Que feira é essa?: a construção da  comida como objeto a partir da experiência da Xepa

Que feira é essa?: a construção da comida como objeto a partir da experiência da Xepa

Lis Furlani Blanco (*)

Há anos, também como pesquisadora, antropóloga (Blanco, 2015), penso em escrever sobre a instituição das feiras populares no Brasil, pois este é um fenômeno que sempre me despertou interesse, curiosidade. No entanto, escrever sobre as feiras, no decorrer de minhas investigações, deixou de estar conectado ao simbolismo da comida, e à sua capacidade de construção de uma identidade ou cultura, e passou a compreender a própria comida como um objeto que constrói e é construído nas relações.

Pensando na proposta deste texto em relação ao título deste número, diria então, que o substantivo ‘gosto’ carece de ‘social’, pois ele em si seria uma construção conjunta da socialidade, de forma ampla, o que inclui aspectos biológicos, culturais, psicológicos e naturais.  Segundo Hervé This, o gosto é a sensação sintética e global. Ele seria “a combinação das sensações gustativas, olfativas, mecânicas, (…) que uma vez percebido de maneira psicológica, é interpretado pelo cérebro, o qual associa a ele as qualidades advindas das experiências individuais ou sociais, tais como memórias, emoções e aprendizados”. Da mesma forma, a ideia de hábitos alimentares tira de foco o alimento como sendo ele capaz de sintetizar todas as relações, tanto do plano biológico, como cultural e social em um só objeto.

Proponho assim, pensar o objeto comida como um todo, sendo a feira popular um locus privilegiado de construção do conhecimento. Para tanto, irei compartilhar uma cena etnográfica sobre a instituição da xepa, concluindo então como a feira pode ser um lugar interessante para pensar a comida e o comestível. A referida cena foi vivenciada em uma feira popular no bairro do Madalena em São Paulo, no qual realizei pesquisa de campo durante o ano de 2013 e tem como objetivo iniciar uma reflexão sobre a construção do comestível e da própria definição do que chamamos de ‘comida’.

Nesta vivência de um ano de campo pude aprender muito sobre antropologia e sobra a vida em zonas de precariedade e compartilho aqui com vocês um pouco do que eu aprendi na feira do Madalena.

 

A feira da tarde

Eram mais ou menos dez horas da manhã de uma quinta feira quando cheguei a Sapopemba pela primeira vez. Eu estava com pressa, pois para mim, passado das dez, já era muito tarde para uma feira. Fui ao encontro de Ana em sua casa. Disse a ela que gostaria de conhecer a feira e ela me perguntou sobre as horas. Ao saber que ainda não havíamos passado do meio dia, disse que me levaria para andar pela favela e depois iríamos à feira, pois ainda era muito cedo. Eu já estava angustiada com a possibilidade de chegar ao lugar dedicado ao mercado de rua e não haver mais nada. Caminhei com Ana e ela foi contando suas histórias de vida, e quando estávamos chegando perto da feira ela começou então a me contar sobre os feirantes e explicar o que era a questão das sobras dos alimentos, da xepa e da relação dos “consumidores” com os feirantes.

Segundo Ana, a feira do Madalena só era boa para ela e para muitas pessoas do bairro depois das 13hs. Somente depois deste horário era possível realizar uma compra e quando não havia dinheiro para compra nem mesmo da xepa era muito comum que os moradores já conhecidos pelos feirantes pedissem algumas sobras.

No bairro do Madalena, instala-se em todas as quintas uma feira cuja extensão atinge três quarteirões, e em todos os domingos, com uma extensão de cinco quarteirões. As principais barracas são de frutas, verduras e legumes. Às quintas-feiras além das hortaliças, legumes e frutas existem também barracas de brinquedos e roupas, de consertar panelas, outra de produtos para cozinha, temperos, de pastel, de peixe e de frango.

Cheguei à feira com a Ana e ela conhecia todo mundo. Juntou umas moedinhas que tinha e foi andando conversando com os feirantes, reclamando do preço e escolhendo algumas coisas que já estavam a um preço bem barato.Enquanto andávamos pela feira, Ana foi me contando que atualmente os feirantes não separavam mais as sobras para os moradores da favela que iam pedir comida. Era preciso comprar os produtos na xepa, ou ainda, ‘catar’ a comida do chão após o fim da feira; às vezes os comerciantes estendiam uma lona e jogavam todos os restos de alimentos para que as pessoas os recolhessem, para que, segundo Ana, as pessoas ‘catassem’ a comida do chão, como porcos.

A feira estava lotada, os feirantes iam anunciando a queda dos preços antes mesmo de terem tempo para mudar o que estava escrito nas plaquinhas. Em determinado momento, os preços não eram nem alterados nas placas e o consumidor perguntava diretamente ao feirante que estava ainda mais propício a negociações. Os saquinhos com uma quantidade específica de produtos, por um preço fechado, no qual quem comprava não podia selecionar os produtos, era o tipo de venda mais comum.

Ficamos por ali um bom tempo e percebi que a estratégia da maioria dos consumidores era a mesma. Negociavam o preço, pediam desconto e, nesse processo todo, passavam algumas pessoas conhecidas pelos feirantes que pediam os alimentos sem ter que pagar por eles. Essas pessoas, porém, tinham razões que pareciam justificar essa ‘troca’ ou mesmo, ‘doação’. Havia uma catadora de material reciclável que passou e pediu algumas frutas para as filhas, uma senhora idosa que disse que havia tempo não comia mamão. Ana, entretanto, não tinha nenhuma justificativa que desse razão para essa doação. Ela era uma daquelas que poderia escolher entre comprar os alimentos com o dinheiro que tinha durante a xepa ou ‘catar’ as sobras do chão. É notório o fato de que, para além da organização da feira, da forma de escolha dos alimentos e até mesmo das estratégias de aquisição destes, que incluem o dinheiro, mas também a ‘lábia’, a história de vida e as relações sociais, o tempo da feira foi a questão que mais me chamou a atenção durante a pesquisa de campo. Em todas as visitas à feira do Madalena essa mesma situação se repetia.

Cheguei inúmeras vezes bem cedo ao bairro pensando ser interessante observar a feira do início ao fim, e não era possível deixar de notar a ínfima quantidade de pessoas que percorriam suas bancas desde manhã até por volta do meio dia.

A principal justificativa apresentada por todas as pessoas indagadas sobre a vantagem da compra dos alimentos na feira em relação a outros pontos de venda está associada à ideia de frescor dos alimentos. A feira seria o lugar no qual os alimentos parecem ter percorrido o menor caminho do produtor ao consumidor.

 

A xepa e o comestível

É somente em relação a essa característica das feiras enquanto instituição, isto é, o frescor dos alimentos, que existe a xepa. Dessa forma, mais interessante do que pensar a feira em relação aos hábitos alimentares difundidos e criados neste espaço de sociabilidade, ou ainda pensar como o gosto ‘social’ é passado de geração e geração, talvez seja interessante pensar a própria definição do que é comida. Sendo assim, a xepa tem papel central no questionamento de tais categorias.

A xepa pode ser definida como uma instituição, um momento específico e variável do tempo de duração de uma feira livre, no qual os produtos vão perdendo seu valor comercial. Conforme o tempo vai passando, o valor destes produtos cai cada vez mais, mudando conjuntamente a esse valor a própria definição do que é comestível e para quem.

A partir desta constatação, é possível compreender a comida, no caso da feira e mais especificamente da xepa, como tendo um valor relacional à história de vida desses objetos. A comida seria assim, um objeto que tem vida, e a sua comestibilidade relacionada ao seu valor estaria associada a esta propriedade específica e temporal dos alimentos.

Nesse sentido, afirmo, assim como Mary Douglas (2003), que a “comida tem uma capacidade especial de marcar relações sociais. A comida nunca é só comida”. No entanto, através dessa descrição da feira do Madalena, podemos pensar o objeto comida como tal, não somente no campo da identidade, da memória, do pertencimento, e exclusão, ou seja, do simbólico, mas da própria construção daquilo que chamamos de alimento e de sua comestibilidade.

A feira, por ser esse espaço de consumo público, é um local privilegiado para se pensar o que definimos como comestível. Ela nos permite compreender através da existência da xepa que a definição daquilo que é comestível vai além de características de grupos culturais específicos, e a afirmação de que ‘nem tudo que é biologicamente comestível, é também culturalmente comestível’ (Fischler, 1995), passa a ganhar complexidade.

Neste contexto então, a máxima ‘somos o que comemos’ tem um status perverso, pois, desta forma, a definição do que é comestível estaria diretamente associada ao valor da vida das pessoas que o incorporam. Quase que numa equação matemática, conforme o tempo vai passando, um alimento vai perdendo seu frescor e ganhando uma maior probabilidade de conter, em si, um risco de contaminação, deixando assim de ser comestível para algumas pessoas e passando a ser para outras, para outras vidas, com outro valor.

Será que, ao constatarmos isso, podemos continuar pensando em algo que seja somente biologicamente comestível, ou ainda que existe o objeto “culturalmente comestível”? A pergunta de Fischler (1995) “porque comemos o que comemos?” passa, então, a ser respondida através do cálculo de diversas variáveis, tais como valor, tempo, risco e vida, e o objeto comida ganha a complexidade que merece.

(**) O presente título faz referência ao documentário “Que feira é essa?” produzido pelos moradores do bairro do Madalena, com apoio do CEDECA, o qual está disponível abaixo:

 

Referências bibliográficas:

Blanco, Lis F. (2015). Vida Podre: a trajetória de uma classificação. Dissertação de mestrado, defendida em 25 de março de 2015. Programa de Pós Graduação em Antropologia Social. Campinas: Unicamp. Link para acesso: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000946924

Douglas, Mary. (2003) Food in the social order. London: Routledge. 

Fischler, Claude. (1995) El (h)omnivoro. Barcelona, Anagrama.

Latour, Bruno. (2005) Reassembling the Social: an Introduction to Actor-Network Theory. New York: Oxford Press University.

This, Hervé. A nova fisiologia do gosto. A ciência na cozinha 2. Scientific American Brasil. São Paulo. Duetto Editoria. s/d

 

Lis Furlani Blanco (PPGAS-Unicamp) Bacharela e Licenciada (2011) em Ciências Sociais e Mestra (2015) em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. Foi pesquisadora visitante na Universidade de Barcelona, Espanha, no Observatório da Alimentação (ODELA). Doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp desenvolve pesquisas acerca de temas da Antropologia da Alimentação e Antropologia Política, trabalhando com discussões na interface entre o biológico e o social.

A interface da Segurança Alimentar e Nutricional com as feiras livres: (re)construindo hábitos alimentares

A interface da Segurança Alimentar e Nutricional com as feiras livres: (re)construindo hábitos alimentares

Camila Irigonhé Ramos (*)

Aqui são apresentados alguns dos resultados da pesquisa desenvolvida, enquanto dissertação de Mestrado, junto ao Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Alimentos da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)[1]. O estudo foi motivado pela reflexão da pesquisadora sobre sua prática acadêmica e profissional. Para tanto, observou-se o distanciamento – nas orientações nutricionais e práticas alimentares – que o consumidor mantém com o alimento e, consequentemente, em relação ao produtor (o agricultor). A pesquisa foi desenvolvida sob a perspectiva da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e sob inspiração da Antropologia da Alimentação.

Lançado em 2010, o relatório “A Segurança Alimentar e Nutricional e o Direito Humano à Alimentação Adequada – Indicadores e Monitoramento”, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), contém sete dimensões de observação da SAN. No que tange o interesse do estudo aqui apresentado, destaca-se a primeira delas; isto é, a que aborda o monitoramento da produção e disponibilidade de alimentos [2]. Nesse item, é apontada a produção e disponibilidade de frutas, legumes e verduras (FLV), uma vez que tais alimentos fazem parte de uma alimentação adequada e saudável.

No entanto, o consumo de FLV é apenas um dos estágios dessa cadeia de relações, que apenas se realiza a partir da produção e comercialização de tal grupo de alimentos [6]. Sendo assim, é indispensável considerar os aspectos biológicos, culturais, ambientais e econômicos que permeiam o cultivo, a comercialização e a escolha da ingestão de FLV.

Do ponto de vista histórico, as primeiras formas de comercialização destes produtos remetem às feiras livres [3]. Esses espaços podem ser considerados potenciais modificadores da forma de se alimentar do povo brasileiro. Tal entendimento parece ser o que norteia as políticas públicas, já que uma das ações da publicação do Ministério da Saúde, lançada há cinco anos, consiste em “incentivar a consolidação das feiras locais, como instrumento de melhoria para a seleção e aquisição de alimentos saudáveis” [4] (p. 7).

Desse modo, as feiras podem constituir-se em um canal de reaproximação entre produtor e consumidor, associadas à redescoberta de um sistema alimentar influenciado e enfraquecido por pelo menos dois acontecimentos que destacamos a seguir. O primeiro remete à Revolução Verde, em que ocorreu a adoção de um pacote tecnológico e a utilização intensa de agrotóxicos, adubos químicos e outros fertilizantes. Nesse contexto, também se deu o aumento das despesas com o cultivo e o endividamento dos pequenos agricultores, o crescimento da dependência dos países, do mercado e da lucratividade das grandes empresas de insumos agrícolas [5]. O outro acontecimento está diretamente relacionado com a padronização da alimentação, em um contexto de industrialização da comida, que ocasionou à perda de características próprias das culturas alimentares. Esse processo fez com que os consumidores passassem a conhecer apenas o produto final que acabam por ingerir [6].

No município de Pelotas, no Rio grande do Sul, espaço utilizado para a realização da presente pesquisa, existem dois tipos de feiras – convencionais e ecológicas-, que são nomeadas (pelos feirantes e pela gestão municipal) de acordo com o modo como se realiza a produção de alimentos. O presente estudo objetivou caracterizar as feiras livres, os feirantes e as FLV comercializadas nestes locais, procurando, assim, apreender, sob o ponto de vista dos feirantes, como ocorre e é valorada a produção e comercialização de tais alimentos.

Nas feiras convencionais, os alimentos são comercializados por produtores e/ou revendedores e, na produção das FLV não há restrição quanto à utilização de insumos. Neste local são comercializadas FLV que são produzidas em todo o país. Já nas feiras ecológicas, os alimentos são vendidos somente por produtores e produzidos regionalmente sem utilização de agroquímicos.

Cabe salientar que, durante o percurso metodológico, utilizou-se, concomitantemente, os métodos quantitativo e qualitativo, o que se mostrou decisivo para os resultados alcançados. Para a coleta dos dados partiu-se, inicialmente, de inserções em feiras dos dois tipos. As entradas de campo e as coletas, guiadas pelas duas abordagens, ocorreram no mesmo período, mas de modos distintos. Na obtenção das informações que ocorreu por meio do corte transversal, elaborou-se e utilizou-se – após estudo piloto – um questionário com questões fechadas (foram incluídas variáveis demográficas, socioeconômicas, relacionadas ao trabalho dos feirantes e às FLV.), o qual foi aplicado ao proprietário de cada banca (conforme indicação dos próprios feirantes ou por meio do cadastro dos feirantes na Prefeitura) que estavam presentes durante o período de coleta dos dados e aceitaram participar da pesquisa.

Na coleta de dados, cujo elemento foi a inspiração etnográfica, empregou-se as técnicas de entrevista semiestruturada (ao dono da banca indicado pelos feirantes), observação participante e diário de campo. Tais procedimentos foram utilizados nos espaços das feiras junto a 14 feirantes. O contato se deu nos momentos considerados mais oportunos pelos interlocutores. As entrevistas foram guiadas por pontos de interesse, que auxiliaram no direcionamento das conversas. Com a concordância dos participantes, todas as respostas foram gravadas e, posteriormente, degravadas e analisadas.

A participação de todos os feirantes, nas duas etapas da pesquisa, foi voluntária e a aplicação do questionário, ou a realização da entrevista, ocorreu somente após o entendimento e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Salienta-se, ainda, que o presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina/UFPel.

Os resultados encontrados revelaram que a cidade conta com aproximadamente 40 locais de feiras, distribuídos, principalmente, na zona central. Os feirantes apresentaram-se como somente produtores, produtores e revendedores ou somente revendedores. Os feirantes que apenas compram e revendem os alimentos constituem a maior parte dos comerciantes. As feiras foram classificadas como convencionais e ecológicas, sendo nomeadas de acordo com o tipo de produção empregado no alimento. Mais de 90% das feiras são convencionais, existindo apenas três pontos de feiras ecológicas no município. Os valores atribuídos aos alimentos e as relações estabelecidas – tanto com as FLV quanto com os fregueses – revelaram-se de maneiras distintas na abordagem dos feirantes ecológicos e convencionais. Para os primeiros, há uma relação de cuidado com o alimento e com o freguês, que é trabalhada em conjunto com a importância financeira do comercio de FLV. Para os demais, o que predomina é apenas a relação de mercadoria que está associada à venda dos alimentos. Da mesma forma, os feirantes ecológicos relataram que os seus fregueses buscam por qualidade e procedência. Por outro lado, segundo relatado pelos feirantes convencionais, os seus fregueses procuram as FLV levando em conta, prioritariamente, a aparência dos alimentos.

Como no transcorrer deste estudo procurou-se refletir sobre as relações estabelecidas com os alimentos, seu processo de produção e comercialização, entende-se que, para promover a SAN, é importante considerar o alimento como componente do ato de comer. Essa tomada de posição ajuda a pensar sobre o caminho, as pessoas e as relações envolvidas neste processo.

Ao concluir a pesquisa foi possível perceber que a maioria das feiras está localizada no centro da cidade, dificultando a disponibilidade e o acesso às FLV para a população que vive nos bairros. Vale ressaltar, também, que a maior parte dos feirantes não produzem os alimentos que comercializam e, aqueles que o fazem, utilizam a produção convencional.

Diante desses resultados, e dos valores que produtores e revendedores (ecológicos e convencionais) agregam às FLV ,- e, consequentemente, às relações estabelecidas com  aqueles que se abastecem nas feiras – ressalta-se que, compreender esses fatores torna-se imprescindível para a promoção da SAN, pois esses elementos influenciam no acesso e consumo de FLV e na construção dos hábitos alimentares.

No âmbito da saúde pública, entende-se que, para modificar as relações estabelecidas com a alimentação e aumentar a produção e comercialização de FLV, deve-se incentivar, por meio de políticas públicas, os agricultores familiares, principalmente de base ecológica, e reaproximar o consumidor do produtor. Além disso, é necessário que os profissionais da saúde abandonem a rigidez das normas alimentares e desenvolvam ações de educação alimentar e nutricional dialógicas. Práticas que se destinam ao empoderamento individual e devem estar voltadas para uma alimentação derivada de um sistema alimentar capaz de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e ambientalmente sustentável.

Referências

1 – Ramos, Camila Irigonhé. Frutas, legumes e verduras nas feiras-livres de Pelotas e sua contribuição na segurança alimentar e nutricional. Pelotas, 2015. 132 f.

2 -Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional. A Segurança Alimentar e Nutricional e o Direito Humano à Alimentação Adequada no Brasil Realização -Indicadores e Monitoramento – da constituição de 1988 aos dias atuais. Brasília, 2010

3-Panelli-Martins BE, Santos SMC, Assis AMO. Segurança Alimentar e Nutricional: desenvolvimento de indicadores e experimentação em um município da Bahia, Brasil. Rev. Nutr.,Campinas. 2008; 21 (suplemento): p.65-81

4- Ministério da Saúde. Coordenação Geral da Política de Alimentação e Nutrição. Ações de Incentivo ao Consumo de Frutas e Hortaliças do Governo Brasileiro. Brasília, 2009

5- Maluf. RS , Menezes F. Produção de alimentos e equidade social. Caderno “ Segurança Alimentar” 2000.

6 – Contreras J, Gracia M. Segurança e Insegurança Alimentar. In: Alimentação, sociedade e cultura. Rio de janeiro: Editora Fiocruz, 2011. P.333-388.

7- Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa (Po): Edições 70; 2011

8-Moraes R. Análise de Conteúdo. Revista Educação. 1999; 22 (37): p. 7-32

(**) Créditos da foto: Camila Irigonhé Ramos

Camila é nutricionista. Professora do curso de Nutrição na Faculdade Anhanguera. Doutoranda no PPG em Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas – UFPel. Mestra em Nutrição e Alimentos/ UFPel. Especialista em Saúde Pública, graduada e pós-graduada pela UFPel e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde realizou a pós-graduação na modalidade de Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Nutrição em Saúde Pública, Atenção Primária à Saúde, Núcleo de Apoio a Saúde da Família, Apoio matricial, Educação em Saúde, Educação popular, Segurança Alimentar e Nutricional, Alimentação, sociedade e cultura. Atua com ênfase no trabalho multiprofissional e interdisciplinar.

A construção social do gosto alimentar em uma feira livre de Salvador-BA

A construção social do gosto alimentar em uma feira livre de Salvador-BA

 Ianua Coeli Santos Ribeiro de Brito

Juliede de Andrade Alves

 Lígia Amparo-Santos

Considerações iniciais

O gosto orienta as escolhas as quais conduzem a organização do mundo social, mas, simultaneamente, este gosto também é orientado pelas escolhas que são feitas por um indivíduo ou meio. Em outras palavras, pode-se dizer que, ao mesmo tempo em que o gosto é uma expressão individual do sujeito, ele é construído socialmente a partir de conciliações de preferências. Pode-se aproximar o gosto estético referido por Bourdieu (2007) ao gosto alimentar, quando este último se vê ilustrado em um sistema – alimentar – classificatório no qual somos condicionados a fazer escolhas. O gosto construído é produto de classificações que estabelece as distinções sociais.

É importante neste contexto perceber o gosto como um atributo mutável e, sendo mutável, pode ser (re) construído. Para Pita (2002), o tempo é um fator importante, bem como o exercício que se constitui a partir da repetição frequente de atos. Sobre essas experiências repetitivas estabelecidas, a educação do gosto se dá gradualmente, a partir da influência de contextos econômicos, educativos e outros determinantes sociais que tem grande influência nas escolhas do sujeito.

Nesse sentido, investigações voltadas para as práticas alimentares e a compreensão da constituição dos hábitos alimentares brasileiros tem sido de grande importância, sendo a construção do gosto alimentar, um tema embrionário e pouco discutido no âmbito acadêmico das Ciências da Alimentação e Nutrição, tendo a sua compreensão como um elemento de relevância para compreender o que leva às escolhas dos sujeitos.

Partindo do pressuposto de que hábitos e práticas alimentares são influenciados pela dinâmica social, permite-se observar que as feiras e mercados populares – hoje como espaços de resistência urbana – no que tange a realização de refeições, ainda se constituem como espaços de comensalidade e, consequente, de sociabilidade, principalmente entre grupos sociais das camadas populares. Pode-se dizer que “nestes lugares de realização da vida, os diferentes grupos sociais trabalham, consomem, realizam formas culturais e vivenciam os limites de seus exercícios”. (MASCARENHAS, 2008, p.73).

Mais que hábitos e práticas alimentares, a observação das feiras nos leva a perceber um determinado modo ou estilo de vida, que se mostra particular para um determinado grupo, o que conduz a crer que aquilo que se é colocado no prato, mais que alimentar o corpo, serve também como alimento para as formas de viver dos sujeitos constituintes desse espaço.

É de grande valia a compreensão do itinerário do gosto no âmbito das feiras livres, onde é possível identificar esses espaços de resistência urbana como redutos da gastronomia popular, local de comércio de preparações cozidas, de alimentos in natura, e local onde o gosto pelos alimentos, presentes nas feiras, se estabelece e molda as escolhas alimentares observadas nos sujeitos.

Partindo da ideia de que este texto deve contemplar a importância de se discutir estudos e pesquisas em feiras populares sobre o gosto, vê-se também a importância de relatar o que se tem estudado.

 

Acerca do gosto alimentar em uma feira-livre

Entre 2014 e 2015, o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Alimentação e Cultura (NEPAC) coordenou e orientou um projeto de pesquisa intitulado Corporalidades, Comensalidades e Alimentação Saudável: Um estudo sobre práticas corporais e alimentares em camadas populares sob a ótica da promoção da alimentação saudável em um bairro popular da cidade de Salvador-Bahia, financiado pela Fundação de Amparo ao Pesquisador do Estado da Bahia (FAPESB), no qual a feira livre foi locus do estudo, contemplando diversos planos de trabalho com suas vertentes exploratórias, dentre elas o gosto alimentar.

Durante o processo de construção dos projetos, somou a essa escolha do locus, a identificação de um não menos largo universo de produção, comercialização chamadas comidas típicas populares, particularmente nos locais de comércio popular tais como feiras e mercados, locais de grande fluxo de pessoas. Nestes espaços, observa-se a presença de frequentadores habituais que fazem do consumo das comidas típicas populares uma prática cotidiana.

O estudo teve como objetivo compreender os sentidos atribuídos à construção do gosto e do prazer de feirantes e frequentadores de uma feira livre de Salvador-BA no contexto da alimentação saudável. Embasou-se em uma abordagem qualitativa de cunho etnográfico, tendo a sua concepção situada no campo da socioantropologia da alimentação, bem como o foco e diálogo entre as Ciências Sociais e da Nutrição. Considerou como locus uma das feiras da cidade de Salvador-Bahia situada no subúrbio ferroviário da capital baiana.

A ação comunicativa foi feita a partir de entrevistas semiestruturadas com comensais (C) e feirantes (F) e a mediação subjetiva desses sujeitos, estão intimamente ligadas às experiências pessoais do mundo e do contexto vivido. Neste artigo, serão descritas brevemente duas categorias, apresentando resultados obtidos durante a pesquisa.

A primeira categoria foi denominada “O saber fazer”. Quando esta emergiu, veio à luz observar como se dá a preparação da comida sob a perspectiva do gosto de cada sujeito. Traçaram-se diversos discursos a partir dos modos de produção de suas refeições. Nessa categoria, foi possível observar a noção de saber fazer a comida básica (F1) como maneiras de ser prático e preparar comidas simples (F1).

O modo de fazer comida tida como “simples”, pode ter uma grande complexidade, mas que, na perspectiva do sujeito, representa algo fácil de fazer, sendo chamada de comida básica. No entanto, para outros sujeitos ou grupos sociais distintos, essa maneira e costume de saber fazer comida pode não ser compreendida por básica ou fácil. Para Oliveira e Freitas (2008), perpassa por essa prática uma multiplicação de arranjos que configuram os novos modelos alimentares que contrastam com o comer estruturado das tradicionais refeições domésticas.

Sendo assim, entram em cena as maneiras particulares de se preparar essas comidas básicas. A expressão rechear, por exemplo, é observada na maioria dos discursos dos sujeitos. Rechear a comida com o tempero é a ação estruturante para conferir sabor às preparações, sendo o primeiro passo da receita, com o propósito de pegar gosto (F2).

Para os feirantes e comensais, ao preparar o feijão com carne, dar mais um tempo pra rechear a carne com o tempero (F2), com a finalidade de pegar gosto para depois jogar o feijão, é um procedimento comum durante a preparação da comida e grande definidor de sabor. Os temperos desvelam sensações que transcendem o vocabulário, sendo indizíveis durante os discursos. Na comida, “o tempero parece funcionar como uma porção mágica onde guarda os verdadeiros segredos da cozinha” (SANTOS, 2008, p. 267).

Ainda fazendo jus à construção de gostos a partir do fazer culinário, elementos ácidos são comumente utilizados durante as preparações cárneas. O limão entra nesse contexto com um valor simbólico no que diz respeito às suas diversas funcionalidades: potencializar o sabor e aumentar o prazer do comer. Isso pode ser constatado nos relatos sobre a finalização de uma moqueca de peixe – na qual deve pegar uma banda de limão, ‘cheio de água’ e botar por cima (F3) da preparação [detalhando o procedimento com gestos circulares]. Essas minúcias fazem qualquer um lamber os dedos, o que rememora a sensação de prazer obtida com o azedinho que o ingrediente provoca.

Ainda, é de caráter providencial deixar a carne alguns minutos no limão (F2), por ser uma maneira de higienizar o alimento no ato de tratar, antes da preparação em fogo, para matar as bactérias, remetendo questões que transcendem os discursos do nutricionista relacionados à carga microbiológica das carnes. A partir de um estudo feito em uma feira livre, Minnaert e Freitas (2010), afirmam que práticas higiênicas refletem hábitos que se instituem como códigos socioculturais e as mudanças podem significar mais que a alteração de práticas comportamentais. De acordo com as autoras, o conceito e a escolha do que é limpo ou sujo são símbolos culturais que nem sempre são associados aos conceitos técnico-científicos.

A segunda categoria escolhida foi a construção do gosto na feira a partir dos laços estabelecidos entre a casa e a rua. DaMatta (1997) aponta que rua e casa são espaços relativos e dinâmicos, e se reproduzem mutuamente. Existem espaços que podem ser fechados na rua podendo ser considerados como casa ou como se estivessem em casa. Na feira, esses dois mundos se fundem e borram os limites que os separam. Com a dinâmica do trabalho, comer na feira não é comer fora (F5). Come-se nesse espaço quando o trabalho acontece no turno integral, em decorrência da necessidade de manutenção da vida através do emprego informal, defendendo a ideia da feira como outra casa e que comer fora conota ir a um restaurante (F5).

Pode-se dizer que há a construção do gosto em relação à comida que se come na feira, feita por uma “família” – seja por laços sanguíneos ou por laços afetivos – forjada pelo acolhimento que a feira contempla a exemplo da comercialização de comida caseira. Nessa perspectiva, ao sujeito compete a sua sensibilidade pela comida da feira, visto que se depara com a comida bem feita, em um ambiente que o acolhe, e permite o desenvolvimento da confiança pela comida da feira, como se fosse a comida feita em casa.

 

Notas Finais

Destarte, observa-se que estudos explorando o universo do fazer culinário e suas particularidades, bem como as relações afetivas em torno da comida estabelecidas entre a casa e a rua de feirantes e comensais, ajudam a remontar uma melhor compreensão dos sentidos atribuídos à construção de gostos e de práticas alimentares nesses espaços sociais que, por vezes, passam despercebidos na vida moderna atual, marcada por crescentes demandas e tempo cada vez mais escasso. Por ser um tema pouco discutido na Ciência da Alimentação e Nutrição, maiores investigações científicas ainda são necessárias, com o intuito de auxiliar reflexões em torno da construção do gosto alimentar e das particularidades impressas no ato de comer.

 

Referências

BOURDIEU, P. A Distinção: crítica social do julgamento. 1. ed., São Paulo: Edusp, 2007.

DAMATTA, R. A casa e a rua: Espaço, cidadania, mulher e morte no brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

OLIVEIRA, N.; FREITAS, C. S. F. Fast-food: um aspecto da modernidade alimentar. In: FREITAS, C. S. F.; FONTES, G. A. V.; OLIVEIRA, N. Escritas e narrativas sobre alimentação e cultura. Salvador: EDUFBA, 2008.

MASCARENHAS, G. Feira livre: territorialidade popular e cultura na metrópole contemporânea. Ateliê Geográfico, Goiânia, v. 2, n. 4, p.72-87, 2008.

SANTOS, L. A. S. O corpo, o comer e a comida. Salvador: EDUFBA, 2008.

PITA, A. P. O gosto ou “Os movimentos secretos da alma”: tópicos para um debate sobre a educação do gosto. Portugal, p. 87-91, 2002.

MINNAERT, A. C. S. T.; FREITAS, M. C. S. Práticas de higiene em uma feira livre da cidade de Salvador (BA). Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 15, Supl. 1, p. 1607-1614, 2010.

Foto da Feira de São Joaquim/BA : Fonte

 

Ianua é nutricionista graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestranda em Alimentos, Nutrição e Saúde pela UFBA e integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (NEPAC).

Juliede é Nutricionista graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Alimentos, Nutrição e Saúde pela UFBA. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (NEPAC) e professora de Educação Nutricional da Faculdade Maurício de Nassau.

Nutricionista graduada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Medical Education University of Dundee (Escócia), doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), professora associada da UFBA e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (NEPAC).

O Lugar das Feiras Populares de Alimentos na Contemporaneidade

O Lugar das Feiras Populares de Alimentos na Contemporaneidade

Romilda de Souza Lima (*)

Em tempos de “modernidade líquida” – na compreensão de Zygmunt Bauman, na busca pela praticidade e pela necessidade de resolver as tarefas com rapidez, inclusive as compras de alimentos, muitos podem questionar a manutenção das feiras populares. Alguns autores discutem como aspectos do modo de vida moderno, como tempo escasso para executar as várias atividades e ampla oferta de produtos industrializados, influenciam as práticas alimentares, fazendo surgir diversas maneiras de se alimentar na contemporaneidade e que podem interferir nos hábitos alimentares, nos horários e locais das refeições, no consumo de alimentos, etc.

As feiras são lugares para transitar sem pressa, passando de barraca em barraca e conversando com os/as feirantes, compreendendo sobre o impacto da estiagem na produção de hortaliças e a razão de algumas estarem em falta ou de ser este o motivo principal do aumento do preço nas últimas semanas. Quem frequenta a feira com assiduidade costuma eleger a sua barraca e seu fornecedor predileto, passando, assim, a ser “freguês”. As feiras representam, portanto, mais do que um mercado, são também lugares de interação, sobretudo, nas pequenas e médias cidades. Da conversa “jogada fora”, não só com o agricultor/a, mas também com as pessoas conhecidas. Nas feiras estão à disposição produtos de boa qualidade – talvez não os mais bonitos e maiores – porém os mais saudáveis. Saudáveis pela sustentabilidade econômica, social e ambiental proporcionada pela agricultura familiar. Saudáveis pela valorização do comércio mais justo, proporcionado pela característica de comercialização das redes curtas, quando os agricultores e os “fregueses” entram em acordo sobre o preço de algum produto.

Por todos esses fatores, a dinâmica das feiras está repleta de elementos simbólicos, que contribuem para tornar o ato alimentar mais do que apenas fisiológico, mas também cultural. Nesse sentido, o sistema alimentar para o consumidor se inicia na opção de consumo e na compreensão da importância da cadeia produtiva. Aquilo que Delormier (2009), considera como “a natureza social do comer”. Aspectos do comportamento alimentar também são discutidos por Mabel Gracia Arnaiz, Jesus Contreras, Jean Pierre Poulain, entre outros. Para o agricultor ou agricultora-feirante, tal sistema começa bem antes e ainda de madrugada: no processo produtivo, na colheita, organização e seleção dos produtos e na organização da sua barraca.

Em minhas pesquisas tenho observado situações diferentes no que se refere à dinâmica rural-urbana da comercialização de hortifrútis. Em uma delas, na Zona da Mata Mineira – mais especificamente nos territórios rurais de Piranga, Presidente Bernardes e Porto Firme, observei caminhões de hortifrútis comercializando produtos que tradicionalmente são de cultivo na pequena agricultura familiar. Segundo os meus interlocutores esse tipo de comercialização vem acontecendo nos últimos 3 a 4 anos. Por razões diversas, que envolvem mudanças que vem ocorrendo no meio rural, alguns agricultores da região estão optando por comprar determinados produtos in natura ao invés de cultivá-los.

O principal motivo citado foi a estiagem dos últimos anos aliado ao custo-benefício (praticidade – preço). Adquirem produtos tais como batata inglesa, inhame, batata doce, moranga, banana, alface, laranja, tomate, maçã, pera, abacaxi e outros. Segundo os interlocutores, os produtos são do CEASA e apesar de a maioria continuar cultivando a batata doce e a mandioca, houve depoimento de que mesmo esses produtos, que são tradicionais no hábito alimentar da região, já estão sendo adquiridos neste tipo de comércio.  Tal situação – que denominei como ‘a “feira” indo ao campo’ – me causou estranhamento, considerando ser esta região uma das mais ruralizadas da Zona da Mata Mineira. Por outro lado, é uma região cuja população idosa é elevada e possui grande número de casais aposentados morando sozinhos e sem condições de exercer a atividade braçal de cultivo ou pagar pela mão-de-obra. A estiagem extrema diminuiu a produção, mas para não abandonarem ou mudarem excessivamente os hábitos alimentares, optaram por comprar o que não conseguiam mais produzir. Todos os agricultores que entrevistei disseram preferir cultivar o próprio alimento, ter uma horta e um pomar fartos, mas o que a realidade lhes impunha era a opção de comprar do “vendedor do caminhão”.

É importante destacar que não é uma situação generalizada. Aqueles que têm água em abundância fazem questão de manter, pelo menos, a horta e um pequeno pomar em ampla produção, ainda que para autoconsumo. Encontrei hortas fartas e sortidas, assim como outras em estado de sofrimento. Porém, mesmo nas hortas mais sofridas, a hortaliça que resistia era sempre a couve. Diante disso, compreendi melhor a importância e a presença assídua dessa hortaliça no cardápio mineiro desde os tempos da mineração, tanto na área rural quanto na urbana, o que me fez lembrar muito do que li no delicioso livro de Eduardo Frieiro: “Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros”. Mas por outro lado, observei que este território está passando por algumas transformações importantes de consumo e nos modos de vida que aos poucos vão refletindo nos hábitos e práticas alimentares das famílias, cuja história tem um viés muito forte da tradição produtiva e alimentar.[1]

A segunda experiência de pesquisa, em andamento, se dá em um território muito diferente da Zona da Mata Mineira.  Refere-se ao projeto “Cultura e Patrimônio Alimentar: práticas alimentares e sociabilidades em famílias rurais do Paraná”, desenvolvida no Sudoeste do Paraná, onde a agricultura familiar é uma característica muito forte na dinâmica territorial. As feiras de produtores são muito valorizadas por agricultores e consumidores. Elas coexistem e resistem, mesmo com a presença das gôndolas repletas de ofertas nos supermercados e hortifrútis.

No município de Francisco Beltrão, com pouco mais de 84.000 habitantes, há oito feiras de agricultores. Sete delas em bairros da cidade e uma na praça central. Os produtores dizem não utilizar agrotóxicos na produção de legumes e verduras e há três propriedades em fase de conversão para certificação orgânica. Em uma das feiras, todos os agricultores possuem certificação de produção orgânica e há aqueles que são agroecológicos. Comercializam hortaliças gerais, frutas, pães, bolos, bolachas e doces (chimias), embutidos (principalmente o salame) e queijo colonial – muitos desses produtos são elaborados com o uso de receitas tradicionais de família. Comercializam ainda, peixe, mel e artesanatos. As feiras dos bairros acontecem em dias de semana e a da praça central no sábado pela manhã.

O grande número de feiras em um município de pequeno porte sinaliza a importância que elas possuem no cotidiano da cidade e sinaliza também para características dos hábitos e práticas alimentares da população, principalmente no que se refere ao público que frequenta as feiras dos bairros. Trata-se de uma região de forte presença da colonização italiana e alemã e em menor proporção, a polonesa. Nas feiras é possível conversar com a agricultora sobre o modo tradicional de se preparar o pão de milho ou a tradicional cuca de nata e o salame italiano, ao mesmo tempo em que – devido à influência gaúcha – a cuia de chimarrão segue passando de uma pessoa a outra na barraca e, às vezes, até de uma barraca para outra.

Cultura, interação, troca, sustentabilidade, comercialização e consumo. Nesse sistema ganham os feirantes e os fregueses. Benefícios para aqueles que veem nas feiras uma referência de práticas alimentares saudáveis. Benefícios para os agricultores e agricultoras familiares que investem numa produção rural sustentável e que a cada dia compreendem que produzir com equilíbrio ambiental é possível, mesmo estando em uma região onde a lógica da monocultura da soja e do milho transgênicos e o uso de agrotóxicos em larga escala se fortalece e impacta. As duas experiências de pesquisa apontam que sinais da modernidade líquida estão presentes nos territórios rurais, o rural não é um lugar de isolamento, ele convive com as realidades do mundo contemporâneo e reage a elas de forma crítica, acatando os itens da modernidade alimentar que lhes importam e rejeitando o que não lhes interessa, buscando respeitar prioritariamente a sua lógica cultural. Neste sentido, as feiras de alimentos representam uma importante ferramenta para essa compreensão.

Referências:

ARNAIZ, Mabel Gracia. Paradojas de la alimentación contemporánea. Barcelona: Icaria, 1996. 309 p.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 258 p.

CONTRERAS, Jesús; GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2011. 495 p.

DELORMIER, Treena; FROHLICH, Katherine L.; POTVIN, Louise. Food and eating as social practice – understanding eating patterns as social phenomena and implications for public health. Sociology of Health & Illness, v. 31, n. 2, p. 215-228, 2009.

FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Edusp, 1982. 227 p.

POULAIN, Jean-Pierre.  Sociologias da alimentação: os comedores e o espaço social alimentar. Florianópolis: UFSC, 2013. 285 p.

[1]Discussão detalhada pode ser encontrada na tese de doutorado: LIMA, Romilda de Souza Lima. Práticas alimentares e sociabilidades em famílias rurais da zona da mata mineira: mudanças e permanências.  Universidade Federal de Viçosa. Tese de doutorado. 2015. 226p.

 

Romilda é doutora em Extensão Rural (Cultura, processos e conhecimento). Pesquisadora do grupo de pesquisa em segurança alimentar e do grupo de pesquisa em desenvolvimento rural. Professora adjunta da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, atuando na graduação nas áreas de antropologia e sociologia da alimentação e, na pós-graduação, na área de desenvolvimento rural sustentável, patrimônio e soberania alimentar. Membro titular do Conselho Regional de Segurança Alimentar e Nutricional do Sudoeste do Paraná.

Feiras Permanentes: espaços de formação do gosto e comensalidade no Distrito Federal

Feiras Permanentes: espaços de formação do gosto e comensalidade no Distrito Federal

Denise Oliveira e Silva

As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam produtos e receitas da culinária tradicional brasileira, sendo fontes regionais e espaços turísticos que contribuem para o fortalecimento do patrimônio alimentar brasileiro. Da mudança da capital, do Rio de Janeiro para Brasília, até os dias atuais, o Distrito Federal/DF vem adquirindo características de metrópole, com prestígio político, artístico, cultural e econômico, variada gastronomia e intensa diversidade étnica. Por aqui, são identificadas feiras populares, espaços que se desenvolveram pela influência da migração de grupos populacionais que expressam a diáspora nordestina, que atraem até hoje migrantes em busca de trabalho e melhores condições de vida.

Popularmente conhecidos como candangos, ao trazerem sua força de trabalho para a capital brasileira, trouxeram também sua cultura, expressão da mistura de práticas indígenas, africanas e europeias e criaram as feiras como estratégia de sustentação comercial para as práticas gastronômicas mais plurais e de representação de foco de resistência cultural.

O fato de os primeiros migrantes que aqui chegaram, em 1957, para a construção da cidade serem provenientes de vários pontos da região nordeste, do sertão e do litoral, assim como dos estados limítrofes, Minas Gerais e Goiás, criou condições específicas para a transmissão e reinvenção de várias tradições populares, como festas juninas, embates de cordelistas, festejos, religiosos e populares, tradições das quais aqueles trabalhadores eram os portadores e tratavam de perpetuar. 

(Madeira, 2007, pag. 27).

Como feiras populares destacam-se no DF, segundo a Lei Nº 4.748 de 02 de fevereiro de 2012, as feiras livres, locais onde existe “a venda, exclusivamente a varejo, de produtos hortifrutigranjeiros, cereais, doces, laticínios, pescados, flores, plantas ornamentais, produtos de artesanato, lanches, caldo de cana, temperos, raízes, carnes e aves abatidas, resfriadas ou congeladas, confecções, tecidos, armarinhos, calçados e bolsas, bijuterias, artigos religiosos, ferramentas e utensílios domésticos, produtos da lavoura e indústria rural, e outros que possam vir a ser aprovados pelo órgão competente”. E as feiras permanentes, onde se “realizam atividades mercantis de caráter constante realizada em logradouro público destinado para esse fim, com instalações comerciais fixas e edificadas para comercialização dos produtos referidos para as feiras livres e produtos de bazar e agropecuários, refeições típicas regionais, jornais, revistas, além de prestação de pequenos serviços, na forma do regulamento”.

O DF é formado por 19 regiões administrativas. Brasília foi concebida como Plano Piloto, formada pelas Asa Sul e Asa Norte e o Eixo Central e localidades periféricas onde estão as demais regiões administrativas, historicamente denominadas de “Cidades Satélites” localizadas entre seis e 60 km do Plano Piloto, sendo elas: Brazlândia, Candangolândia, Ceilândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Lago Norte, Lago Sul, Núcleo Bandeirante, Paranoá, Planaltina, Recanto das Emas, Riacho Fundo I e II, Samambaia Santa Maria, São Sebastião Sobradinho, Taguatinga.

As “Feiras Permanentes” existem somente fora do Plano Piloto e dos Lagos Sul e Norte, sendo identificadas atualmente cerca de 75 feiras em funcionamento. As mais famosas são as feiras do Núcleo Bandeirantes (a mais antiga, criada em 1959) seguida da Feira do Cruzeiro (1962), a Feira Central de Ceilândia (1967) e a Feira do Guará (1969).

Estas feiras se constituem do mesmo modelo de feiras nordestinas. Não são itinerantes e se constituíram com a realização do comércio e manifestações culturais variadas. A infraestrutura dessas feiras é bem diversa. Em geral, são construções de alvenaria com espaços caracterizados para a venda de produtos alimentícios frescos, animais vivos, temperos, e espaços de comensalidade para a venda de preparações culinárias de origem do sertão nordestino, em sua maioria.

Desde 2012, a Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, por meio do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares, tem realizado pesquisas etnográficas para compreender a influência destas feiras na formação de hábitos alimentares e na preservação de patrimônios alimentares materiais(alimentos) e imateriais(culinária) brasileiros.

Variedade e tradição no circuito de compra

Os produtos alimentícios mais vendidos são os legumes, hortaliças e frutas frescos em geral oriundo do entreposto CEASA do DF. Observa-se a presença de alguns gêneros de produtores locais. O crescimento do comércio de produtos orgânicos ainda é pouco frequente, porque cresce na cidade as feiras que vendem estes produtos, principalmente localizadas no Plano Piloto.

Os produtos alimentícios vendidos nas feiras são em sua maioria aqueles que não são vendidos nas redes de supermercados. A busca pelos diversos tipos de feijões, farinhas e seus animais vivos como galinhas caipiras, bodes e peixes, e os temperos típicos do nordeste são os aspectos identitários dos produtos alimentícios vendidos nestas feiras. Os produtos são apresentados em sacos dos quais o comprador pode estabelecer a quantidade que precisa. A linguagem comum na mensuração da compra do produto, não usa o quilo, a grama. São usadas outras linguagens:

“uma mão de farinha(…) um copo de feijão(…), moço é o que eu preciso! 

(Cliente do sexo masculino 42 anos, Feira do Guará, 2016)

É importante destacar como fator identitário, o papel destas feiras do DF em ofertar a variedade de três produtos emblemáticos da culinária brasileira: as farinhas de mandiocas e seus os feijões e os temperos secos e frescos.

Para feirantes e clientes, estes produtos não são encontrados com tanta variedade nas redes de supermercados. Segundo relatos, são nestas feiras que é possível adquirir um feijão verde e de corda segundo as tradições do sertão nordestino.

As farinhas em suas diversas características de torrefação, sendo amarela, ou branca, torrada à moda pernambucana ou à baiana, a farinha de milho em várias opções são os patrimônios alimentares presentes nestas feiras. Destacam-se ainda os queijos de forte influência nordestina como o queijo de coalho e a manteiga de garrafa. Os temperos são categorizados como frescos, entre os quais a vinagreira e outros específicos para preparações culinárias são ofertados para a compra, e também os temperos secos, que em geral são vendidos em pó, como açafrão da terra, cúrcuma, cominho, pimenta e etc.

Embora a presença de algumas ervas sobretudo para utilização terapêutica possam ser consideradas em seus limites como alimentos, nestas feiras a presença de barracas de “erveiros” é outro circuito de compra. Os responsáveis pela venda destes produtos em geral são mulheres que revelam preocupação com a perda desta memória em função do pouco interesse dos jovens e o crescimento da indústria de fármacos.

Conversas de feira

Nestas feiras, o diálogo é sobre o comer e celebrar as memórias ditas e não ditas, com nossa verdadeira identidade, da qual o corpo físico, nossas emoções, nossa cultura e nossa espiritualidade são apresentados de forma conjunta para explicar o que é adequado e saudável em nossa alimentação.

“(…) eu aqui converso com meus clientes que gostam da comida que eu vendo(…) eu não sei dividir o que é adequado e saudável como a senhora me pergunta(…) na comida isto não é assim(…)” 

(Feirante do sexo feminino 53 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

(…) eu venho aqui uma vez por semana, todo sábado com meu marido(…) eu faço a dieta do saudável durante a semana(…) mas eu vejo que esta comida é tão saudável como a nutricionista manda eu fazer(…) não tem esta conversa que tem muita gordura não(…) eu acho que estes médicos precisam conhecer mais estas comidas caseiras, eles não conhecem, tem preconceito e não sabem nos ajudar(…) O problema é que médico não sabe cozinhar. Não conhecem comida e compram tudo congelado, come na rua e desconfio que entram na cozinha para beber água e café, gosta mesmo é de restaurantes(…)  minha mãe lá do nordeste comia estas comidas, não todo dia; tinha buchada, mas quando tinha a gordura era pouca e o sal também(…) o que será que houve com a nossa comida? Vocês poderiam me explicar? De uma hora para outra o médico diz que não pode, e manda a gente comer muito legume, mas não liga para os venenos dos agrotóxicos neles? Esta história do que pode e não pode comer está muito esquisita nos dias de hoje(…) Eu vou continuar vindo aqui, porque eu esqueço destes medos do que escuto e vejo hoje em dia sobre alimentação. ´Vocês estão comendo o mesmo que eu,e eu sei que vocês são da saúde. Então eu acho que estamos de acordo, não é?” 

(Cliente do sexo feminino, 41 anos, Feira da Ceilândia, 2016)

Nas feiras, tanto o comprar como o comer nos revelam. Quando comemos não podemos nos esconder, mesmos que tenhamos que seguir processos civilizatórios de etiqueta, porque a chance de esquecer rebeldemente disso tudo e celebramos no agora o que somos e vivemos. É isto que a feira aguça quando chegamos nela. Não são corredores com iluminação e sinalizações apropriadas e etiquetados, com latas e vasilhames coloridos e com letras estimulantes. Quando vamos à feira, vemos os alimentos sem maquiagem comercial.  Talvez seja isto que buscamos quando vamos a uma feira.

(…) é tudo tão arrumadinho nos supermercados, que se você deixar uma lata cair, parece que o mundo acabou(…)  a gente compra sem saber o que tem, tá tudo em lata e pacote(…) somente o prazo de validade não é suficiente para sabermos se o alimento é bom(…) aqui eu pego e cheiro os produtos(…) nos supermercados  os trabalhadores arrumam lata e pacote(…)aqui na feira eu vejo tudinho, nada tá escondido(..) nos supermercados os funcionários  não conversam com você  e se conversar o gerente chama atenção(…) aqui o feirante te dá receitas(…) no supermercado  eu sou obrigada a comprar na quantidade que eles querem;(…) há eu não gosto não. Eu só vou lá porque os danados ficam nos caminhos de casa(…) nesta vida de correria eles estão abertos em horários que as feiras não estão(…) aqui não dá para vir correndo, é por isto que eles se dão bem em cima da gente (…) isto que eu acho, vir aqui é com calma, dá para conversar, pensar melhor no que vamos comer(…) os supermercados ganham das feiras porque eles tão ali para atender a correria da vida; para vender coisas rápidas e fazer a gente comer sem pensar, e pior pagar mais caro!(…)” 

(Cliente, sexo feminino, 55 anos, Feira do Guará, 2016)

Herança cultural de fartura e público das feiras

Os resultados têm apontado circuitos de circulação de pessoas segundo o gênero. As mulheres estão mais presentes nos locais onde se vendem legumes, verduras, frutas e roupas. Os homens estão nos locais onde se vendem carnes animais e nos bares. O horário de funcionamento é variado, sendo durante a semana a presença de feirantes que vendem legumes, frutas e verduras e as barracas de venda de roupas, com maioria de presença feminina tanto de feirantes como de clientes. O final de semana, sábado e domingo, tem maior frequência de feirantes e clientes com a presença de famílias, principalmente de idosos.

Dentre os pratos nordestinos comercializados destaca-se o baião de dois, a buchada de bode, a tapioca, o mocotó, a carne de sol, o sarapatel etc. Os resultados da pesquisa tem revelado que as preparações culinárias em sua essência representam fartura e comensalidade:

(…) eu venho aqui porque moro sozinho e não dá para fazer uma buchada ou um sarapatel para eu comer sozinho(…) estas comidas foram feitas para dar de comer a muita gente(…) eu acho que isto é o problema de hoje em dia: a comida é para mais de um comer(…) na vida de agora comer sozinho é que dá doença(…) chegar em casa não dá vontade de mexer com panelas, o bom é fazer um arroz  para comer com outra pessoa(…) comida não foi pensada para alimentar um ser vivente, eu não sei quem inventou isto; por isto é que estamos lascados; esta história de uma colher de sopa; uma conchinha de não sei o que dos médicos , não é coisa de gente não(…)” 

(Cliente, do sexo masculino, 53 anos)

A nossa herança cultural de fartura vem da relação que tivemos com a natureza: ela oferta amorosamente e consumimos aquilo que necessitamos sem desperdício por que compartilhamos nossa comensalidade. E, de fato, nossa origem humana e ancestral é de comer juntos! Para isto, os saberes gastronômicos podem ser considerados fundamentais na formação dos hábitos alimentares pelo seu papel de agente ativo da memória histórica individual e coletiva. As memórias constituem permanências, transformações, em caráter local ou em escala global. Podem ser transmitidas subjetivamente, tanto por indivíduos ou por instituições. As “Feiras” são um lugar de memória, ou seja, espaços que acolhem e comercializam receitas da culinária tradicional brasileira. São fontes regionais, ademais, são espaços de convivência. Neste sentido, estas feiras são matrizes migratórias da culinária ali encontrada como espaços de memórias gustativas e afetivas, como podemos ver pela história desta senhora feirante que está na feira da Ceilândia a mais de 20 anos:

“ (…) aqui eu comecei com o Caldinho de Mocotó que nunca pode faltar(…) depois foi crescendo ali e acolá outras comidas, o baião de dois, o sarapatel, a galinha caipira a buchada de bode(…) as pessoas vem aqui para provar do meu tempero destas comidas porque lembra muito da mãe, da avó, da família(…) às vezes eu vejo marmanjo homem comendo e chorando quando coloca um garfo de comida na boca(…) ah,  eu digo a ele, “bichinho tu quer mais”(…) ele nem fala, mas o choro diz que sim, ah,  eu ponho mais e não cobro mais nada(…)”

A experiência de realizar pesquisas sobre hábitos alimentares nas feiras aponta a importância destes locais para o exercício de compreensão da alimentação humana. São locais onde a visibilidade da gastronomia típica comercializada permite compreender os processos de migração gastronômica de uma região para outra, e revelam a importância de ações de preservação de bens imateriais. A preservação da gastronomia de uma região sustenta a vida comunitária. Ela constitui patrimônio cultural por possuir “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – juntamente com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares que lhes são associados” – típicas de uma sociedade que se diferencia de obras arquitetônicas, monumentos, sítios e paisagens, por serem considerados um bem intangível. Uma vez garantida a preservação de receitas e rituais alimentares, todos os atores sociais envolvidos poderão manter seus ganhos diretos e indiretos. Cabe ressaltar a importância da promoção de políticas públicas visando o desenvolvimento do Patrimônio Cultural Imaterial, em relação à gastronomia, alimentação e comensalidade e o incentivo às culturas tradicionais e regionais. No Brasil, micro espaços geográficos que vivenciam impasses da preservação dos patrimônios culturais imateriais de caráter gastronômico popular são temas de reflexão. As feiras podem ser entendidas enquanto um foco de resistência gastronômica, cabendo ações de valorização como patrimônio imaterial de hábitos alimentares e comensalidade. É um espaço que oportuniza a disponibilidade de receitas populares, bem como oferece os ingredientes necessários para a feitura de especialidades que necessitam de produtos específicos.

Temos aprendido com os feirantes e os clientes destas feiras novos significados sobre o comer. Principalmente linguagens que agregam dimensões biológicas e simbólicas-culturais tão importantes para o sucesso da promoção da alimentação adequada e saudável.

Vamos às feiras!

 

Referência citada: Madeira, Angélica Mariza Veloso. A cidade e suas feiras. Um estudo sobre as feiras permanentes de Brasília. Brasilia: DF: IPHAN/15ª Superintendência Regional, 2007.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).

Feiras, um caminho sem volta. Entrevista com Maria Rita Macedo Cuervo

Feiras, um caminho sem volta. Entrevista com Maria Rita Macedo Cuervo

Na onda da temática da sessão Fome de Saber, o Pitada de Opinião tem a honra de entrevistar a nutricionista e bióloga, Maria Rita Macedo Cuervo. Especialista em Ecologia Humana e em Tecnologia dos Alimentos, a entrevistada é também mestra em Saúde Coletiva e doutora em Psicologia. No doutorado iniciou a pesquisa sobre feiras agroecológicas como uma comunidade de práticas alimentares culturalmente significativas no eixo de produção, distribuição, preparo e consumo de alimentos. Participa do projeto de extensão no IPA, na feira agroecológica que acontece na instituição. A entrevista centra-se em sua tese intitulada A feira agroecológica como espaço de produção de práticas culturais: identidade, alimentação e relações psicossociais, disponível no repositório online da PUCRS. Eis a entrevista:

1. Sua tese é composta por três ótimos artigos, com relação ao segundo texto “A feira um caminho sem volta: reflexões etnográficas sobre a produção e o comercio agroecológico em Porto Alegre”, gostaríamos que comentasse sobre as feiras como espaços de resistência à nova ordem alimentar.

O processo de globalização leva a homogeneização e perda da diversidade nos planos econômico, ecológico e cultural, implicando também na cadeia de práticas alimentares constituintes do processo produção/distribuição/preparo/consumo de alimentos. A escolha do que comer na sociedade contemporânea, é culturalmente pautada por processos mais amplos da sociedade global, especialmente ao considerarmos a configuração do capitalismo contemporâneo e seu impacto na produção de subjetividades. A progressiva homogeneização e globalização alimentares estão levando à valorização e busca das raízes culturais, produtos regionais (produtos da terra) e o reconhecimento de que a “cozinha” constitui um patrimônio cultural e que deve ser preservado.

Movimentos de resistência à globalização e homogeneização alimentar vêm surgindo em todo mundo como é o caso do slow food, surgido na Itália em 1986 com o objetivo de apoiar e defender a boa comida, o prazer gastronômico e um ritmo de vida mais lento. O slow food está comprometido com a proteção dos alimentos tradicionais e sustentáveis, sustenta que a única agricultura que pode oferecer uma perspectiva de desenvolvimento é aquela baseada na soberania alimentar de comunidades locais em harmonia com o ecossistema. O movimento sustenta que “alimentar-se é um ato agrário” e os consumidores informados e exigentes tornam-se coprodutores.  Um aspecto interessante é a construção de redes que conectam produtores e coprodutores

Um dos problemas da sociedade urbana contemporânea é a ansiedade gerada em relação ao não saber o que comemos, isto é, com a industrialização da alimentação, o uso de aditivos, agrotóxicos e transgênicos. As feiras podem ser vistas como um espaço de resistência a essa “nova ordem alimentar”.

A própria proposta de feira, remete a um cenário de práticas sociais tradicionais que fomenta a relação interpessoal. A palavra feira, vem do latim feria, que significa “dia de festa”, é um local de vendas, trocas, encontros e conversas. A feira pode ser vista como uma comunidade de práticas sociais, onde o conjunto de relações que uma pessoa e um grupo possuem, são fontes de reconhecimento, compartilham significados, e sentimento de pertença.

2. Você usa a expressão “mosaicos de sociabilidade” para falar das feiras. Pode discorrer mais essa expressão citada por você no artigo?

As feiras são espaços que representam dinâmicas da sociedade no campo alimentar, pois são locais de comércio (e trocas) e consumo. Desde a Antiguidade, as feiras sempre tiveram crucial importância, seja em relação ao comércio nas cidades, seja como um espaço de trocas culturais, aprendizagem e estabelecimento de relações de sociabilidade. Pode-se dizer que as feiras são mosaicos de sociabilidade, são pontos de encontro e locais onde vários atos da vida social acontecem, mantendo um sentido de permanência e de identidade, para além da compra e venda de alimentos. São espaços de relações sociais, manifestos, comícios e apresentações artísticas.

3. Você mostra na pesquisa etnográfica diferenças interessantes entre as feiras que fizeram parte da sua observação. Poderia falar um pouco sobre essas diferenças encontradas e quais as conclusões que obteve a partir dessas observações?

No início do trabalho, e por um bom tempo, tive dificuldade de me “distanciar da feira”, pois tenho o sentimento de pertença, identidade com a “comunidade feira”. Neste caso, para o pesquisador que faz parte da sociedade que está sendo pesquisada, o grande desafio é procurar interpretar a sua própria cultura.

Numa feira livre tradicional (não agroecológica), percebi vínculos entre consumidores e feirantes, parecido com a feira agroecológica. Muita brincadeira, e de diferente me chamou a atenção a relação, o jogo do preço, isto é, uma certa competição entre as bancas, no sentido de ter o melhor preço. Me parece que o “espírito da feira” é o menor preço. Na feira agroecológica o “espírito da feira” não é o do preço, mas da qualidade, por ser agroecológica.

Outra experiência foi a Bioferia de Miraflores em Lima, Peru. Também é uma feira ecológica, organizada pelo Grupo Ecológica Peru. O que me chamou a atenção foi o número de estrangeiros (inclusive eu) que circulam pela feira, de vários lugares do mundo, e as bancas que vendem café e produtos prontos são muito frequentadas. Percebi que as pessoas comem na feira, se encontram, vão ao parque, assim como fazem em Porto Alegre. Muitas famílias com crianças, e depois de passar pela feira costumam ir para o parque, onde existem atividades culturais como roda de musica.

A partir dessas experiências, consegui observar diferenças entre feiras e, na verdade, me distanciar para depois me aproximar novamente. Na feira FAE, (de Porto Alegre) o trabalho é construído coletivamente a partir de uma luta por ideais. Vi outra feira, onde o poder público e a indústria de alimentos estão presentes, e outra onde os produtores,  comerciantes e poder público, mostram para o mundo a sua identidade alimentar/cultural. Claro que foi meu olhar de estrangeira naquela feira, fiz nesses outros espaços, que não da FAE, um exercício etnográfico, do estranhamento.  Me chamou a atenção a diferença nas relações de compra, na feira livre o feirante se aproxima do consumidor pelo jogo do diferencial de preço, chama fregueses pelo apelo do menor preço. Na feira agroecológica FAE, não existe este jogo, o que é oferecido é um ideal, uma qualidade diferenciada,  um resultado de uma longa construção. Na Bioferia de Miraflores, percebi a feira, em alguns momentos, como uma exposição das riquezas culturais e um ponto de encontro para comer e conversar. É uma feira para turistas.

Percebi que todas as feiras têm de marcante as relações entre produtores/comerciantes e consumidores, muito diferente de um supermercado, onde as pessoas nem se olham.

4. Na sua opinião, as feiras livres podem ser espaços para conscientização da população voltados para a importância de uma alimentação sustentável que permeie aspectos econômicos, sociais, ambientais, de saúde e até afetivos?

A feira pode ser vista como um espaço representativo de práticas alimentares, entendida como: todos os processos relacionados com o comer, como a escolha, preparo, a companhia, o local, quantidade, a forma, a apresentação, entre outros. Relacionados aos aspectos subjetivos (socioculturais) do comer e da comida.

É um lugar onde se dá a aproximação de produtores familiares e consumidores urbanos que compartilham valores sociais e representações. Se estabelece pelo contato face a face uma “ética relacional”, envolvendo espaço, produtos, pessoas, significados, conhecimentos, enfim, trocas. Assim a rede estabelecida gera relações de confiança e marca a legitimidade da qualidade dos alimentos.

A feira pode ser vista como um importante espaço público de Educação Alimentar e Nutricional no contexto da realização do Direito Humano à Alimentação Adequada e da garantia da Segurança Alimentar e Nutricional, onde a autonomia das escolhas alimentares saudáveis é central e a prática da educação se dá através do diálogo.

A feira é um meio de ampliação do acesso a alimentos de qualidade, pela produção agroecológica e sustentável e justiça social, e fortalecimento da agricultura familiar. Outro aspecto importante da SAN na feira é a conservação da biodiversidade, pela forma de produção que é ambientalmente e socialmente sustentável, mas também como um local onde existe a oferta de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) e de produtos nativos, como algumas frutas.

Produzir e comer comida da feira é uma forma de participação política. Entendendo como uma ação política um posicionamento diante da problemática social, ambiental e de identidade da sociedade contemporânea.

A comida que vem da feira tem identidade, é temperada com ideais e relações sociais, com toque de memória e afeto.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.