Pobres têm hábitos alimentares?

Pobres têm hábitos alimentares?

O projeto Alimentos para Todos, elaborado pela prefeitura de São Paulo, a partir da sanção da Lei 16.704/2017 intitulada Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos tem dado o que falar. Pesquisadoras/es, professoras/es, nutricionistas e pessoas implicadas nas temáticas de alimentação, nutrição e direitos humanos tem se manifestado sobre o assunto afirmando o retrocesso que essa iniciativa representa nas lutas de combate à fome e desenvolvimento social.

Em Milão, na Itália, o prefeito defende o projeto e menciona que as pessoas contrárias a essa ação se colocam como tal por falta de conhecimento. Também, como lembrado pela vereadora paulistana Sâmia Bonfim há um episódio do programa Aprendiz com João Dória em que ele questiona um dos participantes do reality show se pobre tem hábitos alimentares. O prefeito tenta minimizar a repercussão do vídeo dizendo que é uma fala tirada de seu contexto.

Veja aqui o momento exato do episódio:

 

Eu fui atrás do programa na íntegra, você pode vê-lo aqui. Após assistir o episódio é possível perceber que, não somente o contexto de sua fala é o mesmo: trabalhar com pessoas em situação de rua e/ou em condições vulneráveis socioeconômicas; como sua ação em relação a essa situação não se modificou. Tanto os questionamentos se pessoas pobres possuem hábitos alimentares, quanto a defesa de um programa como o Alimentos para Todos revelam o distanciamento do João e seus apoiadores do que significa hábitos alimentares e todas as conquistas alcançadas pelos movimentos sociais ligados às questões do direito humano à alimentação adequada.

Se o Dória estivesse perguntando para mim: “Bruna, você acha que pobres têm hábitos alimentares?”, prontamente eu responderia: “SIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!”.

Primeiro, porque não podemos confundir hábitos com situação que ocorre com frequência ou rotina. Eu sei, parece que estamos falando da mesma coisa, mas não estamos. Genericamente, existe essa compreensão de que um hábito é uma coisa que acontece na nossa rotina e é uma coisa que acontece com frequência. Logo, se eu sou pobre, moro na rua e não tenho acesso a alimentos eu não tenho hábitos alimentares. Isso é um raciocínio lógico, porém incoerente e insuficiente para pensar as questões de justiça social e políticas públicas.

Pensar em hábitos vai para além de pensar frequência. Pierre Bourdieu foi um sociólogo francês que estudou a fundo sobre o conceito de habitus (sim, é com u mesmo). O que é e/ou como se forma um hábito? Para o autor, habitus é o que vincula uma pessoa ao espaço social que ela integra. Habitus é um elo entre uma estrutura estruturada e uma estrutura estruturante. Eu não vou aqui entrar em explicações muito profundas sobre isso porque não sou socióloga, sou uma nutricionista interessada em olhar para a sociedade com lentes que apoiem minhas compreensões. Se escrevo sobre essas aprendizagens e formas pessoais de entender a vida e situações como essa da ração humana é porque acredito que podemos conversar e entender as relações sociais de uma forma fraterna e leve, uma conversa.

Assim, para entender o conceito de habitus precisamos nos aproximar de mais dois conceitos: estrutura estruturada e estrutura estruturante. Bourdieu apresenta como estrutura estruturada as convenções, crenças, regras, dogmas e todo um sistema de comportamento que moldam a sociedade desde antes do nosso nascimento. Nós já nascemos em relações sociais pré estabelecidas. Escolas, faculdades, quartéis, igrejas, organizações sociais, empresas, academias… tudo isso pode ser considerado como estruturas estruturadas.

Uma estrutura estruturante seríamos nós enquanto integrantes destas estruturas sociais que para nos sentirmos pertencente a um lugar reproduzimos, fortalecemos e dessa modo que seguimos consolidando essas estruturas. Dessa forma, quando a gente fala de hábitos alimentares estamos falando das práticas que integram a alimentação de grupamentos humanos. Estamos falando de fluxos que vão da produção ao desperdício, da terra ao prato e, posteriormente, ao lixo. Refletir sobre hábitos alimentares a luz desse autor nos permite ampliar nosso olhar para as estruturas sociais que dão base para construção desses hábitos alimentares.

Não existe pessoa dentro de uma sociedade que não possua hábitos alimentares, nós possuímos hábitos alimentares e estamos inseridos na sociedade de diversas formas. Podemos estar inseridos na média da população, podemos estar num lugar de privilégio, podemos estar inseridos à margem do que é socialmente aceito, do que é medianamente vivido. Todos e todas estamos inseridos/as dentro de sociedade que diferencia os hábitos alimentares conforme o lugar que ocupamos nela.

O conceito de Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) é muito importante ser trazido nessa conversa. O DHAA é um dos consensos internacionais registrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre eles está a alimentação como um direito fundamental para a manutenção da vida humana. Eles são universais, indivisíveis, interdependentes e interrelacionados.

Eu entendo que pobres ou pessoas que estão inseridas na sociedade de uma maneira marginalizada possuem hábitos alimentares, não possuem a garantia do DHAA (e outros também…), eles e elas não possuem o acesso aos alimentos. Isso não significa que uma pessoa em situação de rua não nasceu numa família e que essa família não traz em si uma bagagem cultural, um acúmulo vivencial que dá tom e forma para seus hábitos alimentares.

Dizer que pobres não têm hábitos alimentares é negligenciar o DHAA, é negligenciar que existe sim pessoas que não tem acesso ao um alimento em quantidade e qualidade suficiente, garantia prevista para que ela exerça o seu direito fundamental de vida. Falar de DHAA é falar do direito à vida e de ter dignidade para viver. Todos nós precisamos de alimentos que sejam suficientes para garantir a nossa vida. Pessoas pobres, pessoas com pouco acesso a dinheiro para comprar ou a terra para produzir são pessoas que tem o seu direito à alimentação violado, um direito – como eu já disse – fundamental.

