SOBERANOS ATÉ QUE PONTO?!
Por Juliana Ubarana – Pesquisadora do Observatório Brasileiro de
Hábitos Alimentares (OBHA)/ Fiocruz Brasília
O questionamento sobre qual será o futuro da alimentação das próximas gerações está aí na nossa cara. Artigos escritos por especialistas, jornalistas e mesmo simpatizantes da área deixam claro que estamos indo ladeira abaixo quando o assunto é a preservação da nossa soberania alimentar. E, sem clichê algum, a situação é realmente preocupante.
O apagão da nossa soberania alimentar pode ser visto a olhos nus quando nos deparamos com um país dominado por alimentos ultraprocessados. Já não é mais novidade dizer que esses alimentos têm efeitos deletérios a nossa saúde com repercussão ao longo da vida, sendo evidenciados no aumento de casos de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como Diabetes e hipertensão, aumento do sobrepeso e obesidade, e consequentemente aumento da mortalidade.
Ademais, essa perda de Soberania Alimentar apaga qualquer chance de elo entre nós e a nossa cultura alimentar: onde mora a nossa identidade, a nossa essência e o retrato mais fiel de quem somos. A expressão da Soberania Alimentar ganhou força na arena de discussão de políticas públicas pela voz de campesinos, que se opuseram à definição de Segurança Alimentar da década de 1970 ligada ao mero abastecimento de estoques de alimentos. Soberania tem a ver com alimentos saudáveis, cultura, sistemas alimentares locais, respeito ao meio ambiente e por aí vai… Não apenas quantidade, mas a qualidade passa por ela.
Ao me deparar com a crônica do New York Times, intitulada “Compartilhar Junk Food era a nossa linguagem de amor”, fiquei completamente tocada e reflexiva com o que li. Uma filha de imigrantes chineses nos Estados Unidos descreve numa crônica a necessidade de comer nuggets como forma de acionar a memória e conforto afetivo em lembrança do pai já falecido. Ela nos conta como as melhores e mais doces lembranças de vida dela estavam associadas aos alimentos dessa rede mundial de fast foods e ainda nos revela que agora na pandemia pela COVID-19 precisou se cercar desses alimentos para superar os medos e as incertezas que o momento despertava nela. O vínculo afetivo é tão forte que ela questiona se seria errado comparar o pai a um pedaço de comida processada e frita, mas, sem dúvidas, pensa nele sempre que morde um nugget e o entende complemente neste ato. Cá entre nós, não há como não refletirmos sobre o que isso representa na vida dessa imigrante e, assim como ela, em incontáveis vidas que aqui estão e nas gerações que estão por vir.
Eu venho de uma época em que a industrialização estava se firmando no mercado de alimentos. Cotidianamente, sentava-me à mesa com meus pais e meus irmãos para fazermos as refeições, reunidos, tendo sempre à disposição alimentos preparados em casa a base in natura ou o que hoje conhecemos como minimamente processados.
A recordação da alimentação era saudável e frutas, legumes e verduras faziam parte marcante da nossa alimentação. Muitas frutas e alguns vegetais que comíamos vinham do sítio do meu avô. Lembro-me bem de um suflê maravilhoso com legumes e, às vezes, com peixe. Era uma receita de família bem afetiva, presente em momentos de festividade como as comemorações de aniversário. Meu avô se tornou macrobiótico próximo a meia idade como uma alternativa a não precisar colocar marca-passo, e essa mudança transformou a sua alimentação. Essa receita de suflê é bem diferente com origem na macrobiótica, e acreditem: é deliciosa.
A indústria alimentícia entrava na minha vida, mas de forma menos agressiva como é hoje, e realmente esses alimentos não estavam presentes no meu dia a dia. Quando entravam na minha dieta era na maior parte das vezes nos finais de semana e ponto. Na escola, uma vez no ano, um representante da indústria ia distribuir sachês de achocolatados e brindes com logos da marca. Mas cá entre nós, tudo acontecia de forma mais pontual mesmo.
O fato é que minhas recordações vêm de uma época em que o alimento acessível era realmente mais saudável, que, felizmente, reconheço como o alimento encontrado mais próximo a natureza. Essas memórias me são retomadas com certa frequência e carrego esse tipo de alimentação saudável até hoje, mesmo nos tempos modernos onde o tal alimento ultraprocessado, aquele pronto para consumo e cheio de aditivos e conservantes, domina os mercados e as mesas dos brasileiros.
O tempo passou, e a indústria cresceu numa ferocidade vertiginosa, sob o pretexto de produzir alimentos em maior quantidade, de forma que todos tivessem acesso a comida. No entanto – com a massiva mecanização das plantações, uso de agrotóxicos e defensivos agrícolas – a alimentação de qualidade para a saúde, além de sustentável e justa para a economia local e para o meio ambiente, foi perdendo espaço. E a tal promessa que o aumento da produção de alimentos beneficiaria a todos não se cumpriu, haja vista que hoje temos 19 milhões de brasileiros que passam fome em pleno século XXI.
Ao nos privarem de sermos soberanos em nossa alimentação, o sistema político e econômico vigente no mundo, eminentemente capitalista, rouba-nos a autonomia para decidirmos o que, como, onde, quando produzimos e consumimos os alimentos que nos conectam a nossa cultura, ao mesmo tempo que nos tornam reféns dos alimentos “construídos” por poucos poderosos no mundo dos alimentos. É um verdadeiro sequestro de histórias e memórias afetivas da nossa alimentação.
