O Gosto em Pierre Bourdieu: habitus e práticas alimentares

O Gosto em Pierre Bourdieu: habitus e práticas alimentares

Jamacy Costa Souza*

A primeira vez que tive contato com a noção de hatitus (em 2009), me questionei: como, em tantos anos de formado, nunca fora apresentado a um conceito tão importante para compreender as práticas alimentares? Era o início do meu doutorado no ISC-UFBA, no qual fiz uso do referencial bourdiesiano para analisar a gênese do Programa de Incentivo Fiscal à Alimentação do Trabalhador (PIFAT/PAT). Após  a defesa da tese, alguns colegas me convidaram para falar sobre o conceito para estudantes de graduação e pós-graduação em Nutrição. E foi assim que em 19/10/2017 participei da disciplina “Seminários Contemporâneos sobre Hábitos Alimentares: Gosto, Corporalidades e Obesidade” dando uma aula com o título: “O Gosto em Pierre Bourdieu: habitus e práticas alimentares”. Este texto é uma síntese do que abordei naquele momento.

Iniciei a aula  apresentando três questões para orientar a reflexão:

  1. O que significa uma recomendação ou orientação alimentar?
  2. Quais são os espaços/campos de imposição de uma “alimentação legítima”?
  3. O que é exposição e o que é desfecho quando analisamos práticas alimentares?

Como questões norteadoras, a intenção não é oferecer respostas (até porque não as tenho no momento). Mas são pontos de partida para discutirmos habitus a partir de algumas das bases que orientam os estudos e as intervenções sobre as práticas alimentares.

O habitus pode ser entendido como um sistema de disposições, esquemas de percepção que orientam as diferentes ações dos agentes. Esse sistema gerador produz o estilo de vida, do qual faz parte o gosto em relação aos alimentos. Funciona, assim, como “estrutura estruturada” por corresponder à incorporação no “inconsciente” (ou não-consciente) das estruturas sociais, e estruturante por orientar as escolhas práticas e os julgamentos. Daí deriva uma síntese bastante usada, que o apresenta como “estrutura estruturada e estruturante”. Para os “iniciados”, é uma ótima formulação. Sobretudo nestes tempos de exíguos espaços para a escrita. Todavia, para quem está se apropriando da obra de Bourdieu, mormente para quem o faz ao passo que se aproxima das ciências sociais, pode soar de difícil compreensão. Ocorre que há uma outra síntese igualmente boa e, suponho, de mais fácil entendimento: “o habitus é a história tornada corpo”.

A noção de habitus em Bourdieu designa o processo ou mecanismo pelo qual reagimos em determinadas  circunstâncias. Diz respeito às referências cognitivas, corporais e afetivas que lançamos mão, ainda que em estado não consciente, no momento de agir. Fazer um julgamento de bom ou ruim, bem ou mau, certo ou errado, adequado ou inadequado, justo ou injusto, pertinente ou impertinente, sensato ou insensato… requer buscar os parâmetros que estruturam cada um desses juizos, ou vários deles em seu conjunto.

Essas referências, esses padrões, essas estruturas que orientam a prática, por sua vez, não são produtos de geração espontânea. São frutos de um processo histórico, de disputas entre diversos pontos de vistas, que, uma vez vencida a “batalha”, vai pouco-a-pouco se “naturalizando”, passando de geração-em-geração até sequer dar-mo-nos conta que “um outro mundo é possível”. Ou, como na fala do personagem Chicó, do Ariano Suassuna: “não sei, só sei que é assim!”.

A disputa em torno de um ponto de vista se dá em um espaço social. Ou em um campo, ou em um espaço inter-campos. Ou seja: se dá na interação de diversos agentes e instituições, cujas diferentes estruturas de julgamento entram em conflito até que uma (ou mais) se estabeleça.

Mudar uma prática, portanto, implica em alterar as estruturas de julgamento que orientam essa prática. Requer modificar o habitus.

Assim, fazer alguém adotar uma recomendação ou orientação alimentar requer a modificação dos seus padrões de julgamento. Significa construir condições para que a prática que se quer mudar perca o  sentido prático que atualmente tem, em vantagem da nova que se quer implantar na mente, no corpo e nas emoções do outro. Constituir uma virtude para uma nova necessidade. Ou, modificar a posição de distância daquela necessidade. É um ato, pois, de violência que se estende às dimensões física, cognitiva e afetiva e, em logrando sucesso, vai constituir-se em uma violência simbólica (aquela que de tão incorporada, naturalizada, já não é percebida como tal). Ou seja: requer tempo e legitimidade. E não parece que isso seja facilmente exequível no curto intervalo de uma consulta ou exposição, mesmo que repetidas com certa frequência; ainda mais em uma área de conhecimento que disputa sua legitimidade com diversos espaços do campo social global.

Os principais espaços de constituição do habitus é a família e, em seguida, a escola. Mas, à medida que o agente circula por outros campos, novas disputas e injunções vão “aggiornando” sua vida, bem como ele pode contribuir para alterar o estado das disputas e oposições vigentes. Daí diz-se que  habitus é um estrutura estruturada (porque herdada da sua construção histórica), mas também estruturante, porque capaz de promover mudanças.

A disputa em torno da alimentação adequada ou saudável (duas categorizações que postas lado-a-lado servem mais para ocultar as contradições do espaço de formulação de política nutricional no Brasil), está em aberto e se dá em várias frentes:  a tradição, ou a história familiar; a classe social de origem do agente; e os diversos espaços que disputam o poder de emitir um julgamento final e definitivo sobre o quê, como e quando comer. É um “mundo sem fim” que envolve as religiões, o Estado, os campos científico e econômico, os meios de comunicação, as chamadas redes sociais… Enfim, se entendermos que parte importante do que viabiliza a vida entra pela boca sob a forma de comida, fica mais clara a complexidade do fenômeno e sua imbricação (subordinação talvez fosse a melhor palavra) às relações sociais de produção material e simbólica.

Deste modo, identificar as práticas alimentares e de onde “vêm” os pontos de vistas que as legitimam e as condições que as possibilitam, é um belo plano de investigação para responder a segunda questão .

Por fim, façamos a breve reflexão sobre o que seria a relação causa e efeito nos estudos sobre as práticas alimentares.

A importância do biológico é inconteste; afinal, é num corpo que um habitus (produto das dinâmicas sociais) se efetiva, se “incorpora”. No entanto, é no “mundo da vida em sociedade” que as disputas se dão e se viabilizam. Logo, cabe a indagação: neste jogo em que as fronteiras entre o social e o biológico não se distinguem muito bem,  onde começa e onde termina um fenômeno? Ou, para ser mais direto: o quê e como se come é, afinal, exposição ou um desfecho da trama da vida?

