O desafio de construir uma Cesta Básica Saudável em Tempos de Domínio das Indústrias Alimentícias Multinacionais
Pelo Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares
Crônicas do OBHA – 05/04/2024
No turbilhão da vida moderna, onde a pressa é a norma, a conveniência se tornou um valor inestimável. Nos corredores dos supermercados, vemos um reflexo disso: uma infinidade de produtos ultraprocessados, prometendo rapidez e sabor. Essa é a promessa da era atual: otimizar o tempo ao máximo, permitindo-nos aproveitar a vida. Mas, em meio a essa corrida, surge um dilema cada vez mais perturbador. Os produtos ultraprocessados têm estado em destaque ultimamente. São produtos prontos para o consumo, cheios de aditivos, ingredientes baratos e modificações químicas que visam melhorar sabor, textura e durabilidade. Esses itens estão presentes em praticamente todos os mercados, e suas propagandas ecoam em nossas mentes, nos incentivando a comprá-los.
Imaginem Joana, uma motorista de aplicativo. Joana representa cada um de nós, tentando conciliar-se com a vida moderna. Entre seus compromissos, ela é bombardeada por informações conflitantes. De um lado, alertas sobre os malefícios dos ultraprocessados: riscos à saúde, ingredientes desconhecidos, consequências a longo prazo. Do outro, o chamado sedutor das indústrias, com seus produtos coloridos e sabores irresistíveis. Nesse turbilhão de informações, Joana se sente confusa, tentando discernir o que é melhor para si.
Nosso desafio reside aí. Como podemos falar sobre alimentação saudável em uma era onde os produtos ultraprocessados têm gradualmente substituído a nossa dieta tradicional? A resposta talvez resida na empatia, na informação e na ação coletiva. Somos o Observatório Brasileiro de Hábitos Alimentares, um canal que busca dialogar com a sociedade sobre a ciência da alimentação e nutrição de forma cidadã.
Não estamos aqui para julgar as escolhas de Joana, mas sim para entender seu contexto e fornecer informações claras e práticas, transformando conhecimento em ação. Precisamos reconhecer que, muitas vezes, a opção por produtos ultraprocessados não é uma escolha, mas sim a única opção acessível para muitas pessoas.
Vemos formuladores de Políticas Públicas incansavelmente trabalhando para que alimentos mais saudáveis cheguem a todos, sobretudo, aos mais vulneráveis. A nova cesta básica não nos deixa mentir!!! Entre frutas, verduras, carnes, leguminosas e cereais, o empenho é real em levar uma alimentação mais saudável, que se reflita em saúde, cultura e bem-estar a todos.
Contudo, muitos são os interesses dos poderosos das indústrias de alimentos em derrubar o decreto que veio para assegurar o Direito Humano à Alimentação Adequada de milhares de brasileiros, por meio da nova composição da cesta básica. Os lobbies incessantes das indústrias de alimentos cercam os legisladores muitas vezes cooptando-os a seu favor. Por exemplo, poucas semanas após a publicação do decreto da cesta básica, já foram propostos projetos de lei para revogá-lo e permitir a inclusão dos ultraprocessados na cesta baseados em falsas alegações de que os ultraprocessados são fundamentais para a segurança alimentar e nutricional e que não representam risco à saúde. Além disso, até propostas indecorosas de inclusão de caviar e outros itens de luxo nas cestas chegam como forma de desqualificar o trabalho e obrigação estatal de assegurar uma alimentação saudável para a população.
É preciso dizer que os avanços na composição da cesta básica refletem mudanças nos padrões de consumo, avanços na nutrição e preocupações com sustentabilidade e bem-estar. Esta evolução está em consonância com os esforços contínuos de movimentos sociais, governo e sociedade civil organizada ao longo das décadas, em nosso país.
A nova cesta básica recentemente proposta, apoiada nos guias alimentares brasileiros, exclui os produtos ultraprocessados, representando um avanço significativo. As evidências científicas comprovam dia-a-dia que os ultraprocessados têm sido associados a várias Doenças Crônicas Não Transmissíveis, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, e doenças cardiovasculares; e são responsáveis por 57000 mortes prematuras anuais no Brasil. Além disso, o sistema alimentar no qual estão incluídos os produtos ultraprocessados está associado impactos ambientais relevantes, considerando a poluição gerada (sobre a terras, as águas e o ar), o uso insustentável dos solos e das águas, o uso de agrotóxicos e a redução da biodiversidade, entre outros.
Em países de alta renda como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Austrália, o consumo de produtos ultraprocessados compõe entre 48% e 58% da energia da dieta. Já países como México e Brasil apresentam um consumo diário menor, 30% e 20.5% da dieta, respectivamente. Porém, o consumo destes alimentos não saudáveis vem aumentando consideravelmente nos últimos anos em todo o mundo, principalmente nos países de baixa e média renda, como na América Latina e na África e mais acentuadamente entre os grupos de menor renda. Para dar uma ideia da velocidade nessas mudanças, na última década, o consumo de ultraprocessados aumentou em cerca de 20% no Brasil.
Assim, os ganhos da nova cesta são imensuráveis do ponto de vista de saúde pública e da segurança alimentar e nutricional. Além disso, orienta políticas públicas, promove educação alimentar pelo incentivo ao consumo de alimentos in natura ou minimamente processados e a preparação de refeições caseiras; permite um impacto ambiental positivo com menor necessidade de embalagens e ao menor gasto energético na produção; e, por fim, ainda incentiva economias locais a produzir alimentos locais e sazonais.
