Evento da CODEPLAN divulga relatório da II Pesquisa de Identificação e percepção Social dos Usuários dos 14 Restaurantes Comunitários do Distrito Federal.

Evento da CODEPLAN divulga relatório da II Pesquisa de Identificação e percepção Social dos Usuários dos 14 Restaurantes Comunitários do Distrito Federal.

A Companhia de Planejamento do Distrito Federal (CODEPLAN) promoveu no dia 26 de junho um evento para apresentar os resultados da 2ª pesquisa de satisfação que ouviu 7.264 usuários de Restaurantes Comunitários (RCs) do Distrito Federal.

A pesquisa foi realizada em parceria a Secretária de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEDESTHMID) com o intuito de identificar a percepção social dos usuários dos 14 RCs do Distrito Federal.

A mesa de abertura do evento contou com a participação do Presidente da Codeplan, Lúcio Reno, do Subsecretário João Roberto Oliveira de Souza representando a Sedesthmid e das coordenadoras da pesquisa Rebeca Carmo Carvalho e a Diretora de Estudos e Políticas Sociais da Codeplan Ana Maria Nogales. Os dados da pesquisa descritiva e transversal foram coletados no período de maio a junho de 2017 e o relatório com os resultados foi divulgado e debatido em uma mesa composta pelas coordenadoras da pesquisa citadas acima e por convidados especialistas dentre eles a professora da UNB e pesquisadora do OBHA Danielle Cabrine, a Kátia Cruz Godoy da CGAN.

Acesse o relatório e entenda melhor a importância dos RCs enquanto equipamentos públicos de Segurança Alimentar e Nutricional, espaços potenciais para preservação de hábitos alimentares brasileiros e para realização de ações promotoras da saúde e troca de saberes.

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Ser humano na pesquisa científica | Experiência de uma bolsista de iniciação científica no Palin

Ser humano na pesquisa científica | Experiência de uma bolsista de iniciação científica no Palin

Nutricionista compartilha suas aprendizagens no caminho de formação como pesquisadora durante evento de iniciação científica realizado na Fiocruz Brasília

A 8ª Reunião Anual de Iniciação Científica (RAIC) da Fiocruz Brasília realizada no dia 11 de junho contou na sua programação com a participação da trabalhadora voluntária, Lorrany Rodrigues, do Projeto Biografia Alimentar de Mulheres Obesas do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz Brasília. A recém-formada em nutrição pela UniCEUB, chegou na Fiocruz em 2017 por meio da sua professora de Nutrição em Saúde Pública e agora, além de trabalhar em uma das linhas de pesquisa do OBHA, foi aprovada como aluna do Curso de Especialização em Saúde Coletiva da Escola Federal de Governo da Fiocruz Brasília.

A nutricionista Lorrany foi uma das convidadas a participar da atividade de abertura da RAIC com a Roda de Conversa: “Relatos de Experiência Sobre Iniciação Científica nos Programas da Fiocruz Brasília”. Ao contar sua experiência com entusiasmo, ela diz que apesar do curso de nutrição ter lhe oferecido uma boa formação, amizade com excelentes professores e possibilidade de aproximação com a pesquisa, só participando da pesquisa como uma das entrevistadoras de mulheres obesas que conseguiu compreender e sentir na pele a responsabilidade de ser uma pesquisadora. “Percebi que estou fazendo pesquisa para pessoas, vi o humano, vi a pessoa e não só o projeto e o artigo que tenho que escrever”. Lorrany, com semblante feliz, fez questão de pontuar que quando chegou no Palin achava que sabia da responsabilidade e compromisso que deveria ter ao realizar pesquisas com humanos, mas no fundo só descobriu fazendo e escutando o relato de vida de várias mulheres obesas.

A RAIC que Lorrany participou, acontece há oito anos e tem como objetivo evidenciar o papel da pesquisa e iniciação científica na formação acadêmica e social e avalia o desenvolvimento dos projetos de bolsistas de iniciação científica vigentes do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) entre a Fiocruz e o Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (CNPq). A coordenação da RAIC é das pesquisadoras da Fiocruz Brasília, Érica Tatiana da Silva e Flávia Elias, responsável pela Coordenação de Programas e Projetos da Fiocruz Brasília.