Geralmente, nos estudos clínicos (e mesmo em muitos estudo epidemiológicos), a alimentação (o consumo) é a exposição, e a patologia, ou o “estado nutricional”, é o desfecho. Ocorre que, se por um lado o consumo determina o corpo que se tem; por outro, a visão que o agente tem do seu próprio corpo (que é produto de uma construção social), e as condições reais de possibilidades de vida daquele corpo (que é, igualmente, produto de uma construção social), também condiciona o consumo que se pratica, ou o consumo que é praticável para um determinado conjunto de agentes. Ou seja: o agente, a depender das tensões sociais que enfrenta nos diversos campos pelos quais transita (ou transitou) ao longo de sua vida, construirá (e terá/será construída) uma relação própria com o seu corpo e, como causa e consequência (simultaneamente), com o que come e como come. Em síntese: a prática alimentar é orientada por um habitus que, produto e produtor de uma realidade social, ajusta (ou desajusta) o corpo (e o consumo) à sua condição concreta de existência.

*Jamacy Costa Souza é nutricionista e professor da Escola de Nutrição da UFBA. É membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Alimentação Coletiva (GEPAC); e do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS).

Corporeidade da Mulher Negra

Corporeidade da Mulher Negra

*Liliane Bittencourt

Antes de falar da corporeidade das mulheres negras precisamos estabelecer qual conceito de corporeidade estamos nos referindo. Este está relacionado ao embodiment, proposto por Csordas (1993), numa perspectiva fenomenológica, na qual “o corpo não é um objeto a ser estudado em relação à cultura, mas é o sujeito ou base existencial da cultura (CSORDAS, 2008)”. Ele se baseia nas visões de Merleau Ponty sobre a percepção do corpo indo além da dualidade sujeito/objeto, visto que há sempre mais do que é possível perceber através dos olhos, e do entendimento de Bourdieu de que o corpo socialmente informado, ou seja, o habitus, é o princípio gerador e unificador de todas as práticas sociais (CSORDAS, 2008).

Para Merleau-Ponty o corpo é entendido como um cenário em relação ao mundo, sendo a consciência o corpo projetando a si próprio no mundo. Temos consciência do mundo a partir do corpo, visto que esse se confunde com o próprio ser. A experiência do corpo no mundo se alicerça no fato de que ajo no mundo através do corpo, vivenciando tempo e espaço em uma perspectiva de não-exterioridade: “não estou no espaço e no tempo; eu sou no espaço e no tempo, meu corpo aplica-se e os abarca” (MERLEAU-PONTY, 1994). O corpo é, desse modo, habitado pelas transformações dos modos de existência, das formas de sociabilidade, dos valores morais e econômicos, das dinâmicas relacionais, dos ethos culturais e das ecologias ambientais. Em cada contexto social, o corpo é colocado em cena, inscrito em codificações sociais sobre ideais de beleza e sobre imaginários corporais, para enunciar dinâmicas que colocam em jogo relações afetivas, relações de gênero, relações raciais e relações de poder (NUNES; BITTENCOURT, 2013).

Segundo Bourdieu (2005, 2007), a diferenciação e a divisão entre os agentes sociais se dão pelas disposições destes em relação ao espaço social. Essas disposições, às quais ele chama de habitus, se inscrevem no corpo, e consequentemente se expressam através dele. As disposições ou habitus são estabelecidas através das incorporações das regras e estímulos do meio social em confronto permanente com as estruturas internas dos indivíduos, mas que os caracteriza como ser coletivo ou grupal (BOURDIEU, 2005, 2007). A construção das disposições ocorre através da dupla relação entre corpo e espaço social. O corpo interfere e molda o espaço social, da mesma forma que o espaço social o faz em relação ao corpo (BOURDIEU, 2007).

As atitudes e comportamentos individuais dos corpos socializados estão em relação direta com os habitus adquiridos através das experiências e os habitus atualizados no próprio processo de socialização (BOLTANSKI, 2005). Esse processo de socialização associa-se com uma crença adquirida corporalmente de que as coisas são como são, e esta capacidade de aquisição deste conhecimento depende da disposição corporal, suscitada e ativada pelas necessidades impostas pelo mundo.

Para Bourdieu (2005), o grau de satisfação íntima dependerá em maior grau da possibilidade do modo de funcionamento do mundo social permitir o desabrochar do habitus dos diferentes agentes. Para aquelas mulheres em que as disposições não se ajustarem às exigências desse mundo contemporâneo, o seu corpo será a expressão da distância entre o vivido e o estabelecido no espaço social.

As mulheres negras são uma parcela da população para a qual as determinações sociais se impõem de forma mais agressiva, dificultando a autoestima, as relações, e fomentando a ideia de que são seres hierarquicamente de menor valor social, estando atrás do homem, branco ou negro, e da mulher branca. Essa classificação está presente não só no imaginário das pessoas, mas também nos indicadores sociais de desenvolvimento humano (NOGUEIRA, 2000).

Renegar as características das mulheres negras e fazer com que o modelo de beleza preferido seja o das loiras, magras, sem quadris, com seios pequenos, “lábios e narizes finos”, foi um dos grandes ganhos do racismo vigente. Em se tratando dos vários tipos de mulheres negras, a gorda certamente fica num dos patamares mais baixos de valorização social. Este tipo de percepção foi imposto por uma cultura que gera exclusão social (NOGUEIRA, 2000).

Por mais que atualmente as mulheres negras venham construindo outras representações para si, ainda carregam em seu corpo o estigma que representa o corpo negro, associado ao repertório do desprezível e contrário aos atributos morais e intelectuais considerados naturais ao seu oposto, o homem branco. Por conta disso, ainda hoje se mantêm aprisionadas, no imaginário social, a um lugar relacionado à prostituição, à subserviência e à incapacidade (NOGUEIRA, 1999). As consequências dessa dupla desvalorização, enquanto mulher e enquanto negra, se expressam em vários indicadores, como escolaridade, emprego, renda e, principalmente, saúde.

Neste caso, o corpo negro está associado à inferioridade e pouco sucesso, devido ao passado histórico, no qual era tido como mercadoria, uma peça, desumanizado, objeto a ser avaliado para comércio e exploração, de acordo com suas características físicas. Por mais que tenha havido mudanças em relação ao lugar do sujeito negro na sociedade, o significado dos seus atributos corporais ainda está associado a este passado.

