Biopoder no jornalismo em saúde: vozes autorizadas quando a pauta é alimentação

Biopoder no jornalismo em saúde: vozes autorizadas quando a pauta é alimentação

A imprensa é um dos espaços que podem ser utilizados para a promoção da saúde. Desde a Carta de Otawa, a mídia de massa é apontada como importante aliada do setor saúde para melhoria da qualidade de vida das pessoas.

E de fato, no Brasil, os jornalistas são apontados como fonte confiável de informação em saúde, atrás apenas da categoria médica, segundo pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Medicina, em 2014. Em que pese o avanço das redes sociais virtuais, uma informação divulgada na imprensa possui alcance e credibilidade consideráveis no imaginário popular, pois os meios de comunicação auxiliam na tomada de decisão individual e na mudança de hábitos, possibilita que a sociedade monitore a agenda pública da saúde e de outras áreas, divulga novidades e influencia nos temas sobre os quais as pessoas vão falar.

Dentre os diferentes temas da promoção da saúde, a alimentação saudável é um dos mais frequentes na imprensa porque interessa cotidianamente à população. Porém, muitas vezes as informações jornalísticas mais confundem que informam. Um dia o ovo faz bem, no outro, faz mal, obviamente conclusões fruto de pesquisas com sujeitos diferentes, contextos diferentes e que nem sempre são explicitados pelos jornalistas.

Um dos eixos de pesquisa da antropologia da alimentação, sintetizados por autores como o antropólogo espanhol Jesus Contreras, da Universidade de Barcelona e Mabel Gracia, da Universidad Rovira i Virgili, refere-se à análise das transformações do comportamento alimentar e das pressões sociais e econômicas que nele interferem. A imprensa pode ser entendida como componente desse sistema de pressão que atua  no comportamento alimentar das pessoas, já que as decisões relacionadas à alimentação estão longe de serem resultado apenas do pensamento racional. Se antigamente havia grande peso nas referências culturais para  tomada de decisão alimentar, hoje, as pessoas são mais suscetíveis às pressões desta instituição não só por meio da publicidade e propaganda, mas também com os textos jornalísticos. A mídia então, pode ser considerada como espaço de regulação e controle, e a imprensa é instancia que legitima determinados discursos, dando a eles status de verdade e garantindo que determinadas opiniões sejam consideradas como norma para os leitores. É importante, portanto, compreender quais vozes são selecionadas pelos jornalistas para   informar sobre a saúde durante o processo de produção jornalística.

A pesquisa que realizei na Universidade de Brasília, durante o doutorado, analisa tanto a imprensa nacional brasileira como a regional, e quando o tema é alimentação, observamos que as falas que aparecem nas páginas dos jornais, são predominantemente especializadas. É o cientista, o profissional de saúde, o governo quem diz o correto e adequado para a alimentação das pessoas, enquanto que a população fica relegada a segundo plano, geralmente ilustrando casos e maus exemplos sobre o  que não fazer em saúde.

Na Folha de São Paulo, principal jornal impresso pago do Brasil, o discurso científico aparece como recomendações e análises de pesquisas recentes, com citação de periódicos, associações científicas e falas de profissionais da saúde e pesquisadores legitimando as afirmações. A linguagem utilizada parece  refletir interesses da ciência, das indústrias médico-farmacêuticas e de alimentação e nutrição, e dos profissionais de saúde.  Segundo Roxana Tabaman, mulheres são as principais consumidoras de temas de saúde na imprensa, mas suas falas, no pouco em que aparecem não citamos benefícios da alimentação saudável ou os riscos relacionados as dietas. Trechos como “é bem mais fácil só tomar um comprimido” e “as coisas começaram a mudar só com a internação”, ilustram gente à mercê da medicalização sem qualquer protagonismo sobre sua própria saúde.

O jornal regional carioca O Dia, traz também o predomínio dos profissionais da saúde e a ciência como fonte de informação, com pouca expressão da população nos textos. A  Carta de Ottawa, primeiro documento que apresenta as bases institucionais da promoção da saúde, define-se que a promoção da saúde foi definida como “processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo maior participação no controle desse processo”. Porém, quando a população aparece, sua voz está ligada mais frequentemente à mudança de alimentação para fins estéticos, como neste trecho de reportagem: “Agora, meus filhos me desenham com uma aparência linda e magra. Eu não sou mais uma mamãe gordinha”.