Considerando mais um elemento “equivocado” do projeto que apresenta como “solução para a erradicação da fome” a profusão de um alimento ultraprocessado à população. Concordo com o emprego da expressão ração humana, não só pelo aspecto, mas pela própria natureza desse produto que é destituído de identidade, de acúmulos culturais e construções sociais populares. Todos e todas nós temos heranças socioculturais, todos e todas temos histórias alimentares. Esse projeto se coloca como um mecanismo que destitui de um ser humano parte do que o constitui simplesmente pelo seu não acesso a recursos materiais para comer, vestir e morar.

Essa iniciativa de alimentos para todos é infundada e fracassada desde sua gênese por não considerar as dimensões culturais e simbólicas que todo o ser humano tem. Não somente por isso, mas porque coloca em xeque o que que entendemos por alimentos: eu entendo por alimento uma cápsula? Um suplemento alimentar? Eu restrinjo o alimento a uma massa de nutrientes para dar conta da minha manutenção energética, manutenção fisiológica? Ou eu penso no alimento como base estruturante das nossas histórias, vivências e das nossas culturas sociais?

Respeitar o outro na sua singularidade é não aceitar a afirmação que pessoas pobres não têm hábitos alimentares, é não aceitar que em função de uma vulnerabilidade socioeconômica as pessoas precisam estar agradecidas ou aceitarem qualquer tipo de alimento. Pensar nisso é importantíssimo, pra vida, e especialmente gestores/as públicos/as que executam políticas públicas. É fundamental existir uma gestão pública que perceba as múltiplas dimensões que formam as esculturas sociais de um município, estado ou país. Como os governos se relacionam com as cidadãs e cidadãos dos territórios brasileiros?

Para não acabar esse texto nem pessimista, nem tão reflexiva vou dizer para vocês que São Paulo PULSA de atividades que contribuem para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada! Caberia a gestão municipal olhar para essas iniciativas e identificar como fortalecer os diferentes e numeroso projetos que trabalham com uma alimentação socialmente justa e ambientalmente saudável.

Pessoas de São Paulo são infinitamente mais qualificadas para indicar espaços para serem conhecidos, vou compartilhar alguns que conheço por amigos e que podem ser portas para todo mundo que quiser fortalecer as ações que já existem e contribuem para a segurança alimentar e nutricional da população paulistana. =)

Quebrada Sustentável: ponto de cultura socioambiental Educativo, trabalhando com Permacultura e Agroecologia, co-gerimos o Viveiro Escola União de Vila Nova, subprefeitura de São Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo.

Cidades Comestíveis: projeto de cidade que visa estimular uma rede colaborativa de compartilhamento de recursos, conhecimentos e trabalho entre pessoas interessadas em cultivar hortas comunitárias e caseiras.

MUDA SP: movimento da sociedade civil, prefeitura de São Paulo e entidades sem fins lucrativos para incentivar a produção de alimentos sem agrotóxicos na metrópole; ocupar os espaços públicos e resgatar o contato com a natureza; difundir a alimentação saudável e sem desperdícios; devolvendo ao cidadão o direito de cultivar e preparar sua própria comida.

Referência base:

BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Lisboa, 1989. Disponível online.

Texto publicado no dia 21/10/2017 no site PorQueNão?

Bruna de Oliveira é nutricionista, bolsista de pesquisa no Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin da Fiocruz Brasília, mestranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural na Faculdade de Planaltina – Universidade de Brasília. Integrante do GT de Agricultura Urbana em Brasília/DF. Trabalha com Plantas Alimentícias Não Convencionais no projeto ReFazenda.

Corpos e comida nas redes sociais/mídia digital: misoginia, sexualidade e transtornos alimentares – revelações de uma linguagem

Corpos e comida nas redes sociais/mídia digital: misoginia, sexualidade e transtornos alimentares – revelações de uma linguagem

Resenha por Anelise Rizzolo (*)

Deborah Lupton[1] publicou, recentemente, um capítulo de livro que se chama “Vitalidades e visceralidades: corpos alternativos e políticas alimentares na nova mídia digital”.

A abordagem está voltada para as formas que o corpo humano e o consumo alimentar estão representados nas redes sociais como Facebook, Tumblr, Twitter, YouTube e Instagram, a partir de imagens como selfies, vídeos, memes e GIFs, sendo organizados por hashtags.  A busca revela questões simbólicas interessantes pois ela usou: memes gordos, pornografia alimentícia: fotos de comidas atraentes que despertam o apetite e o desejo; GIF de comida, “fitspo” -fotos ou imagens que mostram comportamentos obsessivos relacionados a prática de exercícios físicos; vegetariano e “proana e promia” (fotos ou imagens relacionados a anorexia e bulimia). Outras hashtags também foram relacionadas ao tema nas postagens de mídia como: Bonespo: “só osso” – fotos ou imagens relacionados a anorexia e/ou privação alimentar; Epic Food Feats: fotos ou imagens relacionadas a orgias, farras, banquetes ou excessos alimentares.

Assim começa a revelação de corpos e comidas expressos em retratos digitais e sentimentos essenciais que são frequentemente encobertos por uma ambivalente relação humano e não-humano da realidade corporal. Por exemplo: a percepção do “desgosto” e da repulsa por comida que não está “limpa” ou que possua altas calorias e por corpos gordos que são julgados como indisciplinados. Isso alcança o ápice em imagens e discussões sobre práticas de auto preservação, onde consumo de qualquer tipo de comida é visto como meio para alcançar um ideal de corpo extremamente magro. Um retrato contrastante, no entanto, foi verificado em prazeres transgressivos excessivos no consumo de comida, geralmente como resistência à vergonha do corpo e ao patrulhamento do consumo da comida. Outro aspecto interessante foi que ela verificou que, vegetarianos e veganos foram retratados por sua ética da comida saudável mas, geralmente, considerados chatos e moralistas.

