Valdely Kinnup (*)

Potencial alimentício da flora brasileira

O Brasil é o país da megafitodiversidade, contudo utiliza pouco da sua vasta riqueza botânica para o consumo corriqueiro nas nossas triviais três grandes refeições diárias. Os ingredientes diferenciados mesmo na dita Alta Gastronomia ou Alta Cozinha são utilizados de forma incipiente. Mesmo restaurantes mais refinados e com pegadas inovadoras de valorização dos ingredientes locais, regionais ou nacionais ainda deixam muito a desejar em termos de usos reais e de forma mais intensa e constante, nos cardápios fixos ou mesmo nos cardápios diários ou sazonais. E muitos dos que tem feito isso nos últimos anos, na maioria das vezes, fazem de uma forma um pouco equivocada, pois utilizam os ingredientes inusitados em quantidades muito pequenas e/ou apenas os utilizam na finalização de pratos e, muitas vezes, apenas como elemento decorativo.

Naturalmente, que um dos gargalos para o uso mais efetivo e real destes ingredientes não convencionais é a falta da matéria-prima, ou seja, não tem produtores e fornecedores com regularidade e/ou quantidade/qualidade. Mas, a demanda gera a oferta e a oferta atrelada a informação advinda dos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão podem também gerar as demandas. A célebre frase: “Não vende porque não tem e não tem (nas feiras, restaurantes,…) porque não vende” (i.e., não tem procura dos clientes e comensais).

Diante deste grande potencial alimentício da flora brasileira, desde os tempos coloniais, diferentes naturalistas e autores de áreas diversas do conhecimento vem tentando sistematizar a catalogar a diversidade de plantas com potenciais para a alimentação humana. Contudo, era algo feito de forma bem acadêmica e com circulação mais restrita, seja pelo escopo da obra seja pelas limitações gráficas, de divulgação e circulação consequência dos longínquos mais de 300 anos de colonização fechada do Brasil.

Mesmo, no século XX as poucas publicações disponíveis no Brasil sobre plantas com potenciais alimentícios eram muito escassas e de pouca envergadura, abordando em geral poucas espécies, sem receitas ou receitas sem as devidas ilustrações e/ou fotografias que não instigava tanto a comunidade acadêmica e nem os comensais em geral. Além disso, não tinha uma expressão ou sigla/abreviatura/acrônimo eufônico e midiático que congregasse esta temática de pesquisa, ensino e extensão e atualmente uma área de engajamento profissional e de empreendedorismo com facetas múltiplas.

Muitos destes trabalhos (livros, cartilhas, Dissertações ou Teses) tinham no título palavras como “plantas ruderais”, “ervas espontâneas”, “frutas indígenas”, “pomalogia”, “plantas úteis”, “alimentos regionais”, “ervas daninhas comestíveis”, “ervas comestíveis”, “plantas alimentícias alternativas”, “plantas comestíveis silvestres”, entre outros termos e/ou expressões pouco chamativos ou convidativos. Além de muito limitantes geograficamente e/ou em relação às partes com usos alimentícias (e.g., segregando frutas, hortaliças, plantas aromáticas, condimentares e miscelâneas com usos alimentícios de difícil categorização, e.g., sucedâneas de produtos diversos, tais como sal, açúcar, corantes, água,…). Mesmo expressões um pouco mais técnica tinham restrições em relação a grande diversidade que deve ou deveria compor nossa alimentação cotidiana, e.g., “hortaliças não convencionais” (HNC); “hortaliças tradicionais” (HT) ou “hortaliças regionais” (HR) e estes acrônimos sem vogais e/ou muito curtos não tiveram e não têm muito chamariz e apelo.

