Hábitos Alimentares na Infância – entrevista com Claudia Valéria Cardim

Com o objetivo de contribuir com as reflexões sobre Hábitos Alimentares na Infância, nos próximos meses o OBHA irá abordar diversas pesquisas que envolvem esse tema, com contribuições relevantes de vários pesquisadores convidados.

Hoje contamos com a participação da Prof. Dra. Claudia Valéria Cardim, professora Associada do Departamento de Nutrição Social do Instituto de Nutrição da UERJ e coordenadora do Internato de Nutrição em Saúde Coletiva da UERJ. Claudia Valéria desempenhou papel relevante na organização desse eixo aqui no Observatório, bem como no envolvimento dos autores, e relata, em entrevista exclusiva para o OBHA, como foi esse processo.

Claudia Valéria Cardim
foto: TV Escola

OBHA: Sua contribuição para a abordagem em torno da alimentação na infância pelo OBHA foi crucial. Conta para nós como foi construir essa temática?

Claudia Valéria: Foi empolgante e ao mesmo tempo desafiador, selecionar os temas a serem tratados, dado a complexidade que envolve diferentes olhares sobre a alimentação infantil.

OBHA: Qual é o panorama da alimentação na infância no contexto brasileiro de hoje ?

Claudia Valéria: A alimentação infantil constitui aspecto central na dinâmica da saúde da criança e tem ainda, em diferentes países do mundo, seu maior impacto dentre as causas diretas ou indiretas de adoecimento e morte nos primeiros anos de vida. O retrocesso observado no Brasil em anos recentes no desempenho de alguns indicadores de saúde infantil que vinham crescentemente superando o desmame precoce, as doenças imunopreviníveis, melhorando a performance nos indicadores de crescimento e desenvolvimento e outros esforços no sentido de promover a alimentação saudável, somam-se a outros desafios que mostram ser cada vez mais difícil garantir que a comida de verdade seja uma realidade no cotidiano alimentar das famílias e consequentemente, de suas crianças.

OBHA: Que estratégias são importantes para promover hábitos alimentares saudáveis na infância, do ponto de vista da ciência, do governo e da sociedade?

Claudia Valéria: Nesse sentido, é oportuno discutir diferentes enfoques em torno da alimentação da criança menores de dois anos e outros de igual relevância que tangem à alimentação e saúde infantil, apontando caminhos possíveis de construção e fortalecimento de práticas que promovam saúde e qualidade de vida deste grupo.

OBHA: Por fim, quais os desafios a serem enfrentados no Brasil para promover hábitos alimentares saudáveis na infância?

Claudia Valéria: Avalio que vivemos um contexto de ameaças a uma série de avanços nas políticas públicas de saúde, educação e outros campos. Tais políticas resultaram na melhoria dos indicadores de saúde do grupo materno infantil, em curso desde meados da década de 80 e que experimentam sinais que recuo. O retorno das doenças imunopreviníveis e o aumento das arboviroses, os sinais de desaceleração no investimento do aumento da cobertura e qualificação da assistência na Estratégia de Saúde da Família são aspectos que merecem atenção na perspectiva de buscar caminhos que assegurem os direitos já conquistados. Nesse sentido, manter e ampliar as políticas e ações exitosas como por exemplo, a Iniciativa Hospital e Unidade Básica Amiga da Criança, a consolidação e ampliação na cobertura, a qualificação da assistência e educação continuada dos profissionais de saúde junto a demais pontos da rede de atenção à saúde, que situem a alimentação e nutrição na pauta do cuidado são fundamentais na perspectiva da promoção e cuidado à saúde. Outros desafios que abrangem aspectos relacionados à Segurança Alimentar e Nutricional de forma mais abrangente, como o acesso ao alimento seguro, decorrentes do aumento da exposição dos alimentos aos agrotóxicos, as questões que trazem o país de volta ao mapa da fome, que impactam diretamente os grupos mais vulneráveis, como a criança, de destaque em futuros debates. Aprendi muito com a contribuição dos autores convidados nessa edição e avalio que criamos em cenário muito rico de troca de saberes.