Dia Mundial da Alimentação 2025: celebrando os 80 anos da FAO e olhando como construir um melhor futuro para a alimentação

Eduardo Nilson e Denise Oliveira e Silva

Resumo. Nesse informe, discutimos as celebrações do Dia Mundial da Alimentação de 2025, que escolheu como tema “Juntos por Alimentos Melhores e um Futuro Melhor”, que destaca o papel de todos os atores na transformação dos sistemas alimentares, visando melhor produção, nutrição, ambiente e vida.

O Dia Mundial da Alimentação foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) em 1979, com o objetivo de estimular a discussão global dos desafios da produção, distribuição e consumo de alimentos e a data de 16 de outubro foi escolhida estrategicamente por ser a data da fundação dessa agência da ONU, em 1945. Anualmente, o dia comemorativo tem diferentes temas, traduzindo preocupações e prioridades globais no campo da alimentação, alinhadas com os compromissos globais relacionados.

No dia 16 de outubro de 2025, celebramos o Dia Mundial da Alimentação, que teve como tema “Juntos por Alimentos Melhores e um Futuro Melhor” (”Hand in Hand for Better

Foods and a Better Future”) (acesso: https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/4276fcbb- a9d4-4fea-889f-a68d4d11f037/content), escolhido pelo Diretor-Geral da FAO para marcar o 80º aniversário da organização, declarando ser tanto uma celebração quanto um compromisso. Dessa forma, o tema será um fio condutor que entrelaça os eventos celebrativos da semana, trazendo clareza e propósito aos nossos esforços coletivos. Um ponto importante nesse conceito ampliado é que essa narrativa se traduz em quatro grandes eixos (os “Quatro Mais”): Melhor Produção, Melhor Nutrição, Melhor Ambiente e Melhor Vida, que formam a constelação que guia cada iniciativa, cada conversa e cada compromisso assumido durante a Semana Mundial da Alimentação.

Segundo a FAO, esses “Quatro Mais”, então, guiarão o Fórum Mundial da Alimentação como um todo, com o intuito de promover um diálogo para uma narrativa compartilhada, promovendo cooperação inclusiva e engajamento proposital entre setores. Seja por meio de inovações na produção, melhoria da nutrição, gestão ambiental ou esforços para construir vidas melhores, os Quatro Mais moldam a estrutura e o espírito de cada atividade.

Nesse contexto, a FAO declara que o Dia Mundial da Alimentação de 2025 chama a atenção para uma responsabilidade humana atemporal: como cultivamos, partilhamos e sustentamos os alimentos que nos nutrem. Em outras palavras, é um dia para refletir sobre o nosso dever comum — cuidar da terra, da água, das pessoas que a cultivam e dos sistemas que levam comida a todas as mesas. Essa reflexão está intimamente alinhada com os Quatro Mais, afirmando nossa responsabilidade de produzir de forma sustentável, nutrir com equidade, proteger o meio ambiente e melhorar os meios de subsistência.

Esse cenário nos leva à necessidade de encarar grandes desafios: atualmente nossos sistemas agroalimentares carregam o peso da incerteza global, em que temos o acirramento de conflitos, o aprofundamento e a maior frequência de extremos climáticos, e as consequências dessas incertezas sobre os mercados, em especial os de alimentos. Os sistemas agroalimentares também trazem grandes contrastes: a fome cresce em algumas regiões, enquanto o desperdício e o excesso dominam em outras, de forma que as tensões que coexistem, destacando a fragilidade dos sistemas que nos sustentam. Portanto, a FAO destaca que a abordagem desses desafios requer uma abordagem holística, enraizada no conhecimento, na equidade e no impulso por melhorias duradouras em toda a cadeia alimentar.