A biopolítica,  segundo Michel Foucault, regulamenta a população através do biopoder que atua na vida das pessoas, fazendo a gestão das decisões individuais e coletivas por estratégias que não estão em nenhuma lei, mas imbricadas em atitudes cotidianas. Pela microfísica do poder, termo cunhado por este filósofo, o poder na contemporaneidade está diluído em todos os setores da sociedade sob a forma de relações e  rede de micro-poderes que vão regulando a vida por meio de técnicas diversas para controlar a população e subjugar os corpos. Sob esta perspectiva, há que se levar em conta a força do saber especializado e do discurso científico que legitima as informações em saúde. Os profissionais de saúde, especialistas, as revistas científicas e instituições de pesquisa tem autoridade sobre temas científicos. Pode-se perceber certa estratégia biopolítica na apresentação desses conteúdos de alimentação, a partir dessas vozes autorizadas, científicas. O biopoder toma forma nestes contextos informativos sobre a saúde na medida em que a fala do especialista ocupa papel central das reportagens sobre alimentação, em detrimento da fala da população, que figura apenas como ilustração do que não deve ser feito. Esse poder de controle da ciência sobre o saber relacionado à saúde e os alimentos propaga a informação com status de verdade, e pode modelar as formas de vida e de atitude das pessoas. Obviamente as vozes especializadas podem informar e capacitar muito a população, mas poderia o jornalismo trazer em maior frequência a voz da própria população, como bons exemplos e atitudes sobre o tema da alimentação.

Nossa crítica reside, portanto,  no fato de que, da mesma forma que  os profissionais de saúde, os especialistas, as revistas científicas e instituições de pesquisa tem autoridade sobre temas científicos, a alimentação e a saúde possuem componentes para além desse saber especializado, e o protagonismo da população nos textos, com pessoas que vivem determinadas situações de maneira a garantir a sua saúde, sem medicalização e intervenções, mas com exemplos positivos, construídos nas famílias e comunidades sem qualquer relação com o saber científico pode também favorecer o entendimento dos leitores e tornar  a informação mais palpável. Pessoas comuns, como eu e você, podem ser inseridas nos textos jornalísticos como fontes, sem que seja em detrimento da “voz autorizada”, seja ela o cientista, o governo, o profissional da saúde. Afinal, qualquer informação sobre saúde que está nos jornais tem como público as pessoas comuns, que poderiam figurar mais como fonte dos textos, não só como maus exemplos em saúde, mas apresentando experiências positivas que mostrem sua participação na manutenção de sua saúde e sua conscientização.

Não se nega aqui, de forma alguma, o potencial que a informação em saúde, dada pelo especialista e transmitida pelos jornais, tem para a população. Ancorar-se no conhecimento científico, obviamente, é também uma forma de aumentar a capacidade de decisão da população, afinal, a voz autorizada, científica pode expressar importantes avanços. Mas limitar as informações apenas a esta voz científica, além de distanciar o leitor da informação, pode incorrer nas simples prescrições e recomendações normativas de regulação da vida, que pouco ou nada contribuem para a promoção da saúde.

Em se tratando de alimentação, repensar as vozes autorizadas no jornalismo em saúde é preciso!

 

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção da Saúde. As Cartas da Promoção da Saúde / Brasília: Ministério da Saúde, 2002. [citado em 10 set 2013]. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartas_promocao.pdf

CFM. Percepção dos Brasileiros sobre a saúde pública e o SUS. [citado em 10 set 2014]. Disponível em http://portal.cfm.org.br/images/PDF/apresentao-integra-datafolha203.pdf

Contreras, Jesus e Gracia, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. trad. Mayra Fonseca e Barbara Atie Guidalli. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011. 496p.

Foucault M. Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: edições Graal, 2014.

Foucault M. Vigiar e Punir. Trad. Raquel Ramalhete. 38ª ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2010.

Oliveira-Costa MS, Amorim ACCLA, Cadaxa AG, Mendonça AVM. Promoção da saúde da mulher brasileira e a alimentação saudável: vozes e discursos evidenciados pela Folha de SP. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2016, vol.21, n.6 [acesso:   2016-09-11], pp.1957-1964. Disponível em  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232016000601957&lng=en&nrm=iso

Oliveira-Costa MS. Parem as máquinas! A gente não quer só comida! Análise da alimentação como pauta jornalística. 250p. (Tese) – Universidae de Brasília, Brasília. 2017

Tabakman R. A saúde na mídia: medicina para jornalistas, jornalismo para médicos. (trad. Lizandra Magon de Almeida). 1 ed. São Paulo: Summus Editorial, 2013.

 

Crédito da imagem destacada.

Jornalista e pesquisadora da Fiocruz Brasília. Doutora em Saúde Coletiva (Universidade de Brasília, 2017) com estágio no Centre de Recherchesur la Comunication et la Santé (Universitédu Quebec a Montreal, Canadá). Mestre em Tocoginecologia (Universidade Estadual de Campinas, 2008), especialista em Jornalismo Científico (Universidade Estadual de Campinas, 2006), e Informação em Saúde (Agência Nacional de los Informadores de Salud – Madrid, 2008), graduada em Comunicação Social/Jornalismo (Universidade Federal de Viçosa, 2005). Ênfase de atuação na interface entre a Comunicação e a Saúde, principalmente nos seguintes temas: metodologia de pesquisa, comunicação em saúde, promoção da saúde, jornalismo científico, comunicação científica, saúde na comunicação de massa e assessoria de comunicação. Contato: mariella.costa@fiocruz.br 

A saúde na TV: prestação de serviço ou meio para intervenção do biopoder?

