A interface da Segurança Alimentar e Nutricional com as feiras livres: (re)construindo hábitos alimentares

A interface da Segurança Alimentar e Nutricional com as feiras livres: (re)construindo hábitos alimentares

Camila Irigonhé Ramos (*)

Aqui são apresentados alguns dos resultados da pesquisa desenvolvida, enquanto dissertação de Mestrado, junto ao Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Alimentos da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)[1]. O estudo foi motivado pela reflexão da pesquisadora sobre sua prática acadêmica e profissional. Para tanto, observou-se o distanciamento – nas orientações nutricionais e práticas alimentares – que o consumidor mantém com o alimento e, consequentemente, em relação ao produtor (o agricultor). A pesquisa foi desenvolvida sob a perspectiva da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e sob inspiração da Antropologia da Alimentação.

Lançado em 2010, o relatório “A Segurança Alimentar e Nutricional e o Direito Humano à Alimentação Adequada – Indicadores e Monitoramento”, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), contém sete dimensões de observação da SAN. No que tange o interesse do estudo aqui apresentado, destaca-se a primeira delas; isto é, a que aborda o monitoramento da produção e disponibilidade de alimentos [2]. Nesse item, é apontada a produção e disponibilidade de frutas, legumes e verduras (FLV), uma vez que tais alimentos fazem parte de uma alimentação adequada e saudável.

No entanto, o consumo de FLV é apenas um dos estágios dessa cadeia de relações, que apenas se realiza a partir da produção e comercialização de tal grupo de alimentos [6]. Sendo assim, é indispensável considerar os aspectos biológicos, culturais, ambientais e econômicos que permeiam o cultivo, a comercialização e a escolha da ingestão de FLV.

Do ponto de vista histórico, as primeiras formas de comercialização destes produtos remetem às feiras livres [3]. Esses espaços podem ser considerados potenciais modificadores da forma de se alimentar do povo brasileiro. Tal entendimento parece ser o que norteia as políticas públicas, já que uma das ações da publicação do Ministério da Saúde, lançada há cinco anos, consiste em “incentivar a consolidação das feiras locais, como instrumento de melhoria para a seleção e aquisição de alimentos saudáveis” [4] (p. 7).

Desse modo, as feiras podem constituir-se em um canal de reaproximação entre produtor e consumidor, associadas à redescoberta de um sistema alimentar influenciado e enfraquecido por pelo menos dois acontecimentos que destacamos a seguir. O primeiro remete à Revolução Verde, em que ocorreu a adoção de um pacote tecnológico e a utilização intensa de agrotóxicos, adubos químicos e outros fertilizantes. Nesse contexto, também se deu o aumento das despesas com o cultivo e o endividamento dos pequenos agricultores, o crescimento da dependência dos países, do mercado e da lucratividade das grandes empresas de insumos agrícolas [5]. O outro acontecimento está diretamente relacionado com a padronização da alimentação, em um contexto de industrialização da comida, que ocasionou à perda de características próprias das culturas alimentares. Esse processo fez com que os consumidores passassem a conhecer apenas o produto final que acabam por ingerir [6].

No município de Pelotas, no Rio grande do Sul, espaço utilizado para a realização da presente pesquisa, existem dois tipos de feiras – convencionais e ecológicas-, que são nomeadas (pelos feirantes e pela gestão municipal) de acordo com o modo como se realiza a produção de alimentos. O presente estudo objetivou caracterizar as feiras livres, os feirantes e as FLV comercializadas nestes locais, procurando, assim, apreender, sob o ponto de vista dos feirantes, como ocorre e é valorada a produção e comercialização de tais alimentos.

Nas feiras convencionais, os alimentos são comercializados por produtores e/ou revendedores e, na produção das FLV não há restrição quanto à utilização de insumos. Neste local são comercializadas FLV que são produzidas em todo o país. Já nas feiras ecológicas, os alimentos são vendidos somente por produtores e produzidos regionalmente sem utilização de agroquímicos.

Cabe salientar que, durante o percurso metodológico, utilizou-se, concomitantemente, os métodos quantitativo e qualitativo, o que se mostrou decisivo para os resultados alcançados. Para a coleta dos dados partiu-se, inicialmente, de inserções em feiras dos dois tipos. As entradas de campo e as coletas, guiadas pelas duas abordagens, ocorreram no mesmo período, mas de modos distintos. Na obtenção das informações que ocorreu por meio do corte transversal, elaborou-se e utilizou-se – após estudo piloto – um questionário com questões fechadas (foram incluídas variáveis demográficas, socioeconômicas, relacionadas ao trabalho dos feirantes e às FLV.), o qual foi aplicado ao proprietário de cada banca (conforme indicação dos próprios feirantes ou por meio do cadastro dos feirantes na Prefeitura) que estavam presentes durante o período de coleta dos dados e aceitaram participar da pesquisa.

Na coleta de dados, cujo elemento foi a inspiração etnográfica, empregou-se as técnicas de entrevista semiestruturada (ao dono da banca indicado pelos feirantes), observação participante e diário de campo. Tais procedimentos foram utilizados nos espaços das feiras junto a 14 feirantes. O contato se deu nos momentos considerados mais oportunos pelos interlocutores. As entrevistas foram guiadas por pontos de interesse, que auxiliaram no direcionamento das conversas. Com a concordância dos participantes, todas as respostas foram gravadas e, posteriormente, degravadas e analisadas.