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Mestranda da Fiocruz Brasília compartilha experiência de pesquisa sobre o Guia Alimentar para População Brasileira

Mestranda da Fiocruz Brasília compartilha experiência de pesquisa sobre o Guia Alimentar para População Brasileira

A entrevista de hoje é com a nutricionista e especialista em Saúde Coletiva pela Fiocruz Brasília, Ana Maria Thomaz Maya Martins. Compartilhando sua incursão acadêmica sobre o processo de consulta pública para o Guia Alimentar para a População Brasileira de 2014, a entrevistada discorre sobre a importância do Guia na perspectiva do conceito de Alimentação Adequada e Saudável. Ana é mestranda em Políticas Públicas em Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz e também integra a equipe de pesquisadoras associadas ao Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares. É assessora em Advocacy na ACT Promoção da Saúde e pesquisadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, tendo atuado com as temáticas de Educação Alimentar e Nutricional(EAN), Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) e Mídia, Alimentação e Nutrição (Grupo PropagaNut). Confira a entrevista:

1) O seu tema de pesquisa é relacionado ao “Guia Alimentar da População Brasileira (GAPB). Você considera que é um tema de interesse para as políticas públicas? Porque?

Dentro das políticas que convergem para o alcance da Segurança Alimentar e Nutricional, o Brasil conta com a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN). Publicada no final dos anos 90. A PNAN marca uma etapa importante para a saúde pública no Brasil, pois percebe a necessidade de tratar de programas e ações direcionados aos dois extremos que envolvem a alimentação e a nutrição, estando de um lado a fome e a desnutrição e de outro, o excesso de peso. Enquanto parte da população sofre com a fome e a desnutrição, o excesso de peso aumenta. É nesse contexto que a PNAN destaca a alimentação e a nutrição como requisitos para promoção e proteção da saúde. A promoção da alimentação adequada e saudável aparece como um dos componentes da promoção da saúde, englobando medidas de incentivo, apoio e proteção que promovam e facilitem a adesão à práticas alimentares saudáveis.

É nesse contexto que se percebe a necessidade de qualificação da agenda de promoção da Alimentação Adequada e Saudável (AAS). Assim, o Guia Alimentar para a População Brasileira é lançado, associando a alimentação à aspectos biológicos e socioculturais. Essa associação fica ainda mais clara quando o Guia é reformulado em 2014 e os alimentos passam a ser classificados de acordo com o seu nível de processamento. A nova classificação contribui para a escolha dos alimentos e dá protagonismo ao olhar sobre o sistema alimentar, nesse processo. O objetivo do Guia é permitir que as pessoas reconheçam os alimentos a partir do nível de processamento e prefiram os alimentos in natura e/ou minimamente processados. Assim, a AAS continua considerando aspectos biológicos, mas também entende que está relacionada à forma de produção do alimento, como ele chega até uma pessoa ou uma família, como ele será consumido e, até mesmo, quanto e que tipo de resíduo é produzido.

Nessa perspectiva, de entendermos a alimentação dentro de um sistema, o Guia Alimentar permite uma ampliação do diálogo entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), e nesse diálogo são incluídos famílias, profissionais de saúde, gestores e formuladores de políticas públicas e o setor produtivo de alimentos.

Assim, percebo o Guia como um instrumento de Educação Alimentar e Nutricional, mas também, como uma qualificação da PNAN e da PNSAN, que transmite por meio de uma linguagem simplificada o que é uma alimentação saudável, desmistificando calorias e nutrientes e contribuindo no processo de escolhas alimentares mais saudáveis e conscientes.

2)    O que te motivou investigar o GAPB como objeto de pesquisa e porque focou nas contribuições da sociedade civil?

Por definição, Guias Alimentares expressam os princípios da educação alimentar e nutricional, por meio de alimentos, cujo propósito é educar a população e guiar as políticas públicas de alimentação e nutrição, assim como os profissionais que promovem a alimentação adequada e saudável. Os Guias se fazem necessários quando se percebe a associação das práticas alimentares e dietéticas à distúrbios relacionados à alimentação e à nutrição, sejam de deficiência ou de excesso. Assim, a relevância desse material no atual cenário epidemiológico, no Brasil, motiva o interesse da investigação.