A saúde na TV: prestação de serviço ou meio para intervenção do biopoder?

Texto elaborado a partir do artigo Biopoder e mídia: a política do fazer viver se renova e atinge a massa.

Nos últimos anos, a televisão brasileira tem dado amplo espaço a quadros e a programas sobre saúde, exibindo principalmente conteúdos relacionados à alimentação e à atividade física.

Na Rede Globo, para citar o exemplo da maior emissora do país, isso ocorre explicitamente desde 2000, quando o Fantástico passou a exibir quadros como Viagem ao Corpo Humano e Questão de Peso, apresentados pelo médico Drauzio Varella, e especiais como Medida Certa, em que famosos perdem peso diante das câmeras. Em 2011, a empresa criou um programa diário para tratar do tema: o Bem Estar.

Aparentemente, programas dessa linhagem procuram prestar um serviço à audiência quando ensina os segredos da alimentação e da atividade física. A prestação de serviço é uma máxima do jornalismo de serviço. Trata-se de um tipo de jornalismo que nasce a reboque da sociedade da informação, baseada na tomada de decisões rápidas, e que costuma ser criticado porque, na ideia de serviço, traria a orientação ao consumo (MELO, 2007).

Analisando a questão sob o prisma do biopoder, poderia se cogitar que programas sobre saúde colaboram com a construção de um corpo fortificado, resistente e longevo, mais apto às linhas de produção do mundo capitalista.

Na perspectiva de Foucault (2012), o biopoder é uma técnica de poder que busca produzir corpos economicamente ativos e politicamente dóceis. Para tanto, usa a disciplina (incide sobre o corpo de cada indivíduo, com o intuito de regulá-lo e torná-lo eficiente) e a biopolítica (age sobre o corpo da população como um todo, controlando natalidade e longevidade, por exemplo).

No biopoder, o poder político assume a gestão da vida das pessoas. Para isso, abandona a antiga técnica do fazer morrer, que educava o povo pelo medo, e adota a moderna estratégia do fazer viver, que busca otimizar um estado de vida na população, tornado-a mais resistente. “O velho direito de causar a morte foi substituído pelo poder de causar a vida. Agora é sobre a vida e ao longo de todo o seu desenrolar que o poder estabelece seus pontos de fixação” (FOUCAULT, 2012, p. 151).

Neste contexto, o encontro entre biopoder e mídia representaria uma combinação perigosa: de um lado, está uma técnica de poder disposta a formatar indivíduos e a regular a população; de outro, há um aparato tecnológico que “influencia sua audiência e a sociedade como um todo” (DEFLEUR e BALL-ROKEACH, 1993, p. 17) e que, portanto, tem condições de incitar a população a controlar a alimentação e a exercitar o corpo com afinco. Perguntas: isso se dá de forma involuntária, quando a mídia busca simplesmente prestar um serviço à audiência sobre um tema em voga no momento? Ou a mídia é tragada pelo biopoder, que se apoia no discurso midiático sobre saúde e bem-estar para otimizar um estado de vida na população?

Este encontro entre biopoder e mídia foi retratado no artigo O biopoder na potência da mídia: o fazer viver se renova e atinge as massas. Como sugere o título, o texto aponta que, ao se acoplar à mídia, o biopoder se fortalece e leva a política do fazer viver ao grande público. Uma das consequências possíveis é a formação de uma população adestrada, orientada em uma espiral capitalista a viver mais, para trabalhar mais, consumir mais e repetir este ciclo até a morte sem refletir sobre isto.

O texto conclui que, no âmbito midiático, o biopoder se apoia principalmente na alimentação. A alimentação é uma característica natural e universal dos indivíduos. Portanto, pode ser usada para regular tanto o corpo individual como o corpo coletivo. Um dos efeitos dessa regulação é a valorização da magreza, geralmente associada à saúde, e a desvalorização da obesidade, comumente associada à doença. No cruzamento de ambas, haveria uma espécie de racismo de Estado. Não no sentido clássico, de raças tidas como superiores ou inferiores, como no caso do nazismo. Mas entre biotipos: o magro, estabelecido como normal e sadio; e o gordo, visto como doentio e ameaçador à espécie.

Este artigo foi produzido quando o autor leu Foucault (2012) e percebeu que, em sua rotina como repórter de jornal impresso e internet, havia feito viver e deixado morrer várias vezes. Havia feito viver em reportagens sobre saúde que, na tentativa de prestar um serviço, incitavam o público a cuidar do corpo, controlando-o no detalhe. Havia deixado morrer em reportagens policiais que ignoraram a morte do marginal, em ato involuntário que lembra uma faxina social, típica do racismo de Estado, articulado pelo biopoder.

