Guardiões de sementes crioulas: uma luta por autossuficiência, sabor e saber

Guardiões de sementes crioulas: uma luta por autossuficiência, sabor e saber

Juarez Antonio Felipe Perreira cultiva, em Barra do Ribeiro, sementes de variedades de arroz crioulo. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Nos últimos anos, vem crescendo no Rio Grande do Sul e em outros estados do Brasil o trabalho de um grupo de pequenos agricultores que se dedicam a manter saberes tradicionais e o patrimônio genético que marcam a história da agricultura no Estado. Os guardiões e guardiãs de sementes crioulas vêm resgatando e preservando não só sementes, mas também saberes e práticas agroecológicas que buscam diminuir a dependência da agricultura em relação aos atuais pacotes tecnológicos das grandes empresas transnacionais do setor, marcados pelo uso intensivo de agrotóxicos e outros insumos químicos. Uma mostra desse trabalho de resgate de sementes crioulas foi apresentada na gelada manhã deste sábado (21), na Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), que ocorre semanalmente na rua José Bonifácio, em Porto Alegre.

Um dos princípios que orienta o trabalho dos guardiões de sementes crioulas é a busca da autossuficiência nas propriedades agrícolas, condição necessária para uma maior independência econômica e para assegurar a qualidade do que está sendo produzido. Franciele Menoncin Bellé, cuja família tem propriedade em Antonio Prado, fala sobre o significado desse princípio e também sobre um risco crescente que cerca o trabalho dos guardiões de sementes, a contaminação por transgênicos e híbridos. Em uma pesquisa recente feita pela Câmara Técnica de Agroeocologia do Estado, entre todas as propriedades produtoras de sementes analisadas, somente cinco tinham sementes crioulas não contaminadas. Todas as demais tinham algum tipo de contaminação.

“O trabalho que a gente faz é resgatar e plantar sementes. Todas as sementes que são produzidas são destinadas a garantir a autossuficiência da propriedade. Nós não comercializamos essas sementes. O que é fundamental na agricultura, principalmente quando se trata de sementes, é buscar a autossuficiência, garantindo à propriedade tudo o que ela necessita para produzir. Isso é importante porque aí você sabe exatamente o que está usando e tem a noção do que está produzindo, apesar de que, hoje, no caso do milho, temos informações que a maioria do milho crioulo do Estado já está contaminado por transgênicos. Isso é algo catastrófico, que fere diretamente o agricultor que se dedica a cultivar e cuidar de uma semente. As sementes de abóboras e morangas crioulas também estão sendo contaminadas pelas sementes de cabotiá e outras variedades híbridas”.

Os problemas relacionados à contaminação de sementes crioulas por híbridas não são os mesmos que em relação aos transgênicos. “Nós produzimos híbridos em pequena quantidade, coisas de que não conseguimos ter sementes crioulas, como pepino ou cenoura. No caso dos híbridos, já houve uma interferência na concepção das sementes. Eles não são tão bons quanto os crioulos. A gente percebe essa diferença no sabor, principalmente quando se trata de culturas mais simples como alface, tomate ou brócolis. Existe uma diferença muito grande de sabor. Então, quando a gente pode optar pelo crioulo, a gente escolhe ele. Quando não temos essa opção, acabamos usando híbridos também”.

“Existe uma diferença muito grande de sabor”

A família de Franciele Bellé resgata e planta sementes crioulas de milho, feijão, melancias, melões, abóboras, pimentas, alfaces, tomates, flores comestíveis e diversas plantas alimentícias não convencionais (as PANCs), entre outras. Ela destaca o caso do tomate para ilustrar o valor do que é produzido com essas sementes. “Uma das nossas principais sementes são as de tomate. São poucas as propriedades que ainda preservam e plantam as suas sementes. A maioria compra esses híbridos, que são aqueles tomates durinhos que a gente encontra em mercados. A minha mãe chama esses tomates de plástico. Eles são durinhos e não tem sabor. O crioulo, em compensação, apesar de ser um pouquinho mais mole, é carregado de sabor. A qualidade dele é completamente diferente”.

