Oferta da alimentação das crianças menores de dois anos: relato de experiência sobre as percepções das mães e elementos motivadores desta prática

Isabela dos Santos Barroso Melo e Mikaela Raphael Guerreiro

A nutrição nos primeiros anos de vida da criança, em especial os dois primeiros anos, desempenha um papel crucial, pois é um período caracterizado por um ritmo de crescimento acelerado. O aleitamento materno deve ser exclusivo até o sexto mês e a introdução da alimentação complementar deve ser iniciada após esta idade (BRASIL, 2003), no entanto, observa-se que esta etapa nem sempre é realizada no tempo oportuno e da forma adequada. Este tem sido um dos desafios no cuidado à saúde infantil na atenção básica (AB). A experiência aqui relatada foi desenvolvida pelo Internato de Nutrição em Saúde Coletiva do Instituto de Nutrição da UERJ em parceria com um Centro Municipal de Saúde, uma unidade de saúde tipo B (unidade de saúde tradicional com a inserção de uma Estratégia de Saúde da Família-ESF), situada em Vila Isabel, inserida na Área Programática 2.2 (AP2.2) do município do Rio de Janeiro. A proposta de investigação foi motivada pela necessidade de entender e aproximar o diálogo da equipe de saúde e cuidadores de crianças menores de dois anos sobre a percepção e motivação desses responsáveis na oferta dos alimentos para essa faixa etária. Para esse intento, foram escolhidas aleatoriamente um grupo de crianças residentes na área socioeconômica mais favorecida do território adscrito à unidade de saúde (Equipe 1) e outro grupo de crianças de uma área socioeconômica menos favorecida (Equipe 2).

A pesquisa foi realizada em duas etapas. Na primeira, foi realizada aplicação de um questionário contendo perguntas fechadas e abertas e na segunda, foi aplicada a técnica do grupo focal e uma entrevista semiestruturada.

Do total de crianças avaliadas (31), os responsáveis eram predominantemente mães, sendo apenas um pai. Observou-se que as mães moradoras na área da equipe 2 mostraram menor nível de escolaridade, maior freqüência de desemprego do chefe de família e pior acesso a alimentos frescos. Através do Recordatório de 24h, foi possível analisar o tipo de alimentação oferecida para as crianças. Observou-se maior oferta de leite materno para as crianças maiores de seis meses da equipe 2 (66,7%) do que da equipe 1 (43,7%), o que demonstra a importância de reforçar e valorizar a promoção do aleitamento materno como estratégia. Das crianças analisadas, 67,7% consumiram alimentos ultraprocessados, sendo mais frequente na equipe 2 (93,3%) do que na equipe 1 (43,7%).

A bibliografia tem apontado para achados semelhantes. Toloni et al. (2011), observou uma associação estatisticamente significante entre o nível de escolaridade materna e a introdução precoce de alimentos ultraprocessados, mostrando que a baixa escolaridade materna está associada com um menor poder aquisitivo, falta de acesso a informações em saúde e como consequência, a chance de escolhas incorretas dos alimentos para as crianças. Estes dados são consonantes com o presente estudo, entretanto, cabe a reflexão sobre as dificuldades vivenciadas por essas famílias residentes na área menos favorecida. Essas mães além de possuírem menor nível de escolaridade, também foram as que ofertaram um número de vezes e uma variedade maior de alimentos ultraprocessados e também referiram maior dificuldade no acesso aos alimentos in natura.

Percebemos ao trabalhar com essa população, dificuldades relativas ao local de moradia. Muitas mães residiam na parte mais alta da comunidade e sem meio de transporte, soma-se a este contexto, a situação de violência típica de uma das comunidades de maior conflito no Rio de Janeiro. Possivelmente, essas mães na tentativa de ter alimentos armazenados por mais tempo, optem pelos que são menos perecíveis e também, de menor custo.

A partir do material produzido no grupo focal e na entrevista, foi possível observar as práticas alimentares, construídas desde a infância das mães, as percepções e também os elementos motivadores para oferta de alimentos aos filhos. Foi identificada através das falas uma maior lembrança de produtos ultraprocessados já na alimentação das mães quando crianças, e uma maior participação feminina, de mães e avós, com relação à oferta da alimentação. Notou-se também expressões e falas que remetiam uma sensação de prazer e alegria ao relembrar os alimentos mais consumidos na infância, principalmente com relação aos ultraprocessados (ex: os refrigerantes e salgadinhos de festa; geléia de mocotó).

Bogado e Freitas (2016) referem que a infância representa um momento marcante na experiência alimentar, sendo guardados na lembrança saberes, sabores, aromas, afetos e também valores vinculados às práticas alimentares vivenciadas.

O processo de transmissão de habilidades culinárias entre gerações vem perdendo força, e as razões para isso são complexas e envolvem a desvalorização do ato de preparar, combinar e cozinhar alimentos como prática cultural e social, a multiplicação das tarefas cotidianas e a incorporação da mulher no mercado formal de trabalho, além da oferta massiva e da publicidade agressiva dos alimentos ultraprocessados.