Eu mesmo nos meus primeiros textos e títulos de resumos ou palestras e minicursos por um tempo usei o nome pouco informativo ou limitado e que podia ser interpretado de forma errada (“plantas alimentícias alternativas”). O acrônimo seria “PAA” que eu saiba nunca foi utilizado neste sentido e não cairia no gosto popular (atualmente, é o acrônimo do Programa de Aquisição de Alimentos). Aqui, cabe destacar que muitos autores e pesquisadores usam ainda o termo comestíveis ao invés de alimentícias, daí falam e/ou escrevem “plantas comestíveis alternativas” ou “plantas comestíveis silvestres”. Além dos acrônimos não ficarem eufônicos, o termo “comestíveis” é limitado, pois literalmente não incluiria os alimentos líquidos ou pastosos que são bebidos (“bebíveis”) e não comidos.  A própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) tem no seu nome “alimentação” e define como plantas alimentícias (“food plants”). E “alternativas” e “silvestres” também tem suas limitações e restrições bem explicitado na introdução do livro PANC.

O que são plantas alimentícias?

Conforme a FAO e outras fontes referenciadas no livro PANC, este é o conceito que adotamos na minha Tese e no livro: plantas alimentícias lato sensu são aquelas que possuem uma ou mais partes (e ou derivados destas partes) que podem ser utilizados na alimentação humana, tais como: raízes tuberosas, tubérculos, bulbos, rizomas, cormos, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes ou ainda látex, resina e goma, ou que são usadas para obtenção de óleos e gorduras alimentícios. Inclui-se neste conceito também as especiarias, substâncias condimentares e aromáticas, assim como plantas que são utilizadas como substitutas do sal, como edulcorantes (adoçantes), amaciantes de carnes, corantes alimentícios e aquelas utilizadas no fabrico de bebidas, tonificantes e infusões.

 

O que são as PANC?

PANC nada mais é do que um acrônimo para tentar contemplar as Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou seja, plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício citada(s) antes que não são comuns, não são corriqueiras, não são do dia a dia da grande maioria da população de uma região, de um país ou mesmo do planeta, já que temos atualmente uma alimentação básica muito homogênea, monótona e globalizada. Não estamos usando plural, pois apesar do uso corrente e comum do ’s e/ou do s (e.g., PANCs ou PANC’s; SAFs ou SAF’s; PFNMs ou PFNM’s, só para citar alguns acrônimos comuns no meio agronômico, florestal e agora gastronômico-nutricional), pois pelo que nos consta não é correto no português clássico. Neste caso, o plural faz-se com o artigo (e.g., a PANC ou as PANC). Facilita a fala e a grafia, enfim a comunicação.

O conceito PANC é o mais adequado e o mais amplo e por isso mesmo caiu no gosto popular e hoje até as crianças brincam e falam, além permitir trocadilhos diversos. O termo PANC contempla todas as plantas que têm uma parte ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas, ruderais ou cultivadas. Inclusive espécies alimentícias convencionais, mas que possuem partes, porções e/ou produtos alimentícios não convencionais também pelo meu conceito amplo são consideradas PANC. Logo, o acrônimo contempla a bananeira (e.g., uso do coração e do palmito); mamoeiro (com uso da medula, dos frutos verdes, sementes e/ou flores) e chuchu (e.g., uso das raízes tuberosas e folhas/talos) e outras espécies que têm formas usos e partes de usos alimentícios potenciais, mas pouco ortodoxos e mal conhecidos ou desconhecidos pela maioria esmagadora da população. Estas espécies não podem ficar de fora, pois um dos objetivos da popularização das PANC é apresentar opções de plantas ou partes destas que possam ser consumidas, trazendo à tona, à baila espécies negligenciadas e subutilizadas.

Como “nasceu” as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)