A relevância do documento é tamanha, que o Ministério da Saúde percebeu a importância de discutir o tema com a população, abrindo o processo de revisão do Guia, para contribuição e participação social. Sendo essa, a maior etapa de participação e diálogo com a sociedade, sobre o documento. Além disso, mesmo que breve, acredito que o Guia abriu um espaço de escuta sobre o que é uma alimentação adequada e saudável no Brasil, a partir de pessoas que não estavam envolvidas no processo de revisão e que ainda não tinham sido ouvidas, mas que podem contribuir para qualificação do material, trazendo uma perspectiva “brasileira”.

3)    Descreva de forma sucinta o objeto, os objetivos e o desenvolvimento da pesquisa?

O meu objeto de pesquisa é o Guia Alimentar para a População Brasileira, reformulado e lançado em 2014. A partir dele, meu objetivo analisar as contribuições feitas sobre os princípios e recomendações apresentados pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, durante o processo de consulta pública, realizado em 2014 pelo Ministério da Saúde.

A pesquisa terá início com a construção de um marco teórico para conhecimento sobre o processo de construção de Guias Alimentares no Brasil e no mundo. Além disso, as contribuições feitas pela sociedade civil, durante a consulta pública, serão analisadas pela perspectiva qualitativa, a partir de um software que permite a criação de categorias analíticas. Por fim, acredito que esse processo permitirá uma reflexão sobre a participação da sociedade civil, na construção de políticas públicas e seus instrumentos, como é o caso do Guia.

4) Quais contribuições você espera oferecer a sociedade brasileira com sua pesquisa?

A pesquisa está em construção e acho difícil criar muitas expectativas quanto às entregas, mas acredito que a ideia principal seja compreender melhor o processo de participação social que é aberto e utilizado por diversos órgãos da administração pública, quando revisam ou constroem suas políticas. Incluindo discussões sobre inclusão ou não das contribuições e dos critérios que são utilizados, no caso, pelo Ministério da Saúde para avaliar a pertinência das contribuições.

 

Referências

Silva A, Maria M, Maria G, Lima D, Jaime C, Júnior S. A implementação das prioridades da Política Nacional de Promoção da Saúde, um balanço, 2006 a 2014. Cien Saude Colet. 2014;19(11):4301–11.

Dias PC, Burlandy L. Obesidade e políticas públicas: concepções e estratégias adotadas pelo governo brasileiro. Cad Saude Publica. 2017;33(7):1–12.

Vasconcellos AB, Recine E. Políticas nacionais e o campo da Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva: cenário atual. Cien Saude Colet. 2011;16(1):73–9.

Caivano S, Lopes RF, Martins S, Domene Á. Conflitos de interesses nas estratégias da indústria alimentícia para aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e os efeitos sobre a saúde da população brasileira Conflicts of interest of the strategy of food industry to increase the consumption of ultra- processed foods and the health effects of the Brazilian population. 2017;12(2):349–60.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

OBHA no 8º Festival Internacional de Cinema, Alimentação e Cultura – Comida de Refugiados e Imigrantes

OBHA no 8º Festival Internacional de Cinema, Alimentação e Cultura – Comida de Refugiados e Imigrantes

O 8º Festival Internacional de Cinema Alimentação e Cultura – Slow Filme -, aconteceu entre os dias 14 e 17 de setembro na cidade de Pirenópolis. Este ano o OBHA esteve presente e pode acompanhar algumas atividades e filmes sobre a temática proposta: Comida de Refugiados e Imigrantes.

Durante os 4 dias de festival, foram exibidos vinte filmes inéditos entre curta e longa metragens produzidos em diferentes países. Muitos dos filmes exibidos apresentaram culturas e heranças alimentares locais, bem como, histórias de apropriações de determinadas receitas culinárias. A tentativa da curadoria de seleção dos filmes foi apontar a homogeneização cultural em uma época do multiculturalismo alimentar desenfreado. Há necessidade hoje do resgate da identidade das práticas culinárias dos povos ancestrais e comunidades tradicionais, que surgem cada vez mais glamourizadas pela gastronomia e apropriadas pelo grande mercado econômico global. Essas foram as questões centrais levantadas em vários filmes como no Faça Homus, Não Faça Guerra e também em Sagardoa Bidegile – Histórias de Sidra.  

