Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Denise Oliveira e Silva

Danielle Cabrini

*Este texto é baseado no artigo Silva, D O, Cabrini, D. Trajetórias biográficas do aumento e excesso de peso de mulheres do Programa Bolsa Família, Brasil. Com.Ciências Saúde; 28(2). No prelo 2017.

 

O estado nutricional é a consequência das características do consumo alimentar e de sua utilização biológica no corpo humano e se expressa por meio de uma cadeia causal em que aspectos históricos, econômicos, sociais, culturais e biológicos fazem parte de uma rede de inter-relações importantes em sua determinação.

No Brasil, dados do sistema VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), apontam que houve variação temporal significativa entre os anos de 2006 e 2016 na prevalência de excesso de peso e obesidade nas mulheres para ambas as condições, aumentando a prevalência do excesso de peso de 38,5% para 50,5% e  de 12,1% para 19,6% a prevalência da obesidade. O fenômeno do excesso de peso e da obesidade é multicausal e crescente na população feminina brasileira com tendência para se deslocar para a Região Nordeste e para as classes de menor renda.

O advento de estudos e pesquisas de abordagem quantitativa para compreender o  fenômeno da obesidade têm sido realizados no Brasil, ao passo que são escassos os estudos sobre a compreensão do fenômeno do excesso de peso como expressão histórico-econômica e social, circunscrita na biografia dos sujeitos que vivem esta experiência. A leitura do gênero na avaliação do estado nutricional como categoria de análise das práticas sociais e a teia de poderes a partir dos ciclos de vida da mulher se destacam nesta abordagem, em que o corpo é a entidade física do trabalho, prazer e saúde. O entendimento desta categoria visa explorar a sua potencialidade de ampliação e de avaliação crítica dos fatores que diferenciam o aumento da massa adiposa em indivíduos adultos. Nesta compreensão, os caminhos que a mulher percorre para seu amadurecimento em nível biológico e social. O ideário do peso como símbolo de habilitação social está colocado, principalmente para as mulheres que tem a interação de ciclos biológicos com o  processo de socialização e cultura.

A Fiocruz Brasília desenvolve pesquisa sobre a história biográfica de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF) no Brasil e o objetivo deste texto é apresentar e discutir  de forma breve os resultados desta pesquisa.

Trata-se da descrição de cinquenta narrativas biográficas de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família no Brasil, com idade entre 20 e 55 anos, das cinco macrorregiões brasileiras, utilizando o método história de vida. As entrevistas foram realizadas por telefone por estudantes de cursos de graduação  das áreas de saúde ou de ciências sociais, obrigatoriamente do sexo feminino, no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2017. O processo de análise dos dados seguiu as etapas de transcrição das entrevistas, leitura exaustiva deste material, organização em categorias de significados e análise por meio do caminho interpretativo proposto pela Hermenêutica-Dialética e da abordagem da Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty.

No decorrer das primeiras entrevistas foram encontrados dois tabus linguísticos. Tabu, é definido por inúmeros autores como algo proibido e interdito de caráter próprio e impróprio. O que caracteriza  a denominação de tabu linguístico é algo proibido de ser dito. Podem ser expressão de crenças e valores da sociedade de desaprovação, por meio de itens lexicais aos quais se atribui algum poder e que, se violados, poderão trazer perseguições e castigos para quem os emprega.

A palavra “obesa” foi o primeiro tabu lingüístico identificado. Dito pelas entrevistadoras no primeiro contato, quando apresentavam o título da pesquisa, constituiu-se de uma palavra de rejeição pois associava-se com significado de doença. Para as primeiras entrevistadas, o sentido desta palavra não expressava sua experiência corporal. Haveria um sentido reconhecido e significante de gordura que não se traduziria como “obesa”. Assim, os eufemismos usados em substituição foram  “gordinha”, “cheinha”, “fofinha” e “acima do peso”. A palavra “fome” foi o segundo tabu linguístico identificado. Seu relato em geral marcava algum evento da infância na região nordeste do semi-árido brasileiro e se constitui de um núcleo de sentido com forte componente traumático. A presença destes tabus lingüísticos foram importantes expressões simbólicas de linguagem de re-criação e re-constituição de mundo vivido entre sujeitos da pesquisa e entrevistadoras. Em busca de construir trajetórias biográficas como expressões de linguagem como atos instituintes e criativos de um meio simbólico social vivido. Portanto, as narrativas biográficas desvelaram diversos sentidos imbricados, os biológicos somados aos afetivos, sociais e culturais, pela experiência de contar a história de corpos de desejos, gostos, preferências, rejeições, aversões  individuais e coletivas.