O consumo de comida nessas mídias também foi frequentemente sexualizado. Muitas pessoas postaram ou compartilharam fotos idealizando corpos magros e torneados, tanto masculinos como femininos, exibindo seus físicos torneados, revelando academia ou roupas de praia. Apoiadores da anorexia com memes que retratam jovens mulheres extremamente magras como belas e sensuais, foram frequentes. E o mais chocante, “Epic Meal Time” do YouTube que posta vídeos com apelo sexual da mulher enquanto carne para “consumo” de homens. A misoginia foi ainda mais evidente em memes e GIFs sobre carne, onde homens são retratados como agressores e mulheres suas presas.

O capítulo termina argumentando que expressões de corpos e comida na nova mídia digital são construídas com ambivalências subjetivas, como sobre qual o tipo de comida é moral ou eticamente justificada e que tipos de corpos as pessoas deveriam ter. Em alguns casos, a mídia manipula as emoções conforme os interesses de “comida” a ser vendida. Em outros, eles expressam e facilitam respostas conservadoras e reacionárias, servindo para reproduzir e aumentar regras dominantes com explicações morais e práticas sobre corpos ideais, sexualidade e gênero.

É uma leitura interessante, interdisciplinar e atual sobre tensões éticas relacionadas a alimentação e nutrição e saúde. Boa reflexão!

Referência: Blog Deborah Lupton https://simplysociology.wordpress.com/

[1] É socióloga, professora e pesquisadora da Universidade de Canberra/Austrália. Escritora de diversos livros com enfoque relacionados às dimensões sociais, culturais e políticas da sociedade digital.

 

(*) Nutricionista pela Universidade Federal de Pelotas, especialização em saúde pública, Mestrado em Saúde Pública pela Universidade Federal de Santa Catarina, Doutorado em Política Social pela Universidade de Brasília e Pós Doutorado no ODELA – Observatório de La Alimentación da Universitat de Barcelona – España (em curso). É professora adjunta do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília. Integra o GT Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva da ABRASCO, é Conselheira do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA e Pesquisadora Associada do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional – OPSAN/UNB.

Não Sou Exposição | Entrevista com Paola Altheia

Não Sou Exposição | Entrevista com Paola Altheia

A autora do projeto Não Sou Exposição, Paola Altheia, concedeu uma entrevista ao OBHA. Conversamos sobre suas motivações, sua história como nutricionista clínica e algumas inquietações dentro da profissão.

 

Paola Altheia (também conhecida como “Paco“) é uma nutricionista curitibana formada pela Universidade Federal do Paraná. Fez parte do Núcleo de Estudos dos Transtornos da Oralidade da Associação Psicanalítica de Curitiba. É blogueira, ativista contra a gordofobia, a objetificação feminina, as dietas restritivas e todos os fatores relacionados ao corpo e à alimentação que são fonte de sofrimento intenso para muitas pessoas. Eis a entrevista:

OBHA: Somos bombardeadas por perfis de imagem corporal baseados em corpos magros e atléticos como estereótipos de beleza. O título do seu blog “Não sou exposição” nos remete a reflexão sobre os padrões de beleza corporais contemporâneos no Brasil. De onde surgiu a motivação para discutir esse tema?

Paola: O NSE está diretamente relacionado com experiências pessoais. A partir de transformações na minha rotina, minha vida e minha forma de ver o mundo comecei a me interessar mais pela questão do corpo e das exigências estéticas, principalmente em torno do corpo da mulher. Nem todos sabem, mas eu me dediquei ao ballet clássico durante boa parte da minha vida. No meio da dança, o enaltecimento do corpo magro é algo muito comum. Antes de entrar na faculdade, eu convivia muito com bailarinas, inclusive fazia muitas viagens para competir em festivais. Também tive experiências fora do Brasil. Ouvir conversas sobre dieta e emagrecimento era habitual.

Como até então eu não convivia com pessoas que não fossem do meio da dança, eu honestamente acreditava que pessoas “normais” (que não fossem ginastas, modelos, bailarinas ou atletas) podiam comer normalmente sem se preocupar com ganho de peso. Como eu estava errada!

A partir do momento em que comecei a conviver com pessoas que não tinham obrigação de manter o corpo magro, mas mesmo assim praticavam o “diet talk” (ou seja: falavam sobre dieta e insatisfação corporal o tempo todo), percebi que a prática crônica de dietas não é uma exclusividade de bailarinas. A questão da veneração do corpo magro e da obrigatoriedade de ser bonita que assombra qualquer pessoa do sexo feminino que não seja uma criança me despertou uma curiosidade imensa. Durante um bom tempo fiz parte do núcleo de estudos dos transtornos da oralidade na associação psicanalítica de Curitiba. Destrinchei por conta própria os materiais disponíveis sobre o corpo na história, sociologia, antropologia, psicologia (tarefa que não tem fim, pois é um tema muito rico). Senti que apenas o que me era apresentado na grade curricular da faculdade não me ajudaria a entender de onde vem e como opera o fascínio pelo corpo esbelto.

O nome “Não Sou Exposição” nasceu, literalmente, dentro da minha cabeça. À medida que fui me desligando da dança clássica e da carga mais intensa de treinos, comecei a consumir um volume maior de alimentos e em decorrência disso, meu corpo mudou. Eu fiquei mais curvilínea. As características secundárias femininas se tornaram mais nítidas e de igual maneira foi nítida a mudança de tratamento que recebi. Os homens começaram a falar comigo sem pedir permissão.