Para Isildinha Nogueira (1999), ser negro é trazer a marca do “corpo negro”, que expressa o repertório do desprezível que a cultura afasta pela negativização. O corpo negro, para o negro, significa a marca que, a priori, o exclui dos atributos morais e intelectuais associados ao outro do negro, ao branco, considerado hierarquicamente melhor dotado, dessa forma, o negro vive cotidianamente a experiência de que a sua aparência põe em risco sua imagem de integridade.

Esses construtos sociais de beleza e fealdade atingem com mais intensidade a mulher, que baseado nos valores legitimados em cada época sempre foi alvo de imposições sutis quanto à forma de entender, cuidar, expressar e viver o seu corpo. Fatores econômicos, religiosos, políticos e morais sempre estiveram na base das regulamentações e normatizações quanto à experiência corporal.

A cor da pele, o tipo de nariz e boca, a característica do cabelo são sinais diacríticos do corpo negro que informam sobre a identidade do negro no Brasil e a partir dos quais as relações, atributos, (des)valorização deste na sociedade são estabelecidas. A construção desta identidade se dá no âmbito coletivo e individual, pois a forma como cada indivíduo se relacionará com seus atributos físicos dependerá de como este reaja às manifestações coletivas sobre os mesmos e do grau de mecanismos internos para o enfrentamento de reações, que por ventura possam ser negativas ou de desvalorização. A família, em primeiro lugar, e a escola, enquanto primeiro espaço de socialização, assumem fundamental importância neste processo.

Kia Caldwell (2004) afirma que no Brasil há um padrão estético de beleza e feminilidade eurocêntrico, construído socialmente, que se expressa pelo tom de pele e tipo de cabelo considerados bons e belos, que se opõem às características da mulher negra, revelando um padrão de beleza anti-negritude. Este padrão associa as características específicas do corpo negro com a falta de higiene, do cuidado e de atratividade, o que leva à sua rejeição e influencia a construção da identidade social e racial das mulheres negras.

A naturalização com a qual se lida na sociedade brasileira com a desvalorização das características físicas das mulheres negras, através de piadas, músicas e brincadeiras, acaba por legitimar a ideia de superioridade branca, relacionada à feminilidade. Estabelece-se assim uma política anti-negritude, na qual a mulher negra é considerada um outro dentro da sociedade, inferior e indesejado, e pela qual a violência simbólica cometida contra essas mulheres é banalizada e a luta contra essa violência é deslegitimada. Essas práticas de alteridade reforçam as configurações dominantes de gênero e raça, que consideram a branquitude como critério essencial para a feminilidade (CALDWELL, 2004).

As intersecções de raça, gênero, classe e sexualidade contribuem para marginalizar multiplamente as mulheres de descendência africana. Kia Caldwell (2004) diz que

“As experiências das mulheres afro-brasileiras indicam que elas enfrentam múltiplas formas de discriminação quando seus corpos são avaliados e valorizados de acordo com padrões estabelecidos pelo discurso dominante de raça, gênero, sexualidade e beleza (tradução própria)”.

E essas experiências são mais significativas pelo fato de, no Brasil, diferente de outras regiões da diáspora africana, estas mulheres também estarem sujeitas a um discurso de democracia racial, que procura minimizar e apagar as realidades do racismo, imprimindo um impacto subjetivo nas suas vidas (CALDWELL, 2004).

Segundo Kia Caldwell (2004), no Brasil, as intersecções de gênero e raça têm promovido classificações hierárquicas, através da dissecação dos corpos das mulheres e atribuição de valores a certas características físicas, nas quais alguns signos tais como cor da pele, textura do cabelo, formato e tamanho do nariz e lábios são atribuídos à categoria beleza, e nádegas, quadris e seios à categoria sexual. Como os padrões de beleza assumidos predominantemente no país são eurocêntricos, as mulheres brancas são definidas como as belas e as negras como as sexuais.

Ressalta-se a importância de se explorar como as mulheres procuram desafiar esses valores estéticos anti-negritude e ressignifcar a feminilidade negra, através do corpo. Essa relação entre o processo de racialização da sociedade e a beleza é mais complexo do que afirmar simplesmente que as mulheres negras sofrem a opressão de um padrão hegemônico, como se isso acontecesse de forma passiva, sem uma reação por parte das mesmas. Apesar das poucas imagens positivas de mulheres negras nas esferas públicas, há uma importante política de corpo na diáspora africana, que inclui discursos, práticas e estéticas que valorizam a beleza dos corpos negros e desafiam os padrões estéticos eurocêntricos. O indivíduo negro contemporâneo apresenta particularidades, refletindo um corpo que é utilizado, principalmente, como suporte a outra estética, como forma de comunicar o sagrado, o trabalho, o poder e a sexualidade, para, ao final, conquistar o direito à diferença e à alteridade (SCHUMAHER e BRAZIL, 2007).

No seu trabalho, “Look at Her Hair”: The Body Politics of Black Womanhood in Brazil Kia Caldwell (2004) discute como o corpo e, muito fortemente, o cabelo da mulher negra são negativamente encarados na sociedade brasileira, sendo, portanto, marcadores do processo de racialização da sociedade. Ela ressalta que o exame das dimensões incorporadas da feminilidade negra evidencia a prevalência de um padrão estético anti-negro que causa impacto no nível da subjetividade das mulheres. Dessa forma, as mulheres negras, na tentativa de desenvolver uma identidade e autoimagem positivas, são obrigadas a se confrontar com os valores da cultura dominante, que caricaturam e desvalorizam suas características físicas, e a reagir a esses valores.

O corpo acaba sendo o locus onde as crenças, valores e sentimentos que fundamentam a vida social se reproduzem. Segundo Gomes (2002), as singularidades culturais se dão a partir das dimensões invisíveis das relações humanas e também pelas posturas, predisposições, humores e manipulação de diferentes partes do corpo.

Portanto, o pertencimento a um grupo não hegemônico da sociedade, como é o caso da população negra brasileira, também é evidenciado através das expressões corporais, refletindo nas relações e vivências individuais e coletivas, visto exibirem nas suas características corporais ou fenotípicas a marca da sua alteridade e os seus significados na formação da identidade e nos processos sociais.

Para Gomes (2002), o corpo fala a respeito do nosso estar no mundo, pois a localização de cada indivíduo no mundo se dá a partir da mediação deste corpo, sujeito a regras e normas culturalmente estabelecidas. Neste sentido, as manifestações corporais podem ser exaltadas ou inibidas, dependendo da correspondência com estas regras.

A cultura é vivenciada através da experiência corporal, de acordo com padrões estabelecidos e que se relacionam com a afirmação de uma identidade grupal específica, por isso o corpo evidencia diferentes padrões estéticos e percepções de mundo (GOMES, 2002).

