Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Há outros caminhos? Parte 1 | Conheça as Hortaliças tradicionais

Nuno Rodrigo Madeira e Neide Botrel

Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) são aquelas que possuem uma ou mais partes que podem ser usadas na alimentação, mas que não sejam corriqueiras, parte do dia a dia da grande maioria da população. O termo PANC começou a ser difundido em 2008 e tem sido o mais aceito pela comunidade técnico-científica. Ele trouxe consigo grande visibilidade na mídia e perante a sociedade como um todo, proporcionando a valorização de espécies subutilizadas ou negligenciadas.

Em nosso trabalho na Embrapa Hortaliças, iniciado oficialmente em 2006, utilizamos por vezes o termo “Hortaliças Tradicionais”, por serem espécies cujas sementes ou mudas são mantidas pelos próprios agricultores, muitos deles agricultores tradicionais, e por trazerem consigo um forte apelo cultural associado, além de ser uma forma de valorização. Por representarmos a Embrapa Hortaliças, nos limitamos ao trabalho com hortaliças, mas dialogamos acerca das PANC como um grupo maior. Nos últimos anos, passamos também a usar o termo “Hortaliças PANC”, que inclui as hortaliças tradicionais e outras.

Esses termos (PANC ou Hortaliças PANC) trazem alguma controvérsia; uma planta que é considerada não convencional em uma região pode ser convencional em outra, a exemplo do açaí (Euterpe oleracea), do jambu (Spilanthes oleracea) e da chicória (Eryngium foetidum) na Região Norte, do cuxá ou vinagreira (Hibiscus sabdarifae) no Maranhão, da erva-mate no Sul (Ilex paraguariensis), do inhame (Colocasia esculenta) no Espírito Santo, entre outras.

Contudo, de forma geral, as PANC, são espécies de uso local ou regional (e não global ou nacional como as espécies convencionais), com distribuição limitada, cadeia produtiva inexistente ou mal estruturada, de pouco ou nenhum interesse para as empresas de insumos, de sementes ou fertilizantes por exemplo, por sua rusticidade e pouco estudadas na academia.

De forma geral, observa-se redução do consumo de alimentos regionais, seja no campo ou nas cidades, pela substituição da produção local por espécies de maior apelo comercial e cadeia produtiva estabelecida, isso em função de mudanças significativas no estilo de vida e no hábito alimentar da população brasileira, com a perda da referência dos quintais e o crescente uso de alimentos industrializados, resultado da globalização e da verticalização das cidades, muitas vezes com perdas históricas de referências socioculturais.

A situação de desuso de muitas hortaliças tradicionais acarreta em fragilidade com relação ao risco de perda desses materiais. De acordo com a FAO (2004), o ser humano afunilou sua alimentação de mais de dez mil diferentes espécies vegetais para cerca de 150 espécies sendo cultivadas atualmente, sendo que 12 representam 80% de nossas necessidades alimentares e apenas quatro espécies (arroz, trigo, milho e batata) mais da metade de nossas necessidades.

Ainda assim, muitas hortaliças tradicionais (hoje circunscritas no conceito de PANC) resistem no Brasil e são de suma importância na expressão da cultura de determinadas populações. Alguns exemplos, dentre as hortaliças, são:

  • Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) em algumas regiões de Minas Gerais e Goiás, sempre presente na gastronomia no circuito das cidades históricas;
  • Vinagreira no Maranhão, base do prato mais significativo da culinária local – o arroz de cuxá;
  • Jambu no Norte do Brasil, ingrediente essencial para o tacacá e o pato no tucupi; e,
  • Gila (Cucurbita ficifolia) na Serra Gaúcha, onde é tema de um festival em Bom Jesus; entre outros (Brasil, 2015).

Isso em se tratando de hortaliças, nosso universo de trabalho, mas o que dizer das frutas como o cupuaçu e o açaí na Amazônia, o pequi e o baru no Cerrado, o umbu no Semiárido, a jabuticaba no Sudeste, a goiaba-serrana e o butiá no Sul, entre outras tantas “frutas PANC”. Buscando ampliar a diversidade alimentar, nosso trabalho na Embrapa Hortaliças apresenta três propósitos básicos:

  • A conservação de germoplasma, patrimônio de valor incalculável;
  • O enriquecimento da dieta alimentar local com a diversificação da produção nos sítios ou nos quintais; e,
  • A oportunidade de renda para os agricultores familiares com o cultivo de hortaliças tradicionais e seus subprodutos (Madeira et al., 2013).

