A saúde na TV: prestação de serviço ou meio para intervenção do biopoder?

A saúde na TV: prestação de serviço ou meio para intervenção do biopoder?

Texto elaborado a partir do artigo Biopoder e mídia: a política do fazer viver se renova e atinge a massa.

Nos últimos anos, a televisão brasileira tem dado amplo espaço a quadros e a programas sobre saúde, exibindo principalmente conteúdos relacionados à alimentação e à atividade física.

Na Rede Globo, para citar o exemplo da maior emissora do país, isso ocorre explicitamente desde 2000, quando o Fantástico passou a exibir quadros como Viagem ao Corpo Humano e Questão de Peso, apresentados pelo médico Drauzio Varella, e especiais como Medida Certa, em que famosos perdem peso diante das câmeras. Em 2011, a empresa criou um programa diário para tratar do tema: o Bem Estar.

Aparentemente, programas dessa linhagem procuram prestar um serviço à audiência quando ensina os segredos da alimentação e da atividade física. A prestação de serviço é uma máxima do jornalismo de serviço. Trata-se de um tipo de jornalismo que nasce a reboque da sociedade da informação, baseada na tomada de decisões rápidas, e que costuma ser criticado porque, na ideia de serviço, traria a orientação ao consumo (MELO, 2007).

Analisando a questão sob o prisma do biopoder, poderia se cogitar que programas sobre saúde colaboram com a construção de um corpo fortificado, resistente e longevo, mais apto às linhas de produção do mundo capitalista.

Na perspectiva de Foucault (2012), o biopoder é uma técnica de poder que busca produzir corpos economicamente ativos e politicamente dóceis. Para tanto, usa a disciplina (incide sobre o corpo de cada indivíduo, com o intuito de regulá-lo e torná-lo eficiente) e a biopolítica (age sobre o corpo da população como um todo, controlando natalidade e longevidade, por exemplo).

No biopoder, o poder político assume a gestão da vida das pessoas. Para isso, abandona a antiga técnica do fazer morrer, que educava o povo pelo medo, e adota a moderna estratégia do fazer viver, que busca otimizar um estado de vida na população, tornado-a mais resistente. “O velho direito de causar a morte foi substituído pelo poder de causar a vida. Agora é sobre a vida e ao longo de todo o seu desenrolar que o poder estabelece seus pontos de fixação” (FOUCAULT, 2012, p. 151).

Neste contexto, o encontro entre biopoder e mídia representaria uma combinação perigosa: de um lado, está uma técnica de poder disposta a formatar indivíduos e a regular a população; de outro, há um aparato tecnológico que “influencia sua audiência e a sociedade como um todo” (DEFLEUR e BALL-ROKEACH, 1993, p. 17) e que, portanto, tem condições de incitar a população a controlar a alimentação e a exercitar o corpo com afinco. Perguntas: isso se dá de forma involuntária, quando a mídia busca simplesmente prestar um serviço à audiência sobre um tema em voga no momento? Ou a mídia é tragada pelo biopoder, que se apoia no discurso midiático sobre saúde e bem-estar para otimizar um estado de vida na população?

Este encontro entre biopoder e mídia foi retratado no artigo O biopoder na potência da mídia: o fazer viver se renova e atinge as massas. Como sugere o título, o texto aponta que, ao se acoplar à mídia, o biopoder se fortalece e leva a política do fazer viver ao grande público. Uma das consequências possíveis é a formação de uma população adestrada, orientada em uma espiral capitalista a viver mais, para trabalhar mais, consumir mais e repetir este ciclo até a morte sem refletir sobre isto.

O texto conclui que, no âmbito midiático, o biopoder se apoia principalmente na alimentação. A alimentação é uma característica natural e universal dos indivíduos. Portanto, pode ser usada para regular tanto o corpo individual como o corpo coletivo. Um dos efeitos dessa regulação é a valorização da magreza, geralmente associada à saúde, e a desvalorização da obesidade, comumente associada à doença. No cruzamento de ambas, haveria uma espécie de racismo de Estado. Não no sentido clássico, de raças tidas como superiores ou inferiores, como no caso do nazismo. Mas entre biotipos: o magro, estabelecido como normal e sadio; e o gordo, visto como doentio e ameaçador à espécie.

Este artigo foi produzido quando o autor leu Foucault (2012) e percebeu que, em sua rotina como repórter de jornal impresso e internet, havia feito viver e deixado morrer várias vezes. Havia feito viver em reportagens sobre saúde que, na tentativa de prestar um serviço, incitavam o público a cuidar do corpo, controlando-o no detalhe. Havia deixado morrer em reportagens policiais que ignoraram a morte do marginal, em ato involuntário que lembra uma faxina social, típica do racismo de Estado, articulado pelo biopoder.

O tema tratado no artigo agora é pano de fundo em pesquisa sobre alimentação e televisão. Está se estudando o discurso do programa Bem Estar e o comportamento de sua audiência. O trabalho está em andamento, mas já se percebeu um hiato entre aquilo que o público pensa em termos de alimentação e aquilo que a televisão diz sobre este tema. Em resumo, o público pensa a alimentação no contexto do prazer, enquanto o discurso televisivo a dimensiona no âmbito da eficiência.

Uma das consequências possíveis, inspirada na psicologia de Freud (1978), é uma espécie de mal-estar. O mal-estar freudiano nasce de um sentimento de culpa. Tal sentimento surge (1) da renúncia ao instinto, pelo medo de uma autoridade externa e (2) da organização de uma autoridade interna e da renúncia ao instinto devido ao medo dela, ou seja, devido ao medo da consciência. Nessa segunda situação, as más intenções são igualadas às más ações e daí surgem o sentimento de culpa e a necessidade de punição. “O preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa” (FREUD, 1978, p. 185).

Na teoria freudiana, as pessoas “querem ser felizes e assim permanecer”. “A satisfação do instinto equivale em nós à felicidade. Por outro lado, um grave sofrimento surge em nós quando o mundo externo nos deixa definhar e se recuse a satisfazer nossas necessidades” (FREUD, 1978, p. 141-143).

Adaptando livremente este gabarito para a alimentação no âmbito televisivo, significa que instintivamente boa parte do público busca a felicidade: quer fartar-se; deseja beber Coca-Cola, tomar sorvete, comer chocolate, pedir pizza com borda. Mas o discurso midiático que as atinge, compatível com o biopoder, diz o contrário; prega o controle, o consumo de alimentos eficientes, meramente nutritivos. Nasceria, daí, pelo menos entre aqueles que não o seguem, certo sentimento de culpa.

 

Referências

DEFLEUR, Melvin. BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da Comunicação de massa; tradução de Otávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber; tradução de Maria Thereza da Costa e J. A. Guilhon Albuquerque. 22. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização; tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

MELO, José Marques. Gêneros de comunicação massiva. São Bernardo do Campo: Metodista, 2007.

Jeferson Bertolini é repórter. Faz doutorado em Ciências Humanas (UFSC). É mestre em Jornalismo (UFSC) e bacharel em Comunicação Social/Jornalismo (Univali).