Segurança alimentar global entra em 2026 sob pressão de crises políticas, climáticas e econômicas
Informe da Fiocruz aponta riscos ao combate à fome e cobra mudanças profundas nos sistemas alimentares
A segurança alimentar e nutricional no mundo inicia 2026 em um cenário marcado por instabilidade geopolítica, avanço das mudanças climáticas e enfraquecimento da cooperação internacional. O alerta está no informe “Perspectivas da segurança alimentar e nutricional global em 2026”, elaborado pelos pesquisadores da Fiocruz Eduardo Nilson e Denise Oliveira e Silva, que analisam os desafios e os limites da agenda global para garantir o direito humano à alimentação adequada nos próximos anos.
Segundo o informe, a combinação entre conflitos internacionais, negacionismo científico e cortes no financiamento de organismos multilaterais tem reduzido a capacidade coletiva de resposta à fome e à má nutrição. Instituições como a FAO, a OMS e o Programa Mundial de Alimentos seguem essenciais para coordenar ações globais, mas operam com recursos insuficientes e sob forte pressão política. O resultado é um cenário preocupante: metas como o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2, que prevê o fim da fome até 2030, já são consideradas inalcançáveis dentro do prazo.
O documento destaca que a fome convive, de forma paradoxal, com o crescimento da obesidade e das doenças crônicas. Esse quadro está diretamente ligado a sistemas alimentares baseados em monoculturas, uso intensivo de agrotóxicos e ampla oferta de alimentos ultraprocessados. Além de prejudicar a saúde, esses modelos contribuem para o aquecimento global, elevam os preços dos alimentos e aumentam a vulnerabilidade das populações mais pobres diante de eventos climáticos extremos.
Brasil ganha protagonismo, mas enfrenta contradições
O informe aponta o Brasil como um ator estratégico no cenário internacional, especialmente com a criação da Aliança Global contra a Fome e a realização da COP30, em Belém. As iniciativas reforçam a importância de sistemas alimentares sustentáveis, da agroecologia e do apoio à agricultura familiar. No entanto, os autores alertam que o sucesso dessas propostas depende da coerência entre discurso e prática, especialmente no enfrentamento do desmatamento e na garantia de financiamento efetivo para ações estruturais.
Como caminho possível, os pesquisadores defendem uma abordagem sistêmica, que integre políticas de alimentação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento social. Relatórios recentes da FAO reforçam que não faltam diagnósticos ou soluções técnicas, mas sim coordenação política, enfrentamento de conflitos de interesse e compromisso real com os direitos humanos. O informe conclui que a fome não é inevitável: trata-se de uma escolha política, e 2026 será decisivo para definir se o mundo avançará na transformação dos sistemas alimentares ou aprofundará as desigualdades.