O modo de cada indivíduo se relacionar com o corpo, a subjetividade e a cultura dá-se em um contexto social, político e histórico específico, que aliado à experiência individual, vai compor o complexo terreno da identidade negra. Nas sociedades em que a questão racial é um dos aspectos estruturantes das relações sociais de poder, o cabelo e a cor da pele, sinais mais visíveis da diferença racial, são vistos como símbolo de inferioridade e fealdade (GOMES, 2002).

A comparação entre os traços do branco europeu colonizador e os do negro colonizado embasaram a formulação do padrão de beleza que atualmente se faz presente (GOMES, 2002). No caso das mulheres negras, mesmo com outras condições de vida, a experiência de sofrer o próprio corpo irá determinar formas particulares na constituição da dimensão psíquica, envolvendo certas configurações de sentido que caracterizam, para o negro, a condição subjetiva. Segundo Gomes (2002), atualmente, é principalmente nos espaços sociais, em especial nas escolas, que, desde cedo, o negro se depara com as representações negativas relacionadas ao seu corpo. Nesses espaços, há a imposição de comportamentos e estéticas, a qual reproduz, nem sempre de forma explícita, estereótipos e argumentos de conteúdos racistas, o que resulta, muitas vezes, em experiências públicas por parte do negro de rejeição direcionada ao seu corpo.

Neste sentido, o desregramento do corpo é um marcador do que está fora de ordem no mundo psicossocial. A experiência de transformação do corpo se apresenta como termômetro de relações sociais disruptivas e como indicadora de encarnação de sofrimento. Os sinais do corpo, muitas vezes, se inscrevem em percepções sensitivas e pré-lógicas, difíceis de racionalização na imediatez da experiência, na perspectiva proposta por Merleau-Ponty onde a consciência é a projeção do corpo no mundo. O significado muitas vezes advém das transformações corporais sentidas e situadas em contextos de vida, que tendem a evidenciar mudanças ou ressignificações do meio social vivido, ou das relações sociais (NUNES; BITTENCOURT, 2013).

A dissonância entre expressão individual e imposição social, sentida sob a forma de um sofrimento pela inadequação com um “padrão ideal de beleza”, e as consequências desse sofrimento só podem existir porque o processo de incorporação desse ideal preexiste. Quando o peso da construção do mundo é individualizado, onde cada pessoa é responsável pelo seu próprio sucesso e sobrevivência, cada um é deixado a si mesmo, os corpos passam a expressar-se desse lugar atomizado: seja ganhando espaço, tornando-se invasivo, obeso, seja na redução do corpo anoréxico, seja pelo descontrole de si, revelado por um comer desregrado. Os sentidos relacionais do peso e do comportamento alimentar conduzem a uma tentativa de conter, pelo corpo, um mundo de excessos, a limitar relações opressivas pelo descontrole da boca, a compensar uma escassez relacional pelo excesso alimentar.

Seminários Hábitos Alimentares na Atualidade: gosto, corporeidade e obesidade (18/10/2017).

 

Referências

BOLTANSKI, L. Usos Fracos e Usos Intensos do “Habitus”. In: ENCREVÉ, P. & LAGRAVE, R.M. (orgs.). Trabalhar com Bourdieu. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005 [2003]. p.155-163.

BOURDIEU, P. Espaço Social e Espaço Simbólico. In: BOURDIEU, P. Razões Práticas sobre a Teoria da Ação. Campinas: Papirus, p.13-33, 2005 [1994].

BOURDIEU, P. O Conhecimento pelo Corpo. In: BOURDIEU, P. Meditações Pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p. 157-198, 2007 [1997].

CALDWELL, K.L. “Look at her Hair”: the body politics of black womanhood in Brazil. Transforming Anthropology, vol. 11, n. 2, p. 18-29, 2004.

CSORDAS, T. A corporeidade como um paradigma para a antropologia. In: CSORDAS, T. Corpo/significado/cura. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008. p.101-46.

GOMES, N.L. Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelo Crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? Revista Brasileira de Educação, n. 21, p.40-51, 2002.

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1996.

NOGUEIRA, I. B. O corpo da mulher negra. Revista de Psicanálise, ano XIII, n. 135, p. 40-45, 1999.

NOGUEIRA, R. Mulher negra e obesidade. In: WERNECK, J. et al (org.). O Livro da Saúde das Mulheres Negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas: Criola, 2000. 256p.

NUNES, M.O.; BITTENCOURT, L.J. Tracking what troubles the body and upsets eating: the meanings of loss of self-control and “eating compulsions”. Interface – Comunic., Saude, Educ., v.17, n.44, p.145-57, jan./mar. 2013.

SCHUMAHER, S; BRAZIL, E.V. Mulheres negras do Brasil. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2007.

*Liliane é professora adjunta da Universidade Federal da Bahia, é bacharela em Nutrição pela Universidade do Estado da Bahia (1994) e mestra em Saúde Materno Infantil pelo Instituto Materno Infantil de Pernambuco (2004). Se doutorou em Saúde Coletiva pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, em 2013, quando investigou sobre transtornos do comportamento alimentar em mulheres negras.

Metodologia da pesquisa qualitativa para o tema Alimentação e Cultura

Metodologia da pesquisa qualitativa para o tema Alimentação e Cultura

*Maria do Carmo de Freitas

Para este tema, em primeiro lugar gostaria de relembrar algumas noções conceituais sobre cultura, especialmente quando relacionadas à alimentação e a nutrição na sociedade brasileira.

A cultura pode ser entendida como a compreensão das ações humanas, ou ainda, o sentido das ações sociais. Sentido pensado e subjetivo da conduta alimentar. Portanto, não se trata da ação objetiva do comer, mas dos significados atribuídos pelos sujeitos sobre sua comida e seu corpo. Cultura é o conjunto de sentidos ou significados da conduta humana em qualquer que seja a sociedade. Em resumo, a cultura é baseada em símbolos, integrada aos grupos sociais, dinâmica, se adapta; se modifica (Geertz, 1989).

Cultura alimentar é apreensão de sentidos ou de significados do alimento no mundo cotidiano; considera ritos e crenças, valores diversos sobre o comer, os alimentos e a nutrição (Contreras, 2011).

Estamos falando de valores sociais, morais, códigos, hábitos, crenças, símbolos, costumes e qualquer disposição do comer em uma sociedade.

Assim, a relação humana com o alimento é antes de tudo afinidade com significados que o sujeito se refere sobre o comer. Nesse aspecto, o alimento não é somente matéria bioquímica, mas é, principalmente, símbolo. E desconsiderar essa dimensão simbólica, cultural, do alimento significa reduzir a alimentação humana ao modo equivalente à alimentação animal. Ração alimentar. Ou seja, uma relação veterinária e não nutrição-humana.