Esses avanços na composição da cesta básica refletem um entendimento mais holístico de saúde, que abrange não apenas o bem-estar físico, mas também o ambiental e social, completamente alinhados ao conceito de Segurança Alimentar e Nutricional adotado no nosso país. É importante que tais mudanças sejam acompanhadas de Políticas Públicas que garantam a produção e o acesso a esses alimentos para todas as camadas da população, além de políticas regulatórias e fiscais para favorecer ambientes alimentares mais saudáveis e programas de educação nutricional que orientem as escolhas alimentares saudáveis.
Antes de falar na responsabilidade individual das pessoas, como a Joana, é preciso reconhecer que todos vivemos cercados por um ambiente alimentar que nem sempre favorece ou facilita essas escolhas alimentares saudáveis. Nos ambientes alimentares modernos predominam produtos ultraprocessados, que são desbalanceados nutricionalmente e frequentemente possuem açúcares adicionados, sódio e gorduras em excesso, tomando o espaço no mercado dos alimentos in natura e minimamente processados.
Isso significa que é necessário que o Estado garanta aos seus cidadãos condições de acesso físico e financeiro aos alimentos in natura e minimamente processados, ou seja, que eles sejam mais baratos e estejam disponíveis para toda a população. Isso exige, por exemplo, políticas de produção de alimentos locais, de compras públicas, estoques públicos e de oferta de equipamentos sociais (como feiras, cozinhas comunitárias e outras), enquanto políticas fiscais devem garantir subsídios à produção e isenção de impostos para a venda dos alimentos saudáveis. A nova cesta básica também se articula com as políticas de produção sustentável de alimentos, como a agroecologia e a produção de alimentos da sociobiodiversidade.
Ao mesmo tempo, é preciso reduzir a influência dos ultraprocessados nos ambientes alimentares, seja em termos do preço, da oferta ou da informação. Isso implica a implementação de um conjunto de políticas, como a tributação seletiva dos ultraprocessados, a regulação da venda de alimentos em ambientes como as escolas, o aprimoramento da rotulagem nutricional e a regulação da publicidade de alimentos, em especial para crianças e adolescentes.
É preciso, portanto, que o Estado proteja a saúde ao facilitar escolhas alimentares saudáveis e desincentivar as não-saudáveis, para que se coloque em prática e regra de ouro do Guia Alimentar para a População Brasileira: fazer dos alimentos in natura e minimamente processados e evitar o consumo de ultraprocessados.
Falando em educação nutricional, volto à história de Joana – mencionada no início da crônica. Enquanto trabalhava como motorista de aplicativo, ela expressava sua indignação com a retirada dos biscoitos recheados da cesta básica, questionando como castanhas poderiam substituir o biscoito recheado para saciar sua fome.
Num mundo onde a indústria de ultraprocessados domina a vida e as memórias afetivas das pessoas, a construção de hábitos alimentares mais saudáveis é um processo contínuo e muitas vezes mais lento do que desejamos. Assistir à televisão e navegar pela internet está cada vez mais enlouquecedor, estamos constantemente bombardeados por informações, muitas vezes confusas, especialmente porque a indústria de ultraprocessados e do agronegócio tem a intenção deliberada de nos confundir. E os nossos hábitos alimentares que vêm sendo influenciados pelas indústrias de alimentos, possivelmente levarão um tempo para serem modificados para algo que se converta em mais saúde e qualidade de vida.
Contudo, no Brasil, ainda temos uma situação favorável, visto que a maioria da população baseia grande parte de sua dieta em alimentos in natura e minimamente processados. Isso reflete a dieta tipicamente brasileira, com suas variações regionais e locais.
Ao mesmo tempo, vale lembrar que as indústrias já fabricam muitas vezes alternativas mais saudáveis do que os ultraprocessados, como alimentos minimamente processados e processados. Um exemplo é o iogurte natural e o iogurte adicionado de frutas que são alternativas às bebidas lácteas (ultraprocessadas). Assim, também têm um papel nessa transformação do modo de produzir e consumir alimentos, reformulando os produtos para que deixem de ser ultraprocessados e abrindo mais espaço para opções práticas de alimentos minimamente processados e processados.
Trazemos aqui uma reflexão que, apesar das dificuldades, é possível fazermos escolhas mais saudáveis sem abrir mão da conveniência ou do prazer. Talvez, começar com pequenas mudanças, como substituir um lanche ultraprocessado por uma opção mais natural uma vez ao dia, ou dedicar um momento do fim de semana para preparar refeições saudáveis para a semana possa ser um dos caminhos em busca de uma vida mais saudável.
Cabe a nós, no meio científico, fornecer informações claras e acessíveis, mostrando alternativas e experiências saudáveis que se adequem à realidade e à cultura de cada um. Da mesma forma, cabe ao governo formular políticas públicas que tornem essa alimentação saudável uma prática para todos nós.
A nova Cesta Básica é um ganho imensurável para a nossa população, que talvez leve um tempo para que parte dela possa entender tudo isso ou, como a Joana, possa compreender, reivindicar e reconhecê-la enquanto direito. A verdadeira mudança começa com a compreensão, que passa pela capacidade de transformar mensagens e ações em empatia e garantia de direitos. Ao informar sobre os malefícios dos produtos ultraprocessados, nosso objetivo não é apenas alertar sobre os riscos, mas inspirar uma transformação positiva, respeitando o ritmo e as escolhas de cada um. Joana, e todos nós, merecemos essa abordagem que nos guie em direção a hábitos alimentares mais saudáveis, sem nos perdermos na confusão das informações e das memórias afetivas “ultraprocessadamente” fabricadas pela indústria de alimentos.