O tema tratado no artigo agora é pano de fundo em pesquisa sobre alimentação e televisão. Está se estudando o discurso do programa Bem Estar e o comportamento de sua audiência. O trabalho está em andamento, mas já se percebeu um hiato entre aquilo que o público pensa em termos de alimentação e aquilo que a televisão diz sobre este tema. Em resumo, o público pensa a alimentação no contexto do prazer, enquanto o discurso televisivo a dimensiona no âmbito da eficiência.

Uma das consequências possíveis, inspirada na psicologia de Freud (1978), é uma espécie de mal-estar. O mal-estar freudiano nasce de um sentimento de culpa. Tal sentimento surge (1) da renúncia ao instinto, pelo medo de uma autoridade externa e (2) da organização de uma autoridade interna e da renúncia ao instinto devido ao medo dela, ou seja, devido ao medo da consciência. Nessa segunda situação, as más intenções são igualadas às más ações e daí surgem o sentimento de culpa e a necessidade de punição. “O preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa” (FREUD, 1978, p. 185).

Na teoria freudiana, as pessoas “querem ser felizes e assim permanecer”. “A satisfação do instinto equivale em nós à felicidade. Por outro lado, um grave sofrimento surge em nós quando o mundo externo nos deixa definhar e se recuse a satisfazer nossas necessidades” (FREUD, 1978, p. 141-143).

Adaptando livremente este gabarito para a alimentação no âmbito televisivo, significa que instintivamente boa parte do público busca a felicidade: quer fartar-se; deseja beber Coca-Cola, tomar sorvete, comer chocolate, pedir pizza com borda. Mas o discurso midiático que as atinge, compatível com o biopoder, diz o contrário; prega o controle, o consumo de alimentos eficientes, meramente nutritivos. Nasceria, daí, pelo menos entre aqueles que não o seguem, certo sentimento de culpa.

 

Referências

DEFLEUR, Melvin. BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da Comunicação de massa; tradução de Otávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber; tradução de Maria Thereza da Costa e J. A. Guilhon Albuquerque. 22. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização; tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

MELO, José Marques. Gêneros de comunicação massiva. São Bernardo do Campo: Metodista, 2007.

Jeferson Bertolini é repórter. Faz doutorado em Ciências Humanas (UFSC). É mestre em Jornalismo (UFSC) e bacharel em Comunicação Social/Jornalismo (Univali).

PONTO DE EQUILÍBRIO ENTRE A CIÊNCIA DA NUTRIÇÃO E “FAT STUDIES”

PONTO DE EQUILÍBRIO ENTRE A CIÊNCIA DA NUTRIÇÃO E “FAT STUDIES”

Texto elaborado a partir do artigo Ponto de equilíbrio entre a Ciência da Nutrição e “Fat Studies”.

A preocupação com a aparência física é grande no ocidente1. Em uma sociedade lipofóbica, observa-se um modelo de corpo ideal magro para as mulheres e musculoso para os homens2. Poderíamos refletir pensando que a busca pela “melhor aparência” seria positiva pois facilitaria a adoção de hábitos promotores da saúde. Por outro lado, a perseguição de um ideal estético específico poderia desencadear problemas como a insatisfação com a imagem corporal, graves transtornos alimentares ou de imagem corporal3.

Na área médica e da nutrição, a busca por determinado padrão estético é também, na maior parte das vezes justificado, pela melhoria da saúde e redução do risco de doenças como as cardiovasculares, o diabetes e certos tipos de câncer. Contudo, as valorizações de determinadas estéticas não estão sempre relacionadas à saúde. No imaginário ocidental, a imagem corporal é vista também como caminho para a felicidade, beleza, o prestígio e sucesso. Profissionais de saúde também são afetados pela fixação pelo corpo perfeito. Suas falas nas mídias sociais, por vezes, evocam o autocontrole como o único instrumental necessário ao alcance do corpo perfeito4, desconsiderando a gama de determinantes sociais da saúde intervenientes, por exemplo, no acúmulo de gordura corporal.

Alguns cometem o equívoco de reduzir a ciência da nutrição a uma nova forma de doutrinar a alimentação, não levando em conta outros significados da comida, presentes nas diferentes culturas, religiões, relacionamentos e famílias. Persistem, em vários veículos de comunicação e nas opiniões veiculadas nas redes sociais, visões restritas e dicotômicas entre o “saudável” e o “não saudável”, entre alimentos “bons” e “ruins”, “permitidos” e “proibidos” e uma substituição do prazer de comer pela culpa, além de preconceitos contra os que estão fora do padrão ou acima do peso5.

O culto à magreza e ao baixo percentual de gordura não deixa de ser paradoxal, uma vez que a mídia promove e anuncia alimentos com alta densidade energética, ao mesmo tempo que incentiva o cultivo de um corpo magro6. A falta de correspondência entre o “corpo ideal” e as práticas alimentares contribuem para ações não salutares, como restrições alimentares severas, preocupação permanente com calorias e componentes específicos da dieta, uso desnecessário de medicamentos e suplementos, sentimentos de angústia e inadequação, além de preconceito em relação a outras pessoas com excesso de peso7.