Antes preciso contextualizar como eu nasci, onde e como vivi e depois como eu vivo. Eu nasci em 1976 na zona rural (São Sebastião do Paraíba, município de Cantagalo/RJ). Este distrito (Arraial) fica à margem do rio Paraíba do Sul na divisa do Rio de Janeiro (RJ) com Minas Gerais (MG). Nasci de parto natural em casa.  Sou o sétimo de nove irmãos (seis homens e três mulheres). Meus pais eram agricultores e toda a família trabalhava na roça como colono numa propriedade rural bem distante e com condições bem limitantes, inclusive sem luz elétrica e sem água encanada. Quando eu tinha aproximadamente 1,5 ano minha família mudou-se para outro sítio bem afastado no distrito de Amparo, Nova Friburgo/RJ para trabalhar como caseiro cuidando da propriedade. Neste sítio também sem energia elétrica vivi até os 19 anos. Desde muito pequeno participava das atividades na roça, seja levando comida ou ajudando nas lidas diárias de roçagens, capinas, manejos em geral, cuidando das criações, plantios, colheitas e na cozinha preparando comidas. Estudei à luz de lamparinas a querosene e/ou velas até o atual Ensino Médio morando e trabalhando no sítio.

Aos 19 anos fui aprovado no Vestibular da UEL (Universidade Estadual de Londrina) para Ciências Biológicas e então mudei (1996) radicalmente do Sudeste para o Sul do Brasil e do interior para uma das maiores cidades da região Sul do país. A UEL foi uma experiência formidável e inesquecível e lá iniciei meus estudos botânicos de modo formal e me apaixonei ainda mais pelas plantas que eu comia, cozinhava e usava como forrageiras para os coelhos e porcos desde a infância. Durante a Graduação tive muitas oportunidades de estágio e vivências e viagens pelo Brasil. Sempre coletando e herborizando plantas e comendo/inventando receitas com aquelas espécies que já conhecia ou tomava conhecimento serem alimentícias. Conheci superficialmente a Amazônia, o Pantanal, a Caatinga e o Cerrado, além da Mata Atlântica do Sul e a Mata com Araucária e campos nas disciplinas e viagens para cursos de campo e congressos durante a Graduação.

No início de 2000 já com a faculdade concluída faltando apenas a colação de grau fiz estágio com o icônico Agrônomo Botânico e autor dos didáticos e aprazíveis livros de Botânica, Harri Lorenzi. Em 2000 mudei para Manaus/AM para fazer Mestrado na Botânica do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) onde ampliei meus conhecimentos botânicos e tive oportunidade de conhecer parte da rica flora amazônica, notadamente aquelas de interesse alimentício, sempre experimentando novos sabores nos trabalhos de campo e nas incursões às feiras e mercados locais.

Em 2002 mudei para Porto Alegre/RS onde em poucos meses consegui uma vaga como Professor Substituto no Departamento de Botânica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Nesta oportunidade conheci grandes botânicos, colegas desta universidade e de outras instituições deste estado que tem uma grande tradição nos estudos botânicos e que contribui para a botânica nacional. Trabalhando com diversas disciplinas, entre elas Botânica Econômica e “Trabalho de Campo”, pude focar na minha grande paixão que é o comer e a comida, especialmente aquela feita com ingredientes inusitados ou não convencionais. E a melhor das comidas é aquela comida da “mão para a boca”, ou seja, frutos, folhas, flores e miscelâneas que podes ser coletados e consumidos in natura, uma questão de sobrevivência ou de bem-estar (saciar a fome e/ou a sede e entreter) no dia a dia nas andanças e trabalhos nas roças, nas florestas, nos campos e mesmo pelas cidades.

A partir destas disciplinas e de contatos com colegas que direta ou indiretamente pesquisavam plantas diferenciadas que podiam ser consumidas começou a gerado as ideias e os ideais que levariam mais tarde a criação e popularização da expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Um dos focos fortes na disciplina de Botânica Econômica era o potencial alimentício subutilizado ou negligenciado da flora nativa e das exóticas cultivadas ou naturalizadas com visitas a feiras, agricultores e apresentação de seminários sobre a temática, além provarmos receitas com estes ingredientes até então raros ou desconhecidos para a grande maioria, senão todos da turma. E nas expedições de campo aos finais de semana íamos identificando plantas nas constantes paradas ao longo das rodovias, falando dos seus potenciais e já consumindo aquelas que podia ser consumidas cruas e estavam no ponto de coleta.