Além disso, podemos destacar alguns fatores que influenciam essa prática, como, a falta de ênfase nos documentos oficiais de orientação para famílias e profissionais sobre alimentação infantil, com relação às estratégias que simplifiquem a preparação dos alimentos para as crianças pequenas, o que facilitaria este momento tão delicado para a prática alimentar deste grupo (BRASIL, 2013).

E o acesso aos alimentos, como foi relatado por uma mãe da equipe 2, que a dificuldade financeira permitia comprar apenas o básico para alimentação de todos os integrantes da família ou pegava doações, sendo assim, não havia a possibilidade de diversificar muito a alimentação. Neste contexto, não se pode desconsiderar das análises que ainda há famílias que vivem em situação de insegurança alimentar e nutricional, tendo seu direito à Alimentação Adequada e Saudável violado.

Foi observada uma variedade de alimentos consumidos pelas crianças, tanto in natura quanto produtos ultraprocessados. Salsicha, sardinha em lata, biscoitos, geleias, queijo do tipo pettitsuisse, refrigerantes, salgadinhos e outros, se mostraram comuns na alimentação das crianças do presente estudo. Esses achados corroboram com a afirmação de Ferreira et al (2014), que diz que existe uma maior participação de alimentos ultraprocessados na dieta familiar brasileira o que caracteriza a mudança no padrão alimentar. Este padrão contribui para a formação de hábitos alimentares não saudáveis que poderão estar presentes na fase adulta (DUTRA, 2015).

As falas das mães mostraram mais uma vez a percepção que elas possuem do que é “saudável”, diferente das próprias experiências da infância, e a intenção de estimular o consumo de alimentos in natura, ainda que esta prática pareça não acontecer no cotidiano.

O maior acesso à informação e através das mídias sociais, a orientação profissional e a praticidade, mostraram ser elementos motivadores da oferta de alguns alimentos. Rotenberg e De Vargas (2004), identificaram que as práticas alimentares na infância provêm de conhecimentos, vivências e experiências que são construídas por diversos fatores, como pelas condições de vida, cultura, redes sociais e saber científico de cada época histórica e cultural e mostrou que a visão das mães sobre os alimentos ultraprocessados é ambígua, pois apesar de oferecerem aos filhos, consideram esses alimentos como besteira e que fazem mal à saúde da criança.

O presente estudo permitiu compreender as práticas referidas pelas mães em relação à alimentação dos seus filhos, e os achados mostram que as mães gostam de cuidar da alimentação e se preocupam com o que as crianças consomem, apesar dos desafios encontrados no dia a dia, como a questão financeira que possui grande impacto na diversidade de alimentos oferecidos.

A violação de direitos de moradia digna experimentada pelas famílias que vivem em situação de pobreza dificultam o acesso aos alimentos de qualidade suficientes para atender as necessidades nutricionais, que somadas a persuasão da propaganda abusiva, estão associadas de forma significativa, à alimentação inadequada das crianças.

Referências

BOGADO, A. M; FREITAS, B. A reconstrução de memórias da alimentação na formação inicial de professores de ciências: um reencontro com saberes, sabores, aromas e afetos. ETD – Educ. Temat. Digit. Campinas, SP v.18 n.3 p.670-689 jul./set.2016. Disponível em: Acesso em 18 nov.2017.

BRASIL Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável: guia alimentar para crianças menores de dois anos: um guia para o profissional da saúde na atenção básica. 2 ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.

DUTRA, R, C, A. Consumo alimentar infantil: quando a criança é convertida em sujeito. Revista Sociedade e Estado – Volume 30 Número 2 Maio / Agosto 2015.

FERREIRA, J. S. G.; SILVA, Y.; MORAES, O. M. G.; TANCREDI, R. P. Marketing de alimentos industrializados destinados ao público infantil na perspectiva da rotulagem. Rev. Visa em Debate. FIOCRUZ. 2014.

ROTENBERG, S. DE VARGAS, S. Práticas alimentares e o cuidado da saúde: da alimentação da criança à alimentação da família. Rev. Bras. Saúde Matern. Infantil. Recife, 4 (1): 85-94, jan./março., 2004. Disponível em: Acesso em 16 de outubro de 2016.

TOLONI, M. H. A; LONGO-SILVA, G.; GOULART, R. M. M.; TADDEI, J. A. A. C. Introdução de alimentos industrializados e de alimentos de uso tradicional na dieta de crianças de creches públicas no município de São Paulo. Rev. Nutr. [online]. Vol.24, n.1, pp. 61-70. 2011.

Isabela dos Santos Barroso Melo
Nutricionista formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e atualmente Entrevistadora de campo do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (ERICA), coordenado pelo Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ).

Mikaela Raphael Guerreiro
Nutricionista formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e atualmente Residente em Saúde da Família na Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/FIOCRUZ).