Em síntese, buscamos compreender a condição alimentar em cada contexto específico, nas tradições rurais e urbanas, na sociedade globalizada, representações sociais, sentimentos, tabus e tantos outros valores culturais que afetam a condição alimentar.

Importante destacar que a nutrição clínica pode ser contemplada pela dimensão sociocultural e vice-versa, pois não devem ser entidades separadas. Na realidade, são dimensões que se complementam, ainda que tenham diferentes enfoques conceituais.

Vale lembrar que o mais importante aspecto da cultura é a linguagem. Referimos ao uso das palavras ou sinais para significar o alimento, e os efeitos sobre o corpo e a vida.

Desse modo, perguntamos: Como o sujeito significa sua condição faminta? Como significa sua obesidade? Sua dieta, sua sobrevivência? A expressão ou narrativa sobre o comer possibilita a compreensão da experiência alimentar no mundo da vida cotidiana. Então, experiência é um aspecto da cultura.

Para compreender a complexidade da cultura alimentar indicamos a pesquisa qualitativa, com estudos etnográficos e análises de narrativas dos significados expressos por sujeitos sobre sua condição alimentar, suas crenças que envolvem os alimentos e implicações para o corpo.

Sugerimos as teorias compreensivas para subsidiar os estudos em alimentação e cultura (Freitas; Minayo, 2011).

Seminários Hábitos Alimentares na Atualidade: gosto, corporeidade e obesidade (16/10/2017)

A compreensão e a interpretação de uma narrativa sobre o que se come, como se come, o que gostaria de comer etc. podem ser analisadas conjugando aspectos subjetivos implícitos na linguagem. Esta, manifesta a relação entre os significados do mundo real e a subjetividade dos atores. Como estes se sentem ao comer, ou não, tais alimentos, é parte da cena histórica de seu grupo social.

Para os profissionais de nutrição que convivem o dia-dia com tantos exemplos socioculturais, sugerimos realizar um exercício do campo compreensivo sem abandonar a dietética recomendada pela biomedicina. Isto requer a possibilidade de uma análise intertextual sobre alimento e comida, com o olhar intersubjetivo capaz de ver aspectos da cultura associado à problemática nutricional e garantir um tratamento dietético construtivista; dialogado com os sujeitos sem imposição e temores. Exemplo importante é a proibição de açúcar para o diabético, e do sal adicional para o hipertenso, ademais de outras recomendações da clínica; ao lado destas, podem estar crenças populares sobre a impossibilidade de retirar nutrientes que são parte de suas vidas, conforme lembramos: O “sal da vida”; o “açúcar que acalma” […] e “a cocção com associação de sal e alho a representar harmonia do alimento com o corpo e o espírito” (Idem). O que fazer?

A abordagem teórica compreensiva permitirá a produção de um conhecimento profundo que se encontra na relação entre sujeito-objeto da investigação.

Dessa perspectiva, ao aproximar-se do cotidiano, com a observação e a descrição do problema junto ao sujeito e sua alimentação, nasce uma etnografia. Este é um instrumento de pesquisa para a compreensão dos aspectos culturais em grupos sociais, e capaz de mostrar como cada membro percebe seu corpo e sua comida, sobretudo, os valores nutricionais atribuídos por eles.

É possível se obter uma descrição densa, sobre o que um grupo de pessoas faz e como percebem suas ações em relação aos alimentos, aos riscos de adoecer. Como entendem e simbolizam seu mundo, a segurança alimentar, o aleitamento materno, a comida da rua, da casa, da festa, da escola etc.

Também, uma noção sobre alimentação e cultura pode se apresentar como um ritual (o caruru de Cosme e Damião em Salvador), uma ideia, representações (como a força e a fraqueza do alimento), são todas estas informações que devem ser analisadas com profundo cuidado e delicadeza.

Para a análise da narrativa é necessário proceder a leitura minuciosa, da entrevista, do sujeito da pesquisa, e destacar unidades analíticas, significantes ou palavras chaves de seu discurso. Constrói-se assim uma teia de significados, ou um mapa conceitual, um diagrama analítico mostrando conexões diversas. Conexões entre o campo empírico e o teórico. Exemplo: A alimentação saudável pode apresentar significantes relacionais ao mercado; à mídia; hábitos; estilo de vida; história alimentar; política pública, contaminação ambiental, acesso ou não a alimentos de qualidade; sistema simbólico (quizilas, tabus, crenças religiosas); sedentarismo; obesidade etc.

Na etnografia as construções sobre um problema são as percepções das pessoas, o que elas fazem e informam. E pode haver silêncio sobre algum aspecto alimentar. Algo que não está evidente. Sobre isso ver Eny Orlandi (1993). Para ela o emudecimento fala. E como diz Geertz, a cultura é um texto (1989).

Ao lembrar a Ilha de Maré, na Baia de todos os Santos, observamos que o trabalho no mangue transcende o rito da pesca e vai além, pois é parte da vida das pessoas. Mantém um vínculo com a unidade doméstica, com o ir e vir das marés, o lugar, a lua, o sol, a comida diária, a reunião entre as pessoas (Pena et al 2014; UFBA, 2010).

Os moradores, expressam a obesidade de modo distinto da literatura. Diz que “não é doença, é só peso”. “E vem do mar”. A obesidade vem de fora do corpo e da ilha. É algo que chega e atinge as pessoas.

Desse modo, o indivíduo se articula com os diversos aspectos do mundo, significativos para ele, com a linguagem e com a qual consegue externalizar o sentido para expressar as experiências do seu cotidiano.

Outra vez, notamos que a linguagem revela e dá significados às coisas.

Esse é o caminho da compreensão. Procuramos, então, escutar como o sujeito coexiste com o objeto: a exemplo do obeso e sua obesidade; o faminto e sua fome (Freitas, 2003). Num tempo e lugar: no contexto da fala.

Esse laço entre o sujeito – objeto será sempre histórico. O sujeito enuncia e age sobre seu corpo dentro de um contexto social, no processo discursivo das relações significante-significado. Somente quem vivencia o problema pode significar, transcender imagens e produzir percepções de um sistema de símbolos.

 

Referências

1.CONTRERAS, Jesus; GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011.

  1. FREITAS, MCS; MINAYO, MCS. Sobre o campo da Alimentação e Nutrição na perspectiva das teorias compreensivas. Ciênc. Saúde coletiva vol.16 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2011.
  2. FREITAS, MCS Agonia da fome. Salvador, EDUFBA; 2003.
  3. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de janeiro: Ed. Guanabara, 1989.
  4. ORLANDI, E. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 2ª. Edição. Campinas: Ed. UNICAMP, 1993.
  5. Pena, PGL. Sofrimento negligenciado. Salvador, EDUFBA, 2014).
  6. UFBA, Relatório de Pesquisa para o MS. Coord. Freitas, MCS. Salvador, 2010.