Além disso, era comum levar o excedente e aquelas que precisavam de processamento e/ou eram mais saborosas quando processadas (notadamente cozidas, fritas ou assadas) para preparar à noite nos alojamentos. E as mais abundantes eram trazidas inclusive para minha casa para o preparo saladas, pratos salgados diversos e as frutas para sucos, frisantes, geleias e licores. Assim começaram a surgir receitas e formas de aproveitamento inusitadas que geralmente eram compartilhadas os colegas e estudantes nas semanas seguintes. Desta forma as pessoas começaram a conhecer e apreciar espécies até então desconhecidas como alimento.

Neste período conheci diversos professores que contribuíram para minha formação e consolidação das pesquisas e do conhecimento botânico e etnobotânicos. Cabe destacar o querido e já falecido Prof. Dr. Bruno Edgar Irgang que sempre deu um apoio moral e aportes de informações preciosas, além de ter me apresentado a sua então orientanda de Doutorado Andréia Maranhão Carneiro que tinha como tema geral o estudo de plantas comestíveis espontâneas. Ela me indicou e/ou emprestou as referências bibliográficas mais básicas sobre plantas com usos alimentícios para que eu iniciasse uma leitura mais aprofundada e técnica sobre aquilo que já gostava de comer porque tinha aprendido com alguém ou em outras fontes e experimentações, mas sempre embasadas em conhecimentos botânicos e noções de Quimiotaxonomia prévios.

Mais adiante o B.E. Irgang me apresentaria a minha futura orientadora de doutorado. Deste período destaca-se também os colegas professores Dr. Paulo Brack e João André Jarenkow, com os quais aprendi muito da vegetação e flora gaúchas. Com este último aprendi a comer os brotinhos tenros das pontas dos ramos da araucária. Logo em seguida tive a oportunidade de conhecer o célebre pesquisador argentino, Prof. Dr. Eduardo Hugo Rapoport (falecido em 2016 e a quem o livro PANC é dedicado), coorientador da A.M. Carneiro na pesquisa anteriormente mencionada. Ele proferiu uma agradável e pitoresca palestra no XI Encontro de Botânicos do RS (Santa Cruz do Sul – UNISC, 2002) sobre as Malezas Comestibles. No dia seguinte a palestra, passeamos juntos pelos terrenos baldios e ruas de Santa Cruz do Sul/RS observando, comendo e coletando algumas plantas alimentícias. Daí nasceu boa amizade e colaborações. Ele me indicou posteriormente bibliografias importantes e compartilhou seus artigos e livros. Como fruto desta parceria eu fui ministrar palestras e oficinas de campo e cozinha com ele em duas oportunidades na Argentina, perfazendo quatro províncias e ele veio proferir palestra no Congresso de Botânica em Curitiba/PR (2005) e na Reunião da SBPC em Manaus/AM (2009), realizando o sonho de conhecer a Amazônia brasileira.

No ano de 2004 eu apresentei o primeiro resumo expandido sobre o tema (mas, usando “plantas alimentícias alternativas”) no então II Congresso Nacional de Agroecologia em Porto Alegre/RS e ministrei uma oficina de identificação destas plantas e preparo de receitas nas dependências do Jardim Botânico de Porto Alegre, em parceria com A.M. Carneiro. A oficina foi um estrondo de público com mais de 70 participantes entre inscritos e curiosos que abarrotaram a cozinha para ver as plantas coletadas amontoadas e degustar as inéditas receitas. A partir daí até então não parei mais de participar de eventos públicos ou privados com palestras e cursos de campo e cozinha, ajudando sobremaneira a formar ou ao menos instigar outras pessoas a pesquisarem mais e a olharem com outros olhos e outra boca as plantas e ir ao campo, bem como às feiras e aos mercados com olhos clínicos em busca do diferente, do não convencional.

