Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Nuno Rodrigo Madeira e Neide Botrel

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) são aquelas que possuem uma ou mais partes que podem ser usadas na alimentação, mas que não sejam corriqueiras, parte do dia a dia da grande maioria da população. O termo PANC começou a ser difundido em 2008 e tem sido o mais aceito pela comunidade técnico-científica. Ele trouxe consigo grande visibilidade na mídia e perante a sociedade como um todo, proporcionando a valorização de espécies subutilizadas ou negligenciadas.

Em nosso trabalho na Embrapa Hortaliças, iniciado oficialmente em 2006, utilizamos por vezes o termo “Hortaliças Tradicionais”, por serem espécies cujas sementes ou mudas são mantidas pelos próprios agricultores, muitos deles agricultores tradicionais, e por trazerem consigo um forte apelo cultural associado, além de ser uma forma de valorização. Por representarmos a Embrapa Hortaliças, nos limitamos ao trabalho com hortaliças, mas dialogamos acerca das PANC como um grupo maior. Nos últimos anos, passamos também a usar o termo “Hortaliças PANC”, que inclui as hortaliças tradicionais e outras.

Esses termos (PANC ou Hortaliças PANC) trazem alguma controvérsia; uma planta que é considerada não convencional em uma região pode ser convencional em outra, a exemplo do açaí (Euterpe oleracea), do jambu (Spilanthes oleracea) e da chicória (Eryngium foetidum) na Região Norte, do cuxá ou vinagreira (Hibiscus sabdarifae) no Maranhão, da erva-mate no Sul (Ilex paraguariensis), do inhame (Colocasia esculenta) no Espírito Santo, entre outras.

Contudo, de forma geral, as PANC, são espécies de uso local ou regional (e não global ou nacional como as espécies convencionais), com distribuição limitada, cadeia produtiva inexistente ou mal estruturada, de pouco ou nenhum interesse para as empresas de insumos, de sementes ou fertilizantes por exemplo, por sua rusticidade e pouco estudadas na academia.

De forma geral, observa-se redução do consumo de alimentos regionais, seja no campo ou nas cidades, pela substituição da produção local por espécies de maior apelo comercial e cadeia produtiva estabelecida, isso em função de mudanças significativas no estilo de vida e no hábito alimentar da população brasileira, com a perda da referência dos quintais e o crescente uso de alimentos industrializados, resultado da globalização e da verticalização das cidades, muitas vezes com perdas históricas de referências socioculturais.

A situação de desuso de muitas hortaliças tradicionais acarreta em fragilidade com relação ao risco de perda desses materiais. De acordo com a FAO (2004), o ser humano afunilou sua alimentação de mais de dez mil diferentes espécies vegetais para cerca de 150 espécies sendo cultivadas atualmente, sendo que 12 representam 80% de nossas necessidades alimentares e apenas quatro espécies (arroz, trigo, milho e batata) mais da metade de nossas necessidades.

Ainda assim, muitas hortaliças tradicionais (hoje circunscritas no conceito de PANC) resistem no Brasil e são de suma importância na expressão da cultura de determinadas populações. Alguns exemplos, dentre as hortaliças, são:

  • Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) em algumas regiões de Minas Gerais e Goiás, sempre presente na gastronomia no circuito das cidades históricas;
  • Vinagreira no Maranhão, base do prato mais significativo da culinária local – o arroz de cuxá;
  • Jambu no Norte do Brasil, ingrediente essencial para o tacacá e o pato no tucupi; e,
  • Gila (Cucurbita ficifolia) na Serra Gaúcha, onde é tema de um festival em Bom Jesus; entre outros (Brasil, 2015).

Isso em se tratando de hortaliças, nosso universo de trabalho, mas o que dizer das frutas como o cupuaçu e o açaí na Amazônia, o pequi e o baru no Cerrado, o umbu no Semiárido, a jabuticaba no Sudeste, a goiaba-serrana e o butiá no Sul, entre outras tantas “frutas PANC”. Buscando ampliar a diversidade alimentar, nosso trabalho na Embrapa Hortaliças apresenta três propósitos básicos:

  • A conservação de germoplasma, patrimônio de valor incalculável;
  • O enriquecimento da dieta alimentar local com a diversificação da produção nos sítios ou nos quintais; e,
  • A oportunidade de renda para os agricultores familiares com o cultivo de hortaliças tradicionais e seus subprodutos (Madeira et al., 2013).

A conservação, no nosso entender, só será plena e até mesmo segura e viável se for pelo uso, pois aquilo que se usa com frequência terá sua conservação assegurada. No caso de algumas espécies em desuso como o mangarito (Xanthosoma riedelianum), o jacatupé (Pachyrrhizus tuberosus) e a araruta (Maranta arundinacea), trata-se de um verdadeiro resgate de plantas que chegaram próximo à extinção, se não botânica por sua rusticidade, no mínimo à extinção alimentar. Assim, as ações que realizamos junto aos parceiros da extensão rural, de outros órgãos de pesquisa e organizações de produtores, são bancos comunitários locais (Brasil, 2013b), eventos (dias de campo, oficinas culinárias e agronômicas, palestras) e disponibilização de publicações (cartilhas, livros, artigos científicos).

Aspecto fundamental é que, em essência, o cultivo das hortaliças tradicionais vem sendo historicamente feito por agricultores familiares e sob manejo de base agroecológica. Muitos plantios estão estabelecidos em pequenos quintais no meio rural ou urbano, para o consumo da própria família, sem nenhum apelo comercial. Algumas espécies, no entanto, já apresentam significativa inserção de mercado, como o inhame (Colocasia esculenta) ou o cará, conhecido no Nordeste por inhame (Dioscorea spp.), sendo frequentemente encontrados em feiras e supermercados. Outras, no entanto, apresentam potencial comercial sub-explorado, inclusive de exportação, a exemplo da fécula (polvilho) de araruta ou de substituição de importações, a exemplo da fisális ou camapu (Physalis spp.) e do chá de hibisco, extraído da vinagreira.

É interessante ressaltar que muitas hortaliças tradicionais apresentam efeito funcional nutracêutico, a exemplo do cará ou inhame-cará, reconhecido depurativo de sangue, ou ainda o ora-pro-nóbis, conhecido como a “carne vegetal” por seus elevados teores de proteínas (até 32% na matéria seca) e minerais, notadamente cálcio e ferro. No entanto, sempre ressaltando que não será um ou outro “super alimento” que trará a resposta em nutrição e saúde mas sim uma super alimentação diversificada e de qualidade.

Contudo, outro aspecto interessante é que grande parte do que é considerado PANC são plantas nativas do Brasil e, mesmo aquelas que não são botanicamente de origem brasileira, são tão adaptadas que muitos as consideram nativas, a exemplo de vinagreira, gila e inhame, sendo na verdade ditas “naturalizadas”, introduzidas durante o processo histórico de formação do Brasil. Portanto, muitas PANC são plantas espontâneas ou silvestres, por vezes até consideradas “daninhas” ou “matos”, como serralha (Sonchus oleracea), beldroega (Portulaca oleracea) e major-gomes ou cariru (Talinum spp.).

Por sua facilidade de cultivo, adaptabilidade, rusticidade, além do potencial ornamental, muitas PANC tem sido utilizadas em agricultura urbana e periurbana e na promoção da produção local de alimentos.

Finalmente, todas as ações que vem ocorrendo relacionados a hortaliças tradicionais trazem uma forte valorização do conhecimento do agricultor tradicional, de base familiar, resgatando sua sabedoria, dignidade e importância na produção de alimento seguro, mostrando que a produção local de alimentos deve usar prioritariamente plantas adaptadas e de alta rusticidade e resiliência, disponibilizando muito mais alternativas e contribuindo verdadeiramente para a segurança e, principalmente, para a soberania alimentar e nutricional, pelo incremento da diversidade e riqueza da dieta alimentar e o fomento aos bons hábitos alimentares. O fomento das hortaliças tradicionais abrange aspectos culturais, econômicos e sociais, promovendo espécies nutricionalmente interessantes, muito facilmente adaptadas, praticamente orgânicas, e com alta capacidade de mitigação dos impactos negativos causados pelos efeitos das mudanças climáticas, ressaltando sua interface com os diálogos referentes à agricultura de base ecológica e à agricultura urbana.

 

Bibliografia Consultada

BRASIL. 2015. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Alimentos regionais brasileiros. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. – 2ª ed. – Brasília, Ministério da Saúde. 484 p.

KINUPP, V.F.; LORENZI, H. 2014. Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas.

MADEIRA, N.R.; SILVA, P.C.; BOTREL, N.; MENDONÇA, J.L.de; SILVEIRA, G.S.R.; PEDROSA, M.W. 2013. Manual de produção de Hortaliças Tradicionais. Brasília, DF: Embrapa. 155 p.

Nuno é engenheiro agrônomo, pesquisador na Embrapa Hortaliças.

Neide é engenheira agrônoma, pesquisadora na Embrapa Hortaliças.