*Maria do Carmo possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal da Bahia (1972), mestrado em Saúde Pública – Escuela de Salud Pública de México (1977), doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia (2000), e pós-doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP, RJ.

EDITORIAL | Hábitos Alimentares: gosto, corporalidades e obesidade

EDITORIAL | Hábitos Alimentares: gosto, corporalidades e obesidade

O diálogo com temas contemporâneos sobre a situação alimentar e nutricional tem incorporado diversas dimensões baseadas na intersubjetividade do comer no mundo da vida.  Com esta perspectiva o OBHA em celebração com a Semana Mundial da Alimentação de 2017, realizou 05 seminários que farão parte da última temática do ano da seção Fome de Saber.

O propósito dos seminários foi apontar para o exercício interdisciplinar entre a saúde, alimentação e nutrição com os campos das ciências humanas e sociais para reflexão de caminhos que possam contribuir para pesquisas, programas e políticas públicas humanizadas.

O temário foi aberto com a brilhante e experiente pesquisadora Dra. Maria do Carmo de Freitas que trouxe a reflexão sobre a pesquisa qualitativa em alimentação e cultura, que buscou dialogar sobre a importância das teorias compreensivas na pesquisa sobre alimentação e nutrição humana. O tema seguinte, foi desenvolvido por mim e abordou as biografias alimentares como estratégia de estudos e pesquisas sobre obesidade na perspectiva de um novo enfoque sobre a corporeidade da obesidade feminina em busca de um olhar para além do índice normativo antropométrico. A visão que o peso corporal conta a história de um ser, como constructo necessário ao trabalho humanizado com os obesos.

A quarta temática conduzida pela Professora Dra. Liliane Bittencourt sensibilizou e entusiasmou a todos participantes pela competência, profundidade que discorreu nos seus 40 minutos sobre a corporeidade da mulher negra, seus estigmas e desafios frente ao racismo que ainda exerce um papel limitante na abordagem desta problemática em mulheres negras foi a quarta temática do seminário

O gosto em Pierre Bourdieu como elemento de compreensão da formação do hábito alimentar foi dialogado com muita habilidade pelo Professor Dr. Jamacy Souza que com muito prazer e qualidade, buscou com todos os participantes presentes levantar e aprofundar o sentido amplo da alimentação e nutrição humana.

E finalmente, no último dia a pesquisadora Dra. Ana Maria Segall abrilhantou o encerramento dos seminários, abordando a visão do excesso de peso e da obesidade inseridos como expressão de insegurança alimentar e nutricional no Brasil.

A nossa perspectiva foi abrir o diálogo a novas dimensões e temos certeza que contribuímos, e você verá nesta edição!

 

Denise Oliveira e Silva

Biopoder no jornalismo em saúde: vozes autorizadas quando a pauta é alimentação

Biopoder no jornalismo em saúde: vozes autorizadas quando a pauta é alimentação

A imprensa é um dos espaços que podem ser utilizados para a promoção da saúde. Desde a Carta de Otawa, a mídia de massa é apontada como importante aliada do setor saúde para melhoria da qualidade de vida das pessoas.

E de fato, no Brasil, os jornalistas são apontados como fonte confiável de informação em saúde, atrás apenas da categoria médica, segundo pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Medicina, em 2014. Em que pese o avanço das redes sociais virtuais, uma informação divulgada na imprensa possui alcance e credibilidade consideráveis no imaginário popular, pois os meios de comunicação auxiliam na tomada de decisão individual e na mudança de hábitos, possibilita que a sociedade monitore a agenda pública da saúde e de outras áreas, divulga novidades e influencia nos temas sobre os quais as pessoas vão falar.

Dentre os diferentes temas da promoção da saúde, a alimentação saudável é um dos mais frequentes na imprensa porque interessa cotidianamente à população. Porém, muitas vezes as informações jornalísticas mais confundem que informam. Um dia o ovo faz bem, no outro, faz mal, obviamente conclusões fruto de pesquisas com sujeitos diferentes, contextos diferentes e que nem sempre são explicitados pelos jornalistas.

Um dos eixos de pesquisa da antropologia da alimentação, sintetizados por autores como o antropólogo espanhol Jesus Contreras, da Universidade de Barcelona e Mabel Gracia, da Universidad Rovira i Virgili, refere-se à análise das transformações do comportamento alimentar e das pressões sociais e econômicas que nele interferem. A imprensa pode ser entendida como componente desse sistema de pressão que atua  no comportamento alimentar das pessoas, já que as decisões relacionadas à alimentação estão longe de serem resultado apenas do pensamento racional. Se antigamente havia grande peso nas referências culturais para  tomada de decisão alimentar, hoje, as pessoas são mais suscetíveis às pressões desta instituição não só por meio da publicidade e propaganda, mas também com os textos jornalísticos. A mídia então, pode ser considerada como espaço de regulação e controle, e a imprensa é instancia que legitima determinados discursos, dando a eles status de verdade e garantindo que determinadas opiniões sejam consideradas como norma para os leitores. É importante, portanto, compreender quais vozes são selecionadas pelos jornalistas para   informar sobre a saúde durante o processo de produção jornalística.

A pesquisa que realizei na Universidade de Brasília, durante o doutorado, analisa tanto a imprensa nacional brasileira como a regional, e quando o tema é alimentação, observamos que as falas que aparecem nas páginas dos jornais, são predominantemente especializadas. É o cientista, o profissional de saúde, o governo quem diz o correto e adequado para a alimentação das pessoas, enquanto que a população fica relegada a segundo plano, geralmente ilustrando casos e maus exemplos sobre o  que não fazer em saúde.

Na Folha de São Paulo, principal jornal impresso pago do Brasil, o discurso científico aparece como recomendações e análises de pesquisas recentes, com citação de periódicos, associações científicas e falas de profissionais da saúde e pesquisadores legitimando as afirmações. A linguagem utilizada parece  refletir interesses da ciência, das indústrias médico-farmacêuticas e de alimentação e nutrição, e dos profissionais de saúde.  Segundo Roxana Tabaman, mulheres são as principais consumidoras de temas de saúde na imprensa, mas suas falas, no pouco em que aparecem não citamos benefícios da alimentação saudável ou os riscos relacionados as dietas. Trechos como “é bem mais fácil só tomar um comprimido” e “as coisas começaram a mudar só com a internação”, ilustram gente à mercê da medicalização sem qualquer protagonismo sobre sua própria saúde.