Todos os dias eu voltava da faculdade de ônibus e descia no mesmo ponto. Andava algumas quadras até chegar em casa. Após ganhar um pouquinho de peso, foi como se meu corpo tivesse se tornado domínio público. Me senti um item exposto numa galeria, como se todos estivessem convidados a apreciar e opinar sobre a minha aparência. “Não Sou Exposição” é uma frase que surgiu de forma clara na minha mente dias antes de criar o Blog. O NSE é um projeto para ensinar às pessoas que o nosso aspecto físico não nos define. Que somos muito mais do que nossa aparência. Que o corpo é uma parte de nós, mas não é tudo.

 

OBHA: Como nutricionista clínica qual a sua conduta profissional no consultório ao abordar conceitos de hábitos alimentares saudáveis com seus pacientes sem impor regras e padrões pré-definidos de estética corporal?

Paola: O foco do meu atendimento não são as dimensões corpóreas. O meu objetivo é que a pessoa se alimente normalmente e seja saudável (fisicamente, mentalmente, psicologicamente e emocionalmente). O emagrecimento pode ser consequência da mudança de hábitos, mas nunca é a finalidade. Eu não trabalho com abordagem prescritiva, ou seja, não entrego dieta, plano alimentar, listas de alimentos que devem (ou não) ser consumidos. O meu desejo é que o paciente tenha autonomia e confie nas próprias escolhas. Dou noções a respeito de alimentação saudável e explico os fatores chave para a administração da fome, das escolhas alimentares e das emoções. É um processo terapêutico de mudança de pensamento e atitudes em relação à comida. Cobranças, perfeccionismo, culpa, proibição, terrorismo… Nada disso ajuda a construir um hábito alimentar saudável. Muito pelo contrário. Por isso escolho uma abordagem mais compassiva e mais gentil.

 

OBHA: Em sua opinião o conceito de beleza é convergente com o de saúde? 

Paola: Não é segredo para ninguém que para a sociedade atual, ser bonito é ser magro. Um dos principais problemas em relação a isso é que considerando as definições atuais de magreza, não é nada difícil ser “gordo”. Para ser uma pessoa indiscutivelmente magra, é preciso ter 5% de gordura corporal. Peso e medidas não bastam. Tem que ser magro por dentro. Tem que mostrar a bioimpedância. As definições de “beleza” e “saúde” costumam mesclar, mas são coisas completamente diferentes. Para ser saudável, não é necessário ser “sarado”. Não é necessário ter músculos aparentes. Um corpo saudável é algo menos rígido e muito menos difícil de conquistar do que as pessoas imaginam. O corpo feminino celebrado pelo mercado fitness é um referencial de beleza, mas não é saudável. O baixíssimo percentual de gordura corporal afeta severamente a saúde reprodutiva. O corpo “da moda” tem um preço e exige a prática de dietas restritivas porque não é magreza natural – é magreza de manutenção. As dietas invariavelmente provocam o efeito sanfona e podem desencadear transtornos alimentares. Saúde e beleza atualmente divergem. Não há dúvida.

 

OBHA: O OBHA compartilhou um de seus textos intitulado “Magro não é imortal.”, você poderia fazer uma reflexão sobre esse título?

Paola: Existe um problema de saúde pública que nasce quando é feita a divisão entre “magros saudáveis” e “gordos doentes”. Porque nenhuma das situações é uma regra. Existem pessoas magras que fumam, abusam do álcool, bebem refrigerante, comem muita fritura e são 100% sedentárias, assim como existem pessoas gordas que se alimentam bem e são fisicamente ativas. Peso e medidas não significa nada. Absolutamente nada. Muitos profissionais de saúde me dão bronca porque eu estou supostamente “passando a mão” na cabeça das pessoas gordas (acho que eles preferem humilhar e castigar)… Mas o nosso sistema de demonização do corpo gordo está passando a mão na cabeça dos magros. Magros podem ter doenças crônicas relacionadas ao estilo de vida. Magros podem sem metabolicamente doentes. Mas o governo, a mídia e os profissionais de saúde fazem pensar que quem pode adoecer é unicamente o gordo. Não é verdade. Todas as pessoas devem cuidar da saúde, não importa se são gordas ou magras. A lipofobia (aversão à gordura) promove uma atitude negligente entre os magros.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

Memória Culinária de Ouro Preto | Entrevista com Olivia Bezerra

Memória Culinária de Ouro Preto | Entrevista com Olivia Bezerra

Com a necessidade de registar os patrimônios alimentares da cidade de Ouro Preto/MG nasceu o Memória Culinária de Ouro Preto. O livro tem como uma das organizadoras a Professora Olivia Maria de Paula Alves Bezerra que concedeu uma entrevista para o OBHA.

Olivia é nutricionista, mestre em Administração (área: Recursos Humanos) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); doutora em Ciência Animal (área: Epidemiologia) pela UFMG; pós-doutora pelo Núcleo de Pesquisas em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Atualmente é professora associada IV da Escola de Medicina da UFOP.

Memória Culinária de Ouro Preto está disponível no repositório institucional da UFOP.

Eis a entrevista:

OBHA: Por que você e as outras colaboradoras perceberam a necessidade de desenvolver uma obra que resgatasse o patrimônio alimentar ouro-pretano?

Olivia: Sentimos que essa era uma necessidade urgente, pois vemos com grande preocupação o surgimento acelerado, em Ouro Preto, de novos estabelecimentos que comercializam alimentos estranhos à nossa cultura alimentar, com consequente aumento do consumo desses alimentos em detrimento daqueles que efetivamente fazem parte da nossa cultura e constituem opções mais saudáveis. Para nós, a substituição dos pratos tradicionais pelos alimentos ultraprocessados e fast foods, constitui, de certa forma, uma ameaça à nossa cultura alimentar, aos nossos hábitos e a segurança e soberania alimentar do nosso povo. Nesse sentido, resgatar algumas receitas tradicionais e organiza-las em um livro foi a nossa forma de tentar contribuir para minimizar esse quadro.