Como o conceito PANC nasceu? | Autobiografia de Valdely Kinupp

Como o conceito PANC nasceu? | Autobiografia de Valdely Kinupp

Valdely Kinnup (*)

Potencial alimentício da flora brasileira

O Brasil é o país da megafitodiversidade, contudo utiliza pouco da sua vasta riqueza botânica para o consumo corriqueiro nas nossas triviais três grandes refeições diárias. Os ingredientes diferenciados mesmo na dita Alta Gastronomia ou Alta Cozinha são utilizados de forma incipiente. Mesmo restaurantes mais refinados e com pegadas inovadoras de valorização dos ingredientes locais, regionais ou nacionais ainda deixam muito a desejar em termos de usos reais e de forma mais intensa e constante, nos cardápios fixos ou mesmo nos cardápios diários ou sazonais. E muitos dos que tem feito isso nos últimos anos, na maioria das vezes, fazem de uma forma um pouco equivocada, pois utilizam os ingredientes inusitados em quantidades muito pequenas e/ou apenas os utilizam na finalização de pratos e, muitas vezes, apenas como elemento decorativo.

Naturalmente, que um dos gargalos para o uso mais efetivo e real destes ingredientes não convencionais é a falta da matéria-prima, ou seja, não tem produtores e fornecedores com regularidade e/ou quantidade/qualidade. Mas, a demanda gera a oferta e a oferta atrelada a informação advinda dos trabalhos de pesquisa, ensino e extensão podem também gerar as demandas. A célebre frase: “Não vende porque não tem e não tem (nas feiras, restaurantes,…) porque não vende” (i.e., não tem procura dos clientes e comensais).

Diante deste grande potencial alimentício da flora brasileira, desde os tempos coloniais, diferentes naturalistas e autores de áreas diversas do conhecimento vem tentando sistematizar a catalogar a diversidade de plantas com potenciais para a alimentação humana. Contudo, era algo feito de forma bem acadêmica e com circulação mais restrita, seja pelo escopo da obra seja pelas limitações gráficas, de divulgação e circulação consequência dos longínquos mais de 300 anos de colonização fechada do Brasil.

Mesmo, no século XX as poucas publicações disponíveis no Brasil sobre plantas com potenciais alimentícios eram muito escassas e de pouca envergadura, abordando em geral poucas espécies, sem receitas ou receitas sem as devidas ilustrações e/ou fotografias que não instigava tanto a comunidade acadêmica e nem os comensais em geral. Além disso, não tinha uma expressão ou sigla/abreviatura/acrônimo eufônico e midiático que congregasse esta temática de pesquisa, ensino e extensão e atualmente uma área de engajamento profissional e de empreendedorismo com facetas múltiplas.

Muitos destes trabalhos (livros, cartilhas, Dissertações ou Teses) tinham no título palavras como “plantas ruderais”, “ervas espontâneas”, “frutas indígenas”, “pomalogia”, “plantas úteis”, “alimentos regionais”, “ervas daninhas comestíveis”, “ervas comestíveis”, “plantas alimentícias alternativas”, “plantas comestíveis silvestres”, entre outros termos e/ou expressões pouco chamativos ou convidativos. Além de muito limitantes geograficamente e/ou em relação às partes com usos alimentícias (e.g., segregando frutas, hortaliças, plantas aromáticas, condimentares e miscelâneas com usos alimentícios de difícil categorização, e.g., sucedâneas de produtos diversos, tais como sal, açúcar, corantes, água,…). Mesmo expressões um pouco mais técnica tinham restrições em relação a grande diversidade que deve ou deveria compor nossa alimentação cotidiana, e.g., “hortaliças não convencionais” (HNC); “hortaliças tradicionais” (HT) ou “hortaliças regionais” (HR) e estes acrônimos sem vogais e/ou muito curtos não tiveram e não têm muito chamariz e apelo.

Eu mesmo nos meus primeiros textos e títulos de resumos ou palestras e minicursos por um tempo usei o nome pouco informativo ou limitado e que podia ser interpretado de forma errada (“plantas alimentícias alternativas”). O acrônimo seria “PAA” que eu saiba nunca foi utilizado neste sentido e não cairia no gosto popular (atualmente, é o acrônimo do Programa de Aquisição de Alimentos). Aqui, cabe destacar que muitos autores e pesquisadores usam ainda o termo comestíveis ao invés de alimentícias, daí falam e/ou escrevem “plantas comestíveis alternativas” ou “plantas comestíveis silvestres”. Além dos acrônimos não ficarem eufônicos, o termo “comestíveis” é limitado, pois literalmente não incluiria os alimentos líquidos ou pastosos que são bebidos (“bebíveis”) e não comidos.  A própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) tem no seu nome “alimentação” e define como plantas alimentícias (“food plants”). E “alternativas” e “silvestres” também tem suas limitações e restrições bem explicitado na introdução do livro PANC.

O que são plantas alimentícias?

Conforme a FAO e outras fontes referenciadas no livro PANC, este é o conceito que adotamos na minha Tese e no livro: plantas alimentícias lato sensu são aquelas que possuem uma ou mais partes (e ou derivados destas partes) que podem ser utilizados na alimentação humana, tais como: raízes tuberosas, tubérculos, bulbos, rizomas, cormos, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes ou ainda látex, resina e goma, ou que são usadas para obtenção de óleos e gorduras alimentícios. Inclui-se neste conceito também as especiarias, substâncias condimentares e aromáticas, assim como plantas que são utilizadas como substitutas do sal, como edulcorantes (adoçantes), amaciantes de carnes, corantes alimentícios e aquelas utilizadas no fabrico de bebidas, tonificantes e infusões.

 

O que são as PANC?

PANC nada mais é do que um acrônimo para tentar contemplar as Plantas Alimentícias Não Convencionais, ou seja, plantas que possuem uma ou mais das categorias de uso alimentício citada(s) antes que não são comuns, não são corriqueiras, não são do dia a dia da grande maioria da população de uma região, de um país ou mesmo do planeta, já que temos atualmente uma alimentação básica muito homogênea, monótona e globalizada. Não estamos usando plural, pois apesar do uso corrente e comum do ’s e/ou do s (e.g., PANCs ou PANC’s; SAFs ou SAF’s; PFNMs ou PFNM’s, só para citar alguns acrônimos comuns no meio agronômico, florestal e agora gastronômico-nutricional), pois pelo que nos consta não é correto no português clássico. Neste caso, o plural faz-se com o artigo (e.g., a PANC ou as PANC). Facilita a fala e a grafia, enfim a comunicação.

O conceito PANC é o mais adequado e o mais amplo e por isso mesmo caiu no gosto popular e hoje até as crianças brincam e falam, além permitir trocadilhos diversos. O termo PANC contempla todas as plantas que têm uma parte ou mais partes ou porções que pode(m) ser consumida(s) na alimentação humana, sendo elas exóticas, nativas, silvestres, espontâneas, ruderais ou cultivadas. Inclusive espécies alimentícias convencionais, mas que possuem partes, porções e/ou produtos alimentícios não convencionais também pelo meu conceito amplo são consideradas PANC. Logo, o acrônimo contempla a bananeira (e.g., uso do coração e do palmito); mamoeiro (com uso da medula, dos frutos verdes, sementes e/ou flores) e chuchu (e.g., uso das raízes tuberosas e folhas/talos) e outras espécies que têm formas usos e partes de usos alimentícios potenciais, mas pouco ortodoxos e mal conhecidos ou desconhecidos pela maioria esmagadora da população. Estas espécies não podem ficar de fora, pois um dos objetivos da popularização das PANC é apresentar opções de plantas ou partes destas que possam ser consumidas, trazendo à tona, à baila espécies negligenciadas e subutilizadas.

Como “nasceu” as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)

Antes preciso contextualizar como eu nasci, onde e como vivi e depois como eu vivo. Eu nasci em 1976 na zona rural (São Sebastião do Paraíba, município de Cantagalo/RJ). Este distrito (Arraial) fica à margem do rio Paraíba do Sul na divisa do Rio de Janeiro (RJ) com Minas Gerais (MG). Nasci de parto natural em casa.  Sou o sétimo de nove irmãos (seis homens e três mulheres). Meus pais eram agricultores e toda a família trabalhava na roça como colono numa propriedade rural bem distante e com condições bem limitantes, inclusive sem luz elétrica e sem água encanada. Quando eu tinha aproximadamente 1,5 ano minha família mudou-se para outro sítio bem afastado no distrito de Amparo, Nova Friburgo/RJ para trabalhar como caseiro cuidando da propriedade. Neste sítio também sem energia elétrica vivi até os 19 anos. Desde muito pequeno participava das atividades na roça, seja levando comida ou ajudando nas lidas diárias de roçagens, capinas, manejos em geral, cuidando das criações, plantios, colheitas e na cozinha preparando comidas. Estudei à luz de lamparinas a querosene e/ou velas até o atual Ensino Médio morando e trabalhando no sítio.

Aos 19 anos fui aprovado no Vestibular da UEL (Universidade Estadual de Londrina) para Ciências Biológicas e então mudei (1996) radicalmente do Sudeste para o Sul do Brasil e do interior para uma das maiores cidades da região Sul do país. A UEL foi uma experiência formidável e inesquecível e lá iniciei meus estudos botânicos de modo formal e me apaixonei ainda mais pelas plantas que eu comia, cozinhava e usava como forrageiras para os coelhos e porcos desde a infância. Durante a Graduação tive muitas oportunidades de estágio e vivências e viagens pelo Brasil. Sempre coletando e herborizando plantas e comendo/inventando receitas com aquelas espécies que já conhecia ou tomava conhecimento serem alimentícias. Conheci superficialmente a Amazônia, o Pantanal, a Caatinga e o Cerrado, além da Mata Atlântica do Sul e a Mata com Araucária e campos nas disciplinas e viagens para cursos de campo e congressos durante a Graduação.

