Alimentação na mídia: os discursos ecoados em programas televisivos

Alimentação na mídia: os discursos ecoados em programas televisivos

Luis Eduardo de Oliveira (*)

A Nutrição está em pauta. Definitivamente! A quantidade de artigos científicos publicados em periódicos cresceu muito em relação a décadas passadas. Fazendo uma rápida busca apenas pelo termo na plataforma PubMed[1], é possível encontrar 7.821 resultados somados até o fim do ano 2000; 13.269 até o fim de 2010 e, impressionantes 31.083 resultados para o tema até o fim de 2017, fora os artigos que tratam da temática, as não a trazem de forma explícita na forma de palavra-chave.

Este fenômeno também é possível de se observar em outros espaços e plataformas mais comuns à população como revistas e jornais, sites especializados, programas televisivos e redes sociais. Seja em mídia impressa ou digital, o assunto é bem popular. Mas por que será? Será que as pessoas estão buscando cada vez mais uma alimentação prazerosa, equilibrada e saudável? Estão buscando formas de desenvolver sistemas alimentares mais sustentáveis do ponto de vista ambiental e socioeconômico? Estão buscando alternativas não medicamentosas para prevenir e tratar doenças? Ou estão buscando longevidade?  Corpos sarados e definidos para gozar de um status social?

Neste contexto, um importante personagem surge entre conhecimento científico e o público leigo: o nutricionista. Ele legitima aquilo que é produzido como ciência e o traduz para ser aplicado à rotina alimentar das pessoas, seja em espaços coletivos ou individuais. Porém, apesar de possuir uma importante interface com as ciências sociais, culturais e comportamentais, a Nutrição é fortemente ancorada nas ciências biomédicas, o que faz dela muitas vezes um instrumento de controle, de regulação dos corpos e de consumo, ou em outras palavras, de biopoder.

Por meio deste questionamento procurei, em meu trabalho de conclusão de curso, identificar as narrativas produzidas por nutricionistas na mídia, e escolhi o programa Bem Estar (da Rede Globo de Televisão) como espaço para esta análise. Ao assistir os programas e catalogar os dados, um fato já me chamou atenção: a relevância das falas de médicos para legitimar a narrativa sobre o tema alimentação e nutrição produzida no programa. Das edições escolhidas para análise, esperava uma maior participação dos nutricionistas para falar das temáticas relacionadas à alimentação e nutrição, mas o tempo de fala dos médicos foi quase que o dobro do de nutricionistas. O problema ainda estava para além disso. Os próprios conteúdos das falas produzidas por nutricionistas refletiam o discurso biomédico tratando especificamente de questões que envolviam emagrecimento, controle de peso, prevenção e tratamento de doenças, calorias e propriedades funcionais dos alimentos, e praticamente desprezavam questões sensoriais, culturais e sociais que envolvem temática.

Tal fato se associa com a ideia de biopoder, descrita por Foucault, uma vez que se configura na produção de corpos saudáveis, esbeltos e consumidores de calorias e macronutrientes, regulados pelas regras e normativas prescritas no meio médico. Porém seres humanos não são apenas corpos formados por tecidos biológicos e reações bioquímicas, e o conceito de saúde já evoluiu o bastante para considerá-la apenas por ausência de doença. Nesta direção o discurso produzido pelo Guia Alimentar para a População Brasileira – 2ª Edição, fortalece a ideia de que a alimentação saudável e equilibrada deve ser pautada na construção de hábitos saudáveis, na cultura regional, na palatabilidade e no equilíbrio entre nutricional e sensorial, além de considerá-la como um subproduto de sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis. Vai além do controle calórico e nutricional e da prescrição punitiva e proibitiva.

Infelizmente é possível fazer um paralelo entre a forma de manifestação midiática de médicos e nutricionistas participantes do programa. Ambos oferecem um serviço que atende muito bem as demandas mercadológicas de setores da indústria de medicamentos, alimentos e suplementos. Muitas vezes existe um conflito ético sobre qual é o objeto de trabalho destes, pois é possível de observar profissionais atuando como reguladores de consumo de produtos produzidos por aqueles setores, legitimando o uso e o consumo por meio da narrativa técnico-científica. Agora, a partir do momento em que o objeto de trabalho passa a ser a saúde, em seu aspecto holístico, esta forma de atuação pode mudar. E para isso é importante que seja agregada a compreensão da ética neste contexto e do princípio de interesse primário na atenção em Nutrição: a saúde da população.

Neste contexto, os profissionais de saúde devem acompanhar além das novas análises e diretrizes produzidas pela comunidade científica, os documentos públicos, produzidos com a participação da sociedade civil, como no caso do Guia Alimentar para a População Brasileira, bem acompanhar as demandas sociais para estabelecer suas condutas questionando sempre para quê e para quem estão a serviço: da sociedade ou do mercado.

 

REFERÊNCIAS:

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2ª edição: Brasília. DF; 2014.

Foucault M. Microfísica do Poder. 15ª edição. Rio de Janeiro: Graal; 2000.

OLIVEIRA, Luís Eduardo Vieira Neves de. Bem estar? O que um programa televisivo tem a dizer sobre a alimentação. 2015. 23 f. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Nutrição) – Universidade de Brasília, Brasília, 2015.

Rede Globo de Televisão. Programa Bem-Estar. Disponível em Acesso em: nov. 2015.

[1] PubMed é um serviço da U. S. National Library of Medicine (NLM). Inclui cerca de 21 milhões de citações de artigos de periódicos. O maior componente é a Base de dados MEDLINE que indexa cerca de 5.000 revistas publicadas nos Estados Unidos e mais de 80 outros países. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/

(*) Luís Eduardo é nutricionista graduado pela Universidade de Brasília – UnB e pós graduando em Vigilância Sanitária.