A conservação, no nosso entender, só será plena e até mesmo segura e viável se for pelo uso, pois aquilo que se usa com frequência terá sua conservação assegurada. No caso de algumas espécies em desuso como o mangarito (Xanthosoma riedelianum), o jacatupé (Pachyrrhizus tuberosus) e a araruta (Maranta arundinacea), trata-se de um verdadeiro resgate de plantas que chegaram próximo à extinção, se não botânica por sua rusticidade, no mínimo à extinção alimentar. Assim, as ações que realizamos junto aos parceiros da extensão rural, de outros órgãos de pesquisa e organizações de produtores, são bancos comunitários locais (Brasil, 2013b), eventos (dias de campo, oficinas culinárias e agronômicas, palestras) e disponibilização de publicações (cartilhas, livros, artigos científicos).

Aspecto fundamental é que, em essência, o cultivo das hortaliças tradicionais vem sendo historicamente feito por agricultores familiares e sob manejo de base agroecológica. Muitos plantios estão estabelecidos em pequenos quintais no meio rural ou urbano, para o consumo da própria família, sem nenhum apelo comercial. Algumas espécies, no entanto, já apresentam significativa inserção de mercado, como o inhame (Colocasia esculenta) ou o cará, conhecido no Nordeste por inhame (Dioscorea spp.), sendo frequentemente encontrados em feiras e supermercados. Outras, no entanto, apresentam potencial comercial sub-explorado, inclusive de exportação, a exemplo da fécula (polvilho) de araruta ou de substituição de importações, a exemplo da fisális ou camapu (Physalis spp.) e do chá de hibisco, extraído da vinagreira.

É interessante ressaltar que muitas hortaliças tradicionais apresentam efeito funcional nutracêutico, a exemplo do cará ou inhame-cará, reconhecido depurativo de sangue, ou ainda o ora-pro-nóbis, conhecido como a “carne vegetal” por seus elevados teores de proteínas (até 32% na matéria seca) e minerais, notadamente cálcio e ferro. No entanto, sempre ressaltando que não será um ou outro “super alimento” que trará a resposta em nutrição e saúde mas sim uma super alimentação diversificada e de qualidade.

Contudo, outro aspecto interessante é que grande parte do que é considerado PANC são plantas nativas do Brasil e, mesmo aquelas que não são botanicamente de origem brasileira, são tão adaptadas que muitos as consideram nativas, a exemplo de vinagreira, gila e inhame, sendo na verdade ditas “naturalizadas”, introduzidas durante o processo histórico de formação do Brasil. Portanto, muitas PANC são plantas espontâneas ou silvestres, por vezes até consideradas “daninhas” ou “matos”, como serralha (Sonchus oleracea), beldroega (Portulaca oleracea) e major-gomes ou cariru (Talinum spp.).

Por sua facilidade de cultivo, adaptabilidade, rusticidade, além do potencial ornamental, muitas PANC tem sido utilizadas em agricultura urbana e periurbana e na promoção da produção local de alimentos.

Finalmente, todas as ações que vem ocorrendo relacionados a hortaliças tradicionais trazem uma forte valorização do conhecimento do agricultor tradicional, de base familiar, resgatando sua sabedoria, dignidade e importância na produção de alimento seguro, mostrando que a produção local de alimentos deve usar prioritariamente plantas adaptadas e de alta rusticidade e resiliência, disponibilizando muito mais alternativas e contribuindo verdadeiramente para a segurança e, principalmente, para a soberania alimentar e nutricional, pelo incremento da diversidade e riqueza da dieta alimentar e o fomento aos bons hábitos alimentares. O fomento das hortaliças tradicionais abrange aspectos culturais, econômicos e sociais, promovendo espécies nutricionalmente interessantes, muito facilmente adaptadas, praticamente orgânicas, e com alta capacidade de mitigação dos impactos negativos causados pelos efeitos das mudanças climáticas, ressaltando sua interface com os diálogos referentes à agricultura de base ecológica e à agricultura urbana.

 

Bibliografia Consultada

BRASIL. 2015. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Alimentos regionais brasileiros. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. – 2ª ed. – Brasília, Ministério da Saúde. 484 p.

KINUPP, V.F.; LORENZI, H. 2014. Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas.

MADEIRA, N.R.; SILVA, P.C.; BOTREL, N.; MENDONÇA, J.L.de; SILVEIRA, G.S.R.; PEDROSA, M.W. 2013. Manual de produção de Hortaliças Tradicionais. Brasília, DF: Embrapa. 155 p.

Nuno é engenheiro agrônomo, pesquisador na Embrapa Hortaliças.

Neide é engenheira agrônoma, pesquisadora na Embrapa Hortaliças.