O jornal regional carioca O Dia, traz também o predomínio dos profissionais da saúde e a ciência como fonte de informação, com pouca expressão da população nos textos. A  Carta de Ottawa, primeiro documento que apresenta as bases institucionais da promoção da saúde, define-se que a promoção da saúde foi definida como “processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo maior participação no controle desse processo”. Porém, quando a população aparece, sua voz está ligada mais frequentemente à mudança de alimentação para fins estéticos, como neste trecho de reportagem: “Agora, meus filhos me desenham com uma aparência linda e magra. Eu não sou mais uma mamãe gordinha”.

A biopolítica,  segundo Michel Foucault, regulamenta a população através do biopoder que atua na vida das pessoas, fazendo a gestão das decisões individuais e coletivas por estratégias que não estão em nenhuma lei, mas imbricadas em atitudes cotidianas. Pela microfísica do poder, termo cunhado por este filósofo, o poder na contemporaneidade está diluído em todos os setores da sociedade sob a forma de relações e  rede de micro-poderes que vão regulando a vida por meio de técnicas diversas para controlar a população e subjugar os corpos. Sob esta perspectiva, há que se levar em conta a força do saber especializado e do discurso científico que legitima as informações em saúde. Os profissionais de saúde, especialistas, as revistas científicas e instituições de pesquisa tem autoridade sobre temas científicos. Pode-se perceber certa estratégia biopolítica na apresentação desses conteúdos de alimentação, a partir dessas vozes autorizadas, científicas. O biopoder toma forma nestes contextos informativos sobre a saúde na medida em que a fala do especialista ocupa papel central das reportagens sobre alimentação, em detrimento da fala da população, que figura apenas como ilustração do que não deve ser feito. Esse poder de controle da ciência sobre o saber relacionado à saúde e os alimentos propaga a informação com status de verdade, e pode modelar as formas de vida e de atitude das pessoas. Obviamente as vozes especializadas podem informar e capacitar muito a população, mas poderia o jornalismo trazer em maior frequência a voz da própria população, como bons exemplos e atitudes sobre o tema da alimentação.

Nossa crítica reside, portanto,  no fato de que, da mesma forma que  os profissionais de saúde, os especialistas, as revistas científicas e instituições de pesquisa tem autoridade sobre temas científicos, a alimentação e a saúde possuem componentes para além desse saber especializado, e o protagonismo da população nos textos, com pessoas que vivem determinadas situações de maneira a garantir a sua saúde, sem medicalização e intervenções, mas com exemplos positivos, construídos nas famílias e comunidades sem qualquer relação com o saber científico pode também favorecer o entendimento dos leitores e tornar  a informação mais palpável. Pessoas comuns, como eu e você, podem ser inseridas nos textos jornalísticos como fontes, sem que seja em detrimento da “voz autorizada”, seja ela o cientista, o governo, o profissional da saúde. Afinal, qualquer informação sobre saúde que está nos jornais tem como público as pessoas comuns, que poderiam figurar mais como fonte dos textos, não só como maus exemplos em saúde, mas apresentando experiências positivas que mostrem sua participação na manutenção de sua saúde e sua conscientização.

Não se nega aqui, de forma alguma, o potencial que a informação em saúde, dada pelo especialista e transmitida pelos jornais, tem para a população. Ancorar-se no conhecimento científico, obviamente, é também uma forma de aumentar a capacidade de decisão da população, afinal, a voz autorizada, científica pode expressar importantes avanços. Mas limitar as informações apenas a esta voz científica, além de distanciar o leitor da informação, pode incorrer nas simples prescrições e recomendações normativas de regulação da vida, que pouco ou nada contribuem para a promoção da saúde.

Em se tratando de alimentação, repensar as vozes autorizadas no jornalismo em saúde é preciso!

 

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção da Saúde. As Cartas da Promoção da Saúde / Brasília: Ministério da Saúde, 2002. [citado em 10 set 2013]. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartas_promocao.pdf

CFM. Percepção dos Brasileiros sobre a saúde pública e o SUS. [citado em 10 set 2014]. Disponível em http://portal.cfm.org.br/images/PDF/apresentao-integra-datafolha203.pdf

Contreras, Jesus e Gracia, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. trad. Mayra Fonseca e Barbara Atie Guidalli. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011. 496p.

Foucault M. Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: edições Graal, 2014.

Foucault M. Vigiar e Punir. Trad. Raquel Ramalhete. 38ª ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 2010.

Oliveira-Costa MS, Amorim ACCLA, Cadaxa AG, Mendonça AVM. Promoção da saúde da mulher brasileira e a alimentação saudável: vozes e discursos evidenciados pela Folha de SP. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2016, vol.21, n.6 [acesso:   2016-09-11], pp.1957-1964. Disponível em  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232016000601957&lng=en&nrm=iso

Oliveira-Costa MS. Parem as máquinas! A gente não quer só comida! Análise da alimentação como pauta jornalística. 250p. (Tese) – Universidae de Brasília, Brasília. 2017

Tabakman R. A saúde na mídia: medicina para jornalistas, jornalismo para médicos. (trad. Lizandra Magon de Almeida). 1 ed. São Paulo: Summus Editorial, 2013.

 

Crédito da imagem destacada.

Jornalista e pesquisadora da Fiocruz Brasília. Doutora em Saúde Coletiva (Universidade de Brasília, 2017) com estágio no Centre de Recherchesur la Comunication et la Santé (Universitédu Quebec a Montreal, Canadá). Mestre em Tocoginecologia (Universidade Estadual de Campinas, 2008), especialista em Jornalismo Científico (Universidade Estadual de Campinas, 2006), e Informação em Saúde (Agência Nacional de los Informadores de Salud – Madrid, 2008), graduada em Comunicação Social/Jornalismo (Universidade Federal de Viçosa, 2005). Ênfase de atuação na interface entre a Comunicação e a Saúde, principalmente nos seguintes temas: metodologia de pesquisa, comunicação em saúde, promoção da saúde, jornalismo científico, comunicação científica, saúde na comunicação de massa e assessoria de comunicação. Contato: mariella.costa@fiocruz.br 

A saúde na TV: prestação de serviço ou meio para intervenção do biopoder?

A saúde na TV: prestação de serviço ou meio para intervenção do biopoder?

Texto elaborado a partir do artigo Biopoder e mídia: a política do fazer viver se renova e atinge a massa.

Nos últimos anos, a televisão brasileira tem dado amplo espaço a quadros e a programas sobre saúde, exibindo principalmente conteúdos relacionados à alimentação e à atividade física.