No entanto, a FAO busca a mensagem de esperança e chamado para a ação, dizendo que, dentro desse desequilíbrio, reside um potencial imenso. Por exemplo, embora os sistemas agroalimentares exerçam uma pressão considerável sobre os recursos naturais, também podem servir como alavancas poderosas para a transformação. Com práticas mais inteligentes, tecnologia melhor e cooperação mais forte, podemos cultivar resiliência, restaurar o equilíbrio e avançar os objetivos de melhor produção, melhor nutrição, um ambiente mais saudável e melhores meios de subsistência.

Prosseguindo nessa argumentação, essa transformação começa com a confiança, requerendo o compartilhamento de conhecimento, recursos e responsabilidades, e governos, sociedade civil, produtores, pesquisadores, consumidores e, especialmente, os jovens trazem algo essencial para a mesa, sob a constelação dos Quatro Mais.

A FAO afirma, então, que até as menores ações importam, como a escolha de dietas saudáveis, a redução de perdas e desperdícios de alimentos e a proteção do solo e da água, em que todos levantam suas vozes e reforçam que essas decisões diárias são os alicerces para um futuro alimentar mais justo e sustentável, lembrando que cada um de nós tem poder e que a mudança começa com o cuidado.

Contudo, nos cabe um destaque em relação a esta última mensagem da FAO, pois, apesar de todos nós termos um papel na transformação dos sistemas alimentares, há um abismo entre a contribuição e a responsabilidade dos diferentes atores. Assim, sem uma ação contundente dos e sobre os atores dos sistemas agroalimentares hegemônicos, as verdadeiras forças motrizes da sindemia global de desnutrição, obesidade e mudanças climáticas, não teremos as mudanças necessárias para a saúde humana e planetária. Há parte do sistema hegemônico que pode acompanhar a transformação maior, mas, novamente sem inocência, há necessidade de algum grau de ruptura dos modelos que geram as crises e direcionamento para uma produção sustentável, resiliente e justa de alimentos diversificados e saudáveis e responsabilização desses atores por organismos internacionais e governos nacionais. Isso não pode ser uma mensagem implícita, tampouco podemos culpabilizar indivíduos por uma situação causada por sistemas e ambientes alimentares em que eles vivem.

 

Os 4 Mais da FAO

Os quatro princípios denominados “4 Mais” (“4 Better”) pela FAO – produção, nutrição, ambiente e vida – não constituem vias individuais ou alternativas para a consecução da Agenda 2030, mas refletem e desenvolvem as dimensões econômicas, sociais e ambientais interligadas dos sistemas agroalimentares. As suas interligações manifestam-se predominantemente em três domínios principais: produtividade agrícola, impacto ambiental e sustentabilidade social, sendo de notar que a produtividade se encontra maioritariamente associada à sustentabilidade econômica. A abordagem de sistemas agroalimentares adotada pela FAO traz um conceito da agricultura para além das suas funções produtivas e macroeconômicas, posicionando-a como um meio fundamental para realizar a segurança alimentar e meios de subsistência resilientes, promover a inovação e catalisar investimentos e parcerias.

Segundo a FAO, o princípio da Melhor Produção visa assegurar padrões sustentáveis de consumo e produção, mediante cadeias de abastecimento alimentar e agrícola eficientes e inclusivas a nível local, regional e global. A sua implementação promove sistemas agroalimentares resilientes e sustentáveis face às alterações climáticas e ambientais. Operacionalmente, este princípio traduz-se no aumento da produtividade, gerando maior rendimento para os produtores e uma maior abundância de produtos na comunidade. Envolve a prática de uma agricultura sustentável que garante uma maior produtividade e segurança alimentar, preserva ecossistemas saudáveis e apoia a gestão sustentável dos recursos naturais. Além disso, a eficiência no uso de água doce é crítica para responder às necessidades de irrigação e consumo, aumentando a resiliência comunitária. Paralelamente, o aumento da captação de água doce visa a autossuficiência hídrica das comunidades, melhorando a saúde e o bem-estar públicos. Assim, o combate à pesca ilegal, não declarada e não regulamentada é essencial para salvaguardar os meios de subsistência das comunidades piscatórias, enquanto uma gestão florestal sustentável cria um duplo dividendo ao potenciar o rendimento local e a conservação dos recursos.