No início de 2000 já com a faculdade concluída faltando apenas a colação de grau fiz estágio com o icônico Agrônomo Botânico e autor dos didáticos e aprazíveis livros de Botânica, Harri Lorenzi. Em 2000 mudei para Manaus/AM para fazer Mestrado na Botânica do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) onde ampliei meus conhecimentos botânicos e tive oportunidade de conhecer parte da rica flora amazônica, notadamente aquelas de interesse alimentício, sempre experimentando novos sabores nos trabalhos de campo e nas incursões às feiras e mercados locais.

Em 2002 mudei para Porto Alegre/RS onde em poucos meses consegui uma vaga como Professor Substituto no Departamento de Botânica da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Nesta oportunidade conheci grandes botânicos, colegas desta universidade e de outras instituições deste estado que tem uma grande tradição nos estudos botânicos e que contribui para a botânica nacional. Trabalhando com diversas disciplinas, entre elas Botânica Econômica e “Trabalho de Campo”, pude focar na minha grande paixão que é o comer e a comida, especialmente aquela feita com ingredientes inusitados ou não convencionais. E a melhor das comidas é aquela comida da “mão para a boca”, ou seja, frutos, folhas, flores e miscelâneas que podes ser coletados e consumidos in natura, uma questão de sobrevivência ou de bem-estar (saciar a fome e/ou a sede e entreter) no dia a dia nas andanças e trabalhos nas roças, nas florestas, nos campos e mesmo pelas cidades.

A partir destas disciplinas e de contatos com colegas que direta ou indiretamente pesquisavam plantas diferenciadas que podiam ser consumidas começou a gerado as ideias e os ideais que levariam mais tarde a criação e popularização da expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Um dos focos fortes na disciplina de Botânica Econômica era o potencial alimentício subutilizado ou negligenciado da flora nativa e das exóticas cultivadas ou naturalizadas com visitas a feiras, agricultores e apresentação de seminários sobre a temática, além provarmos receitas com estes ingredientes até então raros ou desconhecidos para a grande maioria, senão todos da turma. E nas expedições de campo aos finais de semana íamos identificando plantas nas constantes paradas ao longo das rodovias, falando dos seus potenciais e já consumindo aquelas que podia ser consumidas cruas e estavam no ponto de coleta.

Além disso, era comum levar o excedente e aquelas que precisavam de processamento e/ou eram mais saborosas quando processadas (notadamente cozidas, fritas ou assadas) para preparar à noite nos alojamentos. E as mais abundantes eram trazidas inclusive para minha casa para o preparo saladas, pratos salgados diversos e as frutas para sucos, frisantes, geleias e licores. Assim começaram a surgir receitas e formas de aproveitamento inusitadas que geralmente eram compartilhadas os colegas e estudantes nas semanas seguintes. Desta forma as pessoas começaram a conhecer e apreciar espécies até então desconhecidas como alimento.

Neste período conheci diversos professores que contribuíram para minha formação e consolidação das pesquisas e do conhecimento botânico e etnobotânicos. Cabe destacar o querido e já falecido Prof. Dr. Bruno Edgar Irgang que sempre deu um apoio moral e aportes de informações preciosas, além de ter me apresentado a sua então orientanda de Doutorado Andréia Maranhão Carneiro que tinha como tema geral o estudo de plantas comestíveis espontâneas. Ela me indicou e/ou emprestou as referências bibliográficas mais básicas sobre plantas com usos alimentícios para que eu iniciasse uma leitura mais aprofundada e técnica sobre aquilo que já gostava de comer porque tinha aprendido com alguém ou em outras fontes e experimentações, mas sempre embasadas em conhecimentos botânicos e noções de Quimiotaxonomia prévios.

Mais adiante o B.E. Irgang me apresentaria a minha futura orientadora de doutorado. Deste período destaca-se também os colegas professores Dr. Paulo Brack e João André Jarenkow, com os quais aprendi muito da vegetação e flora gaúchas. Com este último aprendi a comer os brotinhos tenros das pontas dos ramos da araucária. Logo em seguida tive a oportunidade de conhecer o célebre pesquisador argentino, Prof. Dr. Eduardo Hugo Rapoport (falecido em 2016 e a quem o livro PANC é dedicado), coorientador da A.M. Carneiro na pesquisa anteriormente mencionada. Ele proferiu uma agradável e pitoresca palestra no XI Encontro de Botânicos do RS (Santa Cruz do Sul – UNISC, 2002) sobre as Malezas Comestibles. No dia seguinte a palestra, passeamos juntos pelos terrenos baldios e ruas de Santa Cruz do Sul/RS observando, comendo e coletando algumas plantas alimentícias. Daí nasceu boa amizade e colaborações. Ele me indicou posteriormente bibliografias importantes e compartilhou seus artigos e livros. Como fruto desta parceria eu fui ministrar palestras e oficinas de campo e cozinha com ele em duas oportunidades na Argentina, perfazendo quatro províncias e ele veio proferir palestra no Congresso de Botânica em Curitiba/PR (2005) e na Reunião da SBPC em Manaus/AM (2009), realizando o sonho de conhecer a Amazônia brasileira.

No ano de 2004 eu apresentei o primeiro resumo expandido sobre o tema (mas, usando “plantas alimentícias alternativas”) no então II Congresso Nacional de Agroecologia em Porto Alegre/RS e ministrei uma oficina de identificação destas plantas e preparo de receitas nas dependências do Jardim Botânico de Porto Alegre, em parceria com A.M. Carneiro. A oficina foi um estrondo de público com mais de 70 participantes entre inscritos e curiosos que abarrotaram a cozinha para ver as plantas coletadas amontoadas e degustar as inéditas receitas. A partir daí até então não parei mais de participar de eventos públicos ou privados com palestras e cursos de campo e cozinha, ajudando sobremaneira a formar ou ao menos instigar outras pessoas a pesquisarem mais e a olharem com outros olhos e outra boca as plantas e ir ao campo, bem como às feiras e aos mercados com olhos clínicos em busca do diferente, do não convencional.

Ainda por volta do ano 2002 apresentei a proposta ao Henri Lorenzi para fazermos um livro com fotos e receitas destas plantas alimentícias desconhecidas pela maior parte da população. Ele ponderou e questionou muito, mas topou o desafio, o qual entre a proposta inicial e sua publicação demandou cerca de 12 anos. Em 2004 inicio o doutorado na Faculdade de Agronomia/UFRGS, no Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, sob a orientação da Profa. Dra. Ingrid de Barros e juntos e com muitos amigos e parceiros tanto desta universidade quanto de outras instituições, bem como agricultores e feirantes e notadamente os parceiros do Sítio Capororoca, onde as pesquisas de campo e muitas experiências de culinária e de comercialização na feira foram feitas.

A tese envolveu um trabalho extenuante de campo (coletas, preparo de área/plantios, manejos, viagens, fotografias), de cozinha, de laboratório com as análises de composição centesimal e os preparos para as análises minerais de dezenas de espécies. Bem como o intenso trabalho de revisão bibliográfica e de sistematização dos dados das 312 espécies listadas como tendo potencial alimentício na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). A tese foi defendida no Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária/UFRGS no dia 14/11/2007 com eclética banca e o processo foi intenso e longo. Creio que se iniciou às 14:00 horas e terminou completamente por volta das 19:00 horas. Pela minha experiência em defesas dos colegas como plateia e também a bastante tempo participando de bancas diversas Brasil afora como membro da Banca, a minha defesa teve um público recorde, com mais de 70 participantes e a grande maioria ficou até o final. Soube recentemente que um dos membros da Banca, o conhecido e querido Prof. Dr. Lin Chau Ming (também agricultor e entusiasta das PANC), tarimbado pesquisador costuma falar que nunca participou de banca com plateia tão volumosa. Isto não é (só) exibicionismo, mas é um fato histórico e muito gratificante para demonstrar que em 2007, o tema já atraía muitos interessados. Inclusive um membro da plateia pediu autorização para gravar todo ritual de defesa. Salienta-se claro que ao final tinha vários pratos com incorporação destas espécies feitos principalmente por alguns então estudantes de Gastronomia e equipe do Capororoca entusiasmados com estes ingredientes diferenciados.

A versão final da Tese foi entregue no início de janeiro de 2008 tanto a versão impressa quanto a versão em PDF que está desde então disponível para acesso e download no LUME (Banco Digital de Teses e Dissertações). Felizmente, tem servido de subsídios e estímulos para diversos outros trabalhos, monografias, dissertações, teses, artigos, cartilhas, livros, documentários/vídeos, além de estímulos para agricultores repensarem e diversificarem seus cultivos.

Defendida e entregue a tese, alguns meses depois (14/04/2008) comecei a trabalhar como concursado da área de Agroecologia da então Escola Agrotécnica Federal de Manaus, atual IFAM-CMZL (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste), onde sou docente. Agroecologia e PANC têm tudo a ver e uma das lacunas dos sistemas agroecológicos é a efetiva incorporação aos agroecossistemas das frutas e hortaliças sensu lato PANC, diversificando as matrizes agrícolas locais e incorporando paulatinamente aos cardápios familiares e dos restaurantes ingredientes inusitados.