Só na propriedade da família, conta Franciele, há mais de 30 variedades de tomates crioulos e cerca de 12 variedades de abóboras. “O mais interessante de tudo é que, como a gente planta elas todas juntas, na propriedade mesmo vão se criando novas espécies. Isso também é uma forma de hibridismo, mas é diferente do híbrido manipulado em laboratório. No nosso caso, só a cruza daquelas duas espécies, naquele local, é que vai dar a terceira espécie. Muito possivelmente, ela só vai existir naquele lugar. São variedades únicas, como a gente chama”.

O processo de resgate e plantio de sementes crioulas é um trabalho que envolve descobertas sobre a história de ocupação dos territórios. O bisavô da mãe de Franciele Bellé trouxe da Itália algumas mudas de parreira. “Quando ele chegou aqui, na região de Bento Gonçalves, ele plantou essas parreiras que continuam ali até hoje. Elas são quase que bicentenárias. A gente percebe as que as mudas de híbridos que temos hoje, que vem acompanhadas de grandes promessas de produtividade e sanidade, não agüentam mais do que quatro ou cinco anos. Qual será a melhor? Essa híbrida que temos hoje, com uma produtividade por quatro ou cinco anos, ou aquela crioula que o meu tataravô trouxe da Itália e que continua lá até hoje?”, questiona.

Ela aponta um grande risco para a continuidade desse trabalho que são as propostas que tramitam no Congresso para proibir o livre plantio de cultivares e sementes crioulas. “Isso significa que, para continuar utilizando as sementes crioulas, o agricultor precisaria comprá-las de empresas terceirizadas. Se isso acontecer, vai acabar com a agricultura familiar. O agricultor vai perder o poder que tem hoje de cultivar sua própria semente. Se essas propostas forem aprovadas, a gente vai perder muito. Vemos hoje empresas, principalmente de fora do Brasil, que vem aqui, se apropriam da nossa biodiversidade e acabam patenteando ela. Isso é algo patético”.

Juarez Antonio Felipe Perreira sempre foi agricultor e, há 19 anos, participa da Feira dos Agricultores Ecologistas. Quando começou a participar da Feira, ele já fazia agroecologia há seis ou sete anos. Ele conta como iniciou o trabalho de plantio de sementes de arroz crioulo em Barra do Ribeiro, trabalho no qual já resgatou algumas variedades que estavam praticamente extintas:

“Quando cheguei aqui na rua com a minha produção nas mãos para ofertar ao público, comecei a perceber que existia uma outra forma de pagamento que não só a monetária, que é esse reconhecimento, carinho e agradecimento constante do consumidor com o agricultor pela oferta que ele aqui fiz. Isso foi algo fantástico para mim. Comecei a plantar lá esse amor que recebia aqui. Eu estava em uma banca com diversidade de arroz e precisava ofertar diversidade. Para isso, eu precisava ter sementes e variedades. Naquele momento, eu sabia onde estavam as pérolas. Estavam nas mãos dos pequenos agricultores que cultivam para o auto-sustento. Esse agricultor, na nossa região, nunca se preocupou em purificar uma semente. Ele cultiva o que gosta de comer. Havia um verdadeiro banco genético na mão desses agricultores”.

Por meio desse trabalho de pesquisa nas propriedades de pequenos agricultores, ele foi resgatando diversas variedades de arroz crioulo. Algumas foram descartadas, relata, mas outras se multiplicaram e deram uma resposta muito boa em termos de adaptação, produção e satisfação no prato do consumidor. “Essas variedades têm mais sabor pois, normalmente, são adaptadas ao cultivo sem fertilizantes, sem adubos. Elas têm ainda muita inteligência de se relacionar com o meio onde vivem. A minha família cultiva o arroz farroupilha (uma dessas variedades) há mais de 85 anos. Pelo que sei, há pelo menos duas variedades, o farroupilha e o japonês, que estão aqui no estado há mais de cem anos. Mas os que estão há mais tempo mesmo são os cultivos de arroz de sequeiro (no seco), que agora estou começando a pesquisar e cultivar. Eles estão há muito mais tempo aqui, mas as suas variedades não tem mais nome. Como o auto-sustento começou a sair de moda nas últimas três ou quatro décadas, essas variedades passaram a ser menos cultivadas e seus nomes foram se perdendo”.