À direita: Fatou Aboua, ao seu lado, Maria Conceição Oliveira.

Além dos filmes, aconteceram oficinas culinárias e falas de convidados especiais como a de Fatou Aboua, natural da Costa do Marfin, que ofereceu um almoço com comida típica da sua região no último dia do festival. A africana imigrante contou sobre sua chegada no Brasil em busca de uma vida melhor e longe da guerra e como que o gosto e o amor por cozinhar, presente em sua vida desde criança, lhe abriu uma janela de oportunidade como meio de sustento em um novo país.

Outra convidada muito especial do Slow Filme que o OBHA teve a oportunidade de ouvir e conhecer, foi a cozinheira e pesquisadora da cozinha negra afro-brasileira Maria Conceição Oliveira que integra o projeto Comida de (I)migrante e também trabalha ministrando oficinas na tentativa de recuperar receitas e reafirmar a memória de seus antepassados. A pesquisadora nos contou que tem como missão “recuperar autoestima e fortalecer o protagonismo das diásporas negras na cozinha”, como afirmou durante a sua fala na segunda noite do festival.  Logo no início da sua explanação, fez questão de elogiar e apresentar a palestrante que estava sentada ao seu lado, Fatou Aboua como a uma das imigrantes entrevistadas pelo projeto Comida de (I)migrante que integrou como pesquisadora realizando entrevistas. Informou que em breve serão publicados os primeiros resultados da pesquisa.

A influência das guerras nos hábitos alimentares e as consequências da economia de mercado na produção e nas culturas alimentares de todo mundo, foram assuntos marcados nessa oitava edição do Slow Filme.

O festival alertou para o fato de que falar sobre comida de refugiados e imigrantes hoje no Brasil e no mundo, é falar de um resgate do humano como identidade e não só como naturalidade, raça ou cor. Mostrou que o assunto transcende o campo alimentar e gastronômico, mas aponta o alimento e as práticas culinárias como protagonistas do resgate identitário afetivo de todos que tiveram não por vontade própria deixarem ou saírem fugidos de seus países de origem.

Em breve publicaremos entrevistas realizadas com palestrantes e participantes do 8º Slow Filme. Aguardem.

 

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Comida é Patrimônio: Modos de produzir, viver e comer

Comida é Patrimônio: Modos de produzir, viver e comer

Esta é uma matéria retirada do site do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar do dia 13 de abril de 2016, fala sobre a campanha realizada ao longo de 2015 intitulada “Comida é Patrimônio” em parceria com Malagueta Comunicação. Eis a matéria:


Em 2015, o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) iniciou a campanha Comida é Patrimônio nas redes sociais. No decorrer do ano, desdobrou-se em oficinas criativas e uma exposição itinerante, com passagens pelo Rio de Janeiro, Brasília e Buenos Aires, na Argentina. Para comunicar a ideia de que a alimentação é um bem comum a ser preservado – pela agrobiodiversidade, sociabilidade, pelo saber-fazer culinário e pelas representações simbólicas – a campanha foi desenvolvida em quatro eixos: comida é bem material e imaterial; comida é afeto, identidade e memória; comida é diálogo de saberes; e modos de viver, produzir e comer (link dos artigos).

Para cada eixo, apresentamos um artigo que, junto com os pensamentos-pimenta, tem a proposta de engajar pessoas para pensar sobre os sistemas alimentares tradicionais, enraizados nas culturas e nos saberes de povos e comunidades. Neste quarto e último artigo da campanha trataremos o eixo modos de viver, produzir e comer.

De acordo com a carta política do FBSSAN, é urgente enfrentar as contradições brasileiras no campo da soberania e segurança alimentar e nutricional. O Brasil reforça modelos convencionais excludentes e concentradores. Mantém um modelo agrícola baseado na monocultura de grande escala, com elevado uso de agrotóxicos. Muitos pesticidas, herbicidas e fungicidas usados nas lavouras brasileiras são proibidos em vários países da Europa e nos Estados Unidos.

