Fazer a feira e a construção de socialidades

Fazer a feira e a construção de socialidades

Viviane Vedana *

Falar de mercados de rua e feiras-livres nos demanda uma atenção inicial às peculiaridades de cada um destes arranjos. A primeira visita a um mercado nos produz impressões que podem ser aos poucos reelaboradas a partir de observações sistemáticas, como é o caso das pesquisas que realizei em feiras-livres: aos poucos, notamos a especificidade da relação entre freguês e feirante, a particularidade da estética e organização das bancas, o silêncio ou a complexidade da paisagem sonora, entre outros elementos. É tendo em vista esta diversidade que sempre me preocupo em ponderar, quando falo em mercados e feiras-livres, que se tratam de arranjos sociais – não espaços propriamente (o que não significa que o espaço seja irrelevante, pelo contrário, a questão é que não é determinante nesta definição que adoto). Trata-se da forma que determinadas práticas cotidianas de trocas – sociais, comerciais, afetivas – assumem num determinados tempo e espaço e que “fazem a feira” reiteradamente. Essa foi a hipótese central de minha pesquisa de doutorado: a feira-livre é preciso fazê-la e refazê-la a cada “dia de feira”.E esse constante fazer a feira compõe-se de um conjunto de práticas e gestos que envolvem sobretudo o alimento, mas também e de forma fundamental, os laços entre as pessoas, sejam elas feirantes ou fregueses, ou trabalhadores ambulantes que circulam pela feira, ou crianças e adolescentes atrás de alguns biscates, etc. A questão é: qual o caráter destes laços?

Uma primeira questão é que alimentar-se envolve múltiplas dimensões da vida cotidiana: desde as relações de compra e da venda de alimentos, os processos de manipulação da matéria do alimento para o cozimento, até os rituais de comensalidade, celebração e festa. É, portanto um gesto muito mais complexo do que poderíamos considerar caso partíssemos da perspectiva de uma racionalidade prática relacionando-o unicamente a satisfação das condições de subsistência dos corpos biológicos humanos. Os processos de compra e venda de alimentos na feira-livre seguem o mesmo princípio: são, é certo, trocas comerciais que envolvem dinheiro, preço e cotação dos produtos, mas são também trocas sociais de onde derivam amizades, trocas de receitas, sociabilidades e aprendizagens. Feirantes e fregueses criam relações de amizade entre si, trocam confidencias, fazem piadas, conversam filosoficamente sobre o tempo e sobre a vida. Em minha pesquisa de doutorado observei muitas vezes que o alimento era uma imagem do tempo – dos ciclos de vida, envelhecimento, morte, ou dos ciclos semanais da feira e sua relação com a temporalidade urbana, como podemos perceber neste vídeo:

As práticas cotidianas que compõem a feira-livre dizem respeito a mais do que simples relações econômicas ou de comércio formal no interior da cidade (e mais uma vez pondero que não estou minimizando a importância da dimensão econômica, mas atentando para um outro aspecto). Todo o aparato necessário à montagem da feira-livre – com suas bancas, lonas, alimentos, balanças, caminhões, etc – bem como as formas de interação entre fregueses e feirantes –  as inúmeras conversas ao pé da banca entre estes personagens, o vai e vem incessante de carrinhos e sacolas pelos corredores lotados, as negociações, as amizades, as receitas trocadas entre fregueses, suas lembranças da feira, as piadas – evocam a densidade das relações e das trocas que ai se desenrolam. Fazer a feira todos os sábados pela manhã (ou qualquer outro dia da semana)além de abastecer a casa de mantimentos, é também uma forma de sociabilidade. Comprar alimentos na feira-livre constitui-se como um momento importante de trocas sociais e de reafirmação de vínculos entre os sujeitos, de evocação da memória destas práticas no contexto da cidade, da afirmação da dimensão simbólica da aquisição de alimentos.

Em termos da perspectiva antropológica, as trocas sociais são elementos fundantes da vida coletiva, portanto, ao referir-me a noção de laço social, me inspiro nos estudos de Marcel Mauss, a respeito da dádiva[1] e do lugar das trocas sociais na conformação da vida em comum. O termo fundamental das “prestações totais” amplamente descritas pelo autor é o laço que une as partes que trocam nas obrigações de dar, receber e retribuir, laço que cria o circuito das trocas instituindo relações de reciprocidade. No sistema de prestações totais delineado por Marcel Mauss, os bens trocados são portadores de valores sentimentais, pois carregam consigo algo de seu possuidor. As trocas estabelecidas entre diferentes grupos ou pessoas estão sempre imbuídas deste valor, da alma da coisa trocada. Transladando estas reflexões de Marcel Mauss para o contexto das feiras-livres, é possível compreender que nesta troca que caracteriza a compra e venda de alimentos estão agregados outros valores além do monetário. Segundo um dos interlocutores de minha pesquisa, estão agregados também pessoalidades e histórias