OBHA: Quais foram as expectativas com a elaboração do livro? 

Olivia: A nossa principal expectativa foi que a população, ao ter contato com o livro, identificasse, nas receitas nele contidas, aquelas que poderiam ser preparadas nos diferentes ambientes de consumo, como as residências, escolas, restaurantes, bares, entre outros. Para isso, fizemos um amplo trabalho de divulgação por meio de oficinas culinárias com diferentes atores da sociedade ouro-pretana, e pensamos na publicação do livro como forma de sistematizar e registrar para as futuras gerações essa parte da nossa memória.

OBHA: Como foi construir um projeto desta natureza no meio acadêmico da nutrição tão influenciado pela visão biológica?

Olivia: Na época eu ainda estava trabalhando na Escola de Nutrição. Embora o projeto tenha causado um certo estranhamento no início, ele foi bem compreendido e aceito no âmbito da Escola. O projeto foi aprovado e suportado em termos financeiros pela FAPEMIG e também pela CAPES, o que viabilizou o seu desenvolvimento e conferiu mais credibilidade ao mesmo. O apoio da UFOP por meio de sua editora e da Pró-Reitoria de Extensão também foi fundamental para o alcance dos objetivos propostos. Foi uma experiência muito gratificante, especialmente por ter permitido abrir as portas da Escola de Nutrição à comunidade durante a realização das oficinas em seu laboratório de Técnica Dietética.

OBHA: Como foi o processo de produção do Memória Culinária de Ouro Preto?

Olivia: A primeira etapa consistiu na identificação de algumas famílias antigas da cidade, tanto na zona urbana quanto na rural, para que fossem entrevistadas e nos colocassem a par de suas receitas culinárias antigas. A seguir, solicitamos às informantes que preparassem essas receitas no seu próprio domicílio, para que pudéssemos acompanhar as etapas e degustar as preparações. Nessa oportunidade, também colhemos, por meio de entrevistas, a história das receitas naquela família, identificando quem as criou, como e em que ocasiões eram preparadas, como e de onde vinham os ingredientes, como era transmitida entre as gerações, entre outras informações que nos auxiliasse a compreender o contexto sociocultural em que eram preparadas e consumidas. Todas essas informações foram registradas no livro. Na terceira etapa, coube à equipe de pesquisadoras e alunas bolsistas preparar as receitas colhidas, já no ambiente do laboratório de Técnica Dietética da Escola de Nutrição, a fim de fazer ajustes nas quantidades per capita e no modo de preparo para elaboração das fichas de preparação e determinação do seu valor nutricional. Também pudemos analisar a viabilidade de substituição de alguns ingredientes e fazer provas de análise sensorial. Na quarta etapa realizamos uma série de oficinas, também no laboratório de Técnica Dietética, com escolares, merendeiras, grupos de terceira idade, nutricionistas e outros segmentos de Ouro Preto e mais 4 municípios vizinhos, a fim de apresentar as receitas e estimular o seu consumo nos diferentes ambientes de alimentação. O retorno dessas oficinas foi muito bom, algumas chegaram até a ser incluídas no cardápio da alimentação escolar em alguns desses municípios. E, por fim, fizemos o lançamento do livro, ocasião em que recebemos muitos convidados, inclusive as senhoras que contribuíram com suas receitas e histórias. Elas prepararam e levaram vários quitutes para a ocasião. Foi um grande sucesso!

OBHA: Temos no livro as histórias das famílias por trás das receitas. Sabemos que o ato de se alimentar não é somente fisiológico, é também recheado de um caráter simbólico que permeia as relações sociais das pessoas. Qual a sua percepção da alimentação como parte da cultura de um povo?

Olivia: O projeto nos permitiu sentir de forma muito interessante essa questão, evidenciando a importância do ato de preparar e ingerir os alimentos para além das necessidades biológicas de saciedade e nutrição do corpo. A dimensão simbólica desse ato ficou muito evidente para nós. Muitas participantes do estudo relembraram, comovidas, o tempo em que eram crianças e viam suas avós, mães e tias preparando aquelas receitas, e depois todos se juntavam à mesa para comer, contar histórias, rezar… Muitas se referiram a antigos parentes e amigos que faziam parte do ritual de preparo e degustação daquelas receitas, às festas religiosas, aos reinados, casamentos, batizados, aos velórios… e nos contaram como conseguiram manter a tradição, passando o saber fazer culinário aprendido com suas antepassadas para suas filhas e netas, ainda que com pequenas adaptações, já que alguns ingredientes tradicionais dificilmente são encontrados na região de Ouro Preto nos dias atuais, como a gila, o tomate chimango, a fava. E focamos também sobre a questão do trabalho feminino, pois o ato de preparar os alimentos sempre foi tido como uma atribuição exclusiva da mulher em nossa sociedade machista. Nesse aspecto, buscamos valoriza-lo ao máximo e dignifica-lo enquanto produtor de saúde, memórias, culturas, prazeres e resgatando o significado do trabalho para essas mulheres. Realmente, foi muito prazeroso o desenvolvimento desse projeto.

OBHA: Além do livro, o projeto Resgatando a Memória Culinária de Ouro Preto desenvolveu oficinas culinárias junto à comunidade com o objetivo de divulgar essas receitas. Conte-nos um pouco dessa experiência.