Esse sistema de produção alimentar é orientado pela racionalidade econômica, na qual prevalece o domínio da economia e do lucro. Ostenta aparente riqueza, produtividade e eficiência para a grande massa da população, mas esconde, por trás de seus louros, as ambiguidades contidas na cadeia alimentar, orientada para abastecer carros e estômagos dispostos a pagar por combustível e comida, excluindo os agricultores da agricultura; os saberes autóctones e populares dos cultivos; e os povos de seus territórios, ultrapassando os limites da natureza. As evidências de que algo não vai bem podem ser percebidas pelos trabalhadores do campo e da cidade na saúde, na deterioração do meio ambiente ao seu redor, na intensidade do clima, na nostalgia das refeições familiares à mesa, ou na falta de tempo para cuidar da alimentação familiar.

Patrimônio alimentar: as imagens das contradições e disputas

Com o passar dos dias, os sinais de uma crise de fundamentos da civilização, profunda e generalizada, estão cada vez mais visíveis. É como se revelássemos um negativo das realidades que coexistem e coevoluem no país. Quanto mais luz, maior a visibilidade e definição de cores, formas e texturas. Mas, na penumbra, tudo parece razoável, talvez um mal necessário. Entretanto, se nos detivermos com mais atenção nesse processo de visibilidade, encontraremos um colorido vivo que emergem das sobras com vivacidade, continuamente. Basta deixar entrar mais luz para contemplar as pequenas e grandes transformações que ocorrem, em meio à resistência em construir outros mundos de vida e futuros possíveis.

Os novos movimentos sociais não somente investem na defesa de direitos tradicionais, em oposição a um regime de exclusão e marginalização, numa luta pela sobrevivência. Esses movimentos de reapropriação social da natureza, formado por camponeses, afro-descententes e povos indígenas da América Latina, são ao mesmo tempo movimento de resistência e re-existência. “O que reinvindicam não são apenas direitos à natureza, mas um direito do ser cultural”, explica o pensador mexicano Enrique Leff, autor do livro Racionalidade Ambiental – reapropriação social da natureza.

Através de lutas tradicionais, esses povos re-existem. “Voltam a assumir sua vontade de poder ser como são; não como tem sido, mas como querem ser. Despertam seus sonhos, renascem suas utopias, para reinventar sua existência, para passar do ressentimento pela opressão ao re-sentimento de suas vidas”, analisa Leff. No contexto político, a essência dessas reivindicações permanece sendo a conquista de espaços em um mundo objetivado e economicizado.
Esses novos retratos podem ser encontrados nos bancos comunitários de sementes do semiárido; na produção de sementes agroecológicas a partir de variedades de domínio público; da autoregulamentação dos conhecimentos tradicionais sobre as plantas medicinais do Cerrado; ou da constituição de um fundo público das quebradeiras de coco-babaçu, através da repartição de benefícios que reconhece o conhecimento tradicional associado . As revelações dessas imagens com novos modos de viver, produzir e comer podem ser vistas em iniciativas como o Mapa de conflitos envolvendo injustiça ambiental e Saúde no Brasil; a Agroecologia em rede, com experiências, pesquisas e contatos; ou, ainda, campanha Semiárido que alimenta, lançada pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). São apenas algumas fotografias de um volumoso álbum em plena construção, e re-construção, que vem sendo reveladas de norte a sul do Brasil.

A verdade sobre a comida: alguns flashes

O processo de revelação traz à luz as formas originais da alimentação empacotada com químicos e conservantes, destinada ao preparo ou consumo rápidos. O manifesto Comida de verdade, publicado em 2015 pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), chama atenção para o fato de que “para conhecer a comida de verdade é preciso conhecer a verdade sobre a comida”.

Ao descrever as características desses modelos alimentares existentes nas culturas regionais e locais, o documento informa que “comida de verdade garante a soberania alimentar; protege o patrimônio cultural e genético; reconhece a memória, a estética, os saberes, os sabores, os fazeres e os falares, a identidade, os ritos envolvidos, as tecnologias autóctones e suas inovações. É aquela que considera a água alimento. É produzida em condições dignas de trabalho. É socialmente justa. Comida de verdade não está sujeita aos interesses de mercado”.