A propriedade de Pedro Lovatto, em Farroupilha, está mais focada na produção orgânica de pequenas frutas vermelhas como morango, mirtilo, amora e framboesa, além de outras como figo, caqui e ameixa. Em sua grande maioria, elas se reproduzem por mudas e não por sementes. Mas, além dessa produção de frutas, ele é guardião de algumas sementes de alho crioulo, entre elas a do chamado alho macho, de feijão e de uma variedade de milho. O alho macho, conta, nas regiões de colonização italiana, se perpetuava debaixo dos parreirais. “Era muito utilizado na alimentação. Depois, com o advento dos herbicidas, principalmente o glifosato, ele desapareceu. Consegui resgatar e reproduzir essas sementes, o que leva muito tempo”.

Lovatto tem um cuidado especial para que as suas sementes crioulas não sofram contaminação, principalmente por variedades transgênicas. “Hoje em dia, infelizmente, quase todos os agricultores que plantam milho estão plantando transgênico, mesmo os pequenos. Eu tenho bastante cuidado para que não ocorra essa contaminação, ficando, por exemplo, bem atento à questão da época do plantio, para que ela não coincida com a dos cultivos transgênicos” .

O trabalho dos guardiões de sementes crioulas tem também a dimensão de resgatar e preservar saberes tradicionais e ancestrais dos territórios. Estudante do curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e responsável pela organização de eventos na FAE, Camila Torres Brum destaca esse caráter, dizendo que mostras como a das sementes crioulas acabam dando à feira um caráter de “museu a céu aberto”, onde as peças em exposição são saberes que estão presentes nos alimentos.  “A Feira também é um meio de comunicação e de expressão de um patrimônio imaterial constituído pelos saberes dos agricultores. O conhecimento das sementes crioulas é passado de geração para geração e representa um movimento de resistência diante do modelo de agricultura proposto pelo agronegócio. Os agricultores detém esses saberes que acabam sendo materializados nos alimentos”.

Marco Weissheimer para SUL21.

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O visível e o invisível no corpo obeso | Trajetórias biográficas de mulheres do bolsa família

O visível e o invisível no corpo obeso | Trajetórias biográficas de mulheres do bolsa família

O artigo intitulado Trajetórias Biográficas do Aumento e Excesso de Peso de Mulheres do Programa Bolsa Família no Brasil escrito pelas pesquisadoras Denise Oliveira e Silva e Danielle Cabrini, integrantes do OBHA, é dos artigos que compõe o 28º volume da Revista Comunicação em Ciências da Saúde sobre Pesquisa Aplicada às Políticas Públicas de Saúde. O artigo é resultado de um estudo qualitativo que vem sendo realizado desde 2012 com cerca de 200 mulheres obesas entre 20 a 55 anos, identificadas pelos bancos de dados de acesso público do Programa Bolsa Família.

As autores, apresentam no artigo as reflexões oriundas das primeiras análises realizadas a partir da descrição de cinquenta narrativas biográficas de mulheres obesas beneficiarias do Programa Bolsa Família (PBF). Foram percebidas duas categoria analíticas, uma que consiste no corpo força, onde as mulheres enxergam que não podem ser magras porque precisam lidar com a luta do dia a dia; a segunda, é que essas mulheres irão se enxergar com o corpo obeso pelo olhar de terceiros: ou elas ficam doentes e vão procurar o serviço de saúde ou elas vão para alguma festa e a roupa não serve ou escutam do marido ou da familiar que elas estão acima do peso.