Por incrível que pareça o acrônimo PANC citado já aqui desde o título e timidamente ao longo do texto, pois é muito difícil atualmente se referir a esta categoria de plantas sem utilizar o “PANC”, nunca foi utilizado nem no título nem nas 562 páginas da minha. Não sei como, mas passou despercebido e não me ocorreu o acrônimo nos títulos e falas das palestras e nem na tese e sempre foi usada a expressão longa. Minha orientadora e nem mesmo os membros da banca sugeriram.

Este nome foi cunhado e começou a ser utilizado durante a execução do projeto coordenado pela Nutricionista Irany Arteche, promovido pela Superintendência da CONAB/PNUD (Companhia Nacional de Abastecimento/ Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Este projeto foi realizado em assentamentos e acampamentos do MST no RS (Nova Santa Rita e entorno). E tornado público a partir da disponibilização online de um documentário gravado por uma dupla de jornalistas do Coletivo Catarse.

É um “termo” fácil de falar e bem eufônico. O conceito representado pelo acrônimo PANC é mais amplo e flexível para tentar categorizar este grupo de plantas subutilizadas ou negligenciadas pelo grande público. Maiores detalhes sobre PANC são discutidos na introdução do livro PANC. Este “movimento PANC” nasceu no RS e espalhou-se para o Brasil timidamente a partir 2003 com minhas palestras e cursos de campo e cozinha e intensificou-se a partir disponibilização da tese online a partir de janeiro de 2008; atingiu um público eclético a partir dos vídeos do projeto PANC anteriormente citado. E vem atingindo proporções históricas a partir da publicação do que chamamos “Livro PANC” – Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas publicado pela Editora Plantarum.

Desde então o tema e o livro têm sido contemplados em diversos programas de TV, matérias de jornais e revistas impressos e online no Brasil e no exterior, sites diversos, blogs e páginas no Facebook com muitos seguidores com a disponibilização de receitas ricas e rebuscadas. Muitos programas de culinária também têm abordados o tema PANC e usados ingredientes de PANC em suas receitas.

Em março de 2018 tivemos uma edição do programa Globo Repórter com foca nas PANC e participação de autores, atores e sujeitos que estudam, produzem, processam, cozinham, vendem, divulgam, compram e, enfim, que comem as PANC. Este é um dos programas mais bem produzidos da televisão aberta brasileira e com grande impacto na sociedade e que atinge um público heterogêneo e muito grande. Espera-se que seja um divisor de água e o acrônimo e a expressão sejam cada vez mais difundidos e popularizados e que as PANC mais comuns, abundantes, de fácil extrativismo, cultivo e/ou processamento sejam melhor incorporadas nas lavouras, hortas e jardins e que cheguem efetivamente à mesa dos brasileiros tanto nas residências, em nossas refeições diárias, como nos restaurantes comerciais e institucionais,  seja como aperitivos, pratos de entradas, pratos principais, bebidas diversas, nas sobremesas e digestivos.

Para a isso conscientização, a informação e formação de tomadores de decisão sejam políticas e/ou de empreendedorismo são essenciais. Especialmente os refeitórios das creches, escolas e universidades, os famosos Restaurantes Universitários (RU), deveriam ser restaurantes didáticos e pedagógicos, ou seja, os estudantes desde a mais tenra idade até a graduação e a pós-graduação deveriam ter acesso verduras, legumes, condimentos, frutas diversos, especialmente os locais, sazonais e mais adaptados e de fácil em cada bioma do Brasil.

Mas, com a simplificação, a quimificação e a crescente urbanização nossa alimentação passou ser cada mais monótona e repetitiva ao longo dos 365 do ano. Monotonia no prato é reflexo de mentes monótonas e da monotonia no campo (i.e., da monocultura baseada em moto-mecanização pesada; insumos industrializados diversos – agrotóxicos, adubos sintéticos; espécies transgênicas e poucas cultivares). Logo, se você leitor(a) ousar comprar ingredientes diferenciados (não convencionais) nas feiras e mercados e deixar de comprar ou minimizar a aquisição de espécies e ingredientes sabidamente pobres em nutrientes e/ou ricos em resíduos de agrotóxicos e/ou que gaste muita energia para ser produzido e/ou transportado até o destino final já estará contribuindo para estimular a Agricultura Agroecológica e para a mudança de paradigma em relação aos ditos “matos” porque não estão nos pratos.

A expressão Plantas Alimentícias Não Convencionais e o acrônimo PANC estão comemorando 10 anos em 2018. Ainda estamos muito longe da utopia e, especialmente, da “eutopia”, que é encontrarmos cardápios e buffet com a incorporação de PANC e também encontrarmos produtos prontos ou processados como sorvetes, sucos, geleias, licores, cervejas e pães com adição de folhas, frutos/frutas e/ou batatas de PANC. Mas, já existe alguns restaurantes e outros estabelecimentos pioneiros no Brasil com PANC nos pratos, e.g., vitória-régia, taioba, chaya, picão-preto, ora-pro-nóbis, moringa, serralha, mini pepinos nativos, flores e frutas diversas, dentre algumas outras espécies.

Mas, as PANC é um mundo a parte para ser mais bem pesquisado nos laboratórios, no campo e na cozinha.  Como escrevemos na introdução do livro PANC a expectativa é de uma Revolução Gastronômica. Este livro já vem sendo adotado e muito utilizado nas faculdades públicas e privadas de Gastronomia, Engenharia e Ciências de Alimentos, Nutrição, Biologia, Agronomia, entre outras. Logo, estes novos profissionais já adentrarão ao mundo do trabalho com visões mais holísticas e quem sabe comecem a criar demandas por ingredientes não convencionais.

Atualmente, este interesse tem crescido muito na Gastronomia e Nutrição, mas ainda precisa ser muito repensado nas clássicas escolas de Agronomia, onde diversas disciplinas tradicionais precisam ser adequadas às novas demandas por ingredientes não convencionais, locais, sazonais, com a menor liberação de carbono para atmosfera. Assim, o escopo das disciplinas de Fruticultura e Olericultura, por exemplo, precisa ser revisto para enquadrar como frutas e hortaliças, respectivamente, espécies até então tratadas como mato, invasoras, infestantes, nocivas ou daninhas.

Neste período de 10 anos, o “bebê” recém-nascido precisava de cuidados especiais, começou a engatinhar, fazer caretas e gracinhas e a cair no gosto das pessoas. Agora é um pré-adolescente que quer alçar voos próprios. Portanto, a expectativa é que daqui a 10 anos (2028) tenhamos muitos mais ingredientes nativos (autóctones) e os exóticos adaptados aos diferentes biomas brasileiros incorporados às lavouras, pomares, hortas, quintais e jardins, nos sistemas agrícolas rurais e urbanos.

E assim, além das PANC continuarem saindo pelas bocas das pessoas durante as conversas, aulas, palestras e programas de TV cada vez com mais frequência e naturalidade, espera-se que continue e amplie a frequência, a constância e a diversidade de entrada das PANC pela boca, ou seja, sua ingestão como alimento seja cada vez comum na nossa culinária do dia a dia. Afinal, a biodiversidade alimentícia que não entra pela boca não tem valor real e fica apenas no campo da retórica abstrata, não gerando calorias, nutrientes, bem-estar, bem-viver, saúde e conservação da natureza, além de poder contribuir para geração de emprego, trabalho e renda. O uso real das PANC é um campo vasto e muito promissor para setores diversos, como turismo rural, gastronomia e até para indústria alimentícia com incorporação de ingredientes inusitados nas pousadas, hotéis, restaurantes e também nos produtos alimentícios processados.

Todos nós temos que fazer nossas partes, especialmente como comensais que somos, selecionando e valorizando os alimentos locais. Bem como valorizando e valorando melhor o profissional mais importante do mundo que é quem coloca comida em nossas mesas, o agricultor. Afinal “Somos Agro”, mas temos a muito esquecido nosso lado de agricultor e poucos querem trabalhar efetivamente no campo. Eu felizmente consegui retornar ao campo, uma volta às origens que relatei anteriormente e voltei a ser agricultor. Atualmente, vivo e cultivo diversas espécies de PANC para autoconsumo e já forneço para alguns restaurantes. O pequeno sítio onde moro chama-se “Sítio PANC”.

Alimento e água são as coisas mais importantes do mundo e um não se dissocia do outro. As PANC adaptadas aos diferentes ambientes do planeta têm grande potencial para incrementar as matrizes agrícolas mundiais, diversificar cardápios, minimizar a fome real e a fome oculta e contribuir para a conservação dos solos, das águas e dos recursos naturais em geral.

Valdely é biólogo e autor do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil em coautoria do Harri Lorenzi. Doutor em Fitotecnia-Horticultura (2007) pelo PPG Fitotecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, Campus Manaus-Zona Leste (IFAM-CMZL) e Fundador-Curador do Herbário EAFM deste instituto. Docente e orientador credenciado no Programa de Pós-Graduação em Botânica do INPA. Atua na pesquisa e divulgação das PANC – Plantas Alimentícias Não Convencionais.