Nas narrativas biográficas o aumento do peso expressa-se pelos ciclos biológicos reprodutivos e pela internalização de uma “força” necessária para a assunção dos papéis de mãe e de dona de casa para enfrentar a luta pela sobrevivência.

“(…) o peso aumenta sem a gente perceber(…) o corpo aumenta na vida da mulher e a gente não liga(…) ficar prenha é danado para engordar e depois não se vai ter o  corpo de antes e ainda vem um menino atrás do outro(…) quando vira excesso a gente vê e outros fala”(…)”

(Entrevistada de uma cidade rural)

Muito cedo nas biografias das entrevistadas o corpo é um instrumento de sobrevivência. Na  infância é referido para brincadeiras e o trabalho doméstico familiar como parte dos ritos simbólicos de diferenciação social e cultural e de gênero. O aparecimento da menstruação foi o sinal biológico da passagem para a adolescência. Neste período, são relatadas  mudanças de comportamento e de imagem corporal, como a definição das características femininas de aumento das mamas, dos quadris e de outras partes do corpo. Nas narrativas biográficas observa-se a menção de um passado recente onde o corpo é adjetivado como “belo”e “bonito”. A internalização do aumento do peso como força inicia-se na gravidez, que pode ocorrer ainda na adolescência. É considerado como algo natural e preconizado pelas recomendações de saúde.  O aumento do peso é um momento da simultaneidade dos papéis biológicos, sociais e simbólicos-culturais de atendimento à gestação e amamentação e da assunção dos papéis de mãe e de dona de casa pelo reconhecimento de um corpo que precisa ser “forte” para enfrentar este período.

As entrevistadas são beneficiárias do PBF, que apresenta modelo familiar preponderantemente nuclear, onde em quase 50% dos lares está ausente o cônjuge (marido ou companheiro) “configurando uma estrutura familiar monoparental, como também convivem nas residências outras pessoas ademais de pai, mãe e filhos” que junto com a provisoriedade e a incerteza sobre a renda familiar, principalmente afetada pelo desemprego. As ações familiares são praticadas por estas mulheres que sozinhas ou acompanhadas assumem como condição cultural e social de gênero a responsabilidade pela maternagem, os afazeres domésticos e o cuidado da família. Nesta pesquisa, as entrevistadas reconhecem estes encargos e referem que precisam ter um corpo com força e vitalidade para  atender as demandas de sobrevivência e seus papéis no ciclo de vida familiar.

Assim, a força do corpo pelo aumento do peso cresce internalizada como necessária à sobrevivência para atender as responsabilidades pela vida e revela outro ponto chave biográfico: o reconhecimento de um corpo-acima do peso.

(…)até eu ter problema de pressão alta eu não ligava para meu peso(…) sabia que estava gordinha mas ia levando a vida assim(…) não vou ser artista e madame para ficar fazendo dieta(…) e não tenho dinheiro para comprar as coisas de dieta e ir para a academia(..) mas quando a pressão subiu e eu fui para o hospital e o médico disse que se eu não diminuísse a gordura eu teria um AVC eu lembrei de meu filhos pequenos e estou tentando fazer dieta(…) não consegui ninguém para me ensinar(…) os médicos falam mas não ajudam quem é pobre(…) ele ficam com raiva da gente, como se nóis tem culpa de pedir consulta(…) eu sei que eu fiquei assim gordinha pela vida que eu tive(…)”

(Entrevistada de uma periferia de uma metrópole)

O discurso de combate a pandemia do excesso de peso e da obesidade dos programas e políticas públicas no Brasil e no mundo, sustentado pela mídia, representam-se como elementos do biopoder  cunhado por Foucault  de racionalidade biomédica e de estética corporal principalmente para o gênero feminino. Com a cultura de consumo como reguladores sociais e de produção de hábitos alimentares e de padrões de imagens corporais e os imperativos sanitários nas sociedades modernas atuais.

As narrativas sobre o corpo acima do peso revelam algumas questões referentes a corporeidade feminina, que passou de entidade funcionalista, sede de dogmas religiosos de impureza, sacrifício, culpa e purificação para ser valorizado nas sociedades industriais como“o corpo desejável”. O  excesso de peso é um desconforto contido na definição de qual é o peso corporal de referência, envolto a dúvidas sobre que parâmetros devem ser atendidos.

Num contexto de vida marcado pela pobreza e pela miséria, a mulher assume árduos papéis sociais e simbólicos-culturais de gênero e o corpo revela-se como entidade de  força e vigor como estratégia de sobrevivência. Quando fica acima do peso, revela-se também como simulacro de estigmas sociais, reconhecidos por elas quando referem o excesso de peso.