Em seguida, o objetivo do princípio da Melhor Nutrição é a erradicação da fome, a consecução da segurança alimentar e a melhoria da nutrição em todas as suas formas, incluindo a promoção de alimentos nutritivos e o aumento do acesso a dietas saudáveis. A sua concretização passa pela redução da subalimentação, particularmente durante os primeiros anos de vida, de modo a possibilitar o desenvolvimento de indivíduos saudáveis e produtivos. É imperativa a garantia de um fornecimento de alimentos saudáveis para a promoção do bem- estar geral da população. O aumento da segurança alimentar conduz a preços alimentares mais equilibrados e a um acesso ampliado por parte das populações mais carenciadas a todos os produtos e serviços. A melhoria da segurança sanitária dos alimentos é vital para proteger a saúde pública e reduzir a mortalidade prematura de mães e crianças por doenças não transmissíveis. Adicionalmente, uma melhor distribuição alimentar é necessária para reduzir a perda e o desperdício de alimentos, aumentando a autossuficiência comunitária.

O princípio do Melhor Ambiente, por sua vez, tem como finalidade proteger, restaurar e promover a utilização sustentável dos ecossistemas terrestres e marinhos, bem como combater as alterações climáticas através da aplicação de sistemas agroalimentares mais eficientes, inclusivos, resilientes e sustentáveis, com ênfase nos princípios de reduzir, reutilizar, reciclar e gerir resíduos. A sua aplicação implica a conservação da biodiversidade endêmica, permitindo que as comunidades locais continuem a utilizar espécies nativas para fins alimentares, agrícolas e medicinais. A proteção de raças locais autóctones é igualmente crucial para permitir que estas comunidades mantenham os seus modos de vida tradicionais. A implementação de práticas, políticas e programas agrícolas climaticamente inteligentes é necessária para mitigar as mudanças climáticas e reforçar a resiliência das comunidades locais. O aumento dos stocks pesqueiros beneficia as comunidades piscatórias, especialmente em áreas costeiras vulneráveis. A proteção dos ecossistemas marinhos assegura um maior acesso aos recursos marinhos pelos pescadores artesanais de pequena escala, bem como direitos de acesso reforçados quando estes participam na sua gestão. Por fim, a conservação dos ecossistemas florestais garante a provisão dos seus serviços ecossistêmicos para todos, com especial relevância para as comunidades locais e montanhosas.

Por fim, o princípio da Melhor Vida visa fomentar um crescimento econômico inclusivo através da redução das desigualdades, nomeadamente entre zonas urbanas e rurais, países ricos e pobres, e homens e mulheres. A sua materialização exibe-se mediante o aumento do rendimento dos pequenos produtores de alimentos, o que contribui significativamente para o bem-estar global das suas comunidades. É fundamental orientar os gastos públicos para o setor agrícola, de modo a auxiliar as comunidades rurais, maioritariamente dependentes da agricultura, a assegurar os seus meios de subsistência. A garantia da posse da terra por meio da promoção da propriedade ou do reforço de direitos sobre a terra agrícola constitui uma base para que homens e mulheres construam comunidades prósperas. Nesse contexto, assegurar os direitos das mulheres à propriedade e ao controlo da terra é um imperativo para reduzir as disparidades de género, gerando benefícios tangíveis para o bem-estar comunitário global.

As celebrações de 80 anos da FAO

O marco de oito décadas de serviço da FAO também é pano de fundo para o Dia Mundial da Alimentação de 2025, destacando seu papel junto a seus Membros e parceiros, rumo a sistemas construídos sobre força e justiça, cuidado com a terra e generosidade para com as gerações futuras.