Olivia: Sim. As oficinas foram realizadas aos sábados pela manhã e foram planejadas no contexto do projeto “UFOP com a Escola”, da Pró-Reitoria de Extensão, e do projeto Novos Talentos, da CAPES, e foram relatadas em um capítulo do livro “Em busca de novos talentos”, publicado pela Editora UFOP em 2014. A junção dos três projetos foi fundamental porque permitiu a participação de 130 pessoas, entre escolares, cantineiras, grupos de terceira idade, nutricionistas e outros no preparo, no laboratório de técnica dietética, de algumas das receitas contidas no livro. Em uma breve aula, os participantes receberam informações sobre normas de higiene, segurança laboratorial e técnicas de preparo de alimentos. Antes de se dirigirem ao laboratório, lhes era oferecido um lanche, já que muitos vinham da zona rural ou de outros municípios mais distantes. Todos recebiam uma apostila com as receitas que seriam preparadas naquele dia. A seguir, o grupo era dividido em subgrupos para preparo de pelo menos 5 das receitas escolhidas previamente, e depois do preparo, eram convidados a almoçar no laboratório. Após o almoço, era feita uma visita à Escola de Nutrição para que todos conhecessem seus laboratórios, salas de aula e outras dependências. Para muitos dos participantes, aquela foi a primeira vez que entraram no espaço da UFOP.  A partir das oficinas, os participantes se tornaram multiplicadores das receitas e de suas histórias.

OBHA: Vivemos uma época em que a cultura alimentar tem se perdido em meio a globalização. Os registros dos patrimônios culinários têm sido cada vez mais necessários para que não se percam com o tempo. Você enxerga o Memória Culinária de Ouro Preto como um incentivo para que outras localidades se mobilizem em torno da realização de algo parecido?

Olivia: Sim, certamente. Esperamos que o projeto e o livro possam inspirar pesquisadores e outros profissionais a replicarem a ideia em seus municípios, pois isso poderá contribuir para ampliar o leque de opções de alimentação saudável, condizentes com os hábitos e a cultura alimentar de cada território. Essa pode ser uma forma de contribuir para melhorar as condições de saúde e a qualidade de vida da população brasileira.

OBHA: Como você vislumbra um projeto como o Memória Culinária de Ouro Preto como um elemento de apoio para as políticas públicas ligadas a alimentação e nutrição no Brasil?

Olivia: Entendo que projetos como esse, que valorizam a cultura, o saber fazer e os alimentos locais e regionais, podem contribuir de forma significativa para a promoção do direito humano à alimentação adequada, saudável e sustentável da população, para o fortalecimento das políticas de segurança alimentar e nutricional e da nossa soberania alimentar. As ações locais, embora possam parecer de pouca importância para alguns, na verdade têm grande potencial de transformação da realidade de um povo.

 

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.
Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos

Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos

Publicado na 44ª edição da Revista Sociologia o artigo da professora Elaine de Azevedo intitulado “Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos”. A revista é uma publicação quadrimestral do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS, destinada a promover intercâmbio entre cientistas sociais nacionais e internacionais. A autora concebeu uma entrevista para o OBHA sobre essa publicação.

Elaine é nutricionista, doutora em Sociologia Política na área de Sociologia Ambiental e Sociologia do Conhecimento Científico. Fez estágio pós doutoral no Departamento de Prática de Saúde Pública, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pesquisando os campos de estudo da Agroecologia e da Promoção da Saúde. Atualmente é Professora Adjunta na Universidade Federal do Espírito Santo, na Graduação e no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais (PGCS) no Departamento de Ciências Sociais do Centro de Ciências Humanas e Naturais. É coordenadora do Grupos de Pesquisa CNPq/ UFES: Diálogos entre Sociologia e Artes e Ambiente e Sociedade. É membro da International Association of Socioloy.

Eis a entrevista:

OBHA: Por que você se interessou pelo olhar da sociologia para analisar o tema da alimentação e nutrição na sua trajetória acadêmica?

Elaine: Porque a formação em Nutrição ainda é muito estreita para pensar todas as dimensões socioculturais que me mobilizam e que podem ter a alimentação como tema transversal. Ou seja, eu me interesso em discutir poder, mercado, gênero, desigualdades, consumo, migração, relações sociais, globalização, saúde e doença, meio ambiente, ativismo, política, controvérsias sócio técnicas via alimentação. O que me encanta é olhar para a sociedade com as lentes da comida.

OBHA: Quais foram as tuas motivações motrizes para desenvolver seu último artigo “Alimentação, sociedade e cultura: temas contemporâneos”?

Elaine: Além de ir ao encontro do meu interesse citado anteriormente, eu tinha o desejo de delinear um ‘estado da arte’ dessa área de estudo para conhece-la mais e fomentar futuras pesquisas empíricas, além de revelar a abrangência desse campo que eu considero tão instigante.

OBHA: Em seu artigo, você cita possibilidades de relação com a comida deferentes e/ou inusitadas, a exemplo da geração Yum. Qual ou quais dela/s te chama/m mais a atenção e/ou desperta/m curiosidade para novas pesquisas?

Elaine: Muitas temáticas despertam minha curiosidade e podem ser pesquisadas, eu as pontuei no final do artigo; para citar algumas eu remeto as chamadas migratory meals e seu papel no processo de integração dos imigrantes e refugiados; as novas formas de ativismo e fundamentalismo alimentares; as infinitas controvérsias ligadas a alimentação e os diferentes tipos de comensalidades contemporâneos.

OBHA: Você coloca ao longo do texto que o tema de alimentação e cultura já foi marginalizado na sociedade. Foi ou é marginalizado ainda? Quais elementos você pode compartilhar conosco que expressam essa notoriedade?