Os resultados apresentados podem contribuir para reflexões iniciais sobre os percursos biográficos de mulheres pobres classificadas como obesas pelos parâmetros biomédicos que relatam a pobreza, a fome e a miséria em seu percurso de vida. Nos limites deste estudo, pode-se vislumbrar de forma inicial, que as chaves biográficas apontadas nesta pesquisa, demonstram a necessidade de compreensão dos elementos perversos da pobreza na determinação social do excesso de peso em populações pobres.

A necessidade de compreensão sobre as estratégias de sobrevivência que estabelecem a corporeidade simbólica do corpo-força, está colocada como desafio que ressignifica o conceito de aumento de peso como resposta de um cotidiano de desigualdade social nas mulheres que participam deste estudo. Pode-se inicialmente refletir com base nos resultados desta pesquisa que a força reconhecida como necessária para a sobrevivência, desenvolve a corpulência, para lidar com a desigualdade social determinadas por fatores relacionados à prática de hábitos alimentares inadequados, os biológicos (ganho de peso na gravidez, desequilíbrios hormonais, síndromes e patologias metabólicas, etc..) e psicossociais relacionados ao excesso de peso.

Alguns questionamentos precisam ser refletidos  a medida que os resultados demonstram o reconhecimento do excesso de peso e obesidade atestado por parâmetros antropométricos como também subjetivos. E  revelam os dogmas morais biomédicos e estéticos vigentes pela exclusão e a imposição de valores de corpo “não desejável” resignificando, junto com a “fome”, tabus linguísticos de dor, revolta e lembranças ameaçadoras de um grupo populacional excluído pela pobreza, pela miséria, pela fome, pela área geográfica de nascimento e pela cor da pele. Finalmente, o dilema de reconhecer o peso excessivo corporal nestas mulheres deve ser refletido à luz da emancipação da mulher sobre sua corporeidade, sem os julgamentos sociais e os estigmas moralizantes estéticos e biomédicos, em programas e políticas públicas de informação, comunicação e educação no campo da saúde, da alimentação e da nutrição no Brasil.

 

Referências:

Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2016: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26estados brasileiros e no Distrito Federal em 2016. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.

Ferreira VA, Magalhães R. Obesidade entre os pobres no Brasil: a vulnerabilidade feminina. Ciência & Saúde Coletiva. 2011;16(4):2279-2287.

Mallimaci F, Giménez-Béliveau V. Historias de vida y método biográfico. Estrategias de Investigación cualitativa. Barcelona: Gedisa; 2006.

Minayo MCS. Hermenêutica-Dialética como Caminho do Pensamento Social. In: Minayo MCS, Deslandes SF, organizadores. Caminho do pensamento: epistemologia e método. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. p.83-108.

Merleau-Ponty M. Fenomenologia da Percepção. 2 ed. São Paulo: Editora Martins Fontes; 1999.

Orsi V. Tabu e preconceito linguístico. ReVEL. 2011;9(12): 334-348.

Brasil. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria Nacional de Renda de Cidadania. Perfil das pessoas e famílias no Cadastro Único do Governo Federal – 2013. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; 2014.

Mariano SA, Carloto CM. Gênero e combate à pobreza: programa bolsa família. Revista Estudos Feministas. 2009; 17(3): 901-908.

Minayo MCS. Saúde Doença: Uma Concepção Popular da Etiologia. Rev. Saúde Pública. 1990;6(3):278-292.

Foucault, M. A hermenêutica do sujeito. 2 ed. São Paulo: Editora Martins Fontes; 2006.

Arnaiz-Gracia M. Comemos lo que somos: reflexiones sobre o cuerpo, gênero y salud. Barcelona: Icaria Editorial; 2015.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).

Danielle Cabrini é nutricionista e sanitarista, doutora em Saúde da Criança e da Mulher (IFF/Fiocruz). É professora da Universidade Federal de Espírito Santo (UFES), atualmente em exercício na Universidade de Brasília (UnB). Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.

Feiras Permanentes: espaços de formação do gosto e comensalidade no Distrito Federal

Feiras Permanentes: espaços de formação do gosto e comensalidade no Distrito Federal

Denise Oliveira e Silva

As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam produtos e receitas da culinária tradicional brasileira, sendo fontes regionais e espaços turísticos que contribuem para o fortalecimento do patrimônio alimentar brasileiro. Da mudança da capital, do Rio de Janeiro para Brasília, até os dias atuais, o Distrito Federal/DF vem adquirindo características de metrópole, com prestígio político, artístico, cultural e econômico, variada gastronomia e intensa diversidade étnica. Por aqui, são identificadas feiras populares, espaços que se desenvolveram pela influência da migração de grupos populacionais que expressam a diáspora nordestina, que atraem até hoje migrantes em busca de trabalho e melhores condições de vida.

