Junho: A Riqueza da Colheita e o Convite à Preservação da Nossa Biodiversidade e Identidade Cultural
Por Juliana Amorim Ubarana
Crônicas do OBHA – 24/06/2024
Mesmo diante de tantas incertezas decorrentes das mudanças climáticas, ainda nos cabe celebrar o mês de junho como tempo de colheita e partilha, pelo menos assim reza a tradição. Dentre tantos alimentos, escolho o milho para a celebração e compartilhamento dessa colheita. E não por acaso a terra nos oferece o milho: um alimento considerado símbolo de fartura e tradição em muitas culturas. Simbolicamente, o milho é representação da vida, fertilidade e conexão espiritual com a terra. Os nossos sentidos mais aguçados são intensificados neste mês que tem cheiro das espigas cozidas. É uma época que nos transporta a um tempo em que a conexão com a natureza era parte do nosso cotidiano.
Para os povos indígenas e afrodescendentes, junho é um mês que representa a colheita e a integração com a terra. Quem já participou de um ritual de celebração desses alguma vez na vida, teve a oportunidade de sentir a força da ancestralidade com a terra. Quem ainda não participou, fica a dica. Entre os povos indígenas, o Kuarup, no Xingu, e a Festa do Milho, entre os Guarani e Kaiowá, são festejos cuja celebração se volta a pedidos por boas safras. Entre os afrodescendentes, a festa de São João, adaptada às tradições africanas e aos rituais de Candomblé dedicados a orixás como Oxóssi, também celebram a colheita.
Sementes de milho estouradas tomam forma de pipoca e são uma ótima companhia para assistirmos a um filme. Passeando pelo mundo cinematográfico, indo do alimento para a arte, temos “A Festa do Milho” (1991), dirigido por Tetê Morais. Trata-se de um documentário que retrata a tradicional festa do milho em Patos de Minas, explorando a importância cultural e econômica do milho na região mineira.
Nativo da América Central, mais especificamente do México, o milho veio ao Brasil pelas mãos indígenas, antes mesmo que os europeus pisassem em solo brasileiro, tornando-se parte tradicional da nossa alimentação. Como Luís da Câmara Cascudo observou em seus estudos sobre a cultura brasileira, o milho é um símbolo das tradições e das celebrações populares utilizado em pratos típicos. A partir de preparações como pamonhas; curau, canjica ou mungunzá, variando o nome a depender do local onde você se encontra no mapa do Brasil; retomamos ao tempo em que nossas famílias se reuniam ao redor do fogão. O cheiro acolhedor dessas preparações fortalece os laços entre gerações e ressalta a tão falada comida afetiva!!!
Contudo, um fato que não deve passar despercebido é que, percorrendo as plantações ou até mercados, torna-se cada vez mais raro encontrarmos o milho da época de nossos avós. As espigas ancestrais dão lugar a versões padronizadas e transgênicas, ameaçando a biodiversidade e a riqueza cultural que envolve o cultivo, o preparo e o consumo desse alimento.
Essa transição do natural pelo artificial requer de nós um olhar crítico. As sementes transgênicas prometem colheitas abundantes, porém, escondem um lado preocupante. O Organismo Geneticamente Modificado (OGM) traz consigo incertezas para a saúde humana e questionamentos sobre seu impacto no meio ambiente. Pesquisas indicam uma série de riscos ainda não completamente entendidos, que vão desde alergias até a potencial resistência a antibióticos.
Embora estejam presentes entre nós há décadas, com rótulos para facilitar as escolhas conscientes e informadas de alimentos comercializados no país, nem todos acreditam ou até mesmo desconhecem o que são os alimentos transgênicos e seus possíveis efeitos. E olha que isso não é incomum. Pergunte numa roda de amigos se eles entendem o que são transgênicos e porque eles deveriam ser evitados. Certamente, muitos não saberão e outros até acharão que é terrorismo ou bobagem tais alertas.
Um fato inegável é que nosso corpo possui uma sabedoria em forma de memória celular pronta para reconhecer o que de fato é comida de verdade, feita por alimentos que a natureza nos oferta ou pouco processados. Por outro lado, os modificados artificialmente são irreconhecíveis e podem desencadear reações inesperadas. A substituição das variedades nativas do milho pelas sementes transgênicas caminha em paralelo com a substituição da comida de verdade pelos ultraprocessados onde esses produtos das monoculturas comerciais entram como ingrediente. Se pudesse complementar a recomendação para evitar ou não consumir transgênicos, uma orientação prudente seria: ouça o seu corpo e os sinais dados por ele. Reconhecer os transgênicos é um passo fundamental nesse caminho.
É claro que não poderia deixar de falar, ainda, sobre a transformação do milho em commodity no Brasil, cujas implicações podem ser significantemente sentidas em setores como o econômico, social e ambiental. Economicamente, o Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de milho, sofre com a instabilidade de preços no mercado internacional, afetando tanto pequenos produtores quanto consumidores. Socialmente, a exportação reduz a disponibilidade do milho no mercado interno, impactando negativamente a segurança alimentar e nutricional, especialmente entre a população de baixa renda. Ambientalmente, a expansão das áreas de cultivo de milho contribui para o desmatamento, degradação ambiental, uso excessivo de pesticidas e fertilizantes, e perda de biodiversidade no nosso país.
Ao contrário das sementes geneticamente modificadas, as sementes crioulas mantêm uma grande diversidade genética encontrada originalmente na natureza, sendo essencial para o controle contra pragas, doenças e mudanças climáticas. Sem subterfujo, elas são adaptadas ao clima e solos, tornando-se resistentes e produtivas nessas áreas de forma integrada a natureza.
No Brasil, foram identificadas aproximadamente 343 variedades de milho crioulo, catalogadas por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, e inclui variedades tanto do Brasil quanto do Uruguai E o melhor, as sementes Crioulas permitem que os agricultores sejam autossuficientes, pois eles podem colher, armazenar e plantar essas sementes novamente na próxima safra, sem depender de empresas de sementes comerciais. Olhem aí o poder da nossa soberania alimentar. Então, seja você um defensor das sementes crioulas!
A partir de toda representação política, cultural, ambiental, social e econômica, o milho de junho, por fim, torna-se um símbolo de resistência, de celebração e de partilha. Que possamos, ao redor da fogueira festiva de São João ou do fogão da família, compartilhar o milho e suas receitas e o compromisso consciente de cuidar da terra e a saúde de forma indissociável. A riqueza de cada colheita é uma oportunidade de reencontro com nossas raízes, ao mesmo tempo que corresponde a renovação para um mundo mais sustentável em biodiversidade e identidade cultural.