O comportamento alimentar está associado ao que uma pessoa conhece e acredita sobre alimentação e nutrição, assim como ao que sente sobre a comida. As representações culturais que permeiam a alimentação são carregadas de simbolismos e expressam aspectos associados à história de vida, ao comportamento alimentar desde a infância, às lembranças, relações afetivas, preferências, crenças, valores e mitos relacionados aos alimentos, à influência dos meios de comunicação, da família e amigos, do cenário socioeconômico, da globalização, entre outros fatores8.

Enxergar o alimento unicamente como fornecedor de calorias ou como inimigo gera mal-estar com a alimentação e com o corpo. A guerra contra a gordura e contra o corpo diferente do padrão estabelecido é prejudicial a pessoas de todos os tamanhos. As ciências sociais e as ciências naturais compartilham o corpo como objeto de estudo9. Assim, surgiu o campo de estudo interdisciplinar denominado Fat Studies (estudos sobre os gordos). O mesmo é marcado pela crítica agressiva, consistente e rigorosa às suposições negativas, estereótipos e estigmas relacionados à gordura corporal e ao indivíduo com excesso de peso.

Um dos movimentos advindos de tais estudos é o Saúde em Todos os Tamanhos (Health at Every Size, ou HAES®), o qual muda o foco da perda de peso para a promoção da saúde e aceitação do tipo e tamanho corporal. O modelo conceitual do HAES® inclui a aceitação da diversidade de formas e tamanhos corporais, expõe os perigos das dietas de emagrecimento, destaca a importância de um ambiente alimentar relaxado e que respeite as sensações de fome e saciedade e busca contribuir para a pesquisa acerca dos fatores sociais, emocionais, espirituais e físicos que contribuem para uma vida feliz e saudável10.

Mas, apesar de o campo do saber “Fat Studies” e suas abordagens oferecerem aos cientistas novas lentes para o estudo da obesidade, o mesmo não é livre de críticas. Sainsbury e Hay (2014)11 advertem que o excesso de gordura corporal aumenta o risco de doenças metabólicas e que a adoção da postura de que é possível ser saudável independentemente do peso corporal seria um erro. Para as pesquisadoras, o aparecimento de problemas de saúde em obesos é quase sempre inevitável. Defendem haver uma janela de oportunidades para o controle do peso e relembram que indivíduos com excesso de peso e obesidade que não adotam medidas para a redução do percentual de gordura corporal sofrem modificações no cérebro, como o aparecimento da resistência à leptina, a qual contribui para o aumento da compulsão alimentar e para a deposição de gordura nos adipócitos. Por isso, não defende o HAES®.

Outro autor, LeBesco, critica o fato de ativistas sofrem discriminação dos próprios pares quando resolvem intencionalmente emagrecer12. Aceitar o próprio corpo, independentemente do peso, uma das bandeiras levantadas pelo campo de estudos Fat Studies pode entrar em choque com a necessidade (ou vontade) de perder peso. Parece normal que alguns ativistas do Fat Studies e HAES® desejem um corpo mais magro. Afinal, a ambivalência quanto à imagem corporal é normal à condição humana13.

Assim, propostas de pesquisas que encontrem um equilíbrio entre as visões da nutrição, da sociologia e de outras ciências são importantes. Este encontro possui implicações para a saúde pública14. Durante a construção de políticas governamentais o debate também é importante. As soluções da saúde pública não podem ser estreitas, ligando a obesidade apenas à saúde ou à doença, ou a exclusão e marginalização dos obesos poderá continuar crescendo.

Por um lado, não deve-se adotar uma postura policialesca, pressionando indivíduos com excesso de peso a emagrecer ou contribuindo ainda mais para os comumente encontrados problemas de autoestima observados na literatura. Por outro lado, há a necessidade de pesquisas que testem diferentes abordagens no sentido de apoiar as pessoas em busca de uma vida mais saudável.

Intervenções são sugeridas em várias frentes, incluindo (1) inclusão de tópicos sobre autoestima nos currículos escolares, (2) treinamento de educadores e profissionais de saúde na prevenção e identificação de transtornos alimentares e desordens de imagem corporal, (3) implementação de políticas anti-bullying que protejam as integridade de cada pessoa, principalmente nas escolas15, (4) acompanhamento nutricional, (5) terapias ou intervenções construídas dentro de uma perspectiva holística, que considere os aspectos físicos, emocionais, sociais, ocupacionais, intelectuais, espirituais e ecológicos da saúde14; além do (6) desenvolvimento de estratégias de autoafirmação16, (7) avaliação de programas de alimentação consciente.

Abordagens que promovem a sintonia entre a comida, a mente e o corpo começaram a ser testadas em uma série de contextos. A alimentação consciente, por exemplo tem como objetivo a melhoria da experiência alimentar daqueles que sentem-se oprimidos pela comida e pelo linguajar utilizado pela sociedade atual, inclusive profissionais de saúde ao se referirem à dieta.