Popularmente conhecidos como candangos, ao trazerem sua força de trabalho para a capital brasileira, trouxeram também sua cultura, expressão da mistura de práticas indígenas, africanas e europeias e criaram as feiras como estratégia de sustentação comercial para as práticas gastronômicas mais plurais e de representação de foco de resistência cultural.

O fato de os primeiros migrantes que aqui chegaram, em 1957, para a construção da cidade serem provenientes de vários pontos da região nordeste, do sertão e do litoral, assim como dos estados limítrofes, Minas Gerais e Goiás, criou condições específicas para a transmissão e reinvenção de várias tradições populares, como festas juninas, embates de cordelistas, festejos, religiosos e populares, tradições das quais aqueles trabalhadores eram os portadores e tratavam de perpetuar. 

(Madeira, 2007, pag. 27).

Como feiras populares destacam-se no DF, segundo a Lei Nº 4.748 de 02 de fevereiro de 2012, as feiras livres, locais onde existe “a venda, exclusivamente a varejo, de produtos hortifrutigranjeiros, cereais, doces, laticínios, pescados, flores, plantas ornamentais, produtos de artesanato, lanches, caldo de cana, temperos, raízes, carnes e aves abatidas, resfriadas ou congeladas, confecções, tecidos, armarinhos, calçados e bolsas, bijuterias, artigos religiosos, ferramentas e utensílios domésticos, produtos da lavoura e indústria rural, e outros que possam vir a ser aprovados pelo órgão competente”. E as feiras permanentes, onde se “realizam atividades mercantis de caráter constante realizada em logradouro público destinado para esse fim, com instalações comerciais fixas e edificadas para comercialização dos produtos referidos para as feiras livres e produtos de bazar e agropecuários, refeições típicas regionais, jornais, revistas, além de prestação de pequenos serviços, na forma do regulamento”.

O DF é formado por 19 regiões administrativas. Brasília foi concebida como Plano Piloto, formada pelas Asa Sul e Asa Norte e o Eixo Central e localidades periféricas onde estão as demais regiões administrativas, historicamente denominadas de “Cidades Satélites” localizadas entre seis e 60 km do Plano Piloto, sendo elas: Brazlândia, Candangolândia, Ceilândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Lago Norte, Lago Sul, Núcleo Bandeirante, Paranoá, Planaltina, Recanto das Emas, Riacho Fundo I e II, Samambaia Santa Maria, São Sebastião Sobradinho, Taguatinga.

As “Feiras Permanentes” existem somente fora do Plano Piloto e dos Lagos Sul e Norte, sendo identificadas atualmente cerca de 75 feiras em funcionamento. As mais famosas são as feiras do Núcleo Bandeirantes (a mais antiga, criada em 1959) seguida da Feira do Cruzeiro (1962), a Feira Central de Ceilândia (1967) e a Feira do Guará (1969).

Estas feiras se constituem do mesmo modelo de feiras nordestinas. Não são itinerantes e se constituíram com a realização do comércio e manifestações culturais variadas. A infraestrutura dessas feiras é bem diversa. Em geral, são construções de alvenaria com espaços caracterizados para a venda de produtos alimentícios frescos, animais vivos, temperos, e espaços de comensalidade para a venda de preparações culinárias de origem do sertão nordestino, em sua maioria.

Desde 2012, a Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, por meio do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares, tem realizado pesquisas etnográficas para compreender a influência destas feiras na formação de hábitos alimentares e na preservação de patrimônios alimentares materiais(alimentos) e imateriais(culinária) brasileiros.

Variedade e tradição no circuito de compra

Os produtos alimentícios mais vendidos são os legumes, hortaliças e frutas frescos em geral oriundo do entreposto CEASA do DF. Observa-se a presença de alguns gêneros de produtores locais. O crescimento do comércio de produtos orgânicos ainda é pouco frequente, porque cresce na cidade as feiras que vendem estes produtos, principalmente localizadas no Plano Piloto.

Os produtos alimentícios vendidos nas feiras são em sua maioria aqueles que não são vendidos nas redes de supermercados. A busca pelos diversos tipos de feijões, farinhas e seus animais vivos como galinhas caipiras, bodes e peixes, e os temperos típicos do nordeste são os aspectos identitários dos produtos alimentícios vendidos nestas feiras. Os produtos são apresentados em sacos dos quais o comprador pode estabelecer a quantidade que precisa. A linguagem comum na mensuração da compra do produto, não usa o quilo, a grama. São usadas outras linguagens:

“uma mão de farinha(…) um copo de feijão(…), moço é o que eu preciso! 