“O caminho biográfico como entendimento do corpo feminino obeso agrega fatores para além da biologia e fisiologia. A biografia alimentar e do corpo traz aspectos culturais, simbólicos e sociais para o fenômeno da obesidade”, afirma Denise, que já apresentou a pesquisa em vídeo na fanpage do Observatório. A pesquisa conta com um espaço de devolutiva para as mulheres entrevistadas chamado Histórias de Comer, as dúvidas são respondidas pela equipe por meio de vídeos e imagens ilustrativas.

A edição atual da revista publicada em 02/07/2018, se propôs a apresentar o resultado da produção técnico cientifica de pesquisadores da Gerencia Regional da Fundação Oswaldo Cruz (GEREB), que consolidam a área de pesquisa da instituição, com o intuito de analisar as contribuições técnico cientificas para política pública e para o Estado brasileiro.

Confira o artigo e a edição completa da Revista Comunicação em Ciências da Saúde.

FONTE: JULIA PLUS

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Fiscalização e controle de agrotóxicos é defendida por pesquisadora da Fiocruz em audiência na Câmara dos Deputados

Fiscalização e controle de agrotóxicos é defendida por pesquisadora da Fiocruz em audiência na Câmara dos Deputados

A construção de um sistema de fiscalização e controle de agrotóxicos foi defendida ontem (26/06) pela vice-diretora da Fiocruz Brasília, Denise Oliveira, durante audiência pública da Comissão especial que analisa a proposta de criação da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNARA). O projeto de lei 6670/2016 propõe a redução progressiva de agrotóxicos, o desenvolvimento de alternativas biológicas e naturais de defensivos agrícolas e o controle desses produtos.

A audiência reuniu seis mulheres pesquisadoras que apresentaram dados relativos ao impacto do uso de agrotóxicos no meio ambiente e na saúde. O deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), presidente da Comissão, referiu que a recente aprovação do “pacote do veneno” em comissão na Câmara demonstrou um profundo desprezo pelo conhecimento científico produzido no Brasil e que “queremos por meio desse projeto de lei, mostrar que o País pode produzir alimento em grande quantidade sem precisar, para isso, envenenar a população brasileira”.

Denise Oliveira destacou a importância de um consenso metodológico para a estruturação do sistema de fiscalização e controle dos agrotóxicos. Observou que tal sistema deve monitorar todo o processo desde o registro até os impactos desses produtos nos trabalhadores e no meio ambiente. Marcia Sarpa, representante do Inca – Instituto Nacional do Câncer, corroborou esta argumentação destacando a necessidade de haver controle, monitoramento e responsabilização em toda a cadeia produtiva. Também defendeu a revisão periódica, a cada cinco anos, dos registros de pesticidas com exigência de apresentação de estudos atualizados e o fim da isenção fiscal para agrotóxicos. Hoje o registro do agrotóxico tem validade permanente.

A colocação no PNARA de mecanismos de denuncia unificados e simplificados, a exemplo de vídeos e fotos, e a previsão de medidas para os casos de contaminação coletivas foram defendidos por Naiara Andreoli, da ONG Terra de Direitos. Ela relatou uma série de casos de contaminação coletiva por agrotóxicos. Em março deste ano, uma borrifação aérea contaminou 350 famílias do Acampamento Helenira Rezende, localizado em Marabá, Pará –  disse Naiara ao destacar a necessidade de estabelecer zonas livres de agrotóxicos tais como as proximidades de áreas indígenas, de preservação ambiental, comunidades quilombolas e outras. Ela citou evento ocorrido em terras indígenas da comunidade de Pinhalzinho, no Paraná, que resultou no extermínio de abelhas Jataí. A comunidade sobrevivia da venda de produtos – mel, cera, etc. – que também eram utilizados para realização de cerimônias tradicionais.

Jacimara Guerra Machado, diretora de Qualidade Ambiental do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais destacou os riscos para a saúde e o meio ambiente decorrentes da aprovação da PL 6299 (lei do veneno) desde a perda significativa de biodiversidade até a falta de reparo/indenização para danos ambientais.  Graziela Costa Araujo, gerente-geral de Toxicologia da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária destacou a importância de os organismos públicos analisarem previamente os produtos químicos e de se estimular o desenvolvimento de formulações menos tóxicas. Citou que a Anvisa já registrou 98 produtos para uso na agricultura orgânica.