Treinamentos em alimentação consciente, com duração de 8 semanas, estimulam a reflexão sobre as sensações corporais e emocionais associadas ao ato de se alimentar, reconhecendo que não há forma certa ou errada de comer. Outras abordagens como a alimentação intuitiva e a entrevista motivacional também vem sendo testadas isoladamente ou em conjunto no sentido de proporcionar intervenções mais flexíveis, que consideram as histórias individuais, os elementos sociais e culturais envolvidos no ato alimentar. Tais abordagens proporcionam também maior diálogo entre a ciência da nutrição e outras áreas do conhecimento, rechaçando visões simplistas sobre o corpo.

Andreia Torres é nutricionista, possui mestrado em Nutrição Humana pela Universidade de Brasília e doutorado em Ensino na Saúde, com estágio sanduíche em Harvard (Escola de Saúde Pública – área: comunicação em saúde). Pós doutorado em Saúde Coletiva. Pesquisadora em Comunicação em Saúde.

Pode-se comer de tudo com moderação. Só precisa de auto-controle…

Pode-se comer de tudo com moderação. Só precisa de auto-controle…

As propostas usuais de autocuidado na promoção da saúde alimentar costumam trazer como foco principal a fórmula do autocontrole. Em termos práticos, enfatiza-se principalmente o enunciado que preconiza a “moderação” na ingesta de alimentos (muitas vezes saborosos) que não sigam o conhecido ideário da ‘alimentação saudável’. A meta é, esquematicamente, evitar o ganho de peso e taxas sanguíneas indevidas, consideradas fatores de risco de agravos à saúde e à sobrevida.

Tais recomendações são, em síntese, recomendadas pelos técnicos especialistas em nutrição no âmbito da saúde pública e da prevenção. Apresentam-se como estratégias prescritivas para todas as pessoas de um modo geral. Até porque, mediante um enunciado metafórico proveniente das doenças infectocontagiosas, a obesidade é dita epidêmica e não faz distinção de faixa etária. Aliás, isto também pode ser correlacionado a determinados transtornos alimentares.

Ainda assim, não se deve desconsiderar que isto se dá no âmbito do capitalismo globalizado neoliberal com seus preceitos referentes à uma suposta ideia de autonomia mediante liberdade de escolha e direito de decidir quanto a modos de se conduzir na vida. Tal configuração, em termos breves, está dirigida a quem pode atuar como consumidor cujo poder aquisitivo permite a adesão a um determinado ‘estilo de vida’ compatível com o que o mercado tem a oferecer.

Em outras palavras, este modelo parte de um sujeito que seria autônomo e responsável, capaz de estabelecer relações de custo/benefício (mas que também poderiam ser de prazer/malefício) em suas ações e trocas no mundo em que vive. Assim, os indivíduos estariam aptos a eleger o que seria mais adequado para suas necessidades e demandas (e, claro, também deleites) em função de sua capacidade de saber atuar efetivamente neste mundo.

É imprescindível estar-se conscientes – supostamente bem informados – de suas ações como agentes de consumo diante de um mercado que oferece múltiplas opções de escolha não só nutricionais a seus potenciais clientes. Isto também vale para a moderação dos gastos conforme à respectiva disponibilidade financeira.de cada um. Numa comparação quiçá simplória, da mesma forma que não se deve estar obeso, não se deve endividar-se sem o devido lastro monetário.

Há evidentes efeitos adversos deste modo de encarar as formas de alimentação de grandes contingentes humanos excluídos das benesses deste modo desigual de crescimento econômico. Suas implicações se manifestam na ampla dimensão da precarização e do sofrimento humano em escala planetária. Uma das maneiras dominantes de lidar com estes aspectos se dá através da patologização do mal-estar. Há muitas situações danosas socialmente construídas que costumam afetar pessoas que não se comportariam como os experts recomendam, sem a devida ênfase nos contextos em que vivem.

Há uma tendência a atribuir-se que há escolhas e correspondente adoção de comportamentos danosos que teriam sido assumidos por seres plenamente conscientes de si, mas que podem ter decidido transitar por caminhos indevidos. Costuma-se responsabilizar os indivíduos (economicamente ativos) que não sabem se pautar de maneira apropriada às dinâmicas de vida estabelecidas socialmente pela doutrina do capital, mas que não assumem de modo explícito sua feição moralista, sobretudo no âmbito da saúde. Ou, em casos de profunda iniquidade, preconiza-se reiteradamente que medidas econômicas sob o formato de ajustes fiscais neoliberais viabilizarão a almejada acumulação capitalista sustentável que poderá, cedo ou tarde, trazer a redenção.