(Cliente do sexo masculino 42 anos, Feira do Guará, 2016)

É importante destacar como fator identitário, o papel destas feiras do DF em ofertar a variedade de três produtos emblemáticos da culinária brasileira: as farinhas de mandiocas e seus os feijões e os temperos secos e frescos.

Para feirantes e clientes, estes produtos não são encontrados com tanta variedade nas redes de supermercados. Segundo relatos, são nestas feiras que é possível adquirir um feijão verde e de corda segundo as tradições do sertão nordestino.

As farinhas em suas diversas características de torrefação, sendo amarela, ou branca, torrada à moda pernambucana ou à baiana, a farinha de milho em várias opções são os patrimônios alimentares presentes nestas feiras. Destacam-se ainda os queijos de forte influência nordestina como o queijo de coalho e a manteiga de garrafa. Os temperos são categorizados como frescos, entre os quais a vinagreira e outros específicos para preparações culinárias são ofertados para a compra, e também os temperos secos, que em geral são vendidos em pó, como açafrão da terra, cúrcuma, cominho, pimenta e etc.

Embora a presença de algumas ervas sobretudo para utilização terapêutica possam ser consideradas em seus limites como alimentos, nestas feiras a presença de barracas de “erveiros” é outro circuito de compra. Os responsáveis pela venda destes produtos em geral são mulheres que revelam preocupação com a perda desta memória em função do pouco interesse dos jovens e o crescimento da indústria de fármacos.

Conversas de feira

Nestas feiras, o diálogo é sobre o comer e celebrar as memórias ditas e não ditas, com nossa verdadeira identidade, da qual o corpo físico, nossas emoções, nossa cultura e nossa espiritualidade são apresentados de forma conjunta para explicar o que é adequado e saudável em nossa alimentação.

“(…) eu aqui converso com meus clientes que gostam da comida que eu vendo(…) eu não sei dividir o que é adequado e saudável como a senhora me pergunta(…) na comida isto não é assim(…)” 

(Feirante do sexo feminino 53 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

(…) eu venho aqui uma vez por semana, todo sábado com meu marido(…) eu faço a dieta do saudável durante a semana(…) mas eu vejo que esta comida é tão saudável como a nutricionista manda eu fazer(…) não tem esta conversa que tem muita gordura não(…) eu acho que estes médicos precisam conhecer mais estas comidas caseiras, eles não conhecem, tem preconceito e não sabem nos ajudar(…) O problema é que médico não sabe cozinhar. Não conhecem comida e compram tudo congelado, come na rua e desconfio que entram na cozinha para beber água e café, gosta mesmo é de restaurantes(…)  minha mãe lá do nordeste comia estas comidas, não todo dia; tinha buchada, mas quando tinha a gordura era pouca e o sal também(…) o que será que houve com a nossa comida? Vocês poderiam me explicar? De uma hora para outra o médico diz que não pode, e manda a gente comer muito legume, mas não liga para os venenos dos agrotóxicos neles? Esta história do que pode e não pode comer está muito esquisita nos dias de hoje(…) Eu vou continuar vindo aqui, porque eu esqueço destes medos do que escuto e vejo hoje em dia sobre alimentação. ´Vocês estão comendo o mesmo que eu,e eu sei que vocês são da saúde. Então eu acho que estamos de acordo, não é?” 

(Cliente do sexo feminino, 41 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

Nas feiras, tanto o comprar como o comer nos revelam. Quando comemos não podemos nos esconder, mesmos que tenhamos que seguir processos civilizatórios de etiqueta, porque a chance de esquecer rebeldemente disso tudo e celebramos no agora o que somos e vivemos. É isto que a feira aguça quando chegamos nela. Não são corredores com iluminação e sinalizações apropriadas e etiquetados, com latas e vasilhames coloridos e com letras estimulantes. Quando vamos à feira, vemos os alimentos sem maquiagem comercial.  Talvez seja isto que buscamos quando vamos a uma feira.