Como tradicionalmente vem sendo feito, a semana do Dia Mundial da Alimentação traz como evento central o Fórum Mundial de Alimentação (WFF), que tem se consolidado como uma das principais plataformas globais dedicadas à transformação dos sistemas agroalimentares. A sua premissa central assenta em três vetores de ação considerados fundamentais: o dinamismo da juventude, o avanço da ciência e inovação, e a mobilização de investimentos. A sua estrutura é concebida para funcionar como um catalisador, reunindo um ecossistema diversificado de stakeholders com o objetivo explícito de traduzir propostas em ações concretas, escalar soluções existentes e fomentar parcerias com impacto sinérgico. Observa-se que a sua força reside na capacidade de congregar vozes plurais, promovendo uma colaboração genuinamente intersetorial e intergeracional, um modelo considerado crucial para acelerar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a múltiplos níveis.

A edição de 2025, agendada para 10 a 17 de outubro, terá lugar de forma híbrida, com atividades presenciais sediadas na sede da FAO, em Roma, e uma componente virtual acessível globalmente. Esta edição adquire um significado particular, uma vez que coincide com a celebração do 80.º aniversário da FAO. O programa da semana foi desenhado para refletir este marco, promovendo um diálogo global estruturado em torno do tema “Mãos Dadas por Alimentos Melhores e um Futuro Melhor”, alinhado com a visão estratégica da FAO dos “quatro melhores”: produção, nutrição, ambiente e vida.

Em termos de sua arquitetura programática, o evento está organizado em três pilares fundamentais: o Fórum de Ação Global da Juventude, o Fórum de Ciência e Inovação e o Fórum de Investimento da Iniciativa Mão na Mão, visando servirem de palco para a discussão de ideias ambiciosas e a formação de coalizões de ação e integrando desde diálogos de alto nível e sessões de consulta até formatos mais dinâmicos, para além de exposições e mostras culturais que ilustram a diversidade de esforços em curso para construir um futuro alimentar mais sustentável.

Assim, o Fórum posiciona-se não apenas como uma conferência, mas como um hub de referência para qualquer ator – seja de governo, setor privado, academia ou sociedade civil – que pretenda compreender tendências, partilhar conhecimento, celebrar inovações e, sobretudo, estabelecer as conexões necessárias para uma ação coletiva e significativa no panorama da segurança alimentar e nutricional global.

Para além deste núcleo central, a semana será pontuada por outros eventos de alto perfil que ampliam o seu alcance temático. Entre eles, destaca-se a inauguração do Museu e Rede de Alimentação e Agricultura, um espaço interativo concebido para fazer a ponte entre a tecnologia alimentar global e as culturas tradicionais. O programa inclui ainda a Primeira Exposição Global da FAO: Das Sementes aos Alimentos, o Diálogo de Roma sobre a Água, um espaço dedicado aos Povos Indígenas, o Diálogo Ministerial sobre Cooperação Sul-Sul e Triangular e um Evento de Alto Nível sobre a iniciativa Um País Um Produto Prioritário.

Desse modo, o Museu figura como um centro global para compartilhamento de conhecimento, intercâmbio cultural e inovação que deve mesclar divulgação digital com exposições físicas para conectar tecnologias e culturas alimentares globais, mostrando as tradições e inovações que moldam os sistemas agroalimentares a partir da aspiração dos Quatro Mais, ancorada no Quadro Estratégico da FAO 2022-31.

Junto com o Museu, a Rede que o acompanha também servirá como uma plataforma para os Membros e parceiros da FAO mostrarem culturas alimentares locais, práticas agrícolas e inovações comunitárias, promovendo o diálogo entre regiões, nações, vilarejos e comunidades indígenas, reforçando o compromisso da FAO com a ampla participação e engajamento, das zonas rurais aos centros urbanos.