Ora, só é possível haver este modo de racionalização onde se manifestam crises de legitimidade em função dos paradoxos produzidos por um modelo de crescimento econômico e desenvolvimento próprios do novo espírito do capitalismo globalizado contemporâneo e de seu modelo de acumulação ilimitada do capital por meios formalmente pacíficos.

Este “novo espírito do capitalismo” está à mercê de uma forma generalizada de cinismo entendido através da presença de estruturas normativas duais que produzem uma pletora de situações da vida cotidiana nas quais acontecem situações marcadas acentuadamente pela dimensão da ambiguidade. Ou seja, há a incorporação simultânea de duas racionalidades normativas, que, embora contraditórias, se conjugam de maneira integrada. (Safatle, 2008)

Por um lado, estabelecendo regras das formas de interação social e das metas de autorregulação. Isto se dá no âmbito das normas visando a uma perspectiva de gestão populacional. Por outro, mediante imperativos comportamentais que ultrapassam as tentativas de estabelecer limites, diante das possibilidades de satisfação ilimitada com vistas à fruição individual sem restrições diante das ofertas postas nas múltiplas vitrines reais e virtuais.

Para a gestão da ‘população’, esta deve ser concebida como um ‘corpo social’ a partir da descrição do que seriam seus processos de interesse representados especialmente por taxas de nascimento e de óbito, duração da vida, produção de riqueza e sua circulação. A totalidade dos processos vitais concretos numa população é o propósito das ‘tecnologias de segurança’ que se dirigem aos fenômenos de massa das populações para, em tese, prevenir ou compensar pelos perigos e riscos que resultam da existência da população como uma entidade biológica.

Os objetos da biopolítica não são os seres humanos em suas singularidades, mas suas marcações biológicas mensuradas e agregadas ao nível das populações. Este dispositivo torna possível estabelecer normas, definir padrões e determinar valores médios. A ‘vida’ se transforma em um elemento independente, objetivo e mensurável, além de se constituir numa realidade prática e epistemologicamente à parte dos seres vivos concretos e das peculiaridades da experiência individual. A noção de biopolítica se relaciona com a emergência de disciplinas como a estatística, demografia, epidemiologia e biologia. Todas estas permitem analisar processos vitais na população e governar indivíduos e coletivos com vistas ao desenvolvimento de correção, exclusão, normalização, disciplina, terapia e otimização. (Lemke, 2011)

O medo de correr riscos e a transformação da segurança se constituem em principais virtudes da sociedade. Isto alimentou uma inclinação a se exagerar os problemas que esta sociedade enfrenta gerando um contexto hiperprevenido e hiperansioso. Este contexto tem reflexos na condução da vida que enfatiza: alta consciência ao risco, predisposição ao pânico, medo ao estranho, suscetibilidade ao abuso/abusadores, preocupação de controle de indivíduos que se descontrolam, que reincidem, que são negligentes em um contexto de fragilização nas relações de confiança. Como se houvesse uma forma de vida compatível com as demandas paradoxais do capitalismo, que exigem uma pedagogia para orientar as pessoas a como se movimentar com efetividade em um contexto onde se manifestam paradoxos, contradições e ambivalências.

A questão atual relativa ao medo de engordar chama a atenção para as dimensões morais do problema, assim como faz a perspectiva da ansiedade excessiva diante do risco e da demanda pelo respectivo autocontrole na ingesta. De todas as formas, a relação da promoção da saúde alimentar com o ganho de peso tende a se inscrever no âmbito dos tratamentos morais que acompanham o mal-estar na civilização capitalista globalizada e a correspondente racionalidade cínica na operação de suas estruturas normativas duais que simultaneamente estimulam e restringem. As pessoas, de um modo variado, não passam incólumes às precarizações e sofrimentos provocados por este modo de organização econômica e social.

Importa enfatizar que há sentido na busca de falar-se a verdade mesmo desafiando verdades erigidas através de dispositivos e retóricas evidenciológicas empiricistas que sustentam com suas verdades epidemio-biologicizadas a condutas moralistas compatíveis com o espírito de responsabilização pessoal dos indivíduos. Pois estas ocupam uma posição supostamente neutra. Ou seja, parecem indiferentes quanto à sua responsabilidade em função das implicações morais resultantes das dinâmicas de sua utilização social.

Ao mesmo tempo, além de se desconsiderar a dimensão humana dos seres existenciais, há uma colonização de subjetividades supostamente ajustadas a um modelo gerador de desajustes. Inclusive, vale enfatizar a perspectiva trazida de considerar o ato de se dizer a ‘verdade’ – sobretudo no sentido de manter a perspectiva crítica em nome dela. Esta seria uma das formas para poder se questionar os contextos contemporâneos de dominação que acompanham a produção tecnocientífica em sua relação com a produção de formas de vida nas sociedades configuradas pelos modos iníquos de acumulação capitalista.

Na verdade, temos uma tarefa no âmbito moral, qual seja, a de atuar na busca de outros compromissos ético-políticos que se afastem da perspectiva utilitária dos agentes supostamente autônomos e racionais, com direito de decidir e escolher seus próprios benefícios diante dos custos estipulados – só que dentro de possibilidades bastante reduzidas e afastadas de dimensões emancipatórias.