Outro documento contribui para esclarecer a pseudo-imagem da alimentação industrializada. Segundo o Dossiê Impactos dos Agrotóxicos na Saúde, lançado também em 2015 pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a expansão da monocultura no Brasil (especialmente cana-de-açúcar, milho, soja e algodão) entra em conflito com povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas, colônias de pescadores, agricultores rurais e campesinos, bóias-frias que trabalham nos canaviais. São populações que vivem próximas aos locais de pulverização aérea de agrotóxicos para sustentar os monocultivos, que inviabilizam e tornam invisíveis outras maneiras de produzir que não sejam alimentos-mercadorias. Ao contrário, a agricultura sustentável, protagonizada pela agroecologia, é capaz de viabilizar e tornar visível, a pluralidade de saberes no ato de cultivar alimento-comida.

A agricultura familiar subsiste, não sem grandes dificuldades, às políticas econômicas desfavoráveis. O apego aos seus territórios e a dinâmica na construção de suas identidades permite que os camponeses mantenham a vigência dos seus modos de vida. São sobreviventes de largas lutas, portadores do patrimônio, tradição e cultura agrícola e alimentar, que os faz portadores de um projeto de futuro.

Modos de vida tradicionais preservam o patrimônio alimentar

O uso e a importância da biodiversidade na alimentação e na nutrição remontam à própria história da civilização. O uso da biodiversidade se materializou com a domesticação das plantas e dos animais ao longo dos tempos, e com o manejo e extrativismo de produtos da flora, da fauna e, inclusive, micro-organismos. Esse processo continua até os dias de hoje e forma a base das atividades agrícolas, pecuárias, pesqueiras e florestais.

Um modo de vida comporta pessoas com suas capacidades, seus meios de vida, a forma de se alimentar, a geração de renda e ativos –  tangíveis e intangíveis. Os ativos tangíveis se referem a recursos (terra, água, rebanhos, equipamentos e ferramentas, por exemplo) e estoques (alimentos, roupas, jóias, poupanças). Os ativos intangíveis dizem respeito às reivindicações (demandas e apelos feitos por suporte ou acesso material, moral ou prático); e acesso (entendido como a oportunidade prática de se utilizar um recurso, estoque ou serviço, ou obter informação, material, tecnologia, emprego, alimento ou renda). É a partir dos ativos que as pessoas constroem ou conseguem seus meios de vida, utilizando-se de trabalho físico, habilidades, conhecimento e criatividade.

Quando se leva em consideração que a comida de verdade é um patrimônio, a biodiversidade é o ativo essencial. É fundamental também para a manutenção e reprodução dos modos de vida e cultura dos povos e sociedades tradicionais e tribais. A relação mais estreita com o ambiente, onde se reproduzem social e culturalmente, é um dos frutos desse ativo. Cria-se, assim, uma situação de sustentabilidade nas suas formas de utilização dos componentes da biodiversidade, adaptada às diversas condições dos ecossistemas nos quais se localizam e se perpetuam como saberes tradicionais constantemente.

Nesse contexto, o conhecimento tradicional não se restringe aos organismos, como componentes da biodiversidade, mas inclui percepções e explicações sobre a paisagem, geomorfologia e a relação entre os diferentes ambientes físicos e os seres vivos, conforme defendem Toledo e Barrera-Bassols. Ao refletir sobre o quarto eixo da campanha Comida é Patrimônio, buscamos indicar um paradigma baseado no convívio harmonioso com a natureza, que preserva a biodiversidade, sugere o reconhecimento e a valorização dos saberes dos povos.

O entendimento da comida como um patrimônio garante a permanência destes povos, que mantêm a biodiversidade na produção rural, e a manutenção e ampliação da agrobiodiversidade como estratégia de fortalecimento da soberania e segurança alimentar. Os lugares da agricultura moldam a forma com que esta é apropriada pelos agricultores, enquanto ativos que compõem seu modo de vida, e têm papel fundamental para a construção de estratégias de reconhecimento e acesso a políticas pública. São processos ricos e frutíferos, reveladores de múltiplas imagens dos modos de produzir, comer e viver.