(…) é tudo tão arrumadinho nos supermercados, que se você deixar uma lata cair, parece que o mundo acabou(…)  a gente compra sem saber o que tem, tá tudo em lata e pacote(…) somente o prazo de validade não é suficiente para sabermos se o alimento é bom(…) aqui eu pego e cheiro os produtos(…) nos supermercados  os trabalhadores arrumam lata e pacote(…)aqui na feira eu vejo tudinho, nada tá escondido(..) nos supermercados os funcionários  não conversam com você  e se conversar o gerente chama atenção(…) aqui o feirante te dá receitas(…) no supermercado  eu sou obrigada a comprar na quantidade que eles querem;(…) há eu não gosto não. Eu só vou lá porque os danados ficam nos caminhos de casa(…) nesta vida de correria eles estão abertos em horários que as feiras não estão(…) aqui não dá para vir correndo, é por isto que eles se dão bem em cima da gente (…) isto que eu acho, vir aqui é com calma, dá para conversar, pensar melhor no que vamos comer(…) os supermercados ganham das feiras porque eles tão ali para atender a correria da vida; para vender coisas rápidas e fazer a gente comer sem pensar, e pior pagar mais caro!(…)” 

(Cliente, sexo feminino, 55 anos, Feira do Guará, 2016)

Herança cultural de fartura e público das feiras

Os resultados têm apontado circuitos de circulação de pessoas segundo o gênero. As mulheres estão mais presentes nos locais onde se vendem legumes, verduras, frutas e roupas. Os homens estão nos locais onde se vendem carnes animais e nos bares. O horário de funcionamento é variado, sendo durante a semana a presença de feirantes que vendem legumes, frutas e verduras e as barracas de venda de roupas, com maioria de presença feminina tanto de feirantes como de clientes. O final de semana, sábado e domingo, tem maior frequência de feirantes e clientes com a presença de famílias, principalmente de idosos.

Dentre os pratos nordestinos comercializados destaca-se o baião de dois, a buchada de bode, a tapioca, o mocotó, a carne de sol, o sarapatel etc. Os resultados da pesquisa tem revelado que as preparações culinárias em sua essência representam fartura e comensalidade:

(…) eu venho aqui porque moro sozinho e não dá para fazer uma buchada ou um sarapatel para eu comer sozinho(…) estas comidas foram feitas para dar de comer a muita gente(…) eu acho que isto é o problema de hoje em dia: a comida é para mais de um comer(…) na vida de agora comer sozinho é que dá doença(…) chegar em casa não dá vontade de mexer com panelas, o bom é fazer um arroz  para comer com outra pessoa(…) comida não foi pensada para alimentar um ser vivente, eu não sei quem inventou isto; por isto é que estamos lascados; esta história de uma colher de sopa; uma conchinha de não sei o que dos médicos , não é coisa de gente não(…)” 

(Cliente, do sexo masculino, 53 anos)

A nossa herança cultural de fartura vem da relação que tivemos com a natureza: ela oferta amorosamente e consumimos aquilo que necessitamos sem desperdício por que compartilhamos nossa comensalidade. E, de fato, nossa origem humana e ancestral é de comer juntos! Para isto, os saberes gastronômicos podem ser considerados fundamentais na formação dos hábitos alimentares pelo seu papel de agente ativo da memória histórica individual e coletiva. As memórias constituem permanências, transformações, em caráter local ou em escala global. Podem ser transmitidas subjetivamente, tanto por indivíduos ou por instituições. As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam receitas da culinária tradicional brasileira. São fontes regionais, ademais, são espaços de convivência. Neste sentido, estas feiras são matrizes migratórias da culinária ali encontrada como espaços de memórias gustativas e afetivas, como podemos ver pela história desta senhora feirante que está na feira da Ceilândia a mais de 20 anos:

“ (…) aqui eu comecei com o Caldinho de Mocotó que nunca pode faltar(…) depois foi crescendo ali e acolá outras comidas, o baião de dois, o sarapatel, a galinha caipira a buchada de bode(…) as pessoas vem aqui para provar do meu tempero destas comidas porque lembra muito da mãe, da avó, da família(…) às vezes eu vejo marmanjo homem comendo e chorando quando coloca um garfo de comida na boca(…) ah,  eu digo a ele, “bichinho tu quer mais”(…) ele nem fala, mas o choro diz que sim, ah,  eu ponho mais e não cobro mais nada(…)”

A experiência de realizar pesquisas sobre hábitos alimentares nas feiras aponta a importância destes locais para o exercício de compreensão da alimentação humana. São locais onde a visibilidade da gastronomia típica comercializada permite compreender os processos de migração gastronômica de uma região para outra, e revelam a importância de ações de preservação de bens imateriais. A preservação da gastronomia de uma região sustenta a vida comunitária. Ela constitui patrimônio cultural por possuir “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – juntamente com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares que lhes são associados” – típicas de uma sociedade que se diferencia de obras arquitetônicas, monumentos, sítios e paisagens, por serem considerados um bem intangível. Uma vez garantida a preservação de receitas e rituais alimentares, todos os atores sociais envolvidos poderão manter seus ganhos diretos e indiretos. Cabe ressaltar a importância da promoção de políticas públicas visando o desenvolvimento do Patrimônio Cultural Imaterial, em relação à gastronomia, alimentação e comensalidade e o incentivo às culturas tradicionais e regionais. No Brasil, micro espaços geográficos que vivenciam impasses da preservação dos patrimônios culturais imateriais de caráter gastronômico popular são temas de reflexão. As feiras podem ser entendidas enquanto um foco de resistência gastronômica, cabendo ações de valorização como patrimônio imaterial de hábitos alimentares e comensalidade. É um espaço que oportuniza a disponibilidade de receitas populares, bem como oferece os ingredientes necessários para a feitura de especialidades que necessitam de produtos específicos.