Ainda por volta do ano 2002 apresentei a proposta ao Henri Lorenzi para fazermos um livro com fotos e receitas destas plantas alimentícias desconhecidas pela maior parte da população. Ele ponderou e questionou muito, mas topou o desafio, o qual entre a proposta inicial e sua publicação demandou cerca de 12 anos. Em 2004 inicio o doutorado na Faculdade de Agronomia/UFRGS, no Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, sob a orientação da Profa. Dra. Ingrid de Barros e juntos e com muitos amigos e parceiros tanto desta universidade quanto de outras instituições, bem como agricultores e feirantes e notadamente os parceiros do Sítio Capororoca, onde as pesquisas de campo e muitas experiências de culinária e de comercialização na feira foram feitas.

A tese envolveu um trabalho extenuante de campo (coletas, preparo de área/plantios, manejos, viagens, fotografias), de cozinha, de laboratório com as análises de composição centesimal e os preparos para as análises minerais de dezenas de espécies. Bem como o intenso trabalho de revisão bibliográfica e de sistematização dos dados das 312 espécies listadas como tendo potencial alimentício na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). A tese foi defendida no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária/UFRGS no dia 14/11/2007 com eclética banca e o processo foi intenso e longo. Creio que se iniciou às 14:00 horas e terminou completamente por volta das 19:00 horas. Pela minha experiência em defesas dos colegas como plateia e também a bastante tempo participando de bancas diversas Brasil afora como membro da Banca, a minha defesa teve um público recorde, com mais de 70 participantes e a grande maioria ficou até o final. Soube recentemente que um dos membros da Banca, o conhecido e querido Prof. Dr. Lin Chau Ming (também agricultor e entusiasta das PANC), tarimbado pesquisador costuma falar que nunca participou de banca com plateia tão volumosa. Isto não é (só) exibicionismo, mas é um fato histórico e muito gratificante para demonstrar que em 2007, o tema já atraía muitos interessados. Inclusive um membro da plateia pediu autorização para gravar todo ritual de defesa. Salienta-se claro que ao final tinha vários pratos com incorporação destas espécies feitos principalmente por alguns então estudantes de Gastronomia e equipe do Capororoca entusiasmados com estes ingredientes diferenciados.

A versão final da Tese foi entregue no início de janeiro de 2008 tanto a versão impressa quanto a versão em PDF que está desde então disponível para acesso e download no LUME (Banco Digital de Teses e Dissertações). Felizmente, tem servido de subsídios e estímulos para diversos outros trabalhos, monografias, dissertações, teses, artigos, cartilhas, livros, documentários/vídeos, além de estímulos para agricultores repensarem e diversificarem seus cultivos.

Defendida e entregue a tese, alguns meses depois (14/04/2008) comecei a trabalhar como concursado da área de Agroecologia da então Escola Agrotécnica Federal de Manaus, atual IFAM-CMZL (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste), onde sou docente. Agroecologia e PANC têm tudo a ver e uma das lacunas dos sistemas agroecológicos é a efetiva incorporação aos agroecossistemas das frutas e hortaliças sensu lato PANC, diversificando as matrizes agrícolas locais e incorporando paulatinamente aos cardápios familiares e dos restaurantes ingredientes inusitados.

Por incrível que pareça o acrônimo PANC citado já aqui desde o título e timidamente ao longo do texto, pois é muito difícil atualmente se referir a esta categoria de plantas sem utilizar o “PANC”, nunca foi utilizado nem no título nem nas 562 páginas da minha. Não sei como, mas passou despercebido e não me ocorreu o acrônimo nos títulos e falas das palestras e nem na tese e sempre foi usada a expressão longa. Minha orientadora e nem mesmo os membros da banca sugeriram.

Este nome foi cunhado e começou a ser utilizado durante a execução do projeto coordenado pela Nutricionista Irany Arteche, promovido pela Superintendência da CONAB/PNUD (Companhia Nacional de Abastecimento/ Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Este projeto foi realizado em assentamentos e acampamentos do MST no RS (Nova Santa Rita e entorno). E tornado público a partir da disponibilização online de um documentário gravado por uma dupla de jornalistas do Coletivo Catarse.