Hoje, os donos de grandes transnacionais de alimentos têm seus produtos em grande parte de nossas mesas e, de forma cruel, encontram-se mais presentes na mesa da população vulnerável, considerando o seu menor custo e a proximidade de onde mora. Junto a isso tudo vem uma enxurrada de propagandas que vendem status de poder, sonhos, alegação de saúde, corpos “perfeitos” fabricados adivinhem por quem?! Até sentimentos de culpa são provocados em mães, caso ela passe tempo preparando alimentos e não brincando com seus filhos, em vez de optarem por alimentos ultraprocessados congelados de rápido preparo. Como se o preparo do alimento não fosse uma das mais potentes e incontestáveis provas de amor.
Segundo a concepção de Contreras, na sociedade da cozinha industrial, nem a composição nem a forma dos alimentos evocam um significado preciso e familiar, e Fischler deixa claro que a indústria alimentar acabou por perturbar a função da culinária no seu papel de identificação do alimento e da construção da identidade de todos nós.
Assim, ao contrário do que acontece hoje, é imperativo dizer que a nação soberana é dona do seu próprio nariz, definidora do seu destino e com reflexos surpreendentes na sua autoestima e na forma como lida com as demais. Falar sobre soberania alimentar passa por sistemas justos, equitativos, sustentáveis e sob a responsabilidade de todos nós.
Diria que se nos inspirássemos na Revolução Francesa, que trazia em sua bandeira de luta: liberdade, igualdade e fraternidade, ou mais próximo a nós a inconfidência mineira, guiada pelos ideais de “liberdade ainda que tardia” – o lema da nova revolução deste século seria equidade, responsabilidade e sustentabilidade. Esse é o mais contemporâneo alicerce de liberdade que podemos nos guiar na atualidade. Somente esses três pilares serão capazes de oferecer Direito Humano à Alimentação Adequada(-DHAA), Segurança Alimentar e Nutricional e Soberania Alimentar.
Precisamos de um sistema alimentar que se converta em impactos justos para todos sem quaisquer discriminações identitárias, de raça, de gênero, de classe social; numa responsabilidade mútua entre Estado e sociedade, com amplo acesso a dimensões sociais, especialmente à educação emancipatória. E ainda precisamos de sistemas que promovam a sustentabilidade social, econômica e ambiental, considerando que o meio ambiente só dá em troca aquilo que recebe de nós seres humanos, numa perfeita relação sinérgica de ação e reação, cuja teoria foi elaborada por Isaac Newton nos idos de 1687. Então como não dizer que a natureza é perfeita?! Só precisamos respeitá-la.
Nada mais propício é trazer a soberania alimentar e o lema de equidade, responsabilidade e sustentabilidade para o centro do debate no Ano Internacional de Frutas, Legumes e Verduras. Num país feito de “Brasis”, com a pluralidade de culturas expressas nas mais diversas dimensões como a alimentar, vale investirmos na nossa autenticidade e na valorização do que é nosso, mesmo que isso contrarie aqueles poucos grandes magnatas da indústria de alimentos e do agronegócio que insistem em tomar conta do que é nosso se apropriando das nossas escolhas e memórias.
O comer é assim um ato social, político, econômico, cultural, afetivo e, além do sabor, traz consigo a alegria de compartilhar momentos. O alimento conta a nossa história, seja pela forma de prepará-los ou pelos hábitos criados durante as refeições, reafirmando as regionalidades, sotaques, climas, vegetação, valores, crenças e costumes de cada local do país. Num país continental e de inúmeras riquezas naturais como é o Brasil, o jeito de preparar e comer um alimento vai mudando ao percorrermos o mapa. O feijão, por exemplo, vira o famoso tropeiro ou feijoada no Sudeste; e ainda se transforma em baião de dois ou até acarajé no Nordeste.
Não há como discordar de Rubem Braga, grande cronista brasileiro, que coleciona histórias sobre comensalidade e os encantos da comida em suas crônicas. Ele não se coloca avesso ao progresso, mas não se deixa seduzir por uma garrafinha de refrigerante americano em troca de um refresco de maracujá feito de fruta mesmo. Por Braga, o Brasil tem safras e estações, vazantes e piracemas e manjuba frita, e a lua nova continua sendo o tempo de cortar iba de bambu para pescar piau.
Comida é irremediavelmente cultura expressa por tradições e conhecimentos de um determinado grupo social. Pelas lentes das ciências sociais, a cultura é uma rede de compartilhamento de símbolos, significados e valores de um grupo ou sociedade. Surgida do latim colere, a cultura traz consigo o cuidar cultivar e crescer. E os elementos que a compõem são partilhados entre os membros da sociedade, criando-se uma identidade cultural, podendo ser vista num país e até mesmo em cada estado e, por que não,em uma pequena região conferindo uma identidade toda especial e local.
O alimento ainda é cultura quando se mistura à arte, seja nas pinturas de Tarsila do Amaral: O menino e as Frutas, seja em letras de canções como Morena Tropicana de Alceu Valença. E é assim, pelos versos do cantor e compositor Alceu Valença, que me despeço no melhor jeito e na mais formosa brasilidade, combinando a arte com o alimento.
“Da manga rosa quero gosto e o sumo melão maduro, sapoti, juá. Jabuticaba, teu olhar noturno.
Beijo travoso de umbu cajá. Pele macia, ai! Carne de caju! Saliva doce, doce mel.
Mel de uruçu. Linda morena, fruta de vez temporana, caldo de cana caiana vem me desfrutar!”
E você aí do outro lado: quais frutas, legumes e verduras vêm a sua memória e te levam a um lugar afetivo e aconchegante quando fecha os seus olhos por um instante? Vale pensar numa preparação culinária com esses alimentos se você preferir, afinal de contas, você é livre para acionar a sua memória até onde ela possa te levar. Boa lembrança!