Entre a monotonia e a emergência da agrobiodiversidade alimentar

Entre a monotonia e a emergência da agrobiodiversidade alimentar

Paulo Brack e Matias Köhler

O fato de o Brasil ser um dos países com a maior biodiversidade do mundo já não é novidade (FIORAVANTI, 2016). Contudo, saber que grande parte dessa biodiversidade pode ser utilizada na alimentação ainda gera espanto e estranhamento. Cará, araruta, jaracatiá, pequi e jatobá são alguns ingredientes provenientes da flora nativa, mas de conhecimento e de uso restrito à pequena parte da população.

De fato, a alimentação das sociedades, consideradas modernas, é pobre em espécies e variedades de plantas utilizadas, mesmo nossos biomas brasileiros abrigarem milhares de espécies de plantas alimentícias. Situação semelhante à nossa ocorre no restante do mundo. Atualmente, somente vinte espécies vegetais fornecem 90% do alimento humano do planeta, sendo que apenas três delas — trigo, milho e arroz — fornecem mais da metade (WILSON, 2012). Além disso, a maior parte das plantas desenvolvidas para a alimentação humana teve origem em climas mais frios e se expandiu na maior parte do mundo também tropical, cultivadas em monoculturas vulneráveis e altamente suscetíveis à doenças e ataques de insetos e outros organismos, que se costumou chamar de “pragas”.

O uso de poucas espécies na alimentação está mais relacionado a um imperialismo agroalimentar e pouco conhecimento acerca das plantas que nos cercam – uma verdadeira cegueira botânica, do que a falta de opções. O pesquisador alemão Günther Kunkel (1984) foi o pioneiro no levantamento de plantas alimentícias de todo o mundo, tendo citado 12,5 mil espécies com este potencial em todos os continentes. Edward Wilson (1988) estimou que ocorressem no mundo 75 mil espécies alimentícias, e destacou que muitas são superiores em vários aspectos nutricionais às plantas convencionalmente cultivadas. Eduardo Rapoport et al. (2009) chegaram a uma estimativa semelhante a de Wilson, reconhecendo que 25% das plantas de muitas floras são representadas por plantas alimentícias. Estudo de Valdely Kinupp (2007) obteve como resultado 311 espécies com uso atual ou potencial alimentício da flora nativa da Região Metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o que representa cerca de 20%, da flora da região. Com base em todos estes estudos, Kinupp estima que os percentuais de plantas alimentícias variem entre 10% e 20% de cada conjunto de floras regionais ou locais.

Em nosso país, segundo o Projeto Flora do Brasil, coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, existem identificadas não menos do que 33 mil espécies de plantas fanerogâmicas brasileiras. Já que as fanerógamas se constituem no principal grupo taxonômico que reúne as plantas com potencial de alimento ao ser humano, teríamos, então, uma estimativa da ocorrência de pelo menos três mil e trezentas espécies alimentícias nativas, nos diferentes biomas, entre frutíferas, hortaliças e produtoras de nozes, castanhas, condimentos, polpas, entre outros produtos.

A maioria destas espécies é usada culturalmente por povos indígenas e comunidades tradicionais, mas no Brasil, muitas vezes, nossas plantas recebem algum valor somente depois de exportadas, beneficiadas e ganharem fama em outros países. É o caso da castanha-da-amazônia ou brazil nut (Bertholletia excelsa), da aroeira-vermelha ou brazilian pepper (Schinus terebinthifolius), que são exportadas principalmente para a Europa. Outras, inclusive, tornaram-se alvo de biopirataria por empresas de países de outros continentes. Um caso emblemático foi o do cupuaçu (Theobroma grandiflorum), da Amazônia, cujos produtos quase foram patenteados com êxito por parte de uma empresa japonesa, não fosse o governo brasileiro sair atrás do prejuízo e reverter o processo. Outro caso, ocorrido há muitas décadas, trata-se da goiabeira-serrana, ou feijoa (Acca sellowiana), levada do sul do Brasil e Uruguai para os EUA e, hoje, sendo cultivada comercialmente com sucesso em países como Nova Zelândia e Colômbia. A eventual oferta desta fruta, nas cestas de supermercados brasileiros, provém da Colômbia, com preços exorbitantes, que podem alcançar o valor de 70 reais o Kg.

A agricultura moderna, considerada por setores da grande mídia como a “locomotiva da economia”, vem gerando grande volume de problemas ambientais, principalmente aqueles derivados do uso crescente de agrotóxicos, da perda da biodiversidade e do próprio estrangulamento da diversidade de atividades geradoras de renda, com concentração crescente de terras. Somos, cada vez mais, reféns da exportação de grãos e de commodities. Isso também gera negligência sobre nossos recursos, situação resultante da lógica da priorização da agricultura empresarial ou industrial e a grande escala da produção agrícola, deixando os agricultores com poucas alternativas de se desvencilharem do modelo de dependência atrelado às monoculturas de exportação. Como consequência disso, aproximadamente 75% da diversidade agrícola mundial já foram perdidas no último século (FAO, 2013).

Não é razoável que sejamos os campeões do uso de agrotóxicos e obrigados a seguir testemunhando a transformação de dezenas de milhões de hectares de riquíssimas floras de diferentes regiões de cada um dos seis biomas brasileiros, com seus respectivos ecossistemas com excepcionais características locais desenvolvidas há muitos milhares de anos, em imensas paisagens totalmente homogêneas (BRACK, 2017). Estamos a ver sucumbir nossa biodiversidade sob a pesada produção mecanizada, quimificada e insustentável de soja e de outros grãos, ou a produção de dezenas de milhões de cabeças gado em áreas não originalmente florestais e de savanas (cerrados), sem falar nos milhões de hectares de lavouras de madeira para celulose. Comprometemos a funcionalidade ecossistêmica necessária no campo, que necessita da diversidade de flora e fauna, e a funcionalidade da cultura alimentar e da ecologia humana. A produção de alimentos é uma função também social e deveria corresponder ao respeito constitucional, incluso no Art. 225 da Constituição Federal, que garante o direito ao meio ambiente equilibrado, com proteção à diversidade biológica e aos processos ecológicos. Esta circunstância da inviabilidade das monoculturas já foi denunciada na metade do século passado pelo botânico paulista Frederico Hohene (1946), pioneiro no estudo das frutas indígenas brasileiras. Segundo este autor:

“Acreditamos que na policultura reside maior garantia contra eventuais cataclismos, dificuldade de transporte, e carência de recursos de outra natureza […]. Além disso, devemos considerar que na policultura reside mais encanto e maior  alegria, porque em cada mês surgem cousas diferentes, e num mesmo dia aparece maior variedade. A monotonia, que tanto desalenta, fica destituída das cogitações daquele que se entrega à policultura. Aliás, a vida exige variedade, porque a própria natureza é variada.”

Por sorte, desde a década passada, existe um movimento de resgate das plantas nativas na alimentação, juntamente à busca por alimentos da agroecologia, situação que também reflete a busca por uma vida mais saudável frente às monoculturas que estão associadas ao uso de alta carga de agrotóxicos. A agrobiodiversidade emerge, por meio da agricultura das famílias campesinas que veem sentido na convivência com a diversidade de produção de sementes crioulas e na valorização da natureza. As plantas alimentares não convencionais são resgatadas ou descobertas pela primeira vez, gerando resiliência, renda e uma vida mais digna para quem produz e para quem consome. No escopo desta diversidade agrícola, portanto, estão as plantas alimentícias nativas e espontâneas, que crescem e nascem sozinhas em ambientes favoráveis, indicando as vocações locais, inseridas no conceito das plantas alimentícias não convencionais (PANC), tanto na produção como no consumo.

Esta diversidade parte da oferta de estruturas vegetais como raízes, caules ou tubérculos, bulbos, rizomas, talos, folhas, brotos, flores, frutos e sementes, bem como de produtos utilizados ou com potencial para a alimentação humana. Começam também a ser estudados, por instituições de pesquisa, o conteúdo nutricional e as formas de produção de polpas, látex, resinas e gomas ou outras partes usadas para a obtenção de óleos e gorduras comestíveis. A diversidade engloba ainda as especiarias, as plantas condimentares e/ou aromáticas, assim como as que são utilizadas como substituintes do sal, corantes alimentares, edulcorantes naturais, amaciantes de carnes e também fornecedoras de bebidas, tonificantes e infusões.

No Rio Grande do Sul, somente no que se refere às plantas nativas com frutos e sementes comestíveis (o que chamamos de frutíferas), existem mais de 200 espécies. Cerca de 60% das frutíferas no Rio Grande do Sul são árvores ou palmeiras, mas o dado que chama a atenção é que os 40% restantes representam uma grande diversidade de formas biológicas, como ervas, arbustos, trepadeiras e epífitas. Desde uma década para cá, estas espécies vem lentamente ganhando algum espaço (KÖHLER & BRACK, 2016). Em regiões do bioma Cerrado, o desenvolvimento das frutas nativas está também em ascensão, principalmente na produção de sorvetes.

Cabe lembrar que PANC não se restringem às plantas nativas. O conceito é usado a todas as plantas que não são convencionais utilizadas em nossos cardápios ou que não são produzidas em sistemas convencionais (agricultura industrial ou convencional). A união das espécies nativas alimentícias com as demais não nativas, nos diferentes sistemas de produção, provoca efeito sinérgico no fortalecimento das plantas da agrobiodiversidade e das culturas humanas associadas.