Neste sentido, o trabalho em foco se configura como uma contribuição para abordar a dinâmica das relações de poder na sociedade que determinam as relações que se manifestam no contexto das práticas pessoais e coletivas em saúde que interagem com as dimensões subjetivas dos indivíduos. (Carvalho e Gastaldo, 2008)

Há necessidade de análise crítica dos modos opressores produzidos pela racionalidade cínica que se naturalizam e sustentam a necessidade de enfrentamento dos modos de sujeição subjetiva vigentes. Em suma, o artigo em questão enfoca a necessidade de se estar atento aos jogos de interesse e de poder e resistir aos tratamentos moralistas dos riscos à saúde através da normatividade restritiva da promoção da saúde alimentar. Há uma adesão à ideia socioculturalmente exacerbada de autocontrole do peso, de acordo com os postulados neoliberais da responsabilização pessoal.

 

* Esta é uma resenha de Castiel, LD; Santos-Ferreira, M; Ribeiro-de-Moraes, D. Os riscos e a promoção do autocontrole na saúde alimentar: moralismo, biopolítica e crítica parresiasta. Ciência & Saúde Coletiva, 19(5):1523-1532, 2014.

Referências

Carvalho, S.R. Gastaldo, D. Promoção à saúde e empoderamento: uma reflexão a partir das perspectivas crítico-social pós-estruturalistas. Ciência & Saúde Coletiva, 13(Sup 2):2029-2040, 2008.

Lemke, T. Biopolitics. An advanced introduction. New York; New York University Press, 2011

Safatle, V. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.

 

Crédito da foto destacada.

Luis David Castiel é graduado em Medicina (UFRS,1995), tem mestrado em Community Medicine (University London, 1981), doutorado em Saúde Pública (FIOCRUZ, 1993) e pós-doutorado pelo departamento de Enfermeria Comunitaria, Salud Publica y Historia de la Ciência da Universidade de Alicante (Espanha, 2005). Atualmente é pesquisador titular o Depto de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz e professor permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e do Programa de Pós-graduação de Epidemiologia em Saúde Pública, dentro da subárea ‘A construção do conhecimento epidemiológico e sua aplicação às práticas de saúde’.

FOME DE SABER | A escolha alimentar contemporânea como expressão de BIOPODER

FOME DE SABER | A escolha alimentar contemporânea como expressão de BIOPODER

AS ESCOLHAS, O AUTOCONTROLE E A CULPA NA PLETORA ALIMENTAR CONTEMPORÂNEA COMO EXPRESSÃO DE BIOPODER

Nesta edição a sessão “Fome de Saber” optou por dialogar sobre as escolhas, o autocontrole e a culpa na pletora alimentar da sociedade como expressão de biopoder.

Seria possível refletir o medo dos riscos que se revelam na alimentação e em novas morais corporais? Ainda precisamos refletir e estudar. Para pensar como os aspectos biológicos representam-se por meio de estilos de vida das sociedades industriais, como simulacros da ideologia econômica e política orientada pela ideologia neo-liberal que traduz a profusão de alimentos como uma promessa de comida para todos (que podem consumir) e que contribui para fome e a miséria pela exclusão social (daqueles que não podem consumir).

Ao mesmo tempo que existe a profusão de opções alimentares, estas se revelam como expressões de ansiedade e inquietações, porque não sabemos, ou talvez estejamos aprendendo a gerenciá-las com as necessidades biológicas contemporâneas que também se modificaram?

Com esta temática buscaremos estimular a reflexão se estamos vivendo o gap de aprendizado desta experiência, que se traduz por novos constructos de compreensão desta problemática.  Relacionados ao sentido das escolhas, do auto-controle e da culpa atribuída pelas recomendações cientificas e das políticas publicas?

Há ressonância destas questões na sociedade contemporânea, denominado como Biopoder cunhado por Michel Foucault no século XX. A ciência da alimentação, nutrição e saúde, tem sido os simulacros ideológicos dos aspectos racionais biológicos e trazem o prazer e a comensalidade como aspectos de risco de viver. Associado a isto, a sociedade midiática se apropria dos achados científicos de forma contraditória, tanto como expressão de escolhas saudáveis como também pelo incentivo ao consumo de alimentos não saudáveis. E ainda se coloca como elemento de discurso de autocontrole da vida e do corpo, contribuindo para o incremento de novas morais biológicas de regulamentação do comer e da imagem corporal apoiada nos ditames do medo e da culpa dos riscos sobre a vida.

Esperamos contribuir com esta reflexão que se revela em sua complexidade multicausal para a afirmação da humanização do comer e do viver. Pois acreditamos que esta reflexão pode nos aproximar da alimentação como ato de comunhão responsável com os seres vivos que habitam o Planeta Terra.