Temos aprendido com os feirantes e os clientes destas feiras novos significados sobre o comer. Principalmente linguagens que agregam dimensões biológicas e simbólicas-culturais tão importantes para o sucesso da promoção da alimentação adequada e saudável.

Vamos às feiras!

 

Referência citada: Madeira, Angélica Mariza Veloso. A cidade e suas feiras. Um estudo sobre as feiras permanentes de Brasília. Brasilia: DF: IPHAN/15ª Superintendência Regional, 2007.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).

O SISVAN e a atitude de vigilância – O legado de dois nordestinos

O SISVAN e a atitude de vigilância – O legado de dois nordestinos

Denise Oliveira e Silva*

No momento que comemoramos os 70 Anos de publicação do livro “Geografia da Fome” de Josué de Castro, vivemos a nostalgia da lembrança biográfica deste brasileiro que revelou novos paradigmas que recolocaram o conceito de fome para além da ótica patológica-nutricional para inserir a dimensão política desta problemática. E trouxe ao mundo novos conceitos interpretativos com base na descrição geográfica de territórios alimentares de fome endêmica e epidêmica. A tradução destes conceitos no Brasil iluminou cientistas e acadêmicos que deixaram grandes contribuições em teses, dissertações, artigos e livros e na elaboração de mapeamentos sobre a fome.

Como Secretário Executivo da FAO Josué de Castro, promoveu conferências de nutrição pelo mundo, especialmente na América Latina o que permitiu levar suas ideias e conhecer a realidade política e social da problemática da fome nestes países.

Mas o golpe militar no Brasil, o destituiu como Embaixador Brasileiro na FAO determinando seu exílio político na Europa.  E mesmo longe de seu país, foi acolhido na França para lecionar sobre a temática de desenvolvimento da América Latina e falece em 1973 em Paris sem talvez ter visto seu papel de importância para a proposição do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) na Conferência Mundial de Alimentação de 1974.

O SISVAN foi proposto como estratégia de superação dos problemas alimentares e nutricionais identificados em países assolados por governos ditatoriais com altos índices de desnutrição e carências nutricionais. Em busca de intervenções substantivas e urgentes, os organismos internacionais identificavam esta proposição nos moldes dos ideários de Josué de Castro, como estratégia de estimular os países a reconhecerem a problemática alimentar e nutricional sem os riscos de constrangimentos diplomáticos de interferência na soberania dos países.

Nos limites interpretativos de análise histórica deste contexto, podemos considerar que a adesão de países comprovadamente oriundos de governos e regimes de exceção e antidemocráticos, a implementação do SISVAN se constituiria de forma limitada a dimensão restrita a ser um banco de dados sujeito a censuras destes governos interferindo em seu papel de pertinência como preditor das causas da situação alimentar e nutricional. As avaliações das diversas iniciativas de implantação do SISVAN neste período apontaram lentidão de adesão dos países.  Em meados da década de 80 algumas experiências no mundo de implantação do SISVAN prosperaram e demonstraram sua relevância principalmente na América Latina e no Caribe com as experiências bem-sucedidas de Cuba, Costa Rica e Chile.

No Brasil desta época o extinto Instituto de Alimentação e Nutrição responsável pelos Programas de Alimentação e Nutrição (PRONAN I e II) assumiram em suas diretrizes os ideários de Josué de Castro, pela incorporação dos conceitos de áreas alimentares, fome endêmica e epidêmica e a realização de mapeamentos por meio de pesquisas populacionais e a criação do SISVAN.

É pela iniciativa do Emérito Professor Malaquias Batista Filho, paraibano de nascimento, mas com atuação política e profissional no Estado de Pernambuco, que várias propostas no campo da desnutrição materno-infantil e carências nutricionais vão emergir para o país e notadamente a primeira iniciativa brasileira  no Estado de Pernambuco de criação do SISVAN.