Obviamente, o caminho para o êxito das PANC, nativas ou não, é também cheio de revezes. Parlamentares e representantes das empresas transnacionais, que se consideram donos de nossas sementes e variedades, atuam junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária para enfraquecer a autonomia dos agricultores e de suas organizações, como cooperativas, associações ou ONGs, no âmbito da produção e troca autônoma e local de sementes e propágulos das plantas da agrobiodiversidade.

A luta é dura, como a de Davi contra Golias, para que as sementes crioulas e outras formas de reprodução de plantas associadas a diferentes regiões, culturas tradicionais e alimentares tenham o espaço da sociobiodiversidade de direito, hoje negado pelo setor pesado do agronegócio. Mas, a expansão paulatina das feiras de produtos agroecológicos e orgânicos por parte de agricultores familiares e campesinos, o interesse crescimento de grupo de consumidores desses produtos, o crescimento na investigação científica dos componentes nutricionais e no resgate e inovação de receitas com nossas plantas, o incremento dos sistemas agroflorestais (SAFs), em muitas regiões dão a esperança de que as cepas de resistência estão se consolidando para que se possam superar as adversidades.

Quem sabe setores importantes dos governos e da sociedade coloquem este tema no eixo estruturante de suas ações para uma sociedade mais justa e sustentável, que comungue de outros paradigmas necessários para a humanidade viver com mais igualdade e felicidade. Como Hoehne já dizia, e não custa repetir: “a vida exige variedade, porque a própria natureza é variada”.

 

Referências:

BRACK, P. (2017) O modelo insustentável do agronegócio brasileiro. Revista Textual n. 26, 28-35.

FAO (2013) FAO Statistical Yearbook, 2013 – World Food and Agriculture. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations.

FIORAVANTI, C. (2016) A maior diversidade de plantas do mundo. Pesquisa FAPESP n. 241, 42-47.

HOEHNE, F.C. (1946) Frutas indígenas. São Paulo: Instituto de Botânica, Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio.

KINUPP, V.F. (2007) Plantas Alimentícias Não-Convencionais da Região Metropolitana de Porto Alegre, RS. Tese (Doutorado em Fitotecnia) Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia, Faculdade de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

KÖHLER, M.; BRACK, P. (2016) Frutas nativas no Rio Grande do Sul: cultivando e valorizando a diversidade. Revista Agriculturas 13 (2), 7-15.

KUNKEL, G.W.H. (1984) Plants for human consumption: an annotated checklist of the edible phanerogams and ferns. Koenigstein: Koeltz Scientific Books.

RAPOPORT, E.H;  MARZOCCA, A.; DRAUSAL, B.S. (2009) Malezas comestibles del Cono Sur y otras partes del planeta. Bariloche: INTA.

WILSON, E. (1988) The current state of biological diversity. In: WILSON, E.O. & PETER, F.M. Biodiversity. 521 pp. Washington, D.C.: National Academy Press.

WILSON, E.O. (2012) Diversidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras.

Paulo Brack é professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da UFRGS, membro da coordenação do InGá.

Matias Köhler é biólogo, mestrando em botânica (UFRGS), vice diretor do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – InGá

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC): Biodiversidade alimentar e suas representações no Brasil.

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC): Biodiversidade alimentar e suas representações no Brasil.

Emergente no Brasil, as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) é um conceito associado às discussões acerca de alternativas alimentares para o mundo. Em 2017, este conceito completou 10 anos e, desde 2014, saiu das fronteiras da universidade e vem ganhando visibilidade entre segmentos da sociedade civil, especialmente em grandes capitais. Considerando a ampla repercussão desse termo na sociedade brasileira, bem como sua associação com as temáticas de agrobiodiversidade, gastronomia e alimentação saudável e sustentável – temas transversais para refletir e compreender os hábitos alimentares brasileiros -, trazemos essa pauta para a quinta temática da sessão Fome de Saber do observatório.

As contribuições de Kinupp na literatura acadêmica, especialmente na área da botânica, corroboram com estudos que dentro da temática de agrobiodiversidade apresentam a capacidade de recursos alimentares no planeta, bem como, alertam para a preocupante e contínua redução da utilização desses recursos pela humanidade. Além das PANC, existem outros conceitos, aparentemente semelhantes que convergem na problematização do fenômeno de erosão da agrobiodiversidade e o desconhecimento acerca dos recursos alimentares no mundo, ambos processos decorrentes dos processos de modernização da agricultura e urbanização dos aglomerados humanos.

Hortaliças tradicionais; Plantas ruderaisEdible weeds; Quelites; Wild food plants; Malezas comestibles ou Neglected and Underutilized Species. Todos esses conceitos dizem a mesma coisa? É possível apresentá-los como sinônimos ao conceito PANC discutido no Brasil? Tendo em vista esse panorama de estudos, pesquisas e implicações políticas ligadas à alimentação e nutrição que percebe-se a importância de oportunizar um espaço de diálogo onde esses diferentes conceitos sejam trazidos à luz da reflexão coletiva e, dessa forma, contribuam na articulação e difusão de conhecimentos que fortalecem as lutas sociais ligadas ao Direito Humano à Alimentação Adequada e Segurança Alimentar e Nutricional.

As PANC são nosso ponto de partida para desbravar as contribuições conceituais em torno da discussão de alternativas alimentares para o mundo. Quais as potencialidades trazidas com esse conceito no Brasil? Como vem se consolidando as narrativas populares e acadêmicas em torno deste tema? Quais as discussões e abordagens que se relacionam e/ou ancoram as ações e reflexões teóricas quando falamos em alimentos alternativos e sustentabilidade?

Buscaremos responder estas perguntas, bem como, criar outras a partir das contribuições de pessoas que compartilham aqui suas experiências, acadêmicas ou não, neste fértil campo de saberes que circunscreve as Plantas Alimentícias Não Convencionais.

Acompanhe as publicações e desbrave as possibilidades alimentares disponíveis na natureza!

Bruna de Oliveira é nutricionista, bolsista de pesquisa no Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin da Fiocruz Brasília, mestranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural na Faculdade de Planaltina – Universidade de Brasília. Integrante do GT de Agricultura Urbana em Brasília/DF. Dona do site Crioula, trabalha com Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANC.

Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Denise Oliveira e Silva

Danielle Cabrini

*Este texto é baseado no artigo Silva, D O, Cabrini, D. Trajetórias biográficas do aumento e excesso de peso de mulheres do Programa Bolsa Família, Brasil. Com.Ciências Saúde; 28(2). No prelo 2017.

 

O estado nutricional é a consequência das características do consumo alimentar e de sua utilização biológica no corpo humano e se expressa por meio de uma cadeia causal em que aspectos históricos, econômicos, sociais, culturais e biológicos fazem parte de uma rede de inter-relações importantes em sua determinação.

No Brasil, dados do sistema VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), apontam que houve variação temporal significativa entre os anos de 2006 e 2016 na prevalência de excesso de peso e obesidade nas mulheres para ambas as condições, aumentando a prevalência do excesso de peso de 38,5% para 50,5% e  de 12,1% para 19,6% a prevalência da obesidade. O fenômeno do excesso de peso e da obesidade é multicausal e crescente na população feminina brasileira com tendência para se deslocar para a Região Nordeste e para as classes de menor renda.

O advento de estudos e pesquisas de abordagem quantitativa para compreender o  fenômeno da obesidade têm sido realizados no Brasil, ao passo que são escassos os estudos sobre a compreensão do fenômeno do excesso de peso como expressão histórico-econômica e social, circunscrita na biografia dos sujeitos que vivem esta experiência. A leitura do gênero na avaliação do estado nutricional como categoria de análise das práticas sociais e a teia de poderes a partir dos ciclos de vida da mulher se destacam nesta abordagem, em que o corpo é a entidade física do trabalho, prazer e saúde. O entendimento desta categoria visa explorar a sua potencialidade de ampliação e de avaliação crítica dos fatores que diferenciam o aumento da massa adiposa em indivíduos adultos. Nesta compreensão, os caminhos que a mulher percorre para seu amadurecimento em nível biológico e social. O ideário do peso como símbolo de habilitação social está colocado, principalmente para as mulheres que tem a interação de ciclos biológicos com o  processo de socialização e cultura.

A Fiocruz Brasília desenvolve pesquisa sobre a história biográfica de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF) no Brasil e o objetivo deste texto é apresentar e discutir  de forma breve os resultados desta pesquisa.

Trata-se da descrição de cinquenta narrativas biográficas de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família no Brasil, com idade entre 20 e 55 anos, das cinco macrorregiões brasileiras, utilizando o método história de vida. As entrevistas foram realizadas por telefone por estudantes de cursos de graduação  das áreas de saúde ou de ciências sociais, obrigatoriamente do sexo feminino, no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2017. O processo de análise dos dados seguiu as etapas de transcrição das entrevistas, leitura exaustiva deste material, organização em categorias de significados e análise por meio do caminho interpretativo proposto pela Hermenêutica-Dialética e da abordagem da Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty.

No decorrer das primeiras entrevistas foram encontrados dois tabus linguísticos. Tabu, é definido por inúmeros autores como algo proibido e interdito de caráter próprio e impróprio. O que caracteriza  a denominação de tabu linguístico é algo proibido de ser dito. Podem ser expressão de crenças e valores da sociedade de desaprovação, por meio de itens lexicais aos quais se atribui algum poder e que, se violados, poderão trazer perseguições e castigos para quem os emprega.