Larissa Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo- USP, apresentou pesquisa denominada “Geografia do uso do Agrotóxico no Brasil e Conexões com a União Europeia”. Enquanto os países europeus usam entre 0 a 2 kg de agrotóxicos por hectare na agricultura, no Brasil a média é de 8,33 kg de veneno por hectare, podendo chegar a 19 kg em lugares como Mato Grosso. A pesquisadora informou que o Brasil consome 20% de todo o agrotóxico vendido no mundo e teve um aumento exponencial nos últimos 15 anos, aumentando em 135% o consumo de venenos na agricultura, e passando a 500 mil toneladas em 2014.

Matéria: ASCOM Fiocruz Brasília | Fotos: Gustavo Bezerra

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Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Nuno Rodrigo Madeira e Neide Botrel

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) são aquelas que possuem uma ou mais partes que podem ser usadas na alimentação, mas que não sejam corriqueiras, parte do dia a dia da grande maioria da população. O termo PANC começou a ser difundido em 2008 e tem sido o mais aceito pela comunidade técnico-científica. Ele trouxe consigo grande visibilidade na mídia e perante a sociedade como um todo, proporcionando a valorização de espécies subutilizadas ou negligenciadas.

Em nosso trabalho na Embrapa Hortaliças, iniciado oficialmente em 2006, utilizamos por vezes o termo “Hortaliças Tradicionais”, por serem espécies cujas sementes ou mudas são mantidas pelos próprios agricultores, muitos deles agricultores tradicionais, e por trazerem consigo um forte apelo cultural associado, além de ser uma forma de valorização. Por representarmos a Embrapa Hortaliças, nos limitamos ao trabalho com hortaliças, mas dialogamos acerca das PANC como um grupo maior. Nos últimos anos, passamos também a usar o termo “Hortaliças PANC”, que inclui as hortaliças tradicionais e outras.

Esses termos (PANC ou Hortaliças PANC) trazem alguma controvérsia; uma planta que é considerada não convencional em uma região pode ser convencional em outra, a exemplo do açaí (Euterpe oleracea), do jambu (Spilanthes oleracea) e da chicória (Eryngium foetidum) na Região Norte, do cuxá ou vinagreira (Hibiscus sabdarifae) no Maranhão, da erva-mate no Sul (Ilex paraguariensis), do inhame (Colocasia esculenta) no Espírito Santo, entre outras.

Contudo, de forma geral, as PANC, são espécies de uso local ou regional (e não global ou nacional como as espécies convencionais), com distribuição limitada, cadeia produtiva inexistente ou mal estruturada, de pouco ou nenhum interesse para as empresas de insumos, de sementes ou fertilizantes por exemplo, por sua rusticidade e pouco estudadas na academia.

De forma geral, observa-se redução do consumo de alimentos regionais, seja no campo ou nas cidades, pela substituição da produção local por espécies de maior apelo comercial e cadeia produtiva estabelecida, isso em função de mudanças significativas no estilo de vida e no hábito alimentar da população brasileira, com a perda da referência dos quintais e o crescente uso de alimentos industrializados, resultado da globalização e da verticalização das cidades, muitas vezes com perdas históricas de referências socioculturais.

A situação de desuso de muitas hortaliças tradicionais acarreta em fragilidade com relação ao risco de perda desses materiais. De acordo com a FAO (2004), o ser humano afunilou sua alimentação de mais de dez mil diferentes espécies vegetais para cerca de 150 espécies sendo cultivadas atualmente, sendo que 12 representam 80% de nossas necessidades alimentares e apenas quatro espécies (arroz, trigo, milho e batata) mais da metade de nossas necessidades.