É um “termo” fácil de falar e bem eufônico. O conceito representado pelo acrônimo PANC é mais amplo e flexível para tentar categorizar este grupo de plantas subutilizadas ou negligenciadas pelo grande público. Maiores detalhes sobre PANC são discutidos na introdução do livro PANC. Este “movimento PANC” nasceu no RS e espalhou-se para o Brasil timidamente a partir 2003 com minhas palestras e cursos de campo e cozinha e intensificou-se a partir disponibilização da tese online a partir de janeiro de 2008; atingiu um público eclético a partir dos vídeos do projeto PANC anteriormente citado. E vem atingindo proporções históricas a partir da publicação do que chamamos “Livro PANC” – Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas publicado pela Editora Plantarum.

Desde então o tema e o livro têm sido contemplados em diversos programas de TV, matérias de jornais e revistas impressos e online no Brasil e no exterior, sites diversos, blogs e páginas no Facebook com muitos seguidores com a disponibilização de receitas ricas e rebuscadas. Muitos programas de culinária também têm abordados o tema PANC e usados ingredientes de PANC em suas receitas.

Em março de 2018 tivemos uma edição do programa Globo Repórter com foca nas PANC e participação de autores, atores e sujeitos que estudam, produzem, processam, cozinham, vendem, divulgam, compram e, enfim, que comem as PANC. Este é um dos programas mais bem produzidos da televisão aberta brasileira e com grande impacto na sociedade e que atinge um público heterogêneo e muito grande. Espera-se que seja um divisor de água e o acrônimo e a expressão sejam cada vez mais difundidos e popularizados e que as PANC mais comuns, abundantes, de fácil extrativismo, cultivo e/ou processamento sejam melhor incorporadas nas lavouras, hortas e jardins e que cheguem efetivamente à mesa dos brasileiros tanto nas residências, em nossas refeições diárias, como nos restaurantes comerciais e institucionais,  seja como aperitivos, pratos de entradas, pratos principais, bebidas diversas, nas sobremesas e digestivos.

Para a isso conscientização, a informação e formação de tomadores de decisão sejam políticas e/ou de empreendedorismo são essenciais. Especialmente os refeitórios das creches, escolas e universidades, os famosos Restaurantes Universitários (RU), deveriam ser restaurantes didáticos e pedagógicos, ou seja, os estudantes desde a mais tenra idade até a graduação e a pós-graduação deveriam ter acesso verduras, legumes, condimentos, frutas diversos, especialmente os locais, sazonais e mais adaptados e de fácil em cada bioma do Brasil.

Mas, com a simplificação, a quimificação e a crescente urbanização nossa alimentação passou ser cada mais monótona e repetitiva ao longo dos 365 do ano. Monotonia no prato é reflexo de mentes monótonas e da monotonia no campo (i.e., da monocultura baseada em moto-mecanização pesada; insumos industrializados diversos – agrotóxicos, adubos sintéticos; espécies transgênicas e poucas cultivares). Logo, se você leitor(a) ousar comprar ingredientes diferenciados (não convencionais) nas feiras e mercados e deixar de comprar ou minimizar a aquisição de espécies e ingredientes sabidamente pobres em nutrientes e/ou ricos em resíduos de agrotóxicos e/ou que gaste muita energia para ser produzido e/ou transportado até o destino final já estará contribuindo para estimular a Agricultura Agroecológica e para a mudança de paradigma em relação aos ditos “matos” porque não estão nos pratos.

A expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais e o acrônimo PANC estão comemorando 10 anos em 2018. Ainda estamos muito longe da utopia e, especialmente, da “eutopia”, que é encontrarmos cardápios e buffet com a incorporação de PANC e também encontrarmos produtos prontos ou processados como sorvetes, sucos, geleias, licores, cervejas e pães com adição de folhas, frutos/frutas e/ou batatas de PANC. Mas, já existe alguns restaurantes e outros estabelecimentos pioneiros no Brasil com PANC nos pratos, e.g., vitória-régia, taioba, chaya, picão-preto, ora-pro-nóbis, moringa, serralha, mini pepinos nativos, flores e frutas diversas, dentre algumas outras espécies.