A palavra “obesa” foi o primeiro tabu lingüístico identificado. Dito pelas entrevistadoras no primeiro contato, quando apresentavam o título da pesquisa, constituiu-se de uma palavra de rejeição pois associava-se com significado de doença. Para as primeiras entrevistadas, o sentido desta palavra não expressava sua experiência corporal. Haveria um sentido reconhecido e significante de gordura que não se traduziria como “obesa”. Assim, os eufemismos usados em substituição foram  “gordinha”, “cheinha”, “fofinha” e “acima do peso”. A palavra “fome” foi o segundo tabu linguístico identificado. Seu relato em geral marcava algum evento da infância na região nordeste do semi-árido brasileiro e se constitui de um núcleo de sentido com forte componente traumático. A presença destes tabus lingüísticos foram importantes expressões simbólicas de linguagem de re-criação e re-constituição de mundo vivido entre sujeitos da pesquisa e entrevistadoras. Em busca de construir trajetórias biográficas como expressões de linguagem como atos instituintes e criativos de um meio simbólico social vivido. Portanto, as narrativas biográficas desvelaram diversos sentidos imbricados, os biológicos somados aos afetivos, sociais e culturais, pela experiência de contar a história de corpos de desejos, gostos, preferências, rejeições, aversões  individuais e coletivas.

Nas narrativas biográficas o aumento do peso expressa-se pelos ciclos biológicos reprodutivos e pela internalização de uma “força” necessária para a assunção dos papéis de mãe e de dona de casa para enfrentar a luta pela sobrevivência.

“(…) o peso aumenta sem a gente perceber(…) o corpo aumenta na vida da mulher e a gente não liga(…) ficar prenha é danado para engordar e depois não se vai ter o  corpo de antes e ainda vem um menino atrás do outro(…) quando vira excesso a gente vê e outros fala”(…)”

(Entrevistada de uma cidade rural)

Muito cedo nas biografias das entrevistadas o corpo é um instrumento de sobrevivência. Na  infância é referido para brincadeiras e o trabalho doméstico familiar como parte dos ritos simbólicos de diferenciação social e cultural e de gênero. O aparecimento da menstruação foi o sinal biológico da passagem para a adolescência. Neste período, são relatadas  mudanças de comportamento e de imagem corporal, como a definição das características femininas de aumento das mamas, dos quadris e de outras partes do corpo. Nas narrativas biográficas observa-se a menção de um passado recente onde o corpo é adjetivado como “belo”e “bonito”. A internalização do aumento do peso como força inicia-se na gravidez, que pode ocorrer ainda na adolescência. É considerado como algo natural e preconizado pelas recomendações de saúde.  O aumento do peso é um momento da simultaneidade dos papéis biológicos, sociais e simbólicos-culturais de atendimento à gestação e amamentação e da assunção dos papéis de mãe e de dona de casa pelo reconhecimento de um corpo que precisa ser “forte” para enfrentar este período.

As entrevistadas são beneficiárias do PBF, que apresenta modelo familiar preponderantemente nuclear, onde em quase 50% dos lares está ausente o cônjuge (marido ou companheiro) “configurando uma estrutura familiar monoparental, como também convivem nas residências outras pessoas ademais de pai, mãe e filhos” que junto com a provisoriedade e a incerteza sobre a renda familiar, principalmente afetada pelo desemprego. As ações familiares são praticadas por estas mulheres que sozinhas ou acompanhadas assumem como condição cultural e social de gênero a responsabilidade pela maternagem, os afazeres domésticos e o cuidado da família. Nesta pesquisa, as entrevistadas reconhecem estes encargos e referem que precisam ter um corpo com força e vitalidade para  atender as demandas de sobrevivência e seus papéis no ciclo de vida familiar.

Assim, a força do corpo pelo aumento do peso cresce internalizada como necessária à sobrevivência para atender as responsabilidades pela vida e revela outro ponto chave biográfico: o reconhecimento de um corpo-acima do peso.

(…)até eu ter problema de pressão alta eu não ligava para meu peso(…) sabia que estava gordinha mas ia levando a vida assim(…) não vou ser artista e madame para ficar fazendo dieta(…) e não tenho dinheiro para comprar as coisas de dieta e ir para a academia(..) mas quando a pressão subiu e eu fui para o hospital e o médico disse que se eu não diminuísse a gordura eu teria um AVC eu lembrei de meu filhos pequenos e estou tentando fazer dieta(…) não consegui ninguém para me ensinar(…) os médicos falam mas não ajudam quem é pobre(…) ele ficam com raiva da gente, como se nóis tem culpa de pedir consulta(…) eu sei que eu fiquei assim gordinha pela vida que eu tive(…)”

(Entrevistada de uma periferia de uma metrópole)

O discurso de combate a pandemia do excesso de peso e da obesidade dos programas e políticas públicas no Brasil e no mundo, sustentado pela mídia, representam-se como elementos do biopoder  cunhado por Foucault  de racionalidade biomédica e de estética corporal principalmente para o gênero feminino. Com a cultura de consumo como reguladores sociais e de produção de hábitos alimentares e de padrões de imagens corporais e os imperativos sanitários nas sociedades modernas atuais.

As narrativas sobre o corpo acima do peso revelam algumas questões referentes a corporeidade feminina, que passou de entidade funcionalista, sede de dogmas religiosos de impureza, sacrifício, culpa e purificação para ser valorizado nas sociedades industriais como“o corpo desejável”. O  excesso de peso é um desconforto contido na definição de qual é o peso corporal de referência, envolto a dúvidas sobre que parâmetros devem ser atendidos.

Num contexto de vida marcado pela pobreza e pela miséria, a mulher assume árduos papéis sociais e simbólicos-culturais de gênero e o corpo revela-se como entidade de  força e vigor como estratégia de sobrevivência. Quando fica acima do peso, revela-se também como simulacro de estigmas sociais, reconhecidos por elas quando referem o excesso de peso.

Os resultados apresentados podem contribuir para reflexões iniciais sobre os percursos biográficos de mulheres pobres classificadas como obesas pelos parâmetros biomédicos que relatam a pobreza, a fome e a miséria em seu percurso de vida. Nos limites deste estudo, pode-se vislumbrar de forma inicial, que as chaves biográficas apontadas nesta pesquisa, demonstram a necessidade de compreensão dos elementos perversos da pobreza na determinação social do excesso de peso em populações pobres.

A necessidade de compreensão sobre as estratégias de sobrevivência que estabelecem a corporeidade simbólica do corpo-força, está colocada como desafio que ressignifica o conceito de aumento de peso como resposta de um cotidiano de desigualdade social nas mulheres que participam deste estudo. Pode-se inicialmente refletir com base nos resultados desta pesquisa que a força reconhecida como necessária para a sobrevivência, desenvolve a corpulência, para lidar com a desigualdade social determinadas por fatores relacionados à prática de hábitos alimentares inadequados, os biológicos (ganho de peso na gravidez, desequilíbrios hormonais, síndromes e patologias metabólicas, etc..) e psicossociais relacionados ao excesso de peso.

Alguns questionamentos precisam ser refletidos  a medida que os resultados demonstram o reconhecimento do excesso de peso e obesidade atestado por parâmetros antropométricos como também subjetivos. E  revelam os dogmas morais biomédicos e estéticos vigentes pela exclusão e a imposição de valores de corpo “não desejável” resignificando, junto com a “fome”, tabus linguísticos de dor, revolta e lembranças ameaçadoras de um grupo populacional excluído pela pobreza, pela miséria, pela fome, pela área geográfica de nascimento e pela cor da pele. Finalmente, o dilema de reconhecer o peso excessivo corporal nestas mulheres deve ser refletido à luz da emancipação da mulher sobre sua corporeidade, sem os julgamentos sociais e os estigmas moralizantes estéticos e biomédicos, em programas e políticas públicas de informação, comunicação e educação no campo da saúde, da alimentação e da nutrição no Brasil.

 

Referências:

Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2016: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26estados brasileiros e no Distrito Federal em 2016. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.

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Mallimaci F, Giménez-Béliveau V. Historias de vida y método biográfico. Estrategias de Investigación cualitativa. Barcelona: Gedisa; 2006.

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Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).

Danielle Cabrini é nutricionista e sanitarista, doutora em Saúde da Criança e da Mulher (IFF/Fiocruz). É professora da Universidade Federal de Espírito Santo (UFES), atualmente em exercício na Universidade de Brasília (UnB). Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.

Excesso de peso e obesidade como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil

Excesso de peso e obesidade como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil

*Ana Maria Segall Corrêa

Relatório da organização Mundial da Saúde (OMS-Fact sheet- Updated October 2017) traz a preocupante informação que 1,9 bilhões de adultos no mundo estão obesos e mais de 340 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 19 anos de idade, tem sobrepeso ou obesidade. Segundo dados da OMS, a prevalência de obesidade no mundo praticamente triplicou desde 1975.

Estudos internacionais têm verificado que, tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em vias de desenvolvimento, a tendência de aumento da obesidade está presente em todas as faixas etárias e de renda. Observa-se, entretanto, que a magnitude deste aumento é maior entre mulheres de grupos populacionais socialmente mais vulneráveis. Nos países desenvolvidos a obesidade tem avançado de forma significativa, também entre os homens.