Ainda assim, muitas hortaliças tradicionais (hoje circunscritas no conceito de PANC) resistem no Brasil e são de suma importância na expressão da cultura de determinadas populações. Alguns exemplos, dentre as hortaliças, são:

  • Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) em algumas regiões de Minas Gerais e Goiás, sempre presente na gastronomia no circuito das cidades históricas;
  • Vinagreira no Maranhão, base do prato mais significativo da culinária local – o arroz de cuxá;
  • Jambu no Norte do Brasil, ingrediente essencial para o tacacá e o pato no tucupi; e,
  • Gila (Cucurbita ficifolia) na Serra Gaúcha, onde é tema de um festival em Bom Jesus; entre outros (Brasil, 2015).

Isso em se tratando de hortaliças, nosso universo de trabalho, mas o que dizer das frutas como o cupuaçu e o açaí na Amazônia, o pequi e o baru no Cerrado, o umbu no Semiárido, a jabuticaba no Sudeste, a goiaba-serrana e o butiá no Sul, entre outras tantas “frutas PANC”. Buscando ampliar a diversidade alimentar, nosso trabalho na Embrapa Hortaliças apresenta três propósitos básicos:

  • A conservação de germoplasma, patrimônio de valor incalculável;
  • O enriquecimento da dieta alimentar local com a diversificação da produção nos sítios ou nos quintais; e,
  • A oportunidade de renda para os agricultores familiares com o cultivo de hortaliças tradicionais e seus subprodutos (Madeira et al., 2013).

A conservação, no nosso entender, só será plena e até mesmo segura e viável se for pelo uso, pois aquilo que se usa com frequência terá sua conservação assegurada. No caso de algumas espécies em desuso como o mangarito (Xanthosoma riedelianum), o jacatupé (Pachyrrhizus tuberosus) e a araruta (Maranta arundinacea), trata-se de um verdadeiro resgate de plantas que chegaram próximo à extinção, se não botânica por sua rusticidade, no mínimo à extinção alimentar. Assim, as ações que realizamos junto aos parceiros da extensão rural, de outros órgãos de pesquisa e organizações de produtores, são bancos comunitários locais (Brasil, 2013b), eventos (dias de campo, oficinas culinárias e agronômicas, palestras) e disponibilização de publicações (cartilhas, livros, artigos científicos).

Aspecto fundamental é que, em essência, o cultivo das hortaliças tradicionais vem sendo historicamente feito por agricultores familiares e sob manejo de base agroecológica. Muitos plantios estão estabelecidos em pequenos quintais no meio rural ou urbano, para o consumo da própria família, sem nenhum apelo comercial. Algumas espécies, no entanto, já apresentam significativa inserção de mercado, como o inhame (Colocasia esculenta) ou o cará, conhecido no Nordeste por inhame (Dioscorea spp.), sendo frequentemente encontrados em feiras e supermercados. Outras, no entanto, apresentam potencial comercial sub-explorado, inclusive de exportação, a exemplo da fécula (polvilho) de araruta ou de substituição de importações, a exemplo da fisális ou camapu (Physalis spp.) e do chá de hibisco, extraído da vinagreira.

É interessante ressaltar que muitas hortaliças tradicionais apresentam efeito funcional nutracêutico, a exemplo do cará ou inhame-cará, reconhecido depurativo de sangue, ou ainda o ora-pro-nóbis, conhecido como a “carne vegetal” por seus elevados teores de proteínas (até 32% na matéria seca) e minerais, notadamente cálcio e ferro. No entanto, sempre ressaltando que não será um ou outro “super alimento” que trará a resposta em nutrição e saúde mas sim uma super alimentação diversificada e de qualidade.

Contudo, outro aspecto interessante é que grande parte do que é considerado PANC são plantas nativas do Brasil e, mesmo aquelas que não são botanicamente de origem brasileira, são tão adaptadas que muitos as consideram nativas, a exemplo de vinagreira, gila e inhame, sendo na verdade ditas “naturalizadas”, introduzidas durante o processo histórico de formação do Brasil. Portanto, muitas PANC são plantas espontâneas ou silvestres, por vezes até consideradas “daninhas” ou “matos”, como serralha (Sonchus oleracea), beldroega (Portulaca oleracea) e major-gomes ou cariru (Talinum spp.).