A participação de todos os feirantes, nas duas etapas da pesquisa, foi voluntária e a aplicação do questionário, ou a realização da entrevista, ocorreu somente após o entendimento e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Salienta-se, ainda, que o presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina/UFPel.

Os resultados encontrados revelaram que a cidade conta com aproximadamente 40 locais de feiras, distribuídos, principalmente, na zona central. Os feirantes apresentaram-se como somente produtores, produtores e revendedores ou somente revendedores. Os feirantes que apenas compram e revendem os alimentos constituem a maior parte dos comerciantes. As feiras foram classificadas como convencionais e ecológicas, sendo nomeadas de acordo com o tipo de produção empregado no alimento. Mais de 90% das feiras são convencionais, existindo apenas três pontos de feiras ecológicas no município. Os valores atribuídos aos alimentos e as relações estabelecidas – tanto com as FLV quanto com os fregueses – revelaram-se de maneiras distintas na abordagem dos feirantes ecológicos e convencionais. Para os primeiros, há uma relação de cuidado com o alimento e com o freguês, que é trabalhada em conjunto com a importância financeira do comercio de FLV. Para os demais, o que predomina é apenas a relação de mercadoria que está associada à venda dos alimentos. Da mesma forma, os feirantes ecológicos relataram que os seus fregueses buscam por qualidade e procedência. Por outro lado, segundo relatado pelos feirantes convencionais, os seus fregueses procuram as FLV levando em conta, prioritariamente, a aparência dos alimentos.

Como no transcorrer deste estudo procurou-se refletir sobre as relações estabelecidas com os alimentos, seu processo de produção e comercialização, entende-se que, para promover a SAN, é importante considerar o alimento como componente do ato de comer. Essa tomada de posição ajuda a pensar sobre o caminho, as pessoas e as relações envolvidas neste processo.

Ao concluir a pesquisa foi possível perceber que a maioria das feiras está localizada no centro da cidade, dificultando a disponibilidade e o acesso às FLV para a população que vive nos bairros. Vale ressaltar, também, que a maior parte dos feirantes não produzem os alimentos que comercializam e, aqueles que o fazem, utilizam a produção convencional.

Diante desses resultados, e dos valores que produtores e revendedores (ecológicos e convencionais) agregam às FLV ,- e, consequentemente, às relações estabelecidas com  aqueles que se abastecem nas feiras – ressalta-se que, compreender esses fatores torna-se imprescindível para a promoção da SAN, pois esses elementos influenciam no acesso e consumo de FLV e na construção dos hábitos alimentares.

No âmbito da saúde pública, entende-se que, para modificar as relações estabelecidas com a alimentação e aumentar a produção e comercialização de FLV, deve-se incentivar, por meio de políticas públicas, os agricultores familiares, principalmente de base ecológica, e reaproximar o consumidor do produtor. Além disso, é necessário que os profissionais da saúde abandonem a rigidez das normas alimentares e desenvolvam ações de educação alimentar e nutricional dialógicas. Práticas que se destinam ao empoderamento individual e devem estar voltadas para uma alimentação derivada de um sistema alimentar capaz de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e ambientalmente sustentável.

Referências

1 – Ramos, Camila Irigonhé. Frutas, legumes e verduras nas feiras-livres de Pelotas e sua contribuição na segurança alimentar e nutricional. Pelotas, 2015. 132 f.

2 -Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional. A Segurança Alimentar e Nutricional e o Direito Humano à Alimentação Adequada no Brasil Realização -Indicadores e Monitoramento – da constituição de 1988 aos dias atuais. Brasília, 2010

3-Panelli-Martins BE, Santos SMC, Assis AMO. Segurança Alimentar e Nutricional: desenvolvimento de indicadores e experimentação em um município da Bahia, Brasil. Rev. Nutr.,Campinas. 2008; 21 (suplemento): p.65-81

4- Ministério da Saúde. Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição. Ações de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças do Governo Brasileiro. Brasília, 2009

5- Maluf. RS , Menezes F. Produção de alimentos e equidade social. Caderno “ Segurança Alimentar” 2000.

6 – Contreras J, Gracia M. Segurança e Insegurança Alimentar. In: Alimentação, sociedade e cultura. Rio de janeiro: Editora Fiocruz, 2011. P.333-388.

7- Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa (Po): Edições 70; 2011

8-Moraes R. Análise de Conteúdo. Revista Educação. 1999; 22 (37): p. 7-32

(**) Créditos da foto: Camila Irigonhé Ramos

Camila é nutricionista. Professora do curso de Nutrição na Faculdade Anhanguera. Doutoranda no PPG em Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. Mestra em Nutrição e Alimentos/ UFPel. Especialista em Saúde Pública, graduada e pós-graduada pela UFPel e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde realizou a pós-graduação na modalidade de Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, Atenção Primária à Saúde, Núcleo de Apoio a Saúde da Família, Apoio matricial, Educação em Saúde, Educação popular, Segurança Alimentar e Nutricional, Alimentação, sociedade e cultura. Atua com ênfase no trabalho multiprofissional e interdisciplinar.