No Brasil análises de dados do VIGITEL/Ministério da Saúde mostraram que a prevalência de obesidade, entre 2006 e 2016, subiu de 11,8% para 18,9% no grupo de pessoas 18 anos ou mais. No período de 2006 a 2009, outro estudo de série histórica do VIGITEL observou aumento nas prevalências de obesidade entre mulheres brancas e de menor escolaridade.

Análises de pesquisas de base populacional, realizadas a partir dos anos de 1970, mostram transição nutricional no Brasil, com redução acentuada da desnutrição e aumento progressivo do sobrepeso/obesidade.  Em 1975 havia uma mulher obesa para duas desnutridas, em 1997 esta relação estava invertida, eram mais de dois casos de mulheres obesas para um de desnutrição. Estas pesquisas mostraram também desigualdade de renda significativa nas tendências de aumento da obesidade, mas não na redução da desnutrição.

Entre 1975 e 1997, no grupo de mulheres 25% mais pobres o aumento da obesidade foi de 168%, já no grupo das 25% mais ricas esta elevação foi de apenas 11,2%, nos dois grupos a redução da desnutrição foi praticamente igual, cerca de 40%. Essas informações atestam, como na maioria dos países, que as prevalências de obesidade apresentam desigualdades em relação ao gênero e a renda. Entre 1975 e 1989 houve aumento da obesidade em todos os níveis de escolaridade e em todas as macrorregiões do Brasil. Porém, na década seguinte, de 1989 a 1997, houve aumento da prevalência de obesidade entre os indivíduos sem escolaridade e redução significativa da prevalência entre mulheres de média e alto nível de escolaridade.

Dados mais recentes da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF 2008/2009) mostram resultados de desvios nutricionais entre crianças, na faixa etária dos 5 aos 9 anos, compatíveis com as tendências relatadas. O déficit de peso (<2 Z escore) foi observado em apenas 4,3% dessas crianças e a obesidade (>2 Z escore) em 14,3%, entretanto a relação com o rendimento familiar é o oposto da observada entre mulheres. As crianças de estratos de renda familiar mais altos, acima de 5 salários mínimos per capita (SMPC), tem prevalência de obesidade cerca de 3 vezes superior à observada no estrato de rendimentos abaixo de ¼ de SMPC.

Há consenso de que a obesidade é multidimensional e cuja determinação tem fortes componentes sociais, econômicos, ambientais, culturais e também, biológicos. Recentemente o fenômeno da insegurança alimentar tem aparecido como figura associada ao ganho excessivo de peso. Argumenta-se, neste contexto, que desigualdade no acesso à alimentação saudável é um dos mecanismos pelos quais as condições socioeconômicas influenciam a dieta e, consequentemente a saúde das populações. Tradicionalmente, o ganho excessivo de peso tem sido relacionado ao balanço energético inadequado resultante de ingesta calórica aumentada e baixa atividade física. Entretanto, estudos mais recentes colocam outros fatores associados à obesidade, alguns deles por processos biológicos que levam ao aumento da ingesta ou a escolhas alimentares obesogênicas e outros mecanismos que atuam como mediadores da relação entre insegurança alimentar e obesidade.

O Simpósio, “Insegurança alimentar e Saúde no Ciclo da Vida” (Food Insecurity and Health Across the Lifespan) organizado em 2012 por Advance in Nutrition- an International Journal (Oxford Press) e publicado em 2013 sintetizou os conhecimentos disponíveis até aquele momento sobre a relação entre insegurança alimentar, nos seus aspectos qualitativo e quantitativo, ganho de peso excessivo e maior risco de doenças crônicas.

É sabido, que a insegurança alimentar domiciliar leva indivíduos e famílias a basear sua alimentação em itens alimentares baratos, de paladar agradável e, em geral, com alta densidade energética. Se esta circunstância ocorre de forma periódica, por exemplo, ao final de cada mês quando os recursos no domicílio são mais escassos, poderá haver aumento de peso naqueles indivíduos afetados pela carência alimentar em um curto espaço de tempo.

Falando ainda sobre a publicação acima, para que este mecanismo obesogênico ocorra seria necessário: a) que nos domicílios as pessoas sejam dependentes de uma alimentação barata e densamente energética; b) que no domicílio ocorra um padrão cíclico de consumo alimentar, por exemplo, mais adequado no período de maior recurso financeiro, em geral no início do mês, seguindo de um período de consumo inadequado por escassez destes recursos; c) que este mecanismo cíclico ocorra ao longo de um período de tempo tal, que resulta em alteração do metabolismo dos indivíduos e em balanço energético positivo. Alguns outros fatores podem ocorrer interferindo neste processo ou surgindo como seu resultado, de qualquer forma, contribuindo para ganho excessivo de peso.

Do ponto de vista biológico tem sido bem descrito que, sob condições de estresse há aumento da produção de cortisol e outras substancias produzidas pelo estímulo do eixo hipotálamo/pituitária/adrenal, surgindo ainda neste processo as vias de recompensa (reward pathways), que podem resultar, tanto no desejo de consumo de alimentos densamente energéticos quanto na alteração do metabolismo. Reconhecendo que a insegurança alimentar e a fome são fatores estressantes suas consequências podem agravar se estes fenômenos ocorrerem em períodos críticos do desenvolvimento, induzindo futuramente nos indivíduos síndrome metabólica.

Ainda são escassas as pesquisas no Brasil que avaliam o papel da insegurança alimentar na gênese da obesidade e de suas co-morbidades. Os estudos que analisaram dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS 2006) revelam que a insegurança alimentar severa aumentou em 49% a chance de obesidade em mulheres em idade fértil. Em adolescentes a insegurança alimentar moderada, mas não a severa, aumentou em 96% a chance de sobrepeso. Certamente existem vários fatores mediadores nesta relação que precisam ser mais explorados, sobretudo em estudos longitudinais. Apesar desta constatação, já existem algumas informações que podem explicar a associação entre carência alimentar e sobrepeso e obesidade, na população brasileira, tomando como base os mecanismos já mencionados.

Dados da POF (IBGE 2002/2003) publicados em 2005, apontam que o consumo de alimentos essencialmente calóricos como, óleos e gorduras vegetais, gordura animal, açúcar, refrigerantes e bebidas alcoólicas representavam 28% do total de energia consumidos ao dia, carnes, leite e derivados e ovos 19% e, frutas, verduras e legumes contribuíram apenas com 2,8% dessas calorias.

Análises mais recentes (POF 2008/2009) confirmam a tendência de mudança nos hábitos alimentares da população brasileira, com consumo excessivo de açúcares livres e gorduras saturadas e, ainda, presença insuficiente de frutas, verduras e legumes na dieta.

Estudos de base populacional, sobre insegurança alimentar no domicílio e consumo alimentar, realizados em Campinas em 2004, mostram que a medida que se agrava a insegurança alimentar, de moderada para grave, piora a qualidade do consumo alimentar das famílias.  Nos domicílios com insegurança alimentar grave, a frequência de consumo diário de carnes era em torno de 10%, de leite inferior a 30%, verduras e legumes em torno de 40% e o consumo de frutas abaixo de 10%, já os açúcares e óleos tinham frequência de consumo em torno de 70%.   Agravando esta situação de baixa qualidade da alimentação, nos domicílios que conviviam com insegurança alimentar grave, um percentual significativo das pessoas entrevistadas, geralmente uma mulher adulta, referia hábito de não fazer todas as principais refeições do dia.  Entre elas 20% não tinham habitualmente o café da manhã, pouco mais de 16% não costumava almoçar e 20% não jantavam. Estes resultados sugerem que, em presença de insegurança alimentar domiciliar, o padrão alimentar da família está comprometido, não apenas quantitativamente, mas também qualitativamente e que a escassez de recursos, podem levar membros da família a situação de não fazer todas as refeições do dia, levando a aumento de intervalo entre as refeições, situação reconhecida como de risco para aumento de ganho de peso.

Mesmo com poucas as pesquisas no Brasil explorando a associação entre insegurança alimentar e obesidade, os resultados disponíveis corroboram as hipóteses hoje disponíveis e aqui relatadas, sobre os mecanismos subjacentes à relação entre carências alimentares e maior chance de sobrepeso e obesidade, tanto no campo dos determinantes socioeconômicos quanto nos processos biológicos consequentes.

Entretanto, é necessário prosseguir nas investigações para melhor elucidar essa relação, sobretudo, em temas como os de hábitos alimentares e insegurança alimentar, tendências, influências do ambiente e pressão comercial; Insegurança alimentar e ciclo de vida; determinantes da IA em populações tradicionais, mudanças no seu padrão alimentar e consequências para a saúde e nutrição; Insegurança alimentar e condições bio-psico-sociais e ainda, insegurança alimentar por períodos intermitentes, em situações de emergências ambientais  e ou de  sazonalidade, entre outras.

Este texto é uma pequena síntese dos conhecimentos atuais sobre o paradoxo aparente entre carência alimentar e sobrepeso ou obesidade.

 

Convido a todos os leitores interessados na temática explorarem as referências citadas abaixo:

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*Prof. Dra. Ana Maria Segall Corrêa é médica sanitarista e epidemiologista. Pesquisadora na área de segurança alimentar e nutricional, com ênfase em validação de instrumentos para medida domiciliar de acesso aos alimentos, inquéritos populacionais em SAN e fatores associados. Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.