Por sua facilidade de cultivo, adaptabilidade, rusticidade, além do potencial ornamental, muitas PANC tem sido utilizadas em agricultura urbana e periurbana e na promoção da produção local de alimentos.

Finalmente, todas as ações que vem ocorrendo relacionados a hortaliças tradicionais trazem uma forte valorização do conhecimento do agricultor tradicional, de base familiar, resgatando sua sabedoria, dignidade e importância na produção de alimento seguro, mostrando que a produção local de alimentos deve usar prioritariamente plantas adaptadas e de alta rusticidade e resiliência, disponibilizando muito mais alternativas e contribuindo verdadeiramente para a segurança e, principalmente, para a soberania alimentar e nutricional, pelo incremento da diversidade e riqueza da dieta alimentar e o fomento aos bons hábitos alimentares. O fomento das hortaliças tradicionais abrange aspectos culturais, econômicos e sociais, promovendo espécies nutricionalmente interessantes, muito facilmente adaptadas, praticamente orgânicas, e com alta capacidade de mitigação dos impactos negativos causados pelos efeitos das mudanças climáticas, ressaltando sua interface com os diálogos referentes à agricultura de base ecológica e à agricultura urbana.

 

Bibliografia Consultada

BRASIL. 2015. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Alimentos regionais brasileiros. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. – 2ª ed. – Brasília, Ministério da Saúde. 484 p.

KINUPP, V.F.; LORENZI, H. 2014. Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas.

MADEIRA, N.R.; SILVA, P.C.; BOTREL, N.; MENDONÇA, J.L.de; SILVEIRA, G.S.R.; PEDROSA, M.W. 2013. Manual de produção de Hortaliças Tradicionais. Brasília, DF: Embrapa. 155 p.

Nuno é engenheiro agrônomo, pesquisador na Embrapa Hortaliças.

Neide é engenheira agrônoma, pesquisadora na Embrapa Hortaliças.

Por que uma crise de abastecimento em tão poucos dias?

Por que uma crise de abastecimento em tão poucos dias?

Fonte: Le Monde Diplomatique por Elisabetta Recine*

Alimentar milhões de brasileiros passa por fortalecer a conexão entre a cidade e o campo. Pensar a segurança alimentar e nutricional é pensar no acesso, distribuição, disponibilidade, consumo e, portanto, formas de abastecimento. É estimular a diversificação de culturas.

Milhares de toneladas de alimentos perdidas, escassez de comida, disparada de preços. A paralisação dos caminhoneiros, iniciada na semana passada, e suas consequências, quase que imediatas, em termos de abastecimento é uma oportunidade para refletirmos sobre como organizamos os processos de produção e comercialização de alimentos no Brasil.

Na conta dos produtos perecíveis perdidos entram frutas, verduras, legumes, laticínios e carnes. Também estão sendo enfrentadas dificuldades para alimentar aves, suínos e bovinos, uma vez que o movimento dos caminhoneiros compromete o acesso a insumos. O clima de insegurança alimentar vivido nos últimos dias, entretanto, está longe de acabar. Após a normalização do transporte no País, a crise gerada pelo desabastecimento trará efeitos na inflação dos preços dos alimentos, decorrente da instabilidade provocada por um modelo de produção que privilegia a grande produção e as grandes redes varejistas. O sistema alimentar hegemônico se organiza a partir da lógica do circuito longo de produção e consumo. No circuito longo, a produção em grande escala está diretamente associada a um sistema complexo de logística que geralmente envolve percursos extensos e concentração do varejo em grandes unidades.

