além de propor a mudança na denominação dessas substâncias, que passariam a ser chamados “produtos fitossanitários” ou “produtos de controle ambiental”

A lógica industrial de produção da comida, que deveria alimentar nosso corpo e garantir nossa saúde, levou o Brasil a merecer o “título” nada honroso de “campeão” mundial em uso de agrotóxicos. Esses produtos – na verdade, venenos – são usados para eliminar espécies não consideradas desejáveis pelo grande produtor e, assim, aumentar a produtividade das lavouras. Eles já possuem isenções fiscais e outras concessões feitas pelo Estado. Agora, estão prestes a colher benefícios ainda mais generosos, caso seja aprovado o Projeto de Lei (PL) n.6.299/2002, em tramitação na Câmara dos Deputados, que “afrouxa” a atual legislação.

Trata-se de um pacote de medidas que representará grandes retrocessos. A proposta retira poderes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e concede ao Ministério da Agricultura a competência para a liberação dos agrotóxicos. O PL n.6.299/2002 também propõe a flexibilização do controle do Estado em relação ao uso de agrotóxicos, infringindo acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Além disso, o texto retira a competência de estados e municípios para elaborar leis mais específicas e restritivas, ferindo o pacto federativo nacional, e cria o Registro Especial Temporário (RET) e a Autorização Temporária (AT) para qualquer agrotóxico que tenha sido aprovado em pelo menos três países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), contrariando o princípio da precaução – imprescindível para produtos e processos que acarretem risco potencial às pessoas e ao meio ambiente.

O PL propõe ainda a mudança na denominação dessas substâncias, que deixariam de ser chamadas de agrotóxicos, palavra que seria depreciativa, e passariam a ser chamadas por uma expressão eufemística – “produtos fitossanitários” ou “produtos de controle ambiental” –, uma óbvia tentativa de dissimular os riscos, cada vez mais evidentes, que eles representam à segurança alimentar e nutricional, à saúde da população e ao meio ambiente.

A luta pela comida de verdade, não industrializada, sem veneno, é uma das bandeiras do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Defendemos a proibição de todos os agrotóxicos banidos em outros países e que ainda são usados no Brasil. O glifosato, por exemplo, já proibido em diversos países, circula livremente e é intensivamente utilizado no território nacional.

Defendemos, ainda, a aprovação do Projeto de Lei 6670/2016, apresentado na Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados, que cria a Política Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos (PNaRA). Apresentado na comissão pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o texto foi construído por entidades da sociedade civil e estabelece medidas de controle no uso desses produtos no país. Esse projeto é exatamente um contraponto ao que está em votação agora e prevê a transição progressiva do atual modelo de produção para sistemas baseados na agroecologia.

Atento às investidas de setores produtivos que privilegiam o lucro acima e apesar de tudo, sem preocupação com a saúde e o meio ambiente, o Consea tem feito recomendações a representantes dos poderes constituídos, chamando a atenção para os impactos provocados por esses compostos químicos que adoecem todo o sistema alimentar, desde o camponês até o consumidor final nas grandes cidades.

Nesse sentido, o Consea, um conselho formado em dois terços por representantes da sociedade civil, apoia a mobilização que vem sendo feita por centenas de organizações sociais, que assinaram um manifesto púbico contra a aprovação do chamado “PL do Veneno”. Senhores e senhoras deputados e deputadas, senadores e senadoras, nós não queremos comer mais veneno, queremos alimentação adequada e saudável, livre de agrotóxicos e transgênicos.

Estima-se que hoje cada brasileiro consome uma média de sete litros de agrotóxicos por ano, dado que tem relação direta com as 70 mil intoxicações agudas e crônicas no nosso país, segundo dados de um dossiê elaborado pela Abrasco. O Ministério da Saúde alerta que, para cada evento de intoxicação por agrotóxico notificado, há outros cinquenta não comunicados. Existem inúmeras evidências do impacto dos agrotóxicos tanto na saúde pública como no meio ambiente. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) indicou a relação direta entre o uso de agrotóxicos e diferentes tipos de câncer.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou nota na qual se posiciona contra a aprovação do PL 6299. Para a Fiocruz, “a regulação de agrotóxicos não pode ser tratada de forma simplista, com a proposição de mudanças voltadas para atender aos interesses do mercado”.

Na verdade, o modelo adotado pela agricultura industrial brasileira é baseado no uso intensivo de recursos naturais, sementes transgênicas e agrotóxicos. Os grandes produtores são completamente dependentes desse modelo, mas a população brasileira não o precisa ser.

Existem, sim, alternativas de produção de alimentos adequados e saudáveis para toda a população. O que precisamos é ampliar o apoio a formas sustentáveis de agricultura que respeitam a biodiversidade, fortalecer os programas de assistência técnica que dão suporte à transição agroecológica e garantir o acesso à terra e ao território para produção de alimentos.

O setor ruralista alega que estas ações impactam no custo dos alimentos. Aqui fica a pergunta: quem de fato paga esta conta? A saúde pública, as gerações atuais e futuras, o meio ambiente? A agricultura familiar, as camponesas e os camponeses brasileiros produzem não apenas os alimentos que chegam nos nossos pratos, mas são também responsáveis por uma economia local sustentável. Não faltam evidências científicas, apelos de instituições competentes e organizações científicas e da sociedade civil contra esse PL. Sua aprovação é uma violação clara aos direitos à saúde e à alimentação adequada e saudável. Basta de veneno, queremos comer comida de verdade!

*Elisabetta Recine é presidenta do Consea, professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.