Vale destacar, ainda, que o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, participa da cerimônia de abertura do Fórum Mundial da Alimentação, em Roma, no mês de outubro de 2025. Em seu discurso, o Chefe de Estado brasileiro reafirmou o compromisso histórico do Brasil com a segurança alimentar e nutricional e destacou o protagonismo do país no combate à fome em âmbito global. A foca central da intervenção é posicionar o Brasil como um ator chave nos fóruns internacionais dedicados a erradicar a insegurança alimentar.

Essa participação também serve como palco estratégico para impulsionar os objetivos e a cooperação no âmbito da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. A atuação do Chefe de Estado foi central para reposicionar o Brasil como um ator fundamental nesta iniciativa multilateral, indo além de um mero pronunciamento e assumindo um papel de articulador ativo. O discurso enfatizou a Aliança como um mecanismo essencial para coordenar esforços e recursos internacionais de forma estruturada e com impacto mensurável.

O núcleo da intervenção brasileira está focado em operacionalizar a Aliança, defendendo a adoção de políticas públicas comprovadas e a cooperação técnica horizontal como seus pilares. Neste contexto, o Brasil posicionou-se não apenas como um proponente da iniciativa, mas como um provedor de soluções, oferecendo sua experiência em programas de segurança alimentar e agricultura familiar para os demais países membros. A Aliança é, então, reforçada como uma plataforma para converter compromissos políticos em ações concretas, com foco em resultados tangíveis no combate à fome e na mitigação da pobreza.

A participação no Fórum foi instrumental vise, assim, fortalecer a governança e ampliar a adesão internacional à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, em que a liderança brasileira busca catalisar a formação de uma coalizão de países dispostos a integrar a iniciativa, promovendo-a como um eixo central da diplomacia multilateral na área de desenvolvimento sustentável. O resultado esperado é a consolidação da Aliança como um fórum prioritário para a coordenação de esforços, com o Brasil exercendo um papel de protagonista na sua arquitetura e implementação futura.

Desafios e caminhos para soluções

É preciso, ainda, um olhar sobre os principais desafios dos sistemas agroalimentares hegemônicos e as possíveis soluções para eles, que podem e devem ser adaptadas a cada contexto. Por exemplo, devem ser identificadas as tendências globais que ameaçam o direito à alimentação e, como muitos desses desafios estão interligados, não devemos abordá-los de forma isolada, mas de forma integrada, sob o risco de não alcançarmos as mudanças necessárias. Portanto, mesmo que alguns desafios tenham soluções específicas, eles devem ser tratados de forma integrada.

Um dos principais desafios no combate à má nutrição reside na sua natureza ubíqua e multifacetada. Este fenômeno manifesta-se transversalmente em todos os países e estratos socioeconômicos, assumindo diferentes formas, desde a desnutrição e as deficiências de micronutrientes até o sobrepeso e a obesidade. A complexidade do quadro agrava-se pela frequente coexistência de múltiplas formas de má nutrição dentro das mesmas comunidades ou mesmo em indivíduos, configurando o que se designa por dupla ou múltipla carga, um fenômeno intrinsecamente ligado aos sistemas alimentares.

A manifestação concreta desta dupla carga é evidenciada por dados epidemiológicos globais. Estima-se que, atualmente, cerca de 2,5 mil milhões de adultos e 37 milhões de crianças com menos de cinco anos apresentem excesso de peso. Em paralelo, aproximadamente 1,6 mil milhões de mulheres e crianças sofrem de deficiência de uma ou mais vitaminas e minerais essenciais. Esta carência nutricional específica está largamente associada à falta de acesso a uma dieta saudável, com impactos diretos na saúde, no crescimento e no desenvolvimento cognitivo. Simultaneamente, a inadequação alimentar continua a ser um fator determinante para o crescimento e desenvolvimento insuficientes na infância. Dados atuais indicam que 22,3% das crianças menores de cinco anos apresentam atraso de crescimento (baixa estatura para a idade, indicador de desnutrição crónica), enquanto 6,8% são afetadas por desnutrição aguda, caracterizada por baixo peso para a altura ou Índice de Massa Corporal (IMC) inadequado para a idade.