Na Rede Globo, para citar o exemplo da maior emissora do país, isso ocorre explicitamente desde 2000, quando o Fantástico passou a exibir quadros como Viagem ao Corpo Humano e Questão de Peso, apresentados pelo médico Drauzio Varella, e especiais como Medida Certa, em que famosos perdem peso diante das câmeras. Em 2011, a empresa criou um programa diário para tratar do tema: o Bem Estar.

Aparentemente, programas dessa linhagem procuram prestar um serviço à audiência quando ensina os segredos da alimentação e da atividade física. A prestação de serviço é uma máxima do jornalismo de serviço. Trata-se de um tipo de jornalismo que nasce a reboque da sociedade da informação, baseada na tomada de decisões rápidas, e que costuma ser criticado porque, na ideia de serviço, traria a orientação ao consumo (MELO, 2007).

Analisando a questão sob o prisma do biopoder, poderia se cogitar que programas sobre saúde colaboram com a construção de um corpo fortificado, resistente e longevo, mais apto às linhas de produção do mundo capitalista.

Na perspectiva de Foucault (2012), o biopoder é uma técnica de poder que busca produzir corpos economicamente ativos e politicamente dóceis. Para tanto, usa a disciplina (incide sobre o corpo de cada indivíduo, com o intuito de regulá-lo e torná-lo eficiente) e a biopolítica (age sobre o corpo da população como um todo, controlando natalidade e longevidade, por exemplo).

No biopoder, o poder político assume a gestão da vida das pessoas. Para isso, abandona a antiga técnica do fazer morrer, que educava o povo pelo medo, e adota a moderna estratégia do fazer viver, que busca otimizar um estado de vida na população, tornado-a mais resistente. “O velho direito de causar a morte foi substituído pelo poder de causar a vida. Agora é sobre a vida e ao longo de todo o seu desenrolar que o poder estabelece seus pontos de fixação” (FOUCAULT, 2012, p. 151).

Neste contexto, o encontro entre biopoder e mídia representaria uma combinação perigosa: de um lado, está uma técnica de poder disposta a formatar indivíduos e a regular a população; de outro, há um aparato tecnológico que “influencia sua audiência e a sociedade como um todo” (DEFLEUR e BALL-ROKEACH, 1993, p. 17) e que, portanto, tem condições de incitar a população a controlar a alimentação e a exercitar o corpo com afinco. Perguntas: isso se dá de forma involuntária, quando a mídia busca simplesmente prestar um serviço à audiência sobre um tema em voga no momento? Ou a mídia é tragada pelo biopoder, que se apoia no discurso midiático sobre saúde e bem-estar para otimizar um estado de vida na população?

Este encontro entre biopoder e mídia foi retratado no artigo O biopoder na potência da mídia: o fazer viver se renova e atinge as massas. Como sugere o título, o texto aponta que, ao se acoplar à mídia, o biopoder se fortalece e leva a política do fazer viver ao grande público. Uma das consequências possíveis é a formação de uma população adestrada, orientada em uma espiral capitalista a viver mais, para trabalhar mais, consumir mais e repetir este ciclo até a morte sem refletir sobre isto.

O texto conclui que, no âmbito midiático, o biopoder se apoia principalmente na alimentação. A alimentação é uma característica natural e universal dos indivíduos. Portanto, pode ser usada para regular tanto o corpo individual como o corpo coletivo. Um dos efeitos dessa regulação é a valorização da magreza, geralmente associada à saúde, e a desvalorização da obesidade, comumente associada à doença. No cruzamento de ambas, haveria uma espécie de racismo de Estado. Não no sentido clássico, de raças tidas como superiores ou inferiores, como no caso do nazismo. Mas entre biotipos: o magro, estabelecido como normal e sadio; e o gordo, visto como doentio e ameaçador à espécie.

Este artigo foi produzido quando o autor leu Foucault (2012) e percebeu que, em sua rotina como repórter de jornal impresso e internet, havia feito viver e deixado morrer várias vezes. Havia feito viver em reportagens sobre saúde que, na tentativa de prestar um serviço, incitavam o público a cuidar do corpo, controlando-o no detalhe. Havia deixado morrer em reportagens policiais que ignoraram a morte do marginal, em ato involuntário que lembra uma faxina social, típica do racismo de Estado, articulado pelo biopoder.

O tema tratado no artigo agora é pano de fundo em pesquisa sobre alimentação e televisão. Está se estudando o discurso do programa Bem Estar e o comportamento de sua audiência. O trabalho está em andamento, mas já se percebeu um hiato entre aquilo que o público pensa em termos de alimentação e aquilo que a televisão diz sobre este tema. Em resumo, o público pensa a alimentação no contexto do prazer, enquanto o discurso televisivo a dimensiona no âmbito da eficiência.

Uma das consequências possíveis, inspirada na psicologia de Freud (1978), é uma espécie de mal-estar. O mal-estar freudiano nasce de um sentimento de culpa. Tal sentimento surge (1) da renúncia ao instinto, pelo medo de uma autoridade externa e (2) da organização de uma autoridade interna e da renúncia ao instinto devido ao medo dela, ou seja, devido ao medo da consciência. Nessa segunda situação, as más intenções são igualadas às más ações e daí surgem o sentimento de culpa e a necessidade de punição. “O preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa” (FREUD, 1978, p. 185).

Na teoria freudiana, as pessoas “querem ser felizes e assim permanecer”. “A satisfação do instinto equivale em nós à felicidade. Por outro lado, um grave sofrimento surge em nós quando o mundo externo nos deixa definhar e se recuse a satisfazer nossas necessidades” (FREUD, 1978, p. 141-143).

Adaptando livremente este gabarito para a alimentação no âmbito televisivo, significa que instintivamente boa parte do público busca a felicidade: quer fartar-se; deseja beber Coca-Cola, tomar sorvete, comer chocolate, pedir pizza com borda. Mas o discurso midiático que as atinge, compatível com o biopoder, diz o contrário; prega o controle, o consumo de alimentos eficientes, meramente nutritivos. Nasceria, daí, pelo menos entre aqueles que não o seguem, certo sentimento de culpa.

 

Referências

DEFLEUR, Melvin. BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da Comunicação de massa; tradução de Otávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber; tradução de Maria Thereza da Costa e J. A. Guilhon Albuquerque. 22. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização; tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

MELO, José Marques. Gêneros de comunicação massiva. São Bernardo do Campo: Metodista, 2007.

Jeferson Bertolini é repórter. Faz doutorado em Ciências Humanas (UFSC). É mestre em Jornalismo (UFSC) e bacharel em Comunicação Social/Jornalismo (Univali).