Mas, as PANC é um mundo a parte para ser mais bem pesquisado nos laboratórios, no campo e na cozinha.  Como escrevemos na introdução do livro PANC a expectativa é de uma Revolução Gastronômica. Este livro já vem sendo adotado e muito utilizado nas faculdades públicas e privadas de Gastronomia, Engenharia e Ciências de Alimentos, Nutrição, Biologia, Agronomia, entre outras. Logo, estes novos profissionais já adentrarão ao mundo do trabalho com visões mais holísticas e quem sabe comecem a criar demandas por ingredientes não convencionais.

Atualmente, este interesse tem crescido muito na Gastronomia e Nutrição, mas ainda precisa ser muito repensado nas clássicas escolas de Agronomia, onde diversas disciplinas tradicionais precisam ser adequadas às novas demandas por ingredientes não convencionais, locais, sazonais, com a menor liberação de carbono para atmosfera. Assim, o escopo das disciplinas de Fruticultura e Olericultura, por exemplo, precisa ser revisto para enquadrar como frutas e hortaliças, respectivamente, espécies até então tratadas como mato, invasoras, infestantes, nocivas ou daninhas.

Neste período de 10 anos, o “bebê” recém-nascido precisava de cuidados especiais, começou a engatinhar, fazer caretas e gracinhas e a cair no gosto das pessoas. Agora é um pré-adolescente que quer alçar voos próprios. Portanto, a expectativa é que daqui a 10 anos (2028) tenhamos muitos mais ingredientes nativos (autóctones) e os exóticos adaptados aos diferentes biomas brasileiros incorporados às lavouras, pomares, hortas, quintais e jardins, nos sistemas agrícolas rurais e urbanos.

E assim, além das PANC continuarem saindo pelas bocas das pessoas durante as conversas, aulas, palestras e programas de TV cada vez com mais frequência e naturalidade, espera-se que continue e amplie a frequência, a constância e a diversidade de entrada das PANC pela boca, ou seja, sua ingestão como alimento seja cada vez comum na nossa culinária do dia a dia. Afinal, a biodiversidade alimentícia que não entra pela boca não tem valor real e fica apenas no campo da retórica abstrata, não gerando calorias, nutrientes, bem-estar, bem-viver, saúde e conservação da natureza, além de poder contribuir para geração de emprego, trabalho e renda. O uso real das PANC é um campo vasto e muito promissor para setores diversos, como turismo rural, gastronomia e até para indústria alimentícia com incorporação de ingredientes inusitados nas pousadas, hotéis, restaurantes e também nos produtos alimentícios processados.

Todos nós temos que fazer nossas partes, especialmente como comensais que somos, selecionando e valorizando os alimentos locais. Bem como valorizando e valorando melhor o profissional mais importante do mundo que é quem coloca comida em nossas mesas, o agricultor. Afinal “Somos Agro”, mas temos a muito esquecido nosso lado de agricultor e poucos querem trabalhar efetivamente no campo. Eu felizmente consegui retornar ao campo, uma volta às origens que relatei anteriormente e voltei a ser agricultor. Atualmente, vivo e cultivo diversas espécies de PANC para autoconsumo e já forneço para alguns restaurantes. O pequeno sítio onde moro chama-se “Sítio PANC”.

Alimento e água são as coisas mais importantes do mundo e um não se dissocia do outro. As PANC adaptadas aos diferentes ambientes do planeta têm grande potencial para incrementar as matrizes agrícolas mundiais, diversificar cardápios, minimizar a fome real e a fome oculta e contribuir para a conservação dos solos, das águas e dos recursos naturais em geral.

Valdely é biólogo e autor do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil em coautoria do Harri Lorenzi. Doutor em Fitotecnia-Horticultura (2007) pelo PPG Fitotecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste (IFAM-CMZL) e Fundador-Curador do Herbário EAFM deste instituto. Docente e orientador credenciado no Programa de Pós-Graduação em Botânica do INPA. Atua na pesquisa e divulgação das PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais.