Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Trajetórias biográficas sobre o aumento e o excesso de peso de mulheres pobres no Brasil

Denise Oliveira e Silva

Danielle Cabrini

*Este texto é baseado no artigo Silva, D O, Cabrini, D. Trajetórias biográficas do aumento e excesso de peso de mulheres do Programa Bolsa Família, Brasil. Com.Ciências Saúde; 28(2). No prelo 2017.

 

O estado nutricional é a consequência das características do consumo alimentar e de sua utilização biológica no corpo humano e se expressa por meio de uma cadeia causal em que aspectos históricos, econômicos, sociais, culturais e biológicos fazem parte de uma rede de inter-relações importantes em sua determinação.

No Brasil, dados do sistema VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), apontam que houve variação temporal significativa entre os anos de 2006 e 2016 na prevalência de excesso de peso e obesidade nas mulheres para ambas as condições, aumentando a prevalência do excesso de peso de 38,5% para 50,5% e  de 12,1% para 19,6% a prevalência da obesidade. O fenômeno do excesso de peso e da obesidade é multicausal e crescente na população feminina brasileira com tendência para se deslocar para a Região Nordeste e para as classes de menor renda.

O advento de estudos e pesquisas de abordagem quantitativa para compreender o  fenômeno da obesidade têm sido realizados no Brasil, ao passo que são escassos os estudos sobre a compreensão do fenômeno do excesso de peso como expressão histórico-econômica e social, circunscrita na biografia dos sujeitos que vivem esta experiência. A leitura do gênero na avaliação do estado nutricional como categoria de análise das práticas sociais e a teia de poderes a partir dos ciclos de vida da mulher se destacam nesta abordagem, em que o corpo é a entidade física do trabalho, prazer e saúde. O entendimento desta categoria visa explorar a sua potencialidade de ampliação e de avaliação crítica dos fatores que diferenciam o aumento da massa adiposa em indivíduos adultos. Nesta compreensão, os caminhos que a mulher percorre para seu amadurecimento em nível biológico e social. O ideário do peso como símbolo de habilitação social está colocado, principalmente para as mulheres que tem a interação de ciclos biológicos com o  processo de socialização e cultura.

A Fiocruz Brasília desenvolve pesquisa sobre a história biográfica de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF) no Brasil e o objetivo deste texto é apresentar e discutir  de forma breve os resultados desta pesquisa.

Trata-se da descrição de cinquenta narrativas biográficas de mulheres obesas beneficiárias do Programa Bolsa Família no Brasil, com idade entre 20 e 55 anos, das cinco macrorregiões brasileiras, utilizando o método história de vida. As entrevistas foram realizadas por telefone por estudantes de cursos de graduação  das áreas de saúde ou de ciências sociais, obrigatoriamente do sexo feminino, no período de janeiro de 2016 a dezembro de 2017. O processo de análise dos dados seguiu as etapas de transcrição das entrevistas, leitura exaustiva deste material, organização em categorias de significados e análise por meio do caminho interpretativo proposto pela Hermenêutica-Dialética e da abordagem da Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty.

No decorrer das primeiras entrevistas foram encontrados dois tabus linguísticos. Tabu, é definido por inúmeros autores como algo proibido e interdito de caráter próprio e impróprio. O que caracteriza  a denominação de tabu linguístico é algo proibido de ser dito. Podem ser expressão de crenças e valores da sociedade de desaprovação, por meio de itens lexicais aos quais se atribui algum poder e que, se violados, poderão trazer perseguições e castigos para quem os emprega.

A palavra “obesa” foi o primeiro tabu lingüístico identificado. Dito pelas entrevistadoras no primeiro contato, quando apresentavam o título da pesquisa, constituiu-se de uma palavra de rejeição pois associava-se com significado de doença. Para as primeiras entrevistadas, o sentido desta palavra não expressava sua experiência corporal. Haveria um sentido reconhecido e significante de gordura que não se traduziria como “obesa”. Assim, os eufemismos usados em substituição foram  “gordinha”, “cheinha”, “fofinha” e “acima do peso”. A palavra “fome” foi o segundo tabu linguístico identificado. Seu relato em geral marcava algum evento da infância na região nordeste do semi-árido brasileiro e se constitui de um núcleo de sentido com forte componente traumático. A presença destes tabus lingüísticos foram importantes expressões simbólicas de linguagem de re-criação e re-constituição de mundo vivido entre sujeitos da pesquisa e entrevistadoras. Em busca de construir trajetórias biográficas como expressões de linguagem como atos instituintes e criativos de um meio simbólico social vivido. Portanto, as narrativas biográficas desvelaram diversos sentidos imbricados, os biológicos somados aos afetivos, sociais e culturais, pela experiência de contar a história de corpos de desejos, gostos, preferências, rejeições, aversões  individuais e coletivas.

Nas narrativas biográficas o aumento do peso expressa-se pelos ciclos biológicos reprodutivos e pela internalização de uma “força” necessária para a assunção dos papéis de mãe e de dona de casa para enfrentar a luta pela sobrevivência.

“(…) o peso aumenta sem a gente perceber(…) o corpo aumenta na vida da mulher e a gente não liga(…) ficar prenha é danado para engordar e depois não se vai ter o  corpo de antes e ainda vem um menino atrás do outro(…) quando vira excesso a gente vê e outros fala”(…)”

(Entrevistada de uma cidade rural)

Muito cedo nas biografias das entrevistadas o corpo é um instrumento de sobrevivência. Na  infância é referido para brincadeiras e o trabalho doméstico familiar como parte dos ritos simbólicos de diferenciação social e cultural e de gênero. O aparecimento da menstruação foi o sinal biológico da passagem para a adolescência. Neste período, são relatadas  mudanças de comportamento e de imagem corporal, como a definição das características femininas de aumento das mamas, dos quadris e de outras partes do corpo. Nas narrativas biográficas observa-se a menção de um passado recente onde o corpo é adjetivado como “belo”e “bonito”. A internalização do aumento do peso como força inicia-se na gravidez, que pode ocorrer ainda na adolescência. É considerado como algo natural e preconizado pelas recomendações de saúde.  O aumento do peso é um momento da simultaneidade dos papéis biológicos, sociais e simbólicos-culturais de atendimento à gestação e amamentação e da assunção dos papéis de mãe e de dona de casa pelo reconhecimento de um corpo que precisa ser “forte” para enfrentar este período.

As entrevistadas são beneficiárias do PBF, que apresenta modelo familiar preponderantemente nuclear, onde em quase 50% dos lares está ausente o cônjuge (marido ou companheiro) “configurando uma estrutura familiar monoparental, como também convivem nas residências outras pessoas ademais de pai, mãe e filhos” que junto com a provisoriedade e a incerteza sobre a renda familiar, principalmente afetada pelo desemprego. As ações familiares são praticadas por estas mulheres que sozinhas ou acompanhadas assumem como condição cultural e social de gênero a responsabilidade pela maternagem, os afazeres domésticos e o cuidado da família. Nesta pesquisa, as entrevistadas reconhecem estes encargos e referem que precisam ter um corpo com força e vitalidade para  atender as demandas de sobrevivência e seus papéis no ciclo de vida familiar.

Assim, a força do corpo pelo aumento do peso cresce internalizada como necessária à sobrevivência para atender as responsabilidades pela vida e revela outro ponto chave biográfico: o reconhecimento de um corpo-acima do peso.

(…)até eu ter problema de pressão alta eu não ligava para meu peso(…) sabia que estava gordinha mas ia levando a vida assim(…) não vou ser artista e madame para ficar fazendo dieta(…) e não tenho dinheiro para comprar as coisas de dieta e ir para a academia(..) mas quando a pressão subiu e eu fui para o hospital e o médico disse que se eu não diminuísse a gordura eu teria um AVC eu lembrei de meu filhos pequenos e estou tentando fazer dieta(…) não consegui ninguém para me ensinar(…) os médicos falam mas não ajudam quem é pobre(…) ele ficam com raiva da gente, como se nóis tem culpa de pedir consulta(…) eu sei que eu fiquei assim gordinha pela vida que eu tive(…)”

(Entrevistada de uma periferia de uma metrópole)

O discurso de combate a pandemia do excesso de peso e da obesidade dos programas e políticas públicas no Brasil e no mundo, sustentado pela mídia, representam-se como elementos do biopoder  cunhado por Foucault  de racionalidade biomédica e de estética corporal principalmente para o gênero feminino. Com a cultura de consumo como reguladores sociais e de produção de hábitos alimentares e de padrões de imagens corporais e os imperativos sanitários nas sociedades modernas atuais.

As narrativas sobre o corpo acima do peso revelam algumas questões referentes a corporeidade feminina, que passou de entidade funcionalista, sede de dogmas religiosos de impureza, sacrifício, culpa e purificação para ser valorizado nas sociedades industriais como“o corpo desejável”. O  excesso de peso é um desconforto contido na definição de qual é o peso corporal de referência, envolto a dúvidas sobre que parâmetros devem ser atendidos.

Num contexto de vida marcado pela pobreza e pela miséria, a mulher assume árduos papéis sociais e simbólicos-culturais de gênero e o corpo revela-se como entidade de  força e vigor como estratégia de sobrevivência. Quando fica acima do peso, revela-se também como simulacro de estigmas sociais, reconhecidos por elas quando referem o excesso de peso.

Os resultados apresentados podem contribuir para reflexões iniciais sobre os percursos biográficos de mulheres pobres classificadas como obesas pelos parâmetros biomédicos que relatam a pobreza, a fome e a miséria em seu percurso de vida. Nos limites deste estudo, pode-se vislumbrar de forma inicial, que as chaves biográficas apontadas nesta pesquisa, demonstram a necessidade de compreensão dos elementos perversos da pobreza na determinação social do excesso de peso em populações pobres.

A necessidade de compreensão sobre as estratégias de sobrevivência que estabelecem a corporeidade simbólica do corpo-força, está colocada como desafio que ressignifica o conceito de aumento de peso como resposta de um cotidiano de desigualdade social nas mulheres que participam deste estudo. Pode-se inicialmente refletir com base nos resultados desta pesquisa que a força reconhecida como necessária para a sobrevivência, desenvolve a corpulência, para lidar com a desigualdade social determinadas por fatores relacionados à prática de hábitos alimentares inadequados, os biológicos (ganho de peso na gravidez, desequilíbrios hormonais, síndromes e patologias metabólicas, etc..) e psicossociais relacionados ao excesso de peso.

Alguns questionamentos precisam ser refletidos  a medida que os resultados demonstram o reconhecimento do excesso de peso e obesidade atestado por parâmetros antropométricos como também subjetivos. E  revelam os dogmas morais biomédicos e estéticos vigentes pela exclusão e a imposição de valores de corpo “não desejável” resignificando, junto com a “fome”, tabus linguísticos de dor, revolta e lembranças ameaçadoras de um grupo populacional excluído pela pobreza, pela miséria, pela fome, pela área geográfica de nascimento e pela cor da pele. Finalmente, o dilema de reconhecer o peso excessivo corporal nestas mulheres deve ser refletido à luz da emancipação da mulher sobre sua corporeidade, sem os julgamentos sociais e os estigmas moralizantes estéticos e biomédicos, em programas e políticas públicas de informação, comunicação e educação no campo da saúde, da alimentação e da nutrição no Brasil.

 

Referências:

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Arnaiz-Gracia M. Comemos lo que somos: reflexiones sobre o cuerpo, gênero y salud. Barcelona: Icaria Editorial; 2015.

Denise Oliveira e Silva é nutricionista, pós doutora em antropologia da alimentação, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz de Brasília, coordenadora do Programa de Alimentação Nutrição e Cultura (Palin) e do Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares (OBHA).

Danielle Cabrini é nutricionista e sanitarista, doutora em Saúde da Criança e da Mulher (IFF/Fiocruz). É professora da Universidade Federal de Espírito Santo (UFES), atualmente em exercício na Universidade de Brasília (UnB). Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.

Excesso de peso e obesidade como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil

Excesso de peso e obesidade como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil

*Ana Maria Segall Corrêa

Relatório da organização Mundial da Saúde (OMS-Fact sheet- Updated October 2017) traz a preocupante informação que 1,9 bilhões de adultos no mundo estão obesos e mais de 340 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 19 anos de idade, tem sobrepeso ou obesidade. Segundo dados da OMS, a prevalência de obesidade no mundo praticamente triplicou desde 1975.

Estudos internacionais têm verificado que, tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em vias de desenvolvimento, a tendência de aumento da obesidade está presente em todas as faixas etárias e de renda. Observa-se, entretanto, que a magnitude deste aumento é maior entre mulheres de grupos populacionais socialmente mais vulneráveis. Nos países desenvolvidos a obesidade tem avançado de forma significativa, também entre os homens.

No Brasil análises de dados do VIGITEL/Ministério da Saúde mostraram que a prevalência de obesidade, entre 2006 e 2016, subiu de 11,8% para 18,9% no grupo de pessoas 18 anos ou mais. No período de 2006 a 2009, outro estudo de série histórica do VIGITEL observou aumento nas prevalências de obesidade entre mulheres brancas e de menor escolaridade.

Análises de pesquisas de base populacional, realizadas a partir dos anos de 1970, mostram transição nutricional no Brasil, com redução acentuada da desnutrição e aumento progressivo do sobrepeso/obesidade.  Em 1975 havia uma mulher obesa para duas desnutridas, em 1997 esta relação estava invertida, eram mais de dois casos de mulheres obesas para um de desnutrição. Estas pesquisas mostraram também desigualdade de renda significativa nas tendências de aumento da obesidade, mas não na redução da desnutrição.

Entre 1975 e 1997, no grupo de mulheres 25% mais pobres o aumento da obesidade foi de 168%, já no grupo das 25% mais ricas esta elevação foi de apenas 11,2%, nos dois grupos a redução da desnutrição foi praticamente igual, cerca de 40%. Essas informações atestam, como na maioria dos países, que as prevalências de obesidade apresentam desigualdades em relação ao gênero e a renda. Entre 1975 e 1989 houve aumento da obesidade em todos os níveis de escolaridade e em todas as macrorregiões do Brasil. Porém, na década seguinte, de 1989 a 1997, houve aumento da prevalência de obesidade entre os indivíduos sem escolaridade e redução significativa da prevalência entre mulheres de média e alto nível de escolaridade.

Dados mais recentes da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF 2008/2009) mostram resultados de desvios nutricionais entre crianças, na faixa etária dos 5 aos 9 anos, compatíveis com as tendências relatadas. O déficit de peso (<2 Z escore) foi observado em apenas 4,3% dessas crianças e a obesidade (>2 Z escore) em 14,3%, entretanto a relação com o rendimento familiar é o oposto da observada entre mulheres. As crianças de estratos de renda familiar mais altos, acima de 5 salários mínimos per capita (SMPC), tem prevalência de obesidade cerca de 3 vezes superior à observada no estrato de rendimentos abaixo de ¼ de SMPC.

Há consenso de que a obesidade é multidimensional e cuja determinação tem fortes componentes sociais, econômicos, ambientais, culturais e também, biológicos. Recentemente o fenômeno da insegurança alimentar tem aparecido como figura associada ao ganho excessivo de peso. Argumenta-se, neste contexto, que desigualdade no acesso à alimentação saudável é um dos mecanismos pelos quais as condições socioeconômicas influenciam a dieta e, consequentemente a saúde das populações. Tradicionalmente, o ganho excessivo de peso tem sido relacionado ao balanço energético inadequado resultante de ingesta calórica aumentada e baixa atividade física. Entretanto, estudos mais recentes colocam outros fatores associados à obesidade, alguns deles por processos biológicos que levam ao aumento da ingesta ou a escolhas alimentares obesogênicas e outros mecanismos que atuam como mediadores da relação entre insegurança alimentar e obesidade.

O Simpósio, “Insegurança alimentar e Saúde no Ciclo da Vida” (Food Insecurity and Health Across the Lifespan) organizado em 2012 por Advance in Nutrition- an International Journal (Oxford Press) e publicado em 2013 sintetizou os conhecimentos disponíveis até aquele momento sobre a relação entre insegurança alimentar, nos seus aspectos qualitativo e quantitativo, ganho de peso excessivo e maior risco de doenças crônicas.

É sabido, que a insegurança alimentar domiciliar leva indivíduos e famílias a basear sua alimentação em itens alimentares baratos, de paladar agradável e, em geral, com alta densidade energética. Se esta circunstância ocorre de forma periódica, por exemplo, ao final de cada mês quando os recursos no domicílio são mais escassos, poderá haver aumento de peso naqueles indivíduos afetados pela carência alimentar em um curto espaço de tempo.

Falando ainda sobre a publicação acima, para que este mecanismo obesogênico ocorra seria necessário: a) que nos domicílios as pessoas sejam dependentes de uma alimentação barata e densamente energética; b) que no domicílio ocorra um padrão cíclico de consumo alimentar, por exemplo, mais adequado no período de maior recurso financeiro, em geral no início do mês, seguindo de um período de consumo inadequado por escassez destes recursos; c) que este mecanismo cíclico ocorra ao longo de um período de tempo tal, que resulta em alteração do metabolismo dos indivíduos e em balanço energético positivo. Alguns outros fatores podem ocorrer interferindo neste processo ou surgindo como seu resultado, de qualquer forma, contribuindo para ganho excessivo de peso.

Do ponto de vista biológico tem sido bem descrito que, sob condições de estresse há aumento da produção de cortisol e outras substancias produzidas pelo estímulo do eixo hipotálamo/pituitária/adrenal, surgindo ainda neste processo as vias de recompensa (reward pathways), que podem resultar, tanto no desejo de consumo de alimentos densamente energéticos quanto na alteração do metabolismo. Reconhecendo que a insegurança alimentar e a fome são fatores estressantes suas consequências podem agravar se estes fenômenos ocorrerem em períodos críticos do desenvolvimento, induzindo futuramente nos indivíduos síndrome metabólica.

Ainda são escassas as pesquisas no Brasil que avaliam o papel da insegurança alimentar na gênese da obesidade e de suas co-morbidades. Os estudos que analisaram dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS 2006) revelam que a insegurança alimentar severa aumentou em 49% a chance de obesidade em mulheres em idade fértil. Em adolescentes a insegurança alimentar moderada, mas não a severa, aumentou em 96% a chance de sobrepeso. Certamente existem vários fatores mediadores nesta relação que precisam ser mais explorados, sobretudo em estudos longitudinais. Apesar desta constatação, já existem algumas informações que podem explicar a associação entre carência alimentar e sobrepeso e obesidade, na população brasileira, tomando como base os mecanismos já mencionados.

Dados da POF (IBGE 2002/2003) publicados em 2005, apontam que o consumo de alimentos essencialmente calóricos como, óleos e gorduras vegetais, gordura animal, açúcar, refrigerantes e bebidas alcoólicas representavam 28% do total de energia consumidos ao dia, carnes, leite e derivados e ovos 19% e, frutas, verduras e legumes contribuíram apenas com 2,8% dessas calorias.

Análises mais recentes (POF 2008/2009) confirmam a tendência de mudança nos hábitos alimentares da população brasileira, com consumo excessivo de açúcares livres e gorduras saturadas e, ainda, presença insuficiente de frutas, verduras e legumes na dieta.

Estudos de base populacional, sobre insegurança alimentar no domicílio e consumo alimentar, realizados em Campinas em 2004, mostram que a medida que se agrava a insegurança alimentar, de moderada para grave, piora a qualidade do consumo alimentar das famílias.  Nos domicílios com insegurança alimentar grave, a frequência de consumo diário de carnes era em torno de 10%, de leite inferior a 30%, verduras e legumes em torno de 40% e o consumo de frutas abaixo de 10%, já os açúcares e óleos tinham frequência de consumo em torno de 70%.   Agravando esta situação de baixa qualidade da alimentação, nos domicílios que conviviam com insegurança alimentar grave, um percentual significativo das pessoas entrevistadas, geralmente uma mulher adulta, referia hábito de não fazer todas as principais refeições do dia.  Entre elas 20% não tinham habitualmente o café da manhã, pouco mais de 16% não costumava almoçar e 20% não jantavam. Estes resultados sugerem que, em presença de insegurança alimentar domiciliar, o padrão alimentar da família está comprometido, não apenas quantitativamente, mas também qualitativamente e que a escassez de recursos, podem levar membros da família a situação de não fazer todas as refeições do dia, levando a aumento de intervalo entre as refeições, situação reconhecida como de risco para aumento de ganho de peso.

Mesmo com poucas as pesquisas no Brasil explorando a associação entre insegurança alimentar e obesidade, os resultados disponíveis corroboram as hipóteses hoje disponíveis e aqui relatadas, sobre os mecanismos subjacentes à relação entre carências alimentares e maior chance de sobrepeso e obesidade, tanto no campo dos determinantes socioeconômicos quanto nos processos biológicos consequentes.

Entretanto, é necessário prosseguir nas investigações para melhor elucidar essa relação, sobretudo, em temas como os de hábitos alimentares e insegurança alimentar, tendências, influências do ambiente e pressão comercial; Insegurança alimentar e ciclo de vida; determinantes da IA em populações tradicionais, mudanças no seu padrão alimentar e consequências para a saúde e nutrição; Insegurança alimentar e condições bio-psico-sociais e ainda, insegurança alimentar por períodos intermitentes, em situações de emergências ambientais  e ou de  sazonalidade, entre outras.

Este texto é uma pequena síntese dos conhecimentos atuais sobre o paradoxo aparente entre carência alimentar e sobrepeso ou obesidade.

 

Convido a todos os leitores interessados na temática explorarem as referências citadas abaixo:

Referências bibliográficas consultadas

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Carlos A. Monteiro; Wolney L. Conde and Barry M. Popkin; The Burden of Disease, From Undernutrition and Overnutrition in Countries Undergoing Rapid Nutrition Transition: A View From Brazil; American Journal of Public Health; March 2004, Vol 94, No. 3;

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Levy, R. B., ClaroII, R. M., MondiniIII, L., SichieriIV, R., & Monteiro, C. A. (2012). Regional  and socioeconomic  distribution of household food availability in Brazil, in 2008-2009. Revista de Saúde Pública, 46(1), 9, doi:10.1590/S0034-89102011005000088.

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Kac, G., Velasquez-Melendez, G., Schlussel, M. M., Segall-Corrêa,  A. M., Silva, A. A., & Pérez-Escamilla, R. (2012). Severe food insecurity is associated with obesity among Brazilian adolescent females. [Epidemiology]. Public Health Nutrition, 15 (10), doi:http://dx.doi.org/10.1017/S1368980011003582.

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*Prof. Dra. Ana Maria Segall Corrêa é médica sanitarista e epidemiologista. Pesquisadora na área de segurança alimentar e nutricional, com ênfase em validação de instrumentos para medida domiciliar de acesso aos alimentos, inquéritos populacionais em SAN e fatores associados. Faz parte da equipe de pesquisadores do Programa de Alimentação e Cultura (PALIN) da Fiocruz-Brasília.

O Gosto em Pierre Bourdieu: habitus e práticas alimentares

O Gosto em Pierre Bourdieu: habitus e práticas alimentares

Jamacy Costa Souza*

A primeira vez que tive contato com a noção de hatitus (em 2009), me questionei: como, em tantos anos de formado, nunca fora apresentado a um conceito tão importante para compreender as práticas alimentares? Era o início do meu doutorado no ISC-UFBA, no qual fiz uso do referencial bourdiesiano para analisar a gênese do Programa de Incentivo Fiscal à Alimentação do Trabalhador (PIFAT/PAT). Após  a defesa da tese, alguns colegas me convidaram para falar sobre o conceito para estudantes de graduação e pós-graduação em Nutrição. E foi assim que em 19/10/2017 participei da disciplina “Seminários Contemporâneos sobre Hábitos Alimentares: Gosto, Corporalidades e Obesidade” dando uma aula com o título: “O Gosto em Pierre Bourdieu: habitus e práticas alimentares”. Este texto é uma síntese do que abordei naquele momento.

Iniciei a aula  apresentando três questões para orientar a reflexão:

  1. O que significa uma recomendação ou orientação alimentar?
  2. Quais são os espaços/campos de imposição de uma “alimentação legítima”?
  3. O que é exposição e o que é desfecho quando analisamos práticas alimentares?

Como questões norteadoras, a intenção não é oferecer respostas (até porque não as tenho no momento). Mas são pontos de partida para discutirmos habitus a partir de algumas das bases que orientam os estudos e as intervenções sobre as práticas alimentares.

O habitus pode ser entendido como um sistema de disposições, esquemas de percepção que orientam as diferentes ações dos agentes. Esse sistema gerador produz o estilo de vida, do qual faz parte o gosto em relação aos alimentos. Funciona, assim, como “estrutura estruturada” por corresponder à incorporação no “inconsciente” (ou não-consciente) das estruturas sociais, e estruturante por orientar as escolhas práticas e os julgamentos. Daí deriva uma síntese bastante usada, que o apresenta como “estrutura estruturada e estruturante”. Para os “iniciados”, é uma ótima formulação. Sobretudo nestes tempos de exíguos espaços para a escrita. Todavia, para quem está se apropriando da obra de Bourdieu, mormente para quem o faz ao passo que se aproxima das ciências sociais, pode soar de difícil compreensão. Ocorre que há uma outra síntese igualmente boa e, suponho, de mais fácil entendimento: “o habitus é a história tornada corpo”.

A noção de habitus em Bourdieu designa o processo ou mecanismo pelo qual reagimos em determinadas  circunstâncias. Diz respeito às referências cognitivas, corporais e afetivas que lançamos mão, ainda que em estado não consciente, no momento de agir. Fazer um julgamento de bom ou ruim, bem ou mau, certo ou errado, adequado ou inadequado, justo ou injusto, pertinente ou impertinente, sensato ou insensato… requer buscar os parâmetros que estruturam cada um desses juizos, ou vários deles em seu conjunto.

Essas referências, esses padrões, essas estruturas que orientam a prática, por sua vez, não são produtos de geração espontânea. São frutos de um processo histórico, de disputas entre diversos pontos de vistas, que, uma vez vencida a “batalha”, vai pouco-a-pouco se “naturalizando”, passando de geração-em-geração até sequer dar-mo-nos conta que “um outro mundo é possível”. Ou, como na fala do personagem Chicó, do Ariano Suassuna: “não sei, só sei que é assim!”.

A disputa em torno de um ponto de vista se dá em um espaço social. Ou em um campo, ou em um espaço inter-campos. Ou seja: se dá na interação de diversos agentes e instituições, cujas diferentes estruturas de julgamento entram em conflito até que uma (ou mais) se estabeleça.

Mudar uma prática, portanto, implica em alterar as estruturas de julgamento que orientam essa prática. Requer modificar o habitus.

Assim, fazer alguém adotar uma recomendação ou orientação alimentar requer a modificação dos seus padrões de julgamento. Significa construir condições para que a prática que se quer mudar perca o  sentido prático que atualmente tem, em vantagem da nova que se quer implantar na mente, no corpo e nas emoções do outro. Constituir uma virtude para uma nova necessidade. Ou, modificar a posição de distância daquela necessidade. É um ato, pois, de violência que se estende às dimensões física, cognitiva e afetiva e, em logrando sucesso, vai constituir-se em uma violência simbólica (aquela que de tão incorporada, naturalizada, já não é percebida como tal). Ou seja: requer tempo e legitimidade. E não parece que isso seja facilmente exequível no curto intervalo de uma consulta ou exposição, mesmo que repetidas com certa frequência; ainda mais em uma área de conhecimento que disputa sua legitimidade com diversos espaços do campo social global.

Os principais espaços de constituição do habitus é a família e, em seguida, a escola. Mas, à medida que o agente circula por outros campos, novas disputas e injunções vão “aggiornando” sua vida, bem como ele pode contribuir para alterar o estado das disputas e oposições vigentes. Daí diz-se que  habitus é um estrutura estruturada (porque herdada da sua construção histórica), mas também estruturante, porque capaz de promover mudanças.

A disputa em torno da alimentação adequada ou saudável (duas categorizações que postas lado-a-lado servem mais para ocultar as contradições do espaço de formulação de política nutricional no Brasil), está em aberto e se dá em várias frentes:  a tradição, ou a história familiar; a classe social de origem do agente; e os diversos espaços que disputam o poder de emitir um julgamento final e definitivo sobre o quê, como e quando comer. É um “mundo sem fim” que envolve as religiões, o Estado, os campos científico e econômico, os meios de comunicação, as chamadas redes sociais… Enfim, se entendermos que parte importante do que viabiliza a vida entra pela boca sob a forma de comida, fica mais clara a complexidade do fenômeno e sua imbricação (subordinação talvez fosse a melhor palavra) às relações sociais de produção material e simbólica.

Deste modo, identificar as práticas alimentares e de onde “vêm” os pontos de vistas que as legitimam e as condições que as possibilitam, é um belo plano de investigação para responder a segunda questão .

Por fim, façamos a breve reflexão sobre o que seria a relação causa e efeito nos estudos sobre as práticas alimentares.

A importância do biológico é inconteste; afinal, é num corpo que um habitus (produto das dinâmicas sociais) se efetiva, se “incorpora”. No entanto, é no “mundo da vida em sociedade” que as disputas se dão e se viabilizam. Logo, cabe a indagação: neste jogo em que as fronteiras entre o social e o biológico não se distinguem muito bem,  onde começa e onde termina um fenômeno? Ou, para ser mais direto: o quê e como se come é, afinal, exposição ou um desfecho da trama da vida?

Geralmente, nos estudos clínicos (e mesmo em muitos estudo epidemiológicos), a alimentação (o consumo) é a exposição, e a patologia, ou o “estado nutricional”, é o desfecho. Ocorre que, se por um lado o consumo determina o corpo que se tem; por outro, a visão que o agente tem do seu próprio corpo (que é produto de uma construção social), e as condições reais de possibilidades de vida daquele corpo (que é, igualmente, produto de uma construção social), também condiciona o consumo que se pratica, ou o consumo que é praticável para um determinado conjunto de agentes. Ou seja: o agente, a depender das tensões sociais que enfrenta nos diversos campos pelos quais transita (ou transitou) ao longo de sua vida, construirá (e terá/será construída) uma relação própria com o seu corpo e, como causa e consequência (simultaneamente), com o que come e como come. Em síntese: a prática alimentar é orientada por um habitus que, produto e produtor de uma realidade social, ajusta (ou desajusta) o corpo (e o consumo) à sua condição concreta de existência.

*Jamacy Costa Souza é nutricionista e professor da Escola de Nutrição da UFBA. É membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Alimentação Coletiva (GEPAC); e do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS).

Corporeidade da Mulher Negra

Corporeidade da Mulher Negra

*Liliane Bittencourt

Antes de falar da corporeidade das mulheres negras precisamos estabelecer qual conceito de corporeidade estamos nos referindo. Este está relacionado ao embodiment, proposto por Csordas (1993), numa perspectiva fenomenológica, na qual “o corpo não é um objeto a ser estudado em relação à cultura, mas é o sujeito ou base existencial da cultura (CSORDAS, 2008)”. Ele se baseia nas visões de Merleau Ponty sobre a percepção do corpo indo além da dualidade sujeito/objeto, visto que há sempre mais do que é possível perceber através dos olhos, e do entendimento de Bourdieu de que o corpo socialmente informado, ou seja, o habitus, é o princípio gerador e unificador de todas as práticas sociais (CSORDAS, 2008).

Para Merleau-Ponty o corpo é entendido como um cenário em relação ao mundo, sendo a consciência o corpo projetando a si próprio no mundo. Temos consciência do mundo a partir do corpo, visto que esse se confunde com o próprio ser. A experiência do corpo no mundo se alicerça no fato de que ajo no mundo através do corpo, vivenciando tempo e espaço em uma perspectiva de não-exterioridade: “não estou no espaço e no tempo; eu sou no espaço e no tempo, meu corpo aplica-se e os abarca” (MERLEAU-PONTY, 1994). O corpo é, desse modo, habitado pelas transformações dos modos de existência, das formas de sociabilidade, dos valores morais e econômicos, das dinâmicas relacionais, dos ethos culturais e das ecologias ambientais. Em cada contexto social, o corpo é colocado em cena, inscrito em codificações sociais sobre ideais de beleza e sobre imaginários corporais, para enunciar dinâmicas que colocam em jogo relações afetivas, relações de gênero, relações raciais e relações de poder (NUNES; BITTENCOURT, 2013).

Segundo Bourdieu (2005, 2007), a diferenciação e a divisão entre os agentes sociais se dão pelas disposições destes em relação ao espaço social. Essas disposições, às quais ele chama de habitus, se inscrevem no corpo, e consequentemente se expressam através dele. As disposições ou habitus são estabelecidas através das incorporações das regras e estímulos do meio social em confronto permanente com as estruturas internas dos indivíduos, mas que os caracteriza como ser coletivo ou grupal (BOURDIEU, 2005, 2007). A construção das disposições ocorre através da dupla relação entre corpo e espaço social. O corpo interfere e molda o espaço social, da mesma forma que o espaço social o faz em relação ao corpo (BOURDIEU, 2007).

As atitudes e comportamentos individuais dos corpos socializados estão em relação direta com os habitus adquiridos através das experiências e os habitus atualizados no próprio processo de socialização (BOLTANSKI, 2005). Esse processo de socialização associa-se com uma crença adquirida corporalmente de que as coisas são como são, e esta capacidade de aquisição deste conhecimento depende da disposição corporal, suscitada e ativada pelas necessidades impostas pelo mundo.

Para Bourdieu (2005), o grau de satisfação íntima dependerá em maior grau da possibilidade do modo de funcionamento do mundo social permitir o desabrochar do habitus dos diferentes agentes. Para aquelas mulheres em que as disposições não se ajustarem às exigências desse mundo contemporâneo, o seu corpo será a expressão da distância entre o vivido e o estabelecido no espaço social.

As mulheres negras são uma parcela da população para a qual as determinações sociais se impõem de forma mais agressiva, dificultando a autoestima, as relações, e fomentando a ideia de que são seres hierarquicamente de menor valor social, estando atrás do homem, branco ou negro, e da mulher branca. Essa classificação está presente não só no imaginário das pessoas, mas também nos indicadores sociais de desenvolvimento humano (NOGUEIRA, 2000).

Renegar as características das mulheres negras e fazer com que o modelo de beleza preferido seja o das loiras, magras, sem quadris, com seios pequenos, “lábios e narizes finos”, foi um dos grandes ganhos do racismo vigente. Em se tratando dos vários tipos de mulheres negras, a gorda certamente fica num dos patamares mais baixos de valorização social. Este tipo de percepção foi imposto por uma cultura que gera exclusão social (NOGUEIRA, 2000).

Por mais que atualmente as mulheres negras venham construindo outras representações para si, ainda carregam em seu corpo o estigma que representa o corpo negro, associado ao repertório do desprezível e contrário aos atributos morais e intelectuais considerados naturais ao seu oposto, o homem branco. Por conta disso, ainda hoje se mantêm aprisionadas, no imaginário social, a um lugar relacionado à prostituição, à subserviência e à incapacidade (NOGUEIRA, 1999). As consequências dessa dupla desvalorização, enquanto mulher e enquanto negra, se expressam em vários indicadores, como escolaridade, emprego, renda e, principalmente, saúde.

Neste caso, o corpo negro está associado à inferioridade e pouco sucesso, devido ao passado histórico, no qual era tido como mercadoria, uma peça, desumanizado, objeto a ser avaliado para comércio e exploração, de acordo com suas características físicas. Por mais que tenha havido mudanças em relação ao lugar do sujeito negro na sociedade, o significado dos seus atributos corporais ainda está associado a este passado.

Para Isildinha Nogueira (1999), ser negro é trazer a marca do “corpo negro”, que expressa o repertório do desprezível que a cultura afasta pela negativização. O corpo negro, para o negro, significa a marca que, a priori, o exclui dos atributos morais e intelectuais associados ao outro do negro, ao branco, considerado hierarquicamente melhor dotado, dessa forma, o negro vive cotidianamente a experiência de que a sua aparência põe em risco sua imagem de integridade.

Esses construtos sociais de beleza e fealdade atingem com mais intensidade a mulher, que baseado nos valores legitimados em cada época sempre foi alvo de imposições sutis quanto à forma de entender, cuidar, expressar e viver o seu corpo. Fatores econômicos, religiosos, políticos e morais sempre estiveram na base das regulamentações e normatizações quanto à experiência corporal.

A cor da pele, o tipo de nariz e boca, a característica do cabelo são sinais diacríticos do corpo negro que informam sobre a identidade do negro no Brasil e a partir dos quais as relações, atributos, (des)valorização deste na sociedade são estabelecidas. A construção desta identidade se dá no âmbito coletivo e individual, pois a forma como cada indivíduo se relacionará com seus atributos físicos dependerá de como este reaja às manifestações coletivas sobre os mesmos e do grau de mecanismos internos para o enfrentamento de reações, que por ventura possam ser negativas ou de desvalorização. A família, em primeiro lugar, e a escola, enquanto primeiro espaço de socialização, assumem fundamental importância neste processo.

Kia Caldwell (2004) afirma que no Brasil há um padrão estético de beleza e feminilidade eurocêntrico, construído socialmente, que se expressa pelo tom de pele e tipo de cabelo considerados bons e belos, que se opõem às características da mulher negra, revelando um padrão de beleza anti-negritude. Este padrão associa as características específicas do corpo negro com a falta de higiene, do cuidado e de atratividade, o que leva à sua rejeição e influencia a construção da identidade social e racial das mulheres negras.

A naturalização com a qual se lida na sociedade brasileira com a desvalorização das características físicas das mulheres negras, através de piadas, músicas e brincadeiras, acaba por legitimar a ideia de superioridade branca, relacionada à feminilidade. Estabelece-se assim uma política anti-negritude, na qual a mulher negra é considerada um outro dentro da sociedade, inferior e indesejado, e pela qual a violência simbólica cometida contra essas mulheres é banalizada e a luta contra essa violência é deslegitimada. Essas práticas de alteridade reforçam as configurações dominantes de gênero e raça, que consideram a branquitude como critério essencial para a feminilidade (CALDWELL, 2004).

As intersecções de raça, gênero, classe e sexualidade contribuem para marginalizar multiplamente as mulheres de descendência africana. Kia Caldwell (2004) diz que

“As experiências das mulheres afro-brasileiras indicam que elas enfrentam múltiplas formas de discriminação quando seus corpos são avaliados e valorizados de acordo com padrões estabelecidos pelo discurso dominante de raça, gênero, sexualidade e beleza (tradução própria)”.

E essas experiências são mais significativas pelo fato de, no Brasil, diferente de outras regiões da diáspora africana, estas mulheres também estarem sujeitas a um discurso de democracia racial, que procura minimizar e apagar as realidades do racismo, imprimindo um impacto subjetivo nas suas vidas (CALDWELL, 2004).

Segundo Kia Caldwell (2004), no Brasil, as intersecções de gênero e raça têm promovido classificações hierárquicas, através da dissecação dos corpos das mulheres e atribuição de valores a certas características físicas, nas quais alguns signos tais como cor da pele, textura do cabelo, formato e tamanho do nariz e lábios são atribuídos à categoria beleza, e nádegas, quadris e seios à categoria sexual. Como os padrões de beleza assumidos predominantemente no país são eurocêntricos, as mulheres brancas são definidas como as belas e as negras como as sexuais.

Ressalta-se a importância de se explorar como as mulheres procuram desafiar esses valores estéticos anti-negritude e ressignifcar a feminilidade negra, através do corpo. Essa relação entre o processo de racialização da sociedade e a beleza é mais complexo do que afirmar simplesmente que as mulheres negras sofrem a opressão de um padrão hegemônico, como se isso acontecesse de forma passiva, sem uma reação por parte das mesmas. Apesar das poucas imagens positivas de mulheres negras nas esferas públicas, há uma importante política de corpo na diáspora africana, que inclui discursos, práticas e estéticas que valorizam a beleza dos corpos negros e desafiam os padrões estéticos eurocêntricos. O indivíduo negro contemporâneo apresenta particularidades, refletindo um corpo que é utilizado, principalmente, como suporte a outra estética, como forma de comunicar o sagrado, o trabalho, o poder e a sexualidade, para, ao final, conquistar o direito à diferença e à alteridade (SCHUMAHER e BRAZIL, 2007).

No seu trabalho, “Look at Her Hair”: The Body Politics of Black Womanhood in Brazil Kia Caldwell (2004) discute como o corpo e, muito fortemente, o cabelo da mulher negra são negativamente encarados na sociedade brasileira, sendo, portanto, marcadores do processo de racialização da sociedade. Ela ressalta que o exame das dimensões incorporadas da feminilidade negra evidencia a prevalência de um padrão estético anti-negro que causa impacto no nível da subjetividade das mulheres. Dessa forma, as mulheres negras, na tentativa de desenvolver uma identidade e autoimagem positivas, são obrigadas a se confrontar com os valores da cultura dominante, que caricaturam e desvalorizam suas características físicas, e a reagir a esses valores.

O corpo acaba sendo o locus onde as crenças, valores e sentimentos que fundamentam a vida social se reproduzem. Segundo Gomes (2002), as singularidades culturais se dão a partir das dimensões invisíveis das relações humanas e também pelas posturas, predisposições, humores e manipulação de diferentes partes do corpo.

Portanto, o pertencimento a um grupo não hegemônico da sociedade, como é o caso da população negra brasileira, também é evidenciado através das expressões corporais, refletindo nas relações e vivências individuais e coletivas, visto exibirem nas suas características corporais ou fenotípicas a marca da sua alteridade e os seus significados na formação da identidade e nos processos sociais.

Para Gomes (2002), o corpo fala a respeito do nosso estar no mundo, pois a localização de cada indivíduo no mundo se dá a partir da mediação deste corpo, sujeito a regras e normas culturalmente estabelecidas. Neste sentido, as manifestações corporais podem ser exaltadas ou inibidas, dependendo da correspondência com estas regras.

A cultura é vivenciada através da experiência corporal, de acordo com padrões estabelecidos e que se relacionam com a afirmação de uma identidade grupal específica, por isso o corpo evidencia diferentes padrões estéticos e percepções de mundo (GOMES, 2002).

O modo de cada indivíduo se relacionar com o corpo, a subjetividade e a cultura dá-se em um contexto social, político e histórico específico, que aliado à experiência individual, vai compor o complexo terreno da identidade negra. Nas sociedades em que a questão racial é um dos aspectos estruturantes das relações sociais de poder, o cabelo e a cor da pele, sinais mais visíveis da diferença racial, são vistos como símbolo de inferioridade e fealdade (GOMES, 2002).

A comparação entre os traços do branco europeu colonizador e os do negro colonizado embasaram a formulação do padrão de beleza que atualmente se faz presente (GOMES, 2002). No caso das mulheres negras, mesmo com outras condições de vida, a experiência de sofrer o próprio corpo irá determinar formas particulares na constituição da dimensão psíquica, envolvendo certas configurações de sentido que caracterizam, para o negro, a condição subjetiva. Segundo Gomes (2002), atualmente, é principalmente nos espaços sociais, em especial nas escolas, que, desde cedo, o negro se depara com as representações negativas relacionadas ao seu corpo. Nesses espaços, há a imposição de comportamentos e estéticas, a qual reproduz, nem sempre de forma explícita, estereótipos e argumentos de conteúdos racistas, o que resulta, muitas vezes, em experiências públicas por parte do negro de rejeição direcionada ao seu corpo.

Neste sentido, o desregramento do corpo é um marcador do que está fora de ordem no mundo psicossocial. A experiência de transformação do corpo se apresenta como termômetro de relações sociais disruptivas e como indicadora de encarnação de sofrimento. Os sinais do corpo, muitas vezes, se inscrevem em percepções sensitivas e pré-lógicas, difíceis de racionalização na imediatez da experiência, na perspectiva proposta por Merleau-Ponty onde a consciência é a projeção do corpo no mundo. O significado muitas vezes advém das transformações corporais sentidas e situadas em contextos de vida, que tendem a evidenciar mudanças ou ressignificações do meio social vivido, ou das relações sociais (NUNES; BITTENCOURT, 2013).

A dissonância entre expressão individual e imposição social, sentida sob a forma de um sofrimento pela inadequação com um “padrão ideal de beleza”, e as consequências desse sofrimento só podem existir porque o processo de incorporação desse ideal preexiste. Quando o peso da construção do mundo é individualizado, onde cada pessoa é responsável pelo seu próprio sucesso e sobrevivência, cada um é deixado a si mesmo, os corpos passam a expressar-se desse lugar atomizado: seja ganhando espaço, tornando-se invasivo, obeso, seja na redução do corpo anoréxico, seja pelo descontrole de si, revelado por um comer desregrado. Os sentidos relacionais do peso e do comportamento alimentar conduzem a uma tentativa de conter, pelo corpo, um mundo de excessos, a limitar relações opressivas pelo descontrole da boca, a compensar uma escassez relacional pelo excesso alimentar.

Seminários Hábitos Alimentares na Atualidade: gosto, corporeidade e obesidade (18/10/2017).

 

Referências

BOLTANSKI, L. Usos Fracos e Usos Intensos do “Habitus”. In: ENCREVÉ, P. & LAGRAVE, R.M. (orgs.). Trabalhar com Bourdieu. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005 [2003]. p.155-163.

BOURDIEU, P. Espaço Social e Espaço Simbólico. In: BOURDIEU, P. Razões Práticas sobre a Teoria da Ação. Campinas: Papirus, p.13-33, 2005 [1994].

BOURDIEU, P. O Conhecimento pelo Corpo. In: BOURDIEU, P. Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p. 157-198, 2007 [1997].

CALDWELL, K.L. “Look at her Hair”: the body politics of black womanhood in Brazil. Transforming Anthropology, vol. 11, n. 2, p. 18-29, 2004.

CSORDAS, T. A corporeidade como um paradigma para a antropologia. In: CSORDAS, T. Corpo/significado/cura. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008. p.101-46.

GOMES, N.L. Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelo Crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? Revista Brasileira de Educação, n. 21, p.40-51, 2002.

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1996.

NOGUEIRA, I. B. O corpo da mulher negra. Revista de Psicanálise, ano XIII, n. 135, p. 40-45, 1999.

NOGUEIRA, R. Mulher negra e obesidade. In: WERNECK, J. et al (org.). O Livro da Saúde das Mulheres Negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas: Criola, 2000. 256p.

NUNES, M.O.; BITTENCOURT, L.J. Tracking what troubles the body and upsets eating: the meanings of loss of self-control and “eating compulsions”. Interface – Comunic., Saude, Educ., v.17, n.44, p.145-57, jan./mar. 2013.

SCHUMAHER, S; BRAZIL, E.V. Mulheres negras do Brasil. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2007.

*Liliane é professora adjunta da Universidade Federal da Bahia, é bacharela em Nutrição pela Universidade do Estado da Bahia (1994) e mestra em Saúde Materno Infantil pelo Instituto Materno Infantil de Pernambuco (2004). Se doutorou em Saúde Coletiva pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, em 2013, quando investigou sobre transtornos do comportamento alimentar em mulheres negras.

Metodologia da pesquisa qualitativa para o tema Alimentação e Cultura

Metodologia da pesquisa qualitativa para o tema Alimentação e Cultura

*Maria do Carmo de Freitas

Para este tema, em primeiro lugar gostaria de relembrar algumas noções conceituais sobre cultura, especialmente quando relacionadas à alimentação e a nutrição na sociedade brasileira.

A cultura pode ser entendida como a compreensão das ações humanas, ou ainda, o sentido das ações sociais. Sentido pensado e subjetivo da conduta alimentar. Portanto, não se trata da ação objetiva do comer, mas dos significados atribuídos pelos sujeitos sobre sua comida e seu corpo. Cultura é o conjunto de sentidos ou significados da conduta humana em qualquer que seja a sociedade. Em resumo, a cultura é baseada em símbolos, integrada aos grupos sociais, dinâmica, se adapta; se modifica (Geertz, 1989).

Cultura alimentar é apreensão de sentidos ou de significados do alimento no mundo cotidiano; considera ritos e crenças, valores diversos sobre o comer, os alimentos e a nutrição (Contreras, 2011).

Estamos falando de valores sociais, morais, códigos, hábitos, crenças, símbolos, costumes e qualquer disposição do comer em uma sociedade.

Assim, a relação humana com o alimento é antes de tudo afinidade com significados que o sujeito se refere sobre o comer. Nesse aspecto, o alimento não é somente matéria bioquímica, mas é, principalmente, símbolo. E desconsiderar essa dimensão simbólica, cultural, do alimento significa reduzir a alimentação humana ao modo equivalente à alimentação animal. Ração alimentar. Ou seja, uma relação veterinária e não nutrição-humana.

Em síntese, buscamos compreender a condição alimentar em cada contexto específico, nas tradições rurais e urbanas, na sociedade globalizada, representações sociais, sentimentos, tabus e tantos outros valores culturais que afetam a condição alimentar.

Importante destacar que a nutrição clínica pode ser contemplada pela dimensão sociocultural e vice-versa, pois não devem ser entidades separadas. Na realidade, são dimensões que se complementam, ainda que tenham diferentes enfoques conceituais.

Vale lembrar que o mais importante aspecto da cultura é a linguagem. Referimos ao uso das palavras ou sinais para significar o alimento, e os efeitos sobre o corpo e a vida.

Desse modo, perguntamos: Como o sujeito significa sua condição faminta? Como significa sua obesidade? Sua dieta, sua sobrevivência? A expressão ou narrativa sobre o comer possibilita a compreensão da experiência alimentar no mundo da vida cotidiana. Então, experiência é um aspecto da cultura.

Para compreender a complexidade da cultura alimentar indicamos a pesquisa qualitativa, com estudos etnográficos e análises de narrativas dos significados expressos por sujeitos sobre sua condição alimentar, suas crenças que envolvem os alimentos e implicações para o corpo.

Sugerimos as teorias compreensivas para subsidiar os estudos em alimentação e cultura (Freitas; Minayo, 2011).

Seminários Hábitos Alimentares na Atualidade: gosto, corporeidade e obesidade (16/10/2017)

A compreensão e a interpretação de uma narrativa sobre o que se come, como se come, o que gostaria de comer etc. podem ser analisadas conjugando aspectos subjetivos implícitos na linguagem. Esta, manifesta a relação entre os significados do mundo real e a subjetividade dos atores. Como estes se sentem ao comer, ou não, tais alimentos, é parte da cena histórica de seu grupo social.

Para os profissionais de nutrição que convivem o dia-dia com tantos exemplos socioculturais, sugerimos realizar um exercício do campo compreensivo sem abandonar a dietética recomendada pela biomedicina. Isto requer a possibilidade de uma análise intertextual sobre alimento e comida, com o olhar intersubjetivo capaz de ver aspectos da cultura associado à problemática nutricional e garantir um tratamento dietético construtivista; dialogado com os sujeitos sem imposição e temores. Exemplo importante é a proibição de açúcar para o diabético, e do sal adicional para o hipertenso, ademais de outras recomendações da clínica; ao lado destas, podem estar crenças populares sobre a impossibilidade de retirar nutrientes que são parte de suas vidas, conforme lembramos: O “sal da vida”; o “açúcar que acalma” […] e “a cocção com associação de sal e alho a representar harmonia do alimento com o corpo e o espírito” (Idem). O que fazer?

A abordagem teórica compreensiva permitirá a produção de um conhecimento profundo que se encontra na relação entre sujeito-objeto da investigação.

Dessa perspectiva, ao aproximar-se do cotidiano, com a observação e a descrição do problema junto ao sujeito e sua alimentação, nasce uma etnografia. Este é um instrumento de pesquisa para a compreensão dos aspectos culturais em grupos sociais, e capaz de mostrar como cada membro percebe seu corpo e sua comida, sobretudo, os valores nutricionais atribuídos por eles.

É possível se obter uma descrição densa, sobre o que um grupo de pessoas faz e como percebem suas ações em relação aos alimentos, aos riscos de adoecer. Como entendem e simbolizam seu mundo, a segurança alimentar, o aleitamento materno, a comida da rua, da casa, da festa, da escola etc.

Também, uma noção sobre alimentação e cultura pode se apresentar como um ritual (o caruru de Cosme e Damião em Salvador), uma ideia, representações (como a força e a fraqueza do alimento), são todas estas informações que devem ser analisadas com profundo cuidado e delicadeza.

Para a análise da narrativa é necessário proceder a leitura minuciosa, da entrevista, do sujeito da pesquisa, e destacar unidades analíticas, significantes ou palavras chaves de seu discurso. Constrói-se assim uma teia de significados, ou um mapa conceitual, um diagrama analítico mostrando conexões diversas. Conexões entre o campo empírico e o teórico. Exemplo: A alimentação saudável pode apresentar significantes relacionais ao mercado; à mídia; hábitos; estilo de vida; história alimentar; política pública, contaminação ambiental, acesso ou não a alimentos de qualidade; sistema simbólico (quizilas, tabus, crenças religiosas); sedentarismo; obesidade etc.

Na etnografia as construções sobre um problema são as percepções das pessoas, o que elas fazem e informam. E pode haver silêncio sobre algum aspecto alimentar. Algo que não está evidente. Sobre isso ver Eny Orlandi (1993). Para ela o emudecimento fala. E como diz Geertz, a cultura é um texto (1989).

Ao lembrar a Ilha de Maré, na Baia de todos os Santos, observamos que o trabalho no mangue transcende o rito da pesca e vai além, pois é parte da vida das pessoas. Mantém um vínculo com a unidade doméstica, com o ir e vir das marés, o lugar, a lua, o sol, a comida diária, a reunião entre as pessoas (Pena et al 2014; UFBA, 2010).

Os moradores, expressam a obesidade de modo distinto da literatura. Diz que “não é doença, é só peso”. “E vem do mar”. A obesidade vem de fora do corpo e da ilha. É algo que chega e atinge as pessoas.

Desse modo, o indivíduo se articula com os diversos aspectos do mundo, significativos para ele, com a linguagem e com a qual consegue externalizar o sentido para expressar as experiências do seu cotidiano.

Outra vez, notamos que a linguagem revela e dá significados às coisas.

Esse é o caminho da compreensão. Procuramos, então, escutar como o sujeito coexiste com o objeto: a exemplo do obeso e sua obesidade; o faminto e sua fome (Freitas, 2003). Num tempo e lugar: no contexto da fala.

Esse laço entre o sujeito – objeto será sempre histórico. O sujeito enuncia e age sobre seu corpo dentro de um contexto social, no processo discursivo das relações significante-significado. Somente quem vivencia o problema pode significar, transcender imagens e produzir percepções de um sistema de símbolos.

 

Referências

1.CONTRERAS, Jesus; GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011.

  1. FREITAS, MCS; MINAYO, MCS. Sobre o campo da Alimentação e Nutrição na perspectiva das teorias compreensivas. Ciênc. Saúde coletiva vol.16 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2011.
  2. FREITAS, MCS Agonia da fome. Salvador, EDUFBA; 2003.
  3. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de janeiro: Ed. Guanabara, 1989.
  4. ORLANDI, E. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 2ª. Edição. Campinas: Ed. UNICAMP, 1993.
  5. Pena, PGL. Sofrimento negligenciado. Salvador, EDUFBA, 2014).
  6. UFBA, Relatório de Pesquisa para o MS. Coord. Freitas, MCS. Salvador, 2010.

*Maria do Carmo possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal da Bahia (1972), mestrado em Saúde Pública – Escuela de Salud Pública de México (1977), doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia (2000), e pós-doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP, RJ.

EDITORIAL | Hábitos Alimentares: gosto, corporalidades e obesidade

EDITORIAL | Hábitos Alimentares: gosto, corporalidades e obesidade

O diálogo com temas contemporâneos sobre a situação alimentar e nutricional tem incorporado diversas dimensões baseadas na intersubjetividade do comer no mundo da vida.  Com esta perspectiva o OBHA em celebração com a Semana Mundial da Alimentação de 2017, realizou 05 seminários que farão parte da última temática do ano da seção Fome de Saber.

O propósito dos seminários foi apontar para o exercício interdisciplinar entre a saúde, alimentação e nutrição com os campos das ciências humanas e sociais para reflexão de caminhos que possam contribuir para pesquisas, programas e políticas públicas humanizadas.

O temário foi aberto com a brilhante e experiente pesquisadora Dra. Maria do Carmo de Freitas que trouxe a reflexão sobre a pesquisa qualitativa em alimentação e cultura, que buscou dialogar sobre a importância das teorias compreensivas na pesquisa sobre alimentação e nutrição humana. O tema seguinte, foi desenvolvido por mim e abordou as biografias alimentares como estratégia de estudos e pesquisas sobre obesidade na perspectiva de um novo enfoque sobre a corporeidade da obesidade feminina em busca de um olhar para além do índice normativo antropométrico. A visão que o peso corporal conta a história de um ser, como constructo necessário ao trabalho humanizado com os obesos.

A quarta temática conduzida pela Professora Dra. Liliane Bittencourt sensibilizou e entusiasmou a todos participantes pela competência, profundidade que discorreu nos seus 40 minutos sobre a corporeidade da mulher negra, seus estigmas e desafios frente ao racismo que ainda exerce um papel limitante na abordagem desta problemática em mulheres negras foi a quarta temática do seminário

O gosto em Pierre Bourdieu como elemento de compreensão da formação do hábito alimentar foi dialogado com muita habilidade pelo Professor Dr. Jamacy Souza que com muito prazer e qualidade, buscou com todos os participantes presentes levantar e aprofundar o sentido amplo da alimentação e nutrição humana.

E finalmente, no último dia a pesquisadora Dra. Ana Maria Segall abrilhantou o encerramento dos seminários, abordando a visão do excesso de peso e da obesidade inseridos como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil.

A nossa perspectiva foi abrir o diálogo a novas dimensões e temos certeza que contribuímos, e você verá nesta edição!

 

Denise Oliveira e Silva