Um dos elementos fundamentais desta troca é o sabor, o gosto dos alimentos. A escolha do que comprar envolve muitos fatores, desde o desejo do que se quer cozinhar até as diversas sensações, visuais, olfativas e de tato que a relação com o alimento proporciona, passando também, é claro, pelos momentos de conversas e diálogos com feirantes ou mesmo com outros fregueses. Estas sensações ou experiências sensórias: observar o alimento em suas cores e formas, sentir o cheiro que exala, tocar e descobrir sua textura e densidade não são gestos unilaterais, que partem exclusivamente dos fregueses, mas relacionam-se as maneiras como os feirantes preparam os alimentos para serem apreciados, arranjando a banca, anunciando seus produtos, oferecendo provas para a degustação, informando, conversando. Durante meu trabalho de campo, era comum observar feirantes arrumando constantemente suas bancas enquanto anunciavam seus produtos – arranjos que variavam muito de um mercado para outro. Segundo um dos feirantes com quem convivi, a visão é a primeira forma de relação com o alimento que se vai consumir, há uma atração por eles, por isso precisam estar bem apresentados aos olhos do freguês e cada feirante vai achar a sua maneira de oferecer isso a seus clientes. Assim, durante o tempo da feira, a banca deve ser rearranjada diversas vezes, conforme os clientes passam por ali escolhendo e comprando.

Compondo este processo de organização da banca e preparação da exposição dos produtos, está também a oferta de um alimento para ser degustado pelo freguês. Isto é feito de diversas formas, mas de maneira geral os feirantes deixam algumas frutas a disposição do freguês e ao vê-lo experimentar travam um diálogo a respeito do que está sendo provado – suas origens, safra, gosto, variedade, etc. Esta “provinha” também é uma forma de relação da qual podem surgir receitas e ideias de consumo de cada alimento. Ao provar uma fruta, freguês e feirante estão compartilhando sabores.

Esta dimensão cotidiana e ordinária da feira-livre, onde se produzem sociabilidades em que o alimento é um dos personagens principais, é uma escala no interior de relações mais abrangentes e até mundiais no que concerne a circulação e distribuição do alimento. Não é possível discorrer sobre isso amplamente aqui, mas parte das questões pertinentes à minha tese de doutorado refletem sobre algumas dificuldades apontadas pelos feirantes em relação à concorrência com as grandes redes de supermercado e a intensidade da vida urbana, que tende a afastar as pessoas da feira e da cozinha. Considero delicado abordar esse tema no momento, sobretudo porque vemos uma preocupação crescente das camadas médias com uma alimentação saudável, o que poderia reconduzir as pessoas à cozinha e à compra de alimentos “in natura” em detrimento dos industrializados. Por outro lado, camadas populares tem menos acesso a uma alimentação saudável tendo em vista os preços altos dos alimentos – em alguns casos, mas não sempre, mesmo na feira-livre. Não tenho dados atualizados para elaborar aqui esta discussão, mas minha experiências com feirantes mostra que deveríamos ouvi-los mais, pois desenvolvem muitos saberes e habilidades nesse trabalho – sabem sobre safras, sobre comércio exterior, sobre impostos e sobre “os gostos do freguês”.

 

Referências Bibliográficas

CERTEAU, Michel. de. A Invenção do Cotidiano. Artes de Fazer. Rio de Janeiro, Vozes, 1994.

MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo, Cosac & Naify, 2003.

VEDANA, Viviane. Fazer a Feira: estudo etnográfico das “artes de fazer” de feirantes e fregueses da Feira-Livre da Epatur no contexto da paisagem urbana de Porto Alegre. Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS, 2004.

VEDANA, Viviane. No mercado tem tudo que a boca come. Estudo Antropológico da duração das práticas cotidianas de mercado de rua no mundo urbano contemporâneo. 2008. 258 pags. Tese (Doutorado em Antropologia Social) –PPGAS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2008.

VEDANA, Viviane. A hora da xepa: o abastecimento urbano de alimentos e os biscates.In: Narrativas da desigualdade: memórias, trajetórias e conflitos. Organizadores: José Sérgio Leite Lopes e Marta Regina Cioccari. Rio de Janeiro, Mauad X, 2013.

VEDANA, Viviane. Fazer a feira e ser feirante: a construção cotidiana do trabalho em mercados de rua no contexto urbano. Revista Horizontes Antropológicos número 39. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2013.

[1] A teoria da dádiva, para Mauss, está fundada na ideia de que todo presente dado deve ser retribuído, constituindo um sistema de obrigações que está na origem das diversas formas de troca – desde as trocas comerciais até as afetivas. A dádiva produz alianças de diversos tipos – econômicas, matrimoniais, políticas, religiosas, etc.

(**) Foto destacada | Feira livre de Pernambuco

Viviane Vedana é professora adjunta no departamento de antropologia social da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora do Coletivo de Estudos em Ambientes, Percepções e Práticas (CANOA) da UFSC. Possui doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestrado em Antropologia Social (2004) e graduação em Ciências Sociais Bacharelado (2002) pela mesma universidade. Tem experiência na área de Antropologia, atuando principalmente a partir das seguintes temáticas: antropologia, som e experiência; paisagem e ambiente; dinâmicas urbanas, formas de sociabilidade e práticas cotidianas.