Elaine: Eu pontuei que a alimentação foi por algum tempo uma temática social negligenciada na Sociologia devido a clássica separação natureza-sociedade, por seu vínculo a uma atividade doméstica e sem glamour, de domínio tradicional das mulheres, cuja produção remete ao meio rural. Por isso, a alimentação ficou distanciada do apelo intelectual de teóricos masculinos que dominaram o início das Ciências Sociais, preocupados com uma nova disciplina assepticamente ‘cultural’ e que atuavam no meio urbano. Entretanto, atualmente a alimentação ganhou outro status.  É um tema efervescente que chama atenção da mídia, dos leigos e dos especialistas. Falar de comida, comer e cozinhar mobilizam todas as sociedades. A ‘história por traz da comida’ e a relação entre alimento, saúde, ética e sustentabilidade nunca estiveram tão evidentes. Difícil é abarcar todas as nuanças dessas temáticas.

OBHA: Você destaca o lançamento do OBHA em seu artigo, qual relevância você percebe na existência de um observatório que trabalha os temas que perpassam os hábitos alimentares da população brasileira?

Elaine: Um observatório é um espaço legítimo de investigação e construção interdisciplinar e coletiva de conhecimentos sobre alimentação e nutrição. Nesse sentido o OBHA tem um papel essencial na identificação de questões alimentares locais e na resolução de problemas identificados pelos diferentes atores que são afetados por eles. Eu penso que um dos grandes desafios de um observatório alimentar é garantir, democraticamente, o espaço e a voz das minorias que produzem alimentos e que comem de formas diferenciadas. As minorias excluídas da discussão acadêmica e distanciados de uma ciência elitizada. Um observatório permite garantir a legitimidade do conhecimento agroalimentar tácito que é tão precioso e tão vulnerável.

OBHA: Você como uma especialista na área de alimentação e cultura, quais suas expectativas em relação a um observatório com a nossa natureza?

Elaine: Nós construímos coletivamente uma poderosa e revitalizada política de segurança alimentar e nutricional (SAN) que considera o ato de comer em suas múltiplas dimensões – agrícola, social, cultural, ambiental, de promoção da saúde –  como poucos países conseguiram desenvolver. Incluímos diversos atores sociais e setores nessa discussão e somos respeitados no mundo todo. E essa política se encontra atualmente ameaçada, como tantas outras políticas ambientais e de bem-estar social. O observatório é mais uma estratégia que temos na defesa dessa importante conquista. O que eu espero é que o Observatório seja mais uma voz potente para defender nossa soberania e nosso patrimônio alimentar e também o direito de todo brasileiro a uma alimentação de qualidade. Mais um clamor para garantir a sobrevivência da nossa preciosa política de SAN.

Gostou da entrevista? Quer saber mais? Acesse o artigo na íntegra aqui.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.

Feiras, um caminho sem volta. Entrevista com Maria Rita Macedo Cuervo

Feiras, um caminho sem volta. Entrevista com Maria Rita Macedo Cuervo

Na onda da temática da sessão Fome de Saber, o Pitada de Opinião tem a honra de entrevistar a nutricionista e bióloga, Maria Rita Macedo Cuervo. Especialista em Ecologia Humana e em Tecnologia dos Alimentos, a entrevistada é também mestra em Saúde Coletiva e doutora em Psicologia. No doutorado iniciou a pesquisa sobre feiras agroecológicas como uma comunidade de práticas alimentares culturalmente significativas no eixo de produção, distribuição, preparo e consumo de alimentos. Participa do projeto de extensão no IPA, na feira agroecológica que acontece na instituição. A entrevista centra-se em sua tese intitulada A feira agroecológica como espaço de produção de práticas culturais: identidade, alimentação e relações psicossociais, disponível no repositório online da PUCRS. Eis a entrevista:

1. Sua tese é composta por três ótimos artigos, com relação ao segundo texto “A feira um caminho sem volta: reflexões etnográficas sobre a produção e o comercio agroecológico em Porto Alegre”, gostaríamos que comentasse sobre as feiras como espaços de resistência à nova ordem alimentar.

O processo de globalização leva a homogeneização e perda da diversidade nos planos econômico, ecológico e cultural, implicando também na cadeia de práticas alimentares constituintes do processo produção/distribuição/preparo/consumo de alimentos. A escolha do que comer na sociedade contemporânea, é culturalmente pautada por processos mais amplos da sociedade global, especialmente ao considerarmos a configuração do capitalismo contemporâneo e seu impacto na produção de subjetividades. A progressiva homogeneização e globalização alimentares estão levando à valorização e busca das raízes culturais, produtos regionais (produtos da terra) e o reconhecimento de que a “cozinha” constitui um patrimônio cultural e que deve ser preservado.

Movimentos de resistência à globalização e homogeneização alimentar vêm surgindo em todo mundo como é o caso do slow food, surgido na Itália em 1986 com o objetivo de apoiar e defender a boa comida, o prazer gastronômico e um ritmo de vida mais lento. O slow food está comprometido com a proteção dos alimentos tradicionais e sustentáveis, sustenta que a única agricultura que pode oferecer uma perspectiva de desenvolvimento é aquela baseada na soberania alimentar de comunidades locais em harmonia com o ecossistema. O movimento sustenta que “alimentar-se é um ato agrário” e os consumidores informados e exigentes tornam-se coprodutores.  Um aspecto interessante é a construção de redes que conectam produtores e coprodutores

Um dos problemas da sociedade urbana contemporânea é a ansiedade gerada em relação ao não saber o que comemos, isto é, com a industrialização da alimentação, o uso de aditivos, agrotóxicos e transgênicos. As feiras podem ser vistas como um espaço de resistência a essa “nova ordem alimentar”.

A própria proposta de feira, remete a um cenário de práticas sociais tradicionais que fomenta a relação interpessoal. A palavra feira, vem do latim feria, que significa “dia de festa”, é um local de vendas, trocas, encontros e conversas. A feira pode ser vista como uma comunidade de práticas sociais, onde o conjunto de relações que uma pessoa e um grupo possuem, são fontes de reconhecimento, compartilham significados, e sentimento de pertença.