A relação íntima das comunidades tradicionais com a natureza faz dessas populações os guardiães não só do patrimônio alimentar, mas resguarda a vida futura na terra, conforme assinala o filósofo alemão Hans Jonas, autor do livro Princípio Responsabilidade. Para fundar sua ética, alicerçada na responsabilidade, o filósofo propõe um imperativo: “Aja de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a terra”. Ou então, dito negativamente: “Aja de modo que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida”. Ao desenvolver e discutir os escopos dessa nova ética, ele faz observações sobre a produção de alimentos, registrando que as tecnologias agrárias de maximização (de produção) têm impactos cumulativos negativos sobre a natureza como: poluição das águas, salinização e erosão dos solos, mudanças climáticas pelo desmatamento, segundo ele, castigos de uma agricultura cada vez mais intensiva.

A abordagem dos modos de vida pode ser entendida a partir da maneira como as pessoas se relacionam com tecnologias, especialmente considerando a promoção de iniciativas locais de agroecologia. Na agroecologia, os sistemas agrícolas tradicionais são valorados, geram tecnologia e conhecimento. Trata-se de uma tecnologia receptiva à heterogeneidade de condições locais; não procura transformá-la e sim melhorá-la. Assim, o conhecimento agrícola tradicional, somados aos elementos da ciência agrícola moderna, não transformam nem modificam radicalmente o ecossistema, conforme sustenta o chileno Miguel Altieri, considerado o pai da agroecologia.

Retornando à carta do FBSSAN, enfatizamos o posicionamento do documento em relação a este modo de produzir, que combina ciência e prática:  “a agroecologia tem se afirmado como o melhor meio de produção de alimentos saudáveis que respeitam e promovem a diversidade social, biológica e cultural, trazendo benefícios para toda a sociedade e para o planeta, hoje, e garantindo o acesso a esses alimentos por gerações futuras. Um grande número de experiências locais sinaliza caminhos possíveis e exitosos na direção de reaproximar a produção e o consumo de alimentos com base em circuitos regionais ou de proximidade”.

Talvez deva se mudar as perguntas na busca por ouvir novas respostas para velhos problemas, como o da fome no mundo, a exploração dos recursos naturais em favor do lucro e do consumismo desmedido. Ao invés de se perguntar, como repetidas vezes ouvimos na mídia, “é possível alimentar a população com produção local, de base agroecológica?”, deveria se buscar uma pergunta mais diversa, tal como, “por que o atual modelo agrícola, hegemônico e concentrado, reproduz incessantemente pobreza, injustiça e desigualdade?” ou “Até quando esse pseudo sistema alimentar continuará existindo?” Em favor da conveniência e da praticidade, a sociedade terceiriza para grandes corporações, cerca de dez aproximadamente, o modo como se alimenta em detrimento de outras vias capazes de colaborar para alimentar saberes, pessoas e mundos de vida. As respostas estão na luta diária, de Davis contra Golias, que têm permitido preservar por gerações a agrobiodiversidade, chave para assegurar patrimônio alimentar.

Ao apresentar brevemente a importância de preservar os modos de vida, o FBSSAN encerra a primeira fase da campanha Comida é Patrimônio, com o objetivo de valorizar as regionalidades agrícolas e culinárias, apresentando-as como instrumentos de fomento e proteção do patrimônio material e imaterial. O entendimento da dimensão cultural do alimento nos leva a considerar o pleno respeito da pessoa humana, representada por aquele que cuida e preserva do patrimônio alimentar protegendo a biodiversidade. O alimento nos traz as ligações mútuas entre todos, e nos faz participantes do cuidado de nosso entorno. Celebremos os múltiplos modos de produzir, comer e viver dos territórios brasileiros. Há outros filmes para revelar, outras imagens para construir, muitos retratos para preservar

#comidaepatrimonio

#pensamento pimenta

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Equipe Campanha Comida é Patrimônio

Coordenação executiva e editorial: Juliana Casemiro e Vanessa Schottz (FBSSAN)

Texto: Juliana Dias e Mónica Chiffoleau

Revisão: Juliana Dias, Mònica Chiffoleau, Juliana Casemiro e Rozi Billo

Edição de imagens: Carolina Amorim

Fotos: Ana Nascimento/MDS

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