Dentro desse mesmo contexto de problemas de má nutrição, as dietas baseadas em alimentos não saudáveis, particularmente nos produtos ultraprocessados, também contribuem para o aumento de DCNTs, como doenças cardiovasculares, diabetes e certos tipos de câncer (Lane et al., 2024). É importante ressaltar, nesse sentido, que essas doenças não são somente problemas individuais, mas também questões nacionais, visto que seus custos de tratamento sobrecarregam os sistemas de saúde pública, além de comprometerem a produtividade econômica dos países por meio da morbimortalidade prematura (custos indiretos). Por exemplo, os custos anuais da obesidade, hipertensão e diabetes ao Sistema Único de Saúde chegam a R$3,45 bilhões por ano (Nilson et al., 2020) e 25 a 57 mil mortes prematuras são anualmente atribuíveis ao consumo de produtos ultraprocessados no país (Nilson et al., 2022)(Nilson et al., 2025), correspondentes a mais de R$9 bilhões em perdas à economia brasileira (ACT Promoção da Saúde, 2024).

A inacessibilidade e indisponibilidade de dietas saudáveis, compostas por alimentos nutritivos e diversificados, constitui um problema central dos sistemas agroalimentares contemporâneos. Este fenômeno é influenciado por fatores econômicos, como a pobreza e os elevados preços, que limitam as escolhas alimentares, mas também pelo paradoxo do crescimento da renda, que, face à ubiquidade, hiperpalatabilidade e conveniência dos produtos ultraprocessados, não se traduz necessariamente em melhorias nutricionais (FAO/IFAD/UNICEF/WFP/WHO, 2025).

A convergência de globalização, urbanização e ritmos de vida acelerados tem catalisado uma transição nutricional global, caracterizada pela crescente preferência por alimentos convenientes e não saudáveis, ricos em açúcares, gorduras e sal e aditivos alimentares cosméticos. Essa dinâmica resulta na redução do tempo dedicado ao preparo de refeições caseiras e na crescente dependência de alimentos pré-preparados e ultraprocessados, que, em muitos contextos, apresentam maior disponibilidade e custo relativo inferior ao de alimentos frescos e nutritivos, uma tendência observada tanto dentro dos países quanto internacionalmente, afetando mais severamente às populações mais vulnerabilizadas.

A solução proposta para esta complexa problemática reside no investimento em dietas saudáveis universais, uma medida que transcende a aparente simplicidade de mudanças comportamentais individuais. Requer uma abordagem multifacetada, envolvendo a atuação governamental na promoção da produção e comercialização de alimentos diversificados e nutritivos, na disponibilização de informação precisa ao consumidor e na garantia do direito à alimentação adequada, particularmente para populações socioeconomicamente vulneráveis, por meio de políticas e planos nacionais integrados, intersetoriais.

Um segundo desafio estrutural reside na predominância de monoculturas e na acelerada erosão da diversidade alimentar. Práticas agrícolas insustentáveis constituem um dos principais motores da perda de biodiversidade, um declínio atualmente mais rápido do que em qualquer outro período da história, agravado por impactos ambientais mais amplos, como o desmatamento e a poluição.

Nesse sentido, a biodiversidade é um pilar fundamental para a segurança alimentar e nutricional, estando diretamente associada à riqueza nutricional das dietas e à resiliência dos sistemas agroalimentares face a choques, como os decorrentes das mudanças climáticas. Contudo, as últimas décadas testemunharam uma concentração produtiva num número reduzido de espécies, com apenas nove culturas respondendo por dois terços da produção agrícola global, comprometendo a resiliência e a diversidade da oferta alimentar.

Ainda, essa homogeneização se estende à produção animal, onde um número limitado de espécies e variedades domina o sistema, colocando em risco de extinção quase 30% das raças de gado locais. Nos ecossistemas aquáticos, a diversidade também está em declínio, impulsionada pela superexploração de estoques pesqueiros, poluição e aumento da temperatura dos oceanos.