Sem consertar as causas, não há como tratar as consequências. A insegurança no abastecimento gerada pelo movimento dos caminhoneiros demonstrou a urgência da adoção de uma política de abastecimento alimentar capilarizada que fortaleça os circuitos curtos de produção e consumo. Os circuitos curtos estabelecem o contato, com poucas etapas, algumas vezes nenhuma entre  produtor e consumidor. A comercialização é feita em  feiras, lojas de associação de produtores, venda direta para grupos organizados, cestas entregues em domicílio, entre outras formas de comercialização. Permitem reforçar o aspecto público e a valorização de pequenos produtores, produtores agroecológicos e orgânicos e cooperativas.

Em um processo onde há dinamismo econômico local aliado a uma forma de produção sustentável, reduzindo ou eliminando por completo os agroquímicos da cadeia de produção, pratica-se uma agricultura menos intensiva, familiar e sustentável. A opção pelos circuitos curtos de produção reduz a “pegada ecológica” não só no modo de produção, mas também na cadeia de comercialização, diminuindo substancialmente a emissão de dióxido de carbono na atmosfera e a dependência dos transportes que se utilizam de combustíveis fósseis. A experiência dos circuitos alimentares de curta distância possibilita conectar e aproximar os locais de produção, armazenamento, distribuição e consumo de alimentos saudáveis e naturais. Em diferentes cidades, moradores se organizam para fazer compras coletivas de alimentos naturais e saudáveis diretamente  de produtores agrícolas locais ou de regiões próximas ao local de moradia.

Também testemunhamos o fortalecimento de organizações e grupos informais que promovem a agricultura urbana, estruturando hortas comunitárias em praças, parques, escolas e terrenos ociosos, criando alternativas de geração de renda, promovendo a ressignificação e a ocupação cidadã de espaços públicos, além do resultado direto de aumentar a disponibilidade de alimentos. Em sintonia com a busca por maior segurança alimentar e nutricional, o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, aprovado em 2014, redefiniu zonas rurais com o objetivo de ampliar a produção e consumo local de alimentos naturais e saudáveis, especialmente nas áreas de interesse ambiental e de proteção e recuperação de mananciais. A experiência demonstra a importância da atuação do poder público na construção de políticas de fomento à agricultura local, urbana profissional (comercialização) e de vizinhança (complementação alimentar).

Quando a comida vira objeto de especulação, fica difícil o seu acesso de maneira justa. Entre as recomendações da 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, realizada em 2015, em Brasília, está a instituição de uma política soberana de abastecimento alimentar, cujos componentes essenciais são a reestruturação das centrais de abastecimento e o fortalecimento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Não se pode minimizar os riscos de crise de abastecimento perante situações de calamidade ou conflito que dificultem ou impeçam a circulação dos meios de transporte utilizados para ultrapassar a distância entre a produção e o consumo, nos modelos tradicionais. É necessário fortalecer uma política de estocagem de alimentos, com o estabelecimento de plano de contingência que permita garantir o abastecimento da população brasileira em períodos críticos, com estabilidade de preços.

Alimentar milhões de brasileiros passa por fortalecer a conexão entre a cidade e o campo. Pensar a segurança alimentar e nutricional é pensar no acesso, distribuição, disponibilidade, consumo e, portanto, formas de abastecimento. É estimular a diversificação de culturas. É buscar a readequação da legislação sanitária de alimentos de origem animal e bebidas à produção artesanal, tradicional e familiar. É fortalecer o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. É garantir do acesso à terra e ao território, requisito fundamental para a redução das desigualdades no campo brasileiro e para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada.

No sábado (27), no auge da crise de abastecimento, fui ao Ceasa de Brasília temerosa do que (não) iria encontrar. Meu circuito é Mercado Orgânico e Mercado da Agricultura Familiar ― dois locais onde comprovo todas as semanas que, comprando do produtor, os preços de alimentos saudáveis sem veneno são justos e acessíveis. Ao me deparar com bancas repletas de alimentos e sem nenhum centavo de aumento no preço, perguntei a uma das produtoras como estava lidando com a “crise”. Ela me respondeu: “Nossa chácara é perto, tinha um pouco de gasolina na caminhonete, aí deu para vir com tranquilidade”. Simples assim.

* Elisabetta Recine é presidenta do Consea, professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.