2. Você usa a expressão “mosaicos de sociabilidade” para falar das feiras. Pode discorrer mais essa expressão citada por você no artigo?

As feiras são espaços que representam dinâmicas da sociedade no campo alimentar, pois são locais de comércio (e trocas) e consumo. Desde a Antiguidade, as feiras sempre tiveram crucial importância, seja em relação ao comércio nas cidades, seja como um espaço de trocas culturais, aprendizagem e estabelecimento de relações de sociabilidade. Pode-se dizer que as feiras são mosaicos de sociabilidade, são pontos de encontro e locais onde vários atos da vida social acontecem, mantendo um sentido de permanência e de identidade, para além da compra e venda de alimentos. São espaços de relações sociais, manifestos, comícios e apresentações artísticas.

3. Você mostra na pesquisa etnográfica diferenças interessantes entre as feiras que fizeram parte da sua observação. Poderia falar um pouco sobre essas diferenças encontradas e quais as conclusões que obteve a partir dessas observações?

No início do trabalho, e por um bom tempo, tive dificuldade de me “distanciar da feira”, pois tenho o sentimento de pertença, identidade com a “comunidade feira”. Neste caso, para o pesquisador que faz parte da sociedade que está sendo pesquisada, o grande desafio é procurar interpretar a sua própria cultura.

Numa feira livre tradicional (não agroecológica), percebi vínculos entre consumidores e feirantes, parecido com a feira agroecológica. Muita brincadeira, e de diferente me chamou a atenção a relação, o jogo do preço, isto é, uma certa competição entre as bancas, no sentido de ter o melhor preço. Me parece que o “espírito da feira” é o menor preço. Na feira agroecológica o “espírito da feira” não é o do preço, mas da qualidade, por ser agroecológica.

Outra experiência foi a Bioferia de Miraflores em Lima, Peru. Também é uma feira ecológica, organizada pelo Grupo Ecológica Peru. O que me chamou a atenção foi o número de estrangeiros (inclusive eu) que circulam pela feira, de vários lugares do mundo, e as bancas que vendem café e produtos prontos são muito frequentadas. Percebi que as pessoas comem na feira, se encontram, vão ao parque, assim como fazem em Porto Alegre. Muitas famílias com crianças, e depois de passar pela feira costumam ir para o parque, onde existem atividades culturais como roda de musica.

A partir dessas experiências, consegui observar diferenças entre feiras e, na verdade, me distanciar para depois me aproximar novamente. Na feira FAE, (de Porto Alegre) o trabalho é construído coletivamente a partir de uma luta por ideais. Vi outra feira, onde o poder público e a indústria de alimentos estão presentes, e outra onde os produtores,  comerciantes e poder público, mostram para o mundo a sua identidade alimentar/cultural. Claro que foi meu olhar de estrangeira naquela feira, fiz nesses outros espaços, que não da FAE, um exercício etnográfico, do estranhamento.  Me chamou a atenção a diferença nas relações de compra, na feira livre o feirante se aproxima do consumidor pelo jogo do diferencial de preço, chama fregueses pelo apelo do menor preço. Na feira agroecológica FAE, não existe este jogo, o que é oferecido é um ideal, uma qualidade diferenciada,  um resultado de uma longa construção. Na Bioferia de Miraflores, percebi a feira, em alguns momentos, como uma exposição das riquezas culturais e um ponto de encontro para comer e conversar. É uma feira para turistas.

Percebi que todas as feiras têm de marcante as relações entre produtores/comerciantes e consumidores, muito diferente de um supermercado, onde as pessoas nem se olham.

4. Na sua opinião, as feiras livres podem ser espaços para conscientização da população voltados para a importância de uma alimentação sustentável que permeie aspectos econômicos, sociais, ambientais, de saúde e até afetivos?

A feira pode ser vista como um espaço representativo de práticas alimentares, entendida como: todos os processos relacionados com o comer, como a escolha, preparo, a companhia, o local, quantidade, a forma, a apresentação, entre outros. Relacionados aos aspectos subjetivos (socioculturais) do comer e da comida.

É um lugar onde se dá a aproximação de produtores familiares e consumidores urbanos que compartilham valores sociais e representações. Se estabelece pelo contato face a face uma “ética relacional”, envolvendo espaço, produtos, pessoas, significados, conhecimentos, enfim, trocas. Assim a rede estabelecida gera relações de confiança e marca a legitimidade da qualidade dos alimentos.

A feira pode ser vista como um importante espaço público de Educação Alimentar e Nutricional no contexto da realização do Direito Humano à Alimentação Adequada e da garantia da Segurança Alimentar e Nutricional, onde a autonomia das escolhas alimentares saudáveis é central e a prática da educação se dá através do diálogo.

A feira é um meio de ampliação do acesso a alimentos de qualidade, pela produção agroecológica e sustentável e justiça social, e fortalecimento da agricultura familiar. Outro aspecto importante da SAN na feira é a conservação da biodiversidade, pela forma de produção que é ambientalmente e socialmente sustentável, mas também como um local onde existe a oferta de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) e de produtos nativos, como algumas frutas.

Produzir e comer comida da feira é uma forma de participação política. Entendendo como uma ação política um posicionamento diante da problemática social, ambiental e de identidade da sociedade contemporânea.

A comida que vem da feira tem identidade, é temperada com ideais e relações sociais, com toque de memória e afeto.

Pitada de Opinião, sessão composta por conteúdos produzidos pelo observatório sobre as dimensões simbólica, cultural e econômicas do alimento, incluem entrevistas, sugestões de livros, filmes e outros materiais, bem como, relatórios e documentos finais de pesquisas realizadas pelos integrantes do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura – Palin e/ou organizações parceiras.