A transformação dos sistemas agroalimentares surge como solução indispensável, exigindo a sua reconversão para se tornarem mais eficientes, inclusivos, resilientes e sustentáveis. No âmbito governamental, isso implica a necessidade de políticas públicas que protejam, promovam e regenerem a biodiversidade, incluindo a reintegração de raças tradicionais e espécies vegetais diversas, bem como a garantia de acesso equitativo a recursos produtivos.

Paralelamente, o setor privado tem a responsabilidade de reduzir a produção de alimentos não saudáveis e disponibilizar uma maior diversidade de opções seguras e nutritivas. Contudo, as soluções frequentemente propostas mostram-se tímidas face à magnitude do desafio, que exige mudanças radicais nos modelos de produção e consumo, dada a interligação sistémica entre os sistemas financeiros, a produção agrícola e o ultraprocessamento de alimentos.

Um terceiro desafio é a persistência da fome e da desnutrição, com crises alimentares predominantemente associadas a conflitos, eventos climáticos extremos e choques económicos. Estes fatores destroem capacidades produtivas, deslocam populações e agravam a insegurança alimentar, sendo a resposta humanitária frequentemente limitada pelo acesso restrito e financiamento internacional insuficiente.

A solução para este flagelo requer, em última análise, a paz como pré-requisito para a segurança alimentar. É imperativo garantir acesso seguro e irrestrito à ajuda humanitária multissetorial, combinando intervenções de emergência – como assistência alimentar e em dinheiro – com esforços robustos de prevenção de crises, construção da paz e investimentos em desenvolvimento resiliente, numa abordagem transformadora que garanta o Direito Humano à Alimentação.

Conclusão

O Dia Mundial da Alimentação de 2025 marca os 80 anos da FAO e traz um desafio amplo, de melhores alimentos para um futuro melhor, com uma mensagem de mobilização geral dos atores dos sistemas agroalimentares para essa finalidade. É importante celebrar e fortalecer o papel da organização, contudo, as mensagens que os eventos trazem são tímidas na abordagem dos sistemas agroalimentares hegemônicos que, além de não serem capazes de acabar com a fome no mundo, estão associados a um conjunto de doenças crônicas associadas à alimentação inadequada e às mudanças climáticas, exigindo uma transformação mais profunda nas formas de produção, processamento e consumo dos alimentos, com vistas à saúde humana, animal e planetária.

Os 80 anos da FAO estão, ainda, marcados pelo enfraquecimento do multilateralismo e pela crise no financiamento dos organismos internacionais, colocando, frequentemente, os atores privados como potenciais financiadores, todavia, sem o adequado manejo e gerenciamento dos conflitos de interesses inerentes a essas parcerias, há um sério risco de captura corporativa das agendas globais e nacionais.

Reforçando palavras que já usamos antes, vivemos uma crise civilizatória grave que necessita de soluções sistêmicas e a responsabilização de atores, mais do que novos velhos compromissos, porém não podemos perder as esperanças no futuro que desejamos e é isso que deve mover a agenda global de segurança alimentar e nutricional.

Referências

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LANE, M. M. et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: Umbrella review of epidemiological meta-analyses. The BMJ, v. 384, p. e077310, 2024.

NILSON, E. A. et al. Premature Deaths Attributable to the Consumption of Ultra-Processed Foods in Brazil.

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NILSON, E. A. F. et al. Custos atribuíveis à obesidade, hipertensão e diabetes no Sistema Único de Saúde em 2018. Revista Panamericana de Salud Publica/Pan American Journal of Public Health, v. 44, p. e32, 2020.

NILSON, E. A. F. et al. Premature Mortality Attributable to Ultraprocessed Food Consumption in 8 Countries. American Journal of Preventive Medicine, n. April, p. 1–9, 2025.