São idas e vindas no desenvolvimento do sistema no Brasil marcadas pela superação da visão de experiência de banco de dados de pesquisa epidemiológica. Sua luta tanto nos meios acadêmicos e na militância de formar quadros pelo país consubstanciados na importância do desenvolvimento do SISVAN será fundamental para que a Vigilância Nutricional seja contemplada  como objetivo e atribuições do Sistema único de Saúde por meio da  Lei Nº 8080 de 19 de setembro de 1990.

Neste momento histórico das sociedades urbanas-industriais um novo enfoque relacionado práticas, hábitos, comportamento e estilo de vida relacionados ao consumo de alimentos mediado pela renda monetária e seus sinais de sucesso e prestígio social tem trazido a necessidade de novas formas de compreensão da problemática alimentar e nutricional no mundo. Com certeza novas áreas alimentares se instalaram no Brasil desde o livro Geografia da Fome de Josué de Castro. O advento do modelo agroindustrial oriundo da visão da industrialização já se apresentava como cenário de futuro. Este modelo atua como um sistema  nas várias  cadeias de produção, processamento e comercialização de alimentos. Sua lógica é a  produção de alimentos em massa, pela maximização do lucro. Está baseado na economia de escala com forte uso de tecnologia. Estimula o distanciamento entre os produtores e os consumidores pelo uso importante de intermediários. Seus produtos são estandardizados e obedecem a critérios nacionais e internacionais. As consequências deste sistema são: a desigualdade no valor do produto;  a pauperização dos agricultores(baixo preço dos produtos agrícolas);desigualdade de performance técnica(os países do norte mais capazes comparados ao sul);  os problemas ambientais; o deslocamento do papel dos seres humanos de  comensais  para consumidores de alimentos; a insegurança alimentar pela desigualdade social e pelo medo de alimentos com agrotóxicos e modificados geneticamente; alta disponibilidade de oferta de alimentos processados e sua possível associação com a morbimortalidade por doenças crônico-degenerativas e consequentecontribuição para a pandemia da obesidade.

No livro Geografia da Fome, Josué de Castro alertava  mesmo num contexto de fome para o incremento de hábitos alimentares estranhos a região geográfica regional, e talvez já antevisse o dilema atual deste início de milênio  de gerenciamento da ilusão neoliberal de profusão de alimentos.  Temos diante de nós seu legado intelectual de nos ajudar a refletir o cenário das práticas , hábitos e escolhas alimentares que vivemos atualmente, sobretudo, no Brasil que ocupa ainda o lugar de prestigio de país que saiu do Mapa da Fome Mundial pela ação de políticas de proteção social.

Assim a contemporaneidade de dialogar com os conceitos de áreas alimentares pode nos  ajudar na compreensão de um processo que está em curso do qual as mudanças não se relacionam novamente por fatores patológicos e nutricionais e sim como problema político. Neste sentido, entender. a matriz  ideológica  neoliberal que orienta para a importância da  profusão de alimentos como uma promessa de comida para todos precisa ser contextualiza por meio de sua dimensão de desigualdade, para revelar seu arcabouço da qual a disponibilidade alimentar é dirigida para aqueles incluídos no sistema de consumo, pois para aqueles que  estão excluídos, está amiséria e a  fome. Talvez superar a questão que tem desafiado a humanidade, de  lidar com a ansiedade e as inquietações de não saber estabelecer critérios e as escolhas alimentares com as necessidades biológicas corporais, simbólicas e culturais se constitui como pauta para futuras ações da sociedade..

Bem, temos desafios a enfrentar, e podemos considerar que estes dois nordestinos, deixaram um legado importantíssimo para a compreensão da situação alimentar e nutricional pela criação do SISVAN. No Brasil este sistema é coordenado pelo Ministério da Saúde com forte capilaridade nos serviços de atenção básica a saúde. Embora seus dados se revelem ainda limitados a populações beneficiárias de programas de proteção social, seus dados podem ser aperfeiçoados para serem utilizados para diversas análises sobre a situação alimentar e nutricional. Assim, estes dois nordestinos em contextos históricos diferentes deixaram o legado da importância da “Atitude de Vigilância” como ação política de corresponsabilidade social e de governos na identificação oportuna de problemas nutricionais.

Ao  comemorar os 70 anos de publicação do livro “Geografia da Fome” temos que agradecer a Josué de Castro e Malaquias Batista Filho pelo aprendizado militante e cidadão que nos estimulam ainda a enfrentar este contexto de novos paradigmas de determinação social de problemas nutricionais que trazem a pandemia de excesso de peso e a obesidade como expressão de desigualdade social como um dos grandes desafios a serem superados neste milênio para o